COTIDIANO DA METRÓPOLE.
Foto 2.5 Prédio onde funcionou o Estúdio Db
2.3. A CULTURA HIP HOP NO RECIFE: QUANDO AS RUAS ABRIGAM A ARTE
2.3.1. A aurora do hip hop recifense: dos bailes negros ao break (1979-1986)
A origem das manifestações do hip hop na Região do Recife remonta aos dançarinos de funk, em ação nos chamados bailes “blacks” ao som de James Brown ou KC and the Sunshine Band, ao que tudo indica a partir do final dos anos 1970. Além dos bailes, onde o repertório era predominantemente composto, pela chamada música negra129, existiam bailes, nos quais em apenas um momento da festa esta música seria tocada, abrindo espaço para a apresentação dos dançarinos de funk.
A topologia desses bailes (Figura 2.7) assinala que eles ocorriam em lugares como a Associação de moradores da Caxangá, a Associação de Moradores do Pina, O Clube Líbano (Pina), o Clube Ferroviário (Mustardinha), o Clube Rodoviário (Imbiribeira), o Clube do Sargento Wolff (Afogados) ou o Clube dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar (Vasco da Gama).
A discotecagem nos bailes organizados nesses clubes ficava a cargo das equipes de som: “Era onde as grandes equipes de som tocavam e onde a gente sempre ia pra dançar funk e encontrar os caras que dançavam funk na época né?” lembra Fábio “Spider”* um dos pioneiros do hip hop pernambucano.
129 O termo Música Negra, comumente chamado de “Black Music” entre os agentes do circuito sonoro, bem como nas abordagens sobre música em especial nos meios de informação de massa, designa as músicas, estilos e gêneros musicais de ascendência ou origem na África negra que por meio dos africanos tornados escravos desembocaram por todo o continente americano. A partir daí operou-se a fusão da matriz negra com ritmos europeus e indígenas, dando origem a inúmeras manifestações musicais seja no Brasil (lundu, maxixe, maracatu, samba, entre outros) ou fora dele (soul, gospel, blues, funk, dub, reggae, jazz, rock and roll, entre outros).
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A maior parte delas operavam equipamentos a base de fitas cassete, um sistema de menor orçamento, caso das equipes Centaurus, Geração 80 ou a Dinamite de Peixinhos130. Sendo mais dispendiosos os equipamentos de discotecagem para DJs com vinis, pick ups131, equalizadores e sistemas de crossover (mistura de distintos sons), os quais eram utilizados, tão somente, pelas equipes com maiores recursos financeiros, casos da People Som, da Sunshine ou da Master Som, empresas com escritórios sede e de maior estrutura organizacional.
Dado interessante para pensarmos aspectos da evolução da paisagem sonora recifense, Spider* remete-se a predileção pelas frequências agudas, que marcaram os bailes dos anos 1980, configurando uma “época do agudo”, ao contrário de um período recente, onde a busca pelos graves predomina:
“teve uma época que a maioria das equipes tinham aquele set de caixas onde tinha só médio e os graves eram minorias. Com o tempo foi mudando e hoje as equipes investem mais em graves (...) era a época dos tweeters e mid rangers132, aquela época”
Além dos bailes, as ruas também eram lugar para as apresentações dos dançarinos de funk, já ativos há alguns anos quando da chegada do break, a dança do hip hop. Esguios, vestidos com moletons, tênis bamba, conga ou sapatos de bico fino estes dançarinos eram então “os caras que chamavam a atenção da galera que iam vê-los dançando” afiança Spider.*
Oriundos de bairros como Caxangá, Iputinga, Casa Amarela e dos subúrbios de Olinda (Figura 2.7), marcaram época e serviram de inspiração para os futuros “breakers”, os dançarinos de funk como Lubumba, Mister X, Mister Black, Transablack, Negro Jesu,
130 A equipe surgiu a partir de encontros ao som de música negra realizados no final dos anos 1970 na Rua da Delegacia em frente à Associação de Bairro de Peixinhos. O DJ à época costumava ser o irmão de Maureliano percussionista do Lamento Negro, como entrevisto, grupo presente no âmago da Cena Mangue.
131 Sistema formado por dois toca discos e um mixer, aparelho que propícia que duas músicas sejam executadas sincronicamente.
