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Autismo, psicopatia e desenvolvimento moral

PARTIR DA EMPATIA E DA PSICANÁLISE

3. Autismo, psicopatia e desenvolvimento moral

Muitos estudos contemporâneos de psicologia moral enfatizam o papel constitutivo da empatia nos primeiros estágios do desenvolvimento moral (ver Batson 1981, 1991, 2011; Hoffman 2000, 2011; Eisenberg 2000; Tomasello & Vaish 2013). A tese central defendida por vários psicólogos morais é que processos empáticos são mecanismos psicológicos subjacentes à agência moral. A moralidade envolve processos de regulação comportamental relativamente aos outros. Bem cedo na ontogenia, bebês começam a usar processos empáticos para regular seu comportamento em relação aos outros. Quando uma criança não mostra empatia em relação aos outros, podemos prever que ela não adquirirá a capacidade de se preocupar com os outros ou de apreciar como suas ações afetam os outros. Consequentemente, a falta de empatia afetará sua capacidade de avaliar suas próprias ações e as ações de outros como sendo corretas ou erradas, e de reagir a essas ações expressando aprovação ou desaprovação. Podemos prever que as pessoas que exibem dificuldades nas habilidades empáticas apresentarão déficits morais.

A ideia de que a empatia desempenha um papel central no desenvolvimento moral é apoiada por diversos estudos que investigam a correlação entre empatia, comportamentos prossociais e cooperação (Batson 1981, 1991, 2011; Hoffman 2000, 2011; Eisenberg & Strayer 1987; Eisenberg 2000; Tomasello & Vaish 2013). No início da ontogenia, as crianças começam a se comportar prossocialmente e a se engajar em ações cooperativas e altruístas. A questão aqui é quais são os mecanismos psicológicos que tornam as crianças aptas a se comportarem prossocialmente. O que esses estudos mostram é que processos empáticos fornecem às crianças habilidades afetivas, cognitivas e motivacionais para se comportarem prossocialmente. Processos empáticos motivam comportamentos altruístas, tais como o de ajudar, cuidar e confortar os outros, e se relacionam

negativamente com comportamentos antissociais e agressivos (Batson 1981, 1991, 2011; Eisenberg 2000; Hoffman 2000). Dados empíricos mostram que a capacidade para o raciocínio moral e para a agência moral é fortemente dependente de capacidades de resposta empática aos estados afetivos de outros e de tomar a perspectiva do outro em consideração.

Prinz desafia essa interpretação e argumenta que não há dados empíricos que evidenciem a conclusão forte de que a empatia está na base do desenvolvimento moral. Ele não nega a correlação positiva entre empatia e juízo moral. O que ele nega é que essa correlação seja evidência para a tese precondicional desenvolvimental. Prinz (2011a) aborda três fontes potenciais de evidência para essa tese: evidências sobre psicopatas, evidências sobre pessoas autistas, e as teorias de desenvolvimento moral.

As duas populações patológicas – psicopatas e autistas – têm sido de especial interesse na psicologia moral. Ambas as populações apresentam deficiências na compreensão social, na responsividade social e competência moral. Ambos os psicopatas e autistas também apresentam deficiências nas habilidades empáticas. Uma visão amplamente aceita é que essas deficiências empáticas explicam suas deficiências morais (Nichols 2004). As pesquisas psicológicas sobre essas populações parecem apoiar a visão de que a falta de empatia afeta a competência moral (Blair 2005), sugerindo que a empatia desempenha um papel fundamental no desenvolvimento moral.

Prinz (2005, 2011a, 2011b) rejeita esta explicação. Ele argumenta que essas evidências sobre autistas e psicopatas não apoiam a tese precondicional desenvolvimental. Considerarei seus argumentos em ambos os casos, focalizando especialmente as evidências sobre psicopatas.

Psicopatia. A psicopatia é um distúrbio associado a traços de insensibilidade

e ausência de emoção (falta de medo, culpa, remorso e afeto raso) e comportamento antissocial e agressivo (Blair et al., 2005). É amplamente sustentado que a deficiência emocional dos psicopatas explica sua falta de empatia, e sua empatia prejudicada (seu déficit empático) explica sua falta de competência moral. Os psicopatas não possuem emoções que facilitem a

educação moral; eles não possuem as respostas emocionais que são constitutivas dos juízos morais.

