1 O PAPEL DA LEITURA DE EXCERTOS DE TEXTOS DE FILOSOFIA PARA O
2.1 Uma proposta de sequência didática em Estética: algumas facetas acerca do conceito de
2.1.2 Aula 2: O problema da arte a partir do excerto de texto 1: “o que parece pode não
Objetivo: Problematizar a definição de arte, no sentido de estabelecer indicativos para refletir de forma ampla sobre o tema.
Recurso didático: Excertos de textos clássicos da filosofia.
14 Conforme resultados da pesquisa (questão 02), disponível no apêndice A, p. 148.
Inicia-se a partir da rememoração da discussão realizada na aula anterior a partir dos trechos do filme. Essa retomada é materializada pelo levantamento de ideias chaves e do registro de pontos fundamentais no quadro. Levando em conta tais aspectos, busca-se juntamente com os estudantes, elaborar uma tentativa de definição do que seria arte, no sentido de que esta definição produzida em sala, contraste ou problematize as definições apresentadas nos excertos de texto selecionados para análise posterior.
Entende-se que a atividade de pesquisa e definição em sala de aula possui ao menos um aspecto importante, visto que contribui para tornar ou reforçar o ambiente escolar como realidade “científica”, que interage com a problemática dos conceitos sem permanecer alheia aos desenvolvimentos acadêmicos da filosofia. A sala de aula do ensino médio é um espaço de intensa interpretação conceitual, mas também carrega a particularidade do desenvolvimento conceitual. Cada interpretação e disposição de compreensão sobre um conceito, uma ideia, uma obra, um autor ou um período todo, representa uma experiência de introdução conceitual. A busca pela compreensão e domínio de termos e de uma linguagem característica carrega atributos a serem explorados e que muito podem contribuir para o desenvolvimento da filosofia e do próprio espaço escolar em que ela está inserida.
A definição produzida e discutida se inscreve da seguinte forma;
A arte é aquilo que impacta as pessoas de alguma forma, seja no âmbito intelectual ou sentimental. A arte é uma produção, isto é, depende da mão humana (atuação humana) para existir. Sendo assim, a arte não é qualquer coisa ou tudo, mas aquilo que é feito para transmitir algo, com certa intenção, conteúdo e impacto. Após existir, por vezes parece que quem lhe deu vida parece desaparecer, ou não haver mais necessidade da existência do autor, já que a obra se apresenta por si mesma. Entretanto, em verdade, o artista permanece, pois as marcas deixadas no objeto produzido não podem ser suprimidas.
Essa definição construída com atributos levantados pelo professor e pelos alunos funciona como referencial para a investigação do problema da definição de arte. A definição é lida e debatida com os alunos, na tentativa de fixar aspectos iniciais/mínimos sobre o tema em questão. Na percepção de 100%15 dos discentes envolvidos nesse estudo, a tentativa de definição de Arte desenvolvida em sala de aula, ressaltou os aspectos do impacto, conteúdo e intenção, representando um momento objetivo sobre o tema da Arte, momento este que recebeu sua participação direta.
15 Conforme resultados da pesquisa (questão 04), disponível no apêndice A, p. 149.
Isso demonstra um senso de pertencimento dos alunos para com a área do conhecimento e as investigações realizadas, que não pode ser deixado de lado. Ao se perceberem ativos no processo formativo, os discentes tendem a fundamentar melhor a importância dos momentos e se relacionar de modo mais proveitoso e comprometido com o ensino. A partir dessa localização, parte-se para a leitura do excerto de texto 1:
Tornou-se manifesto que tudo o que diz respeito a arte deixou de ser evidente, tanto em si mesma como na sua relação ao todo, e até mesmo o seu direito a existência. A perda do que se poderia fazer de modo não refletido ou sem problemas não é compensada pela infinidade manifesta do que se tornou possível e que se propõe a reflexão. O alargamento das possibilidades revela-se em muitas dimensões como estreitamento.(ADORNO, 2012, p. 358)
O aspecto apontado por Theodor Adorno16 na primeira frase do excerto ressalta que já houve evidência no que diz respeito à arte, ou seja, já houve certa evidência ou clareza melhor definida sobre o tema da arte. Este aspecto diz respeito, pelo que parece, no que tange a singularidade da obra de arte como na sua relação com o todo da Arte. Tanto a obra, como a Arte no todo perdeu algum momento ou aspecto fundamental. Esse ponto possui ligação direta com o estudo histórico realizado anteriormente a esta investigação, pois se percebe o indicativo de que algo na Arte sofre alterações, devido aos diferentes processos históricos em que ela está inserida. Essa espécie de “perda” impacta diretamente no fazer filosófico sobre a definição do conceito da arte, pois o caráter de desinteresse, o aspecto do fazer sem o subjugamento de ditames limitadores acerca do tema da arte, não representa necessariamente uma maior valorização do aspecto artístico.
