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PARTE I – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2. A DIABETES MELLITUS COMO DOENÇA CRÓNICA

2.5. Auto-cuidado – a pedra basilar no controlo da diabetes

O plano terapêutico na diabetes nunca terá sucesso se não houver uma participação activa do diabético.

Actualmente, e de acordo com a WHO (2003), o auto-cuidado, protagonizado pelo próprio diabético, assume um papel central no tratamento da diabetes. O auto- -cuidado implica que o indivíduo vigie e responda activamente aos factores ambientais e fisiológicos, tendo a capacidade de efectuar os ajustes necessários a um bom controlo metabólico e assim evitar o aparecimento de complicações.

Anderson e Funnell (2002), referem que 98% dos cuidados que a diabetes requer são da responsabilidade do próprio diabético.

Efectuar a auto-vigilância da glicemia, ajustar o consumo de alimentos, especialmente os hidratos de carbono, para satisfazer as necessidades diárias, ajustar o consumo de medicamentos e efectuar correctamente a sua toma, praticar actividade física regular, prestar cuidados aos pés, fazer uma vigilância de saúde periódica e outros comportamentos, como a higiene cuidada da pele e dentes e o uso de roupa adequada são as actividades de auto-cuidado pedidas ao diabético.

Todas estas actividades têm como objectivo alcançar algumas metas no controlo da diabetes.

Assim, podemos considerar que nenhum diabético está bem tratado sem um estado de nutrição adequado. O peso corporal é uma medida muito importante na vigilância e controlo da diabetes e, as suas variações dão indicações para a necessidade de ajuste do regime alimentar. Grande parte dos diabéticos tipo 2 são obesos devendo instituir-se um regime alimentar adequado ao emagrecimento. Como refere Duarte (2002c:62),

“(...) a medição do peso deve ser feita pelo próprio diabético em condições standard,

idealmente na sua própria casa , na mesma balança (...). A pesagem deve ser regular: uma vez por semana ou, nalguns casos especiais em que se institui uma dietoterapia agressiva, diária.”

A avaliação do Índice de Massa Corporal (IMC), que se obtém através da razão entre o peso e o quadrado da altura, é uma forma de facilmente se identificar se o diabético tem ou não o peso recomendado. Quando o IMC é superior a 25 considera-se que o indivíduo tem peso excessivo, e se for superior a 30 é obeso. Duarte (2002c:62),

refere que “(...) dos diabéticos tipo 2 (...) mais de 70% são obesos ou têm peso excessivo. Nestes diabéticos, a primeira terapêutica é o emagrecimento (...)”.

A avaliação do perímetro abdominal, deve fazer parte da auto-vigilância, pois existe uma estreita relação entre a obesidade central tipo andróide, a hipertensão, a dislipidémia e a insulinoresistência. Considera-se que existe risco elevado quando o perímetro abdominal nos homens é superior a 102 cm e nas mulheres superior a 88 cm, (ADA, 2005 citado por APMCG, 2005).

A medição da tensão arterial, é um parâmetro muito importante, já que, a hipertensão constitui um importante factor de risco nas doenças cardiovasculares, agravado quando associado à diabetes.

Tendo em conta o peso que a hipertensão arterial tem na progressão e instalação de complicações na diabetes é aceite como ideal um limite máximo de tensão arterial de 130/80 mmHg para os indivíduos com diabetes, (Matos, 2001; Caldeira et al, 2003; DGS, 2004; APMCG, 2005).

Duarte (2002c), diz-nos que uma das maneiras de avaliar o nível de açúcar no organismo é através da glicosúria, que actualmente está um pouco ultrapassado. A glicosúria depende do limiar renal para a excreção de glucose, que habitualmente situa- -se nos 180 mg/dl. Há que ter em conta que este método tem limitações, uma vez que o limiar renal varia de indivíduo para indivíduo e até no próprio doente durante a evolução da sua patologia.

O método mais utilizado para vigiar o nível de açúcar no sangue, é a avaliação da glicémia capilar através da (auto) punção digital. Nos últimos anos, a ciência tem desenvolvido várias técnicas que permitem ao diabético fazer a sua própria monitorização da glicemia comodamente em casa, no trabalho, etc. Os métodos enzimáticos modernos proporcionam determinações rápidas e eficazes, dando oportunidade ao diabético de ajustar a sua terapêutica com vista à obtenção de valores ideais de controlo glicémico, (Duarte, 2002c). O Quadro nº1evidencia os valores que se consideram os objectivos ideais no controlo glicémico.