Segundo Prinz (2005), os déficits morais dos psicopatas podem ser explicados sem recorrer ao déficit de empatia. É a falta de emoções básicas, como o medo e a tristeza, e não a falta de empatia que explica a deficiência no raciocínio moral detectado em pessoas com psicopatia. A explicação que Prinz endossa se baseia na hipótese do medo disfuncional4. Segundo essa hipótese, os psicopatas

apresentam deficiência nos sistemas que modulam o comportamento do medo (Fowles, 1988). Os psicopatas apresentam uma diminuição do condicionamento aversivo, e diminuição de respostas emocionais em antecipação do castigo e na imaginação de eventos ameaçadores. O déficit de medo dos psicopatas os impede de serem socializados e de desenvolverem competência moral. A socialização moral é, em geral, obtida por meio do uso da punição. A punição agressiva instila o medo, e o medo da punição é frequentemente usado no aprendizado moral. Uma criança assustada pelo castigo associará esse medo à ação que resultou na punição e desenvolverá respostas aversivas condicionadas a ameaças antecipadas. Uma criança que não tem medo de punição não aprenderá boa conduta se for ameaçada com punição.

Prinz argumenta que a deficiência moral dos psicopatas pode ser explicada por um déficit no comportamento inibitório e emoções inibitórias. Ele afirma que o mesmo sistema disfuncional que danifica o medo em psicopatas também pode danificar a tristeza, outras emoções negativas, e outras reações negativas. O

4 Grosso modo, há dois modelos cognitivos na literatura empírica para explicar o déficit moral na

psicopatia. Um deles é o sistema comportamental inibitório proposto por Fowles (1988) e outros, que afirma que os psicopatas têm um déficit básico em seu sistema de comportamento rudimentar que está subjacente a muitos aspectos das emoções e provoca comprometimento no comportamento aversivo e no medo. O outro é o modelo inibitório de violência precoce (VIM), e sua versão atualizada para os sistemas de emoção integrados desenvolvidos por Blair (Blair et al., 2005), que explica a natureza do comprometimento emocional em indivíduos com psicopatia como resultado de deficiências em diferentes sistemas, como empatia disfuncional, o medo disfuncional, e o VIM disfuncional.

sentimento de tristeza, afirma Prinz, é crucial para a moralidade porque está envolvido no reconhecimento e na resposta à tristeza dos outros, e é um elemento básico que pode ser usado para criar emoções morais (como vergonha e culpa).

As emoções morais são emoções complexas que surgem em contextos que envolvem conformação ou violação de uma regra moral. Prinz (2005, 2007) considera que as emoções morais (como a vergonha, a culpa, o arrependimento e a indignação) são geradas por uma mistura de emoções básicas (por exemplo, medo, tristeza e raiva) combinadas com um processo de calibração [calibration

process]. No processo de calibração, como proposto por Prinz, uma emoção

básica que inicialmente tinha um conjunto de condições desencadeadoras pode ser atribuída a um novo conjunto de condições desencadeadoras que foram elaborados através da experiência para formar um mecanismo de desencadeamento independente. Por exemplo, Prinz afirma que “a culpa é apenas tristeza que foi calibrada para situações em que alguém causou um dano a alguém com quem se preocupa”5. Ou seja, a mistura emocional pode ser associada a

situações em que a criança “capta” os estados emocionais de outra pessoa (sofrimento, reação negativa, desaprovação, etc.) copiando os estados emocionais de outra pessoa por meio de imitação ou contágio emocional.

Em “Imitation and Moral Development” (2005), Prinz dá à aprendizagem imitativa um lugar fundamental na explicação do desenvolvimento moral. Para desenvolver a competência moral, a criança tem que ser capaz de reagir com emoções negativas na presença da desaprovação dos cuidadores ou na presença de angústia de outro. Ser capaz de reagir com sentimentos negativos nesses contextos requer não apenas a disposição básica dos sentimentos de medo e tristeza, mas também a capacidade de “captar” as emoções dos outros e “captar” a angústia dos outros. Segundo Prinz, essas disposições emocionais são estabelecidas pela imitação. Em nosso processo de socialização, imitamos as emoções percebidas (expressões faciais e vocalizações), e acabamos por copiar (por meio da imitação) os estados internos dos outros, como a vergonha, a culpa e

a angústia dos outros. Ver/Observar a angústia dos outros desencadeia angústia vicária e, posteriormente, no desenvolvimento, desencadeia respostas de consolação. Assim, Prinz conclui que os psicopatas não são bons pensadores morais porque não conseguem aprender a reação emocional apropriada à sua conduta no contexto da angústia de suas vítimas, nem através de aprendizado imitativo nem por contágio emocional.