Adorno está ponderando que a arte especialmente no período contemporâneo, não foi beneficiada na sua gênese com o suposto alargamento de dimensões. Para o autor, a arte pode ter se tornado mais limitada ao parecer estar mais aberta, isto é, quando parece que fazer arte é algo de domínio mais generalizado, em verdade pode ser a manifestação da reprodução de modelos e regras que limitam os modelos artísticos e que, portanto, não alargam as possibilidades.
Na leitura do fragmento de texto adorniano são utilizadas as técnicas de leitura apresentadas no capítulo anterior, especialmente os recortes textuais que valorizam a percepção
16 No início da aula, anteriormente a leitura do texto, são apresentadas algumas características gerais da vida de Theodor Adorno, de sua ligação com a Teoria Crítica (Escola de Frankfurt) e um panorama geral de suas obras.
Isso tem como intuito identificar o autor e estabelecer apontamentos sobre a partir de que concepção de pensamento o autor está refletindo. Para 86% (Conforme questão 06 da pesquisa direcionada aos alunos e presente no apêndice A, p. 150.), dos alunos consultados, a apresentação de aspectos de caráter biográfico do autor Theodor Adorno foi suficiente para o entendimento de questões que se apresentaram nos excertos de texto selecionados. Isso demonstra que tais dados contribuem no posicionamento do autor no interior da tradição, auxiliando os discentes a perceberem com maior clareza o desenvolvimento das ideias e as opções feitas pelos autores ao longo de toda a tradição.
do tema, problema e teses defendidas pelos autores. Esse momento de leitura e discussão mediada em sala de aula representa uma experiência de pesquisa, de percepção própria da filosofia como experiência de linguagem, pois os alunos são introduzidos à leitura filosófica, sendo instigados a perceberem a temática, os problemas levantados e as teses abordadas pelo autor.
Nesse sentido, a aula torna-se uma experiência formativa, pois valoriza a apropriação objetiva de técnicas e instrumentos úteis ao contato com a filosofia e demais áreas. Para 77%17 dos alunos envolvidos na pesquisa, a seleção do primeiro excerto de texto de Adorno contribuiu para a reflexão objetiva do tema da arte. 18% apontaram que não contribuiu e 5% relataram que o excerto de texto não fez diferença.
Tais dados indicam que o recorte textual é visto pelos discentes, como parte integrante no seu processo formativo, pois ele contribui diretamente para o aprofundamento de concepções e a problematização de ideias. Já os pontos ressaltados nos materiais utilizados e que tratam da leitura, ultrapassam as percepções da filosofia e funcionam tecnicamente para demais áreas do conhecimento, visto que valorizam aspectos de caráter formativo, ou seja, pontos basilares nos desenvolvimentos de aprendizagens múltiplas.
Retomando a discussão a partir desse posicionamento crítico de Adorno torna-se latente a elaboração de uma ideia geral, ou de aspectos que fundem uma concepção de arte, não no sentido de uma definição conceitual fechada em si mesma, mas para estabelecer pontos/marcas de referencial. Para o desenvolvimento dessa noção recorre-se a duas definições: uma de vocabulário filosófico e outra de dicionário filosófico18, pois ambas estabelecem características
17 Conforme resultados da pesquisa (questão 07), disponível no apêndice A, p. 150.
18 Essa escolha gera polêmica, pois muitos pesquisadores do ensino de filosofia e muitos professores que atuam no ensino médio ou mesmo no ensino superior, são ferrenhamente contrários à utilização de definições de vocabulários ou dicionários técnicos, pois isso representaria uma opção “manualesca” para o ensino de filosofia, em detrimento ao contato próprio com o texto do filósofo. É comum se ouvir que entre a leitura de alguém sobre algo, ou a definição de manual e o contato direto do aluno com o texto de filosofia, prefere-se a relação direta com o texto clássico filosófico, deixando de lado o vocabulário, o dicionário e qualquer tipo de manual. Essa crítica não é de todo ruim, pois realmente entre alguém abordando o que o filósofo disse e o filósofo dizer com suas palavras, parece preferível a última opção, pois no caso de leitura e compreensão incoerentes, essas não se deram por intermédio da ótica de alguém que não o leitor em questão. Pelo que se percebe, existe um forte tom de idealismo na defesa da onipotência do texto filosófico, como se ele tivesse que sempre ser o centro das atenções.