132 Componentes dos sistemas de áudio responsáveis por amplificar as médias e altas frequências conferindo a parte mais aguda ou alta da textura sonora.
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Cobrinha e Cobrão. Boa parte desses agentes pertence a mesma geração de Nelson Triunfo, referência no break nacional133.
No início dos anos 1980 surge em Camaragibe, o que parecer ter sido o primeiro grupo de dança de rua (crew) de Pernambuco, a “Rock Master Crew”, criada pelos dançarinos Fábio “Spider”, Nelson “Muriak” e Honesimus “Crazy Pace.” Influenciados pelo break, mas ainda se autodenominando dançarinos de funk, esses agentes foram pioneiros na nova forma de organização dos dançarinos, que até então, reuniam-se apenas para executarem seus passos particulares, todavia, sem a formação das crews, características do hip hop.
Por meio do diálogo com a Rock Master Crew, os movimentos do break foram gradativamente incorporados pelos dançarinos mais experientes, os pioneiros do funk. Com movimentos rápidos e uma abertura a experimentação, o break, inicialmente chamado de “dinamic rock”, passava a pulular nos corpos e mentes de jovens dos mais diversos lugares do Recife.
Nesse ensejo, e ao contrário do ocorrido em outras cidades brasileiras, no Recife o apelo para a difusão do break por meio de campeonatos de dança, as chamadas batalhas, fora dado ao que tudo indica no ano de 1982, inicialmente por emissoras de FM, ou seja, eventos artísticos “promovidos por pessoas que não tinham nada a ver com o hip hop” sentencia Spider*.
Ora, com informações sobre a difusão da cultura hip hop, em diversos centros urbanos do Brasil e do mundo, esses meios de informação de massa procuraram se antecipar no Recife, vendo no break uma possibilidade de retorno financeiro e aumento de visibilidade entre os jovens da cidade.
A primeira tentativa surgiu pela Rádio Manchete e um concurso itinerante cuja final fora realizada na orla de Boa Viagem no extinto restaurante “O Barril” e depois pela Rádio Cidade num concurso realizado no Clube Português.
Todavia a aglutinação de uma cultura arraigada nas ruas, não poderia ter se dado de outro modo que não a partir da troca de informações horizontais, entre os próprios agentes
133 Como ficou conhecido Nelson Gonçalves Campos Filho, pernambucano nascido na cidade de Triunfo em 1954 e radicado nos anos 1980 em São Paulo, considerado um dos maiores dançarinos de soul e break do Brasil.
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de uma cena nascente no Recife. Assim sendo, ao mesmo tempo em que as batalhas propostas por emissoras de rádio não lograram maiores resultados, a movimentação em torno da primeira “roda” de break, organizada no “boca a boca”, dera a real ideia do vultoso grupo de pessoas interessadas pela cultura hip hop na Região.
No ano de 1983, de modo orgânico, numa movimentação dos próprios breakers, que denominavam a si mesmos de “b. boings” e com participação de capoeiristas, ocorreu a primeira “roda” de break do Recife. O evento artístico ocorrido próximo a Lanchonete Hamburgão, na esquina entre a Avenida Guararapes e a Rua Sete de Setembro, é considerado até hoje, entre os agentes da cultura hip hop recifense, de suma relevância para os rumos que tomaria a cultura das ruas na Região, resume Fábio Spider*:
“foi uma coisa tão no boca a boca que a gente descobriu realmente que a gente não estava tão só, naquilo que a gente gostava de hip hop, de break, foi nesse momento ai. Por que no dia que houve a primeira roda, apareceu tanta gente de tanto lugar e tão diferente”
À medida que, a Roda de Break ganhou novos adeptos, passou a ser realizada num lugar mais amplo ao lado do Cinema Veneza. Dali, a reunião se deslocou para o Banco do Nordeste (Avenida Conde da Boa Vista), todavia por problemas com os seguranças do local, o encontro teve mais uma vez que ser transferido, com tentativas de rodas na estação Santo Antônio do metrô e na Casa da Cultura, tendo inclusive ocorrido rodas menores “escondidas” nas quais cada crew procurava desenvolver as sua inovações técnicas sem o conhecimento das outras (informações de Fortunato Russo, disponíveis em www.brigadahiphop-pe.blogospot.com.br).