No entanto, nas seções seguintes, argumentarei que a aprendizagem imitativa não é suficiente para explicar plenamente o desenvolvimento moral. A aprendizagem imitativa pode explicar o reconhecimento de emoções básicas, mas não pode explicar o desenvolvimento de emoções morais como culpa, vergonha, arrependimento, admiração e preocupação empática. Como argumentarei mais adiante, não é possível captar essas reações emocionais complexas “copiando o estado afetivo de outrem” através da aprendizagem imitativa, mesmo no amplo sentido de imitação adotado por Prinz (2005). Os elementos intencionais e motivacionais desses estados afetivos não estão disponíveis para percepção direta e aprendizagem associativa. Uma explicação completa para o desenvolvimento de emoções morais deve envolver empatia. Se isso é correto, a hipótese de Prinz sobre psicopatas é, na melhor das hipóteses, incompleta.

Isso não significa que devamos abandonar a hipótese do medo disfuncional. Em vez disso, podemos usar essa hipótese, mas acrescentar um papel para a empatia. Pode ser que a deficiência no medo6 cause prejuízos no medo

compartilhado e na empatia, e essas deficiências, por sua vez, causam o déficit moral. É claro que ser capaz de sentir emoções (como medo, raiva, tristeza, alegria, repulsa e surpresa) é um pré-requisito para compartilhar essas emoções e para a empatia (emocional). Portanto, a incapacidade de sentir as emoções (como afirmado na hipótese do medo disfuncional), necessariamente, causará um déficit nas emoções compartilhadas e na empatia. É natural supor que esse déficit é o que leva a déficits morais em psicopatas (pelo menos em uma abordagem

6 Os sentimentos de tristeza não serão abordados, pois se sabe muito pouco sobre como a tristeza é

sentimentalista da moralidade). De fato, a hipótese é que a empatia comprometida (prejudicada) medeia a conexão entre emoções e moral prejudicada. Isso fornece uma alternativa à hipótese de Prinz de que a aprendizagem imitativa prejudicada medeia a conexão.

É também plausível que a hipótese de Prinz não possa funcionar a menos que seja dado a empatia um papel-chave. Acredita-se amplamente que as deficiências morais dos psicopatas estão especialmente ligadas a deficiências no reconhecimento e resposta à angústia de suas vítimas. Estas deficiências são explicadas naturalmente em termos de deficiências no compartilhamento da angústia das vítimas, o que pode ser visto como uma forma de preocupação empática. A hipótese de Prinz exige que a aprendizagem imitativa sozinha possa explicar o reconhecimento da angústia dos outros. Ele argumenta que a preocupação com o sofrimento da vítima é uma habilidade metacognitiva que emerge tarde no desenvolvimento e deriva do sofrimento vicário inicial, que é uma habilidade mais básica usada para capturar o sofrimento dos outros através do contágio emocional. No entanto, nas seções a seguir, vou argumentar que a angústia vicária requer habilidades empáticas. Ela não pode ser explicada simplesmente através do contágio emocional.

É verdade que há uma forma simples de aflição vicária por contágio emocional em bebês que não requer habilidades empáticas. No entanto, esse tipo de angústia vicária inicial por contágio emocional acontece antes do desenvolvimento da plena auto-diferenciação. No sofrimento vicário inicial, a criança não está experimentando ou reconhecendo a angústia dos outros; a criança está experimentando sua própria angústia, o que leva à angústia pessoal e não à preocupação empática. Esse fenômeno rudimentar não pode explicar os elementos de desenvolvimento moral que envolvem o reconhecimento da angústia dos outros. Para explicar isso, é preciso uma forma mais complexa de aflição vicária envolvendo empatia. Por minha conta, a angústia vicária precoce no contágio emocional evolui primeiro para a angústia vicária empática e, finalmente, para a preocupação empática. A empatia nos ajuda a obter informações sobre a maneira pela qual um evento ou uma ação pode afetar emocionalmente uma

pessoa e causar a angústia dos outros.