Quadro nº 1 – Objectivos do tratamento em relação aos valores de glicemia

BOM ACEITÁVEL MAU

Glicemia em jejum 80 – 110 mg/dl > 110 ≤ 126 mg/dl > 126 mg/dl Glicemia pós – pandrial 2h 110 – 140 mg/dl > 140 ≤ 180 mg/dl > 180 mg/dl

Fonte: Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (2003:1)

Este método pode ter como limitação a resistência do diabético em aceitar a realização da punção capilar, no entanto, este aspecto pode ser minimizado se se proporcionar informação no sentido do individuo compreender a importância do auto- -controlo, da simplicidade de realização do teste e a quase inexistência de dor.

A pesquisa de cetonúria e de cetonémia é um meio de auto-vigilância de grande interesse, mas com maior relevância na diabetes tipo 1, (Duarte, 2002c).

A obtenção de um bom controlo metabólico pode ser identificado laboratorialmente através dos níveis da Hemoglobina Glicada A1c (HbA1c). Esta análise, de acordo com Duarte (2002c:72) diz respeito ao “(…) nível médio, integrado, das glicemias durante o período correspondente à semivida dos eritrócitos (…) é um precioso meio de avaliação retrospectiva do controlo diabético correspondendo a um período de 2 a 3 meses”. De acordo com Caldeira (2003), considera-se como objectivo óptimo para o controlo da diabetes valores de HbA1c <6,5-7, razoável entre 7-7,5 e como mau controlo >7,5.

Sagreira (2002), diz-nos que no diabético tipo 2 idoso, o objectivo do tratamento é aliviar sintomas, melhorando a sua qualidade de vida, contribuindo para um bem-estar físico e psíquico, aceitando-se um equilíbrio metabólico satisfatório que concorra para a prevenção de complicações. Nesta faixa etária pode considerar-se como satisfatório glicemias plasmáticas até 200mg/dl e HbA1c até 9%.

Os cuidados aos pés têm uma importância indiscutível na atenção dispensada com a diabetes, uma vez que, 50% das amputações realizadas em diabéticos poderiam ser evitadas se os diabéticos fossem ensinados a prestar cuidados preventivos aos pés, (Vieira, 2001).

Oliveira (2002), refere um estudo efectuado na sala de enfermagem da Unidade de Podologia da Associação Protectora de Diabéticos de Portugal, evidenciando que 81% das pessoas com diabetes apresentam alto risco de vir a desenvolver futuras lesões/amputações a nível do pé, mas que no geral, as pessoas com diabetes sabem quais os cuidados que devem ter para evitarem futuras complicações a nível dos pés.

Na diabetes, a aprendizagem e o treino para uma auto-vigilância e auto-controlo eficaz é fundamental para a preservação da saúde e para uma melhor qualidade de vida por isso, é importante que o próprio diabético ou os seus familiares próximos saibam como fazer essa vigilância.

O papel do profissional de saúde/educador é ajudar o diabético e/ou o seu cuidador, a encontrar o plano terapêutico que melhor se adapte às suas necessidades,

permitindo um auto-cuidado e um auto-controlo eficaz, (Duarte, 2002c). Tudo o que é pedido ao diabético implica um grande esforço, quer por parte do indivíduo quer dos seus cuidadores, devendo por isso, resultar de uma grande partilha e de um trabalho individualizado entre o diabético/família e o profissional de saúde.

Heisler (2005), sintetiza o que se pretende em termos de auto-cuidado e auto- -gestão numa patologia crónica: cumprir o plano terapêutico a nível da toma de medicamentos, alimentação, exercício e actividades de auto-vigilância; conseguir integrar a vivência da patologia na rotina diária; encontrar estratégias para lidar com o medo, a angústia, a frustração e a depressão causada pela incerteza dos efeitos da doença no futuro.

3. A ADESÃO E A GESTÃO DO REGIME TERAPÊUTICO NA DIABETES