Após essas espacializações itinerantes a roda de break do Recife se fixava, novamente, desta feita na Rua do Hospício próximo a Faculdade de Direito da UFPE por cerca de um ano e meio para então retornar ao seu local de origem, o entorno do Banco do Nordeste (Figura 2.7).
Paralelamente ao break, as outras manifestações do hip hop, a saber, o grafite134 (expressão visual) e o rap (expressão musical), se adensam na Região do Recife e das
134 Sobre a difusão dos elementos da cultura hip hop no Recife na segunda metade dos anos 1980, uma reportagem do Suplemento Cultural de Julho de 1988 (p. 2), abordava a “Brigada Compressora” ação de artistas plásticos com o objetivo de “pintar painéis com pistolas de tinta sobre pichações pela cidade”. Chama a atenção o fato de que em nenhum momento da matéria o termo grafite é utilizado, demonstrando o desconhecimento da denominação para a referida prática, manifestação visual do hip hop, ao menos por parte
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articulações entre os breakers surgem os primeiros esboços de narrativas cantadas sobre bases sonoras.
No ano de 1984 se dissemina a prática do beat box, técnica de percussão vocal na qual os hip hoppers, driblam o precário acesso a equipamentos musicais135, e cantam o embrião do que viria a ser o rap pernambucano.
Nesse período da aurora do hip hop recifense, grosso modo até os anos 1986, se organizaram as primeiras crews, oriundas, basicamente das cidades de Recife, Camaragibe e Olinda em torno das quais atuaram dezenas de breakers (Quadro 2.19).
Quadro 2.19
Períodos do hip hop Recifense “aurora” - O circuito de break (1983-1986)
Crew Lugar de
origem/núcleo
Integrantes
Rock Master Crew Camaragibe Spyder, Muriak, Cearence, Oni e Wellington, Mário, Marcelo e Marcílio.
Recife City Break Boa Vista Spindola, Russo, Taubaté, Didi, Tido, Jailson, Manuel e Veríssimo. UBI - União de Break Independente Jardim Brasil Olinda
Jorge Break, Paulo Borracha, Jair, Murilo, Iranildo , Fred, Jordan e Lombriga.
Legião Hip Hop ou Turma Rio Doce
Rio Doce, Olinda Cerca da de quinze breakers - Participaram da Crew Chico Science e Jorge du Peixe, futuros músicos da Cena Mangue e Jates Nascimento.
Dinâmica Rock Recife
dos envolvidos com a redação do artigo, e possivelmente por parte dos artistas relacionados à iniciativa em questão. O grafite passaria ainda, um bom tempo como arte demasiada marginal.
135 Segundo C. Béthune (2002: 55) “os rappers inventaram a prática do beat box humano como paliativo à carência financeira que os impediam de conseguirem aparelhagens eletrônicas adequadas” - “les rappeurs ont
inventé la pratique du human beat boxing comme palliatif à la pénurie financière qui leur proscrivait l’acquisition des appareillages électroniques idoines.”
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Rádio Break CIA Recife
Outros breakers
Dicinho, Mazinho, Lulinha, Agatok, Argel , Chimba, Repolho, Sergio, Mofado, Jasomer, Lelo, entre outros.
Fonte: elaboração própria, 2014 - campo de informação primária (Fábio Spider) / Fortunato Russo, disponível em www.brigadahiphop-pe.blogospot.com.br.
Com o enfraquecimento da crew Recife City Breakers, ganhou força a crew UBI (União de Break Independente) enquanto uma série de outros breakers continuaram atuantes mesmo sem um vínculo direto com as crews (Quadro 2.19).
Em tal contexto aumentou o intercâmbio e a articulação entre as crews Rock Master de Camaragibe e a Legião Hip Hop de Rio Doce (Olinda), da qual faziam parte Chico Science, que viria a ser figura central da Cena Mangue e Jorge du Peixe, atual vocalista da Nação Zumbi. De acordo com J. M. Araújo (2007), Fred 04, outro agente central da Cena Mangue, no ano de 1986, então trabalhando como repórter foi cobrir uma roda de break ocasião na qual conheceu o “breaker” Chico Science.
2.3.2. Consolidação e espraiamento da cultura das ruas no Recife: o rap e a