Minha explicação do papel da empatia na conexão de emoções e desenvolvimento moral em psicopatas se encaixa bem com pesquisas recentes sobre psicopatas por Blair e outros. Os psicopatas mostram comprometimento no reconhecimento de expressões de medo (face, corpo e voz), redução da experiência de medo (Marsh et al., 2011), comprometimento da resposta ao medo em outros (Marsh, Cardinale 2012), e comprometimento da capacidade de identificar comportamentos que causam medo e julgar a aceitabilidade moral desses comportamentos (Marsh, Cardinale, 2012). Além disso, a psicopatia afeta os julgamentos de transgressões associadas a dano. Os psicopatas tendem a errar no tratamento de violações convencionais, como violações morais, e são menos propensos a justificar seus julgamentos referindo-se ao bem-estar da vítima (Blair, 1995; 2005). Sua propensão a infligir danos a outros indica uma profunda perturbação na sua resposta empática ao sofrimento dos outros (Blair 2005). A capacidade de reconhecer a angústia dos outros é crucial para a experiência de preocupação empática (Nichols 2001). Qualquer prejuízo na capacidade de reconhecimento emocional precoce ou uma incapacidade inata na capacidade de perceber e responder às expressões afetivas dos outros levará a uma empatia emocional disfuncional. Como Blair sugere (2005), um indivíduo que mostra comprometimento na empatia emocional é difícil de socializar através da indução empática, uma prática que envolve o socializador focando a atenção do transgressor sobre o sofrimento da vítima. Tudo isso é mais uma evidência de um papel de empatia na explicação do prejuízo moral dos psicopatas.

Autismo. Prinz sugere que os estudos experimentais (Blair 1996, 2005)

mostram que os autistas, diferentemente dos psicopatas, parecem adquirir uma compreensão das regras morais e exibem um déficit de empatia. Ele conclui que, se esta interpretação é correta, “a aquisição de competência moral pode não depender de uma capacidade robusta de empatia”7. Kennett (2002), Nichols (2004)

e McGeer (2008) também argumentam que no autismo o déficit de empatia não

leva inevitavelmente a um déficit de moralidade. Pessoas com autismo exibem falta de empatia, mas ainda assim têm/apresentam um senso de moralidade. De acordo com Nichols (2004), a habilidade preservada dos autistas de fazer juízos moral, apesar de sua incapacidade de simular a perspectiva de outra pessoa, revela que os relatos de perspectiva da moral devem ser empiricamente errados. A partir desta evidência, Prinz (e também McGeer e Kennett) conclui que a empatia não é necessária para o desenvolvimento da agência moral; se a empatia desempenha algum papel no desenvolvimento moral, desempenha um papel instrumental, portanto, um papel contingente.

Uma maneira de resistir a esta conclusão tem sido mostrar que, enquanto as pessoas com autismo são prejudicadas em empatia cognitiva e habilidades de leitura da mente, eles são capazes de experimentar emoções, mostrar empatia afetiva e emocionalmente responder a angústia dos outros. Isso sugere que sua competência moral pode derivar de suas habilidades emocionais empáticas (Blair 1996; Nichols 2004).

A ideia de que pessoas autistas exibem moralidade sem empatia também foi desafiada por de Vignemont e Frith em “Autismo, Morality, and Empathy” (2008). Elas questionam ambas as ideias: que as pessoas autistas apresentam uma falta de empatia e que eles possuem um senso moral. De Vignemont e Frith argumentam que as pessoas autistas têm algum grau de empatia emocional automática: elas mostram reconhecimento emocional e respostas autonômicas às expressões de tristeza e medo de outros. Estudos psicológicos (Blair 2005) evidenciam que as pessoas autistas podem ter os componentes emocionais dos comportamentos empáticos. Eles são capazes de reagir com empatia ao sofrimento dos outros. Consequentemente, enquanto o autismo pode envolver comprometimento da empatia cognitiva (a capacidade de saber o que outra pessoa pensa), parece que algum nível de empatia emocional permanece intacta nas pessoas com autismo. A falta de comportamento empático no autismo tem sido atribuída a déficits nos processos de mentalização (Batson et al., 1987, Blair, 2005). Apesar de exibirem empatia emocional preservada e capacidade de reconhecimento emocional preservada, estudos baseados em relatos dos pais

sugerem que pessoas com autismo apresentam prejuízos específicos em seu relacionamento afetivo com outras pessoas (Hobson et al., 2006). Eles manifestam claramente sinais de felicidade, angústia, raiva e medo como respostas emocionais ao estado de espírito dos outros; porém, apresentam limitações em experimentar e expressar sentimentos centrados na outra pessoa [other-person-centered feelings], tais como simpatia e preocupação; também, raramente expressam sentimentos por e em relação a outras pessoas (Hobson et al., 2009). De acordo com os relatos parentais, eles mostram ciúme em relação aos outros e são afetados pelo estado de espirito dos outros, mas mostram pouca preocupação, culpa ou tristeza empática. As pessoas com autismo são mais propensas a descrever situações em termos de quebrar as regras do que em termos de causar danos físicos ou emocionais a outros (Hobson et al., 2009).

