3 DISCUTINDO A REDUÇÃO DA JORNADA DE TRABALHO PARA O BRASIL
3.5 A viabilidade econômica
3.5.1 Aumento de custo
O argumento mais utilizado pelos empresários contrários à RJT é que as empresas não têm condições de arcar com o aumento de custo que ela traria. Em conseqüência, a RJT iria quebrar muitas empresas e, ao invés de gerar novos postos de trabalho, acabaria fechando os já existentes. No entanto, ao se analisar o aumento de custo, é importante coteja-lo com a evolução da produtividade do trabalho.
A adoção da RJT atende, de certa forma, à reivindicação dos trabalhadores pela participação na distribuição dos ganhos de produtividade obtidos pela sociedade nos últimos anos. As inovações tecnológicas de automação ou organizacionais são conseqüências do acúmulo científico e do esforço contínuo de gerações e, portanto, são méritos de toda a sociedade. Os ganhos de produtividade da sociedade podem ser apropriados de várias formas e por vários agentes (Quadro 7).
Quadro 7 - Formas de apropriação e beneficiários dos ganhos de produtividade
Formas de apropriação Beneficiários
Aumento dos lucros Empresários do setor produtivo Aumento dos juros Empresários do setor financeiro
Aumento dos impostos Governo
Diminuição dos preços Consumidores Aumento dos salários Trabalhadores Redução da jornada de trabalho Trabalhadores
A questão recorrente nos acordos de RJT com moderação salarial, tendo nesta a forma de compensar o aumento de custo, tem como dimensão a questão microeconômica de curto prazo levantada pelos empresários. Na prática, ao longo da História, a RJT foi financiada pelo aumento da produtividade do trabalho (BOSCH & LEHNDORFF, 2001; CETTE & TADDÉI, 1997a).
A produtividade do trabalho no Brasil tem crescido nos últimos anos. A Tabela 16 mostra que a produtividade do trabalho na indústria da transformação dobrou no período de 1989 a 2000. O ganho de produtividade não foi repassado aos trabalhadores e nem a sociedade. Esse ganho de produtividade apropriado pelo setor empresarial indica a capacidade das empresas de arcarem com o aumento de custo. Portanto, a RJT seria apenas um repasse aos trabalhadores do aumento de produtividade já ocorrido no País.
Tabela 16 - Dados da indústria de transformação brasileira − 1989-2000
Anos Produção Física(1) Pessoal Ocupado Produtividade do Trabalho
1989 100,00 100,00 100,00 1990 90,67 94,70 95,18 1991 88,33 85,17 103,10 1992 84,96 78,66 107,36 1993 91,96 77,33 118,21 1994 99,31 75,67 130,46 1995 101,07 74,29 135,25 1996 101,43 66,00 152,78 1997 105,67 62,31 168,59 1998 101,70 56,50 178,96 1999 100,82 52,34 191,49 2000 107,69 52,66 202,81
FONTE: IBGE - Pesquisa industrial mensal
(1) O IBGE utiliza o conceito de produção física como uma proxy do valor agregado. Conseqüentemente, existe a suposição de que a evolução da produção física é uma proxy da evolução do valor da produção real.
A Tabela 17 traz o aumento da produtividade do trabalho para o conjunto da economia brasileira. Apesar de não ser tão expressivo quanto o aumento na indústria de transformação, também aponta aumento para o período de 11 anos; aumento superior ao do PIB per capita mostrado na Tabela 18.
Tabela 17 - Variação da produtividade do trabalho no Brasil − 1993/2003
Anos Variação % 1993 3,8 1994 4,3 1995 2,0 1996 5,2 1997 2,3 1998 -0,8 1999 -1,8 2000 -0,1 2001 2,4 2002 -0,7 2003 -0,7 Acumulado 16,83
FONTE: IBGE. Sistema de Contas Nacionais e Contas Nacionais Trimestrais – Indicadores de volume.In DIEESE (2005a).
Tabela 18 - PIB per capita no Brasil − 1991-2004 Ano PIB per capita
(1)
Índices Anos PIB per capita
(1) Índices 1991 7.820 100,0 1998 8.571 109,6 1992 7.652 97,9 1999 8.511 108,8 1993 7.902 101,1 2000 8.751 111,9 1994 8.233 105,3 2001 8.736 111,7 1995 8.449 108,0 2002 8.775 112,2 1996 8.542 109,2 2003 8.694 111,2 1997 8.689 111,1 2004 8.990 115,0
FONTE: Banco Central do Brasil: In DIEESE (2005a). (1) R$ de 2003.