Esquece-se, por vezes, que o ensino de filosofia no ensino médio é introdutório e assim, dicionários e vocabulários técnicos consagrados pela tradição filosófica podem ser muito úteis no cuidado linguístico com os termos e conceitos. A opção por Lalande e Comte-Sponville não é arbitrária e conecta-se com a proposta de formação defendida nessa pesquisa. Ambos os autores possuem trabalhos reconhecidos pela tradição filosófica e são referências no que estudam. Suas definições apresentam clareza e objetividade, facilitando percepções dos discentes que não possuem ainda, um acúmulo de leitura e experiência cultural tamanho, ao ponto de se debruçarem sob textos de filosofia sem mediações. Não se está questionando a capacidade interpretativa dos discentes ou suas possibilidades de absorção de ideias apresentadas em textos intrincados. O que se busca defender é que as definições escolhidas não são apenas definições de manuais. Elas refletem um apuro conceitual, são feitas por filósofos reconhecidos e, portanto, elas são tão filosóficas quanto qualquer definição ou produção textual de outra natureza filosófica.
objetivas que auxiliam a rodear o problema da definição de arte. Cabe ressaltar, que existem muitas outras definições em outras obras de diferentes autores. Para o interesse dessa pesquisa, tais exemplos fornecem os substratos necessários para a demonstração que se busca.
São elas:
1 – “Arte. Em geral, conjunto de procedimentos que servem para produzir um certo resultado...a Arte ou as Artes designam toda produção da beleza através das obras dum ser consciente. No plural, esta expressão aplica-se sobretudo aos meios de execução; no singular às características comuns das obras de arte. Neste sentido, a arte opõe-se ainda a ciência e as artes as ciências, mas sob um outro ponto de vista: enquanto que umas dimanam [decorrem] da finalidade estética, outras dimanam [decorrem] da finalidade lógica”. (LALANDE, s/d, p. 106.)19
2 – O conjunto dos procedimentos e das obras que trazem a marca de uma personalidade, de uma habilidade e de um talento particulares. Essa tripla exigência distingue a arte do artesanato (que requer menos personalidade e talento) e da técnica (que pode prescindir totalmente de uma e outro)... Uma obra de arte é insubstituível, assim como o indivíduo que a criou, e é nisso que ela se reconhece. Trata-se de exprimir ‘o insubstituível das nossas vidas’, como diz Luc Ferry, e tanto mais, talvez, quanto mais corriqueiras elas forem. A presença da beleza e o milagre da arte.
Em seu ápice, a arte atinge a espiritualidade: é como a celebração – se não a criação – do espírito por ele mesmo. Deus se cala; o artista responde. (COMTE-SPONVILLE, 2011, p. 60-61.)20
Tanto o recorte de texto de Lalande, como o recorte de texto de Comte-Sponville foram elegidos pois ambos parecem carregar aspectos interessantes em suas definições. Por serem definições de vocabulário e dicionário de filosofia reconhecidos no meio filosófico, elas trazem um aparato técnico confiável. Sua função é de servir como amarra para estabelecer alguns pontos reflexivos sobre o problema da definição de arte.
Acerca da definição de Arte de André Lallande, para 76%21 dos estudantes ela possui características para a investigação objetiva sobre o tema da arte. Para 82%22 deles a definição de André Comte-Sponville, pode ser valorizada como definição clara sobre o tema da arte. Tais dados demonstram que a maioria dos estudantes concordou com a objetividade das definições apresentadas, reforçando a ideia de que a utilização de definições de dicionários ou vocabulários de filosofia, reconhecidos pela tradição como referencias, pode contribuir para o desenvolvimento das aulas de filosofia.
Ao final da leitura e discussão das definições em questão, é solicitado aos alunos que realizem a leitura novamente dos excertos de texto em casa e desenvolvam um comentário de três a cinco linhas, ressaltando os aspectos que a partir dos autores, são importantes para se
19 LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia – Vol 1. Tradução de Fátima Sá Correia, Maria Emília V. de Aguiar, José Eduardo dos S. Torres e Maria Gorete de Souza. Porto: Res, s/d.
20 COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo Brandão. 2 ed. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2011.
21 Conforme resultados da pesquisa (questão 09), disponível no apêndice A, p. 150.
22 Conforme resultados da pesquisa (questão 11), disponível no apêndice A, p. 151.
definir a arte. Esse material produzido pelos alunos servirá de ponto inicial para o desenvolvimento da aula seguinte, que abordará um novo excerto de texto de Adorno, levando em conta as discussões das aulas anteriores e o problema principal que é a definição de arte.