De Vignemont e Frith (2008) sugerem que a presença do componente emocional em pessoas com autismo pode explicar por que a competência moral parece estar aparentemente preservada nos mesmos. As pessoas com autismo são capazes de detectar a transgressão das regras normativas e detectar a angústia dos outros. No entanto, eles não parecem capazes de detectar violações morais. Essa detecção requer a correlação de dois fatos: uma transgressão moral e o sofrimento de alguém sem justificativa moral. As pessoas com autismo parecem não conseguir correlacionar esses dois fatos. De Vignemont e Frith (2007) também sugerem que o problema com as pessoas autistas na detecção de violações morais pode estar relacionado com a forma como fazem a distinção entre representação alocêntrica e egocêntrica. As pessoas com autismo exibem um egocentrismo extremo desconectado do alocentrismo, significando que o seu mundo social é autocentrado. Elas carecem de intuições sociais, fazem análises abstratas do seu entorno, e “estão mais interessados em regras normativas do que em emoções devido a um alocentrismo abstrato desconectado de suas interações egocêntricas com os outros”8. Sua conclusão é que não podemos excluir a

possibilidade de que as regras seguidas pelos autistas sejam meramente

percebidas por eles como regras convencionais e que sua aparente capacidade de julgamento moral seja o resultado da aplicação dessas regras convencionais.

Embora esta conclusão não seja suficiente para derrotar o argumento de Prinz que as pessoas autistas são capazes de fazer julgamentos morais, ela pode oferecer uma interpretação alternativa a este fenômeno. Primeiro, as habilidades empáticas emocionais parecem estar preservadas em pessoas autistas de alto funcionamento, e essa habilidade preservada pode explicar sua capacidade de fazer julgamentos morais, apesar de suas limitações em experimentar e manifestar preocupação empática, e oferecer conforto em situações de angústia dos outros. Em segundo lugar, não há evidência forte de que sua aparente capacidade de fazer juízos morais seja o resultado da aplicação de regras morais ou demonstração de preocupação moral.

Teorias do Desenvolvimento Moral. O terceiro argumento de Prinz é contra

as teorias desenvolvimentistas que enfatizam o papel da empatia no desenvolvimento moral. A psicologia moral do desenvolvimento descreve como evoluímos para nos tornarmos agentes morais, como chegamos a distinguir entre o certo e o errado, e como aprendemos a distinção entre regras convencionais e regras morais. A história desenvolvimentista de Prinz (2005) enfatiza o papel central da imitação no aprendizado de como responder emocionalmente aos juízos morais. Ele sugere que a aprendizagem moral requer um tipo diferente de imitação. As crianças podem “copiar os estados internos dos outros” e não apenas “seus comportamentos dirigidos a metas [goal-directed behaviors]”. Seu principal argumento é que a imitação nos ajuda a adquirir formas de compreensão moral. Nosso entendimento moral envolve uma gama de capacidades emocionais que dependem do aprendizado imitativo a ser adquirido. Prinz descreve cinco estágios do desenvolvimento moral normal. Na primeira fase, os bebês experimentam as emoções dos outros através da mímica facial; a responsividade moral começa com contágio emocional em recém-nascidos. Esta etapa contribui para o surgimento da preocupação e empatia. No segundo estágio, as crianças pequenas se envolvem em comportamento pró-social e de consolação precoce. Na terceira etapa, as crianças se tornam responsivas às regras morais. Na etapa seguinte, as crianças

começam a se envolver em comportamento reparador e condenação moral. Na última etapa, as crianças distinguem diferentes classes de normas por meio da obtenção de emoções morais (culpa, vergonha, indignação). De acordo com Prinz (2005), a aprendizagem imitativa contribui para todos esses estágios, e nenhuma dessas formas de aprendizagem moral requer empatia. Prinz conclui que a aquisição de competência moral não depende de uma capacidade robusta de