Ao referir o aumento de custos, é importante dimensionar-se melhor o que representa, em termos de aumento de custo, uma RJT de 9,09% ─ reduzir de 44 horas de trabalho semanais para 40 horas semanais. Conforme dados da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), a participação dos salários no custo das indústrias de transformação, no ano de 1999, ficava, em média, em 23% (Tabela 19). Logo, uma redução de 9,09% da jornada de trabalho teria um impacto direto nos aumentos de custos totais de no máximo 2,09%, isto no caso de toda redução da jornada ser traduzida em novos postos de trabalho. É importante salientar-se o baixo desvio padrão de 3,55%, que aponta que a participação dos salários nos custos das empresas, em todos os setores, não se distancia muito da média. Ao considerar-se o fato de que a RJT faz com que o trabalhador passe a trabalhar mais intensamente e, mesmo assim, mantenha maior atenção, concentração e menor cansaço, levando ao aumento da produtividade do trabalho, o aumento de custo passa a ter uma dimensão ainda menor.
Tabela 19 – Participação percentual dos salários, segundo os setores, no custo das empresas brasileiras − 1999
Setores Participação %
Produtos químicos 17
Artigos de borracha e plástico 18
Produtos alimentares e bebidas 19
Celulose, papel e produtos de papel 20
Produtos de madeira 21
Metalúrgica básica 21
Máquinas e equipamentos 23
Artigos do vestuário e acessórios 23
Produtos têxteis 23
Produtos de minerais não metálicos 24
Couros, artigos de couro, artigos de viagem e calçados 24
Móveis e indústrias diversas 24
Veículos automotores, reboques e carrocerias 25 Máquinas, aparelhos e materiais elétricos 27 Edição, impressão e reprodução de gravações 29 Produtos de metal (exclusive máquinas e equipamentos) 29
Média
Desvio padrão
23 3,55
FONTE: CNI. Indicadores de qualidade e produtividade da indústria brasileira.
Fazendo-se a análise de forma dinâmica, o aumento de custos que ocorre no curto prazo é muito pequeno diante dos ganhos de produtividade obtidos nos últimos anos na indústria da transformação e, porque não dizer, diante dos prováveis ganhos de produtividade que virão nos próximos anos. Esse argumento dá sustentação à afirmação feita de que a RJT é uma forma de o conjunto dos trabalhadores participar dos benefícios gerados pelos ganhos de produtividade. No Brasil, os ganhos de produtividade vêm beneficiando apenas empresários e governo e não os trabalhadores e a sociedade em geral. Os lucros do setor financeiro tiveram brutal crescimento na década de 90 (CARCANHOLO, 2003), os impostos vêm aumentando continuamente, os lucros do setor produtivo igualmente, enquanto a classe trabalhadora vem sofrendo redução dos seus rendimentos e elevação dos níveis de desemprego, e a sociedade, o aumento de preços.
Outra questão colocada para a economia brasileira é a pressão inflacionária que poderia ser gerada com a RJT. Caso a argumentação leve em consideração que a inflação no País é de custo, os dados apresentados demonstram que o pequeno montante do
aumento de custo, quando cotejado com os ganhos de produtividade que a economia apresentou no passado, não seria suficiente para gerar pressão inflacionária. Caso a argumentação leve em consideração que a inflação no País é de demanda, para que a pressão inflacionária de fato ocorra, a economia deverá estar trabalhando no pleno emprego de todos os fatores de produção. A elevada taxa de desemprego indica disponibilidade do fator trabalho, enquanto os dados referentes à utilização da capacidade instalada da indústria também apontam a existência de capacidade ociosa.
Os dados de utilização da capacidade instalada, fornecidos pela CNI mostram uma relativa estabilidade do percentual de utilização nos últimos anos, com um pequeno aumento no ano de 2004 (Tabela 20). Porém, mesmo assim, a indústria continua apresentando capacidade ociosa, que permitiria a elevação do crescimento econômico sem colocar em risco a estabilidade dos preços. Os dados apresentados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram um percentual de utilização da capacidade instalada de toda indústria de transformação mais elevado que o da CNI; no entanto, também apresentando folga para que ocorra o aumento do crescimento econômico (Tabela 21). Na Tabela 21, pode-se ver que a utilização da capacidade instalada da indústria produtora de bens de consumo está abaixo da média do total da indústria, o que mostra uma situação positiva para o caso de ocorrer a RJT, pois o primeiro setor a receber o impacto do aumento da demanda seria justamente o de bens de consumo.
Tabela 20 – Percentual de utilização da capacidade instalada na indústria de transformação do Brasil − 2000-04 Anos % de Utilização 2000 80,70 2001 80,30 2002 80,65 2003 79,79 2004 82,58 FONTE: CNI, Série histórica.
Tabela 21 - Percentual de utilização da capacidade instalada, por categorias, na indústria do Brasil − 2002-04 Categorias 2002 2003 2004 Bens de consumo 76,6 77,1 82,2 Bens de capital 69,5 77,5 81,2 Materiais de construção 79,6 78,4 86,4 Bens de consumo intermediário 86,1 86,3 88,9 Total da indústria de transformação 80,1 81,6 86,1 FONTE: FGV. In Banco Central do Brasil, Séries temporais.