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AUTO IMAGEM, CONFLITOS, E IDEOLOGIA POLÍTICA.

No documento Carina Vitral. entrevista com (páginas 43-46)

Flávia Calé

AUTO IMAGEM, CONFLITOS, E IDEOLOGIA POLÍTICA.

JO VENS MULHERES E SEUS SENTIDOS DE MILIT ÂNCIA PEL O P AR TO HUMANIZ ADO EM REDES

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mo deve dar-se no âmbito do indivíduo. É preciso, antes de tudo, que cada mu- lher encontre dentro de si a força e a possibilidade da mudança. (SITE REDE PARTO DO PRINCÍPIO)

Fica em todo caso subentendido que a constituição de um movimento social de mu- lheres se dá a partir da tomada individual de posturas, ainda que experiências sejam troca- das em grupos. Se o parto da mulher é algo fisiologicamente individual, obviamente seria impossível pensar na coletivização integral de lutas, no entanto, o sentido da individualidade propalada traz a tona a reivindicação manifesta na perda do medo da mulher, do medo de parir em casa, pois a fuga de ambientes hospitalares só pode ocorrer caso a mulher não tenha receio, o receio criado historicamente pelo discurso médico de “patocolização do corpo”.

Por observação, verificamos ainda que a formação da base política ideológica desses grupos pela internet se dá com a divulgação de textos, imagens, vídeos de partos, e com discus- sões a respeito. Mas principalmente as experi- ências trocadas ganham mais importância que o “discurso médico”. A não-regulação da liber- dade que as usuárias experimentam em rede, é uma das grandes inovações dos movimentos político virtuais, pois a “disseminação de dispo- sitivos aceleradores da socialização e do com- partilhamento de conhecimentos, informação e dados”(MALINI, 2010) provoca todo um con- junto novo de disputas sobre a produção social, isto é, uma quebra dos limites programáveis do capitalismo cognitivo em escalas mundiais, tor- nando inegáveis os choques de poderes entre as mídias de massa e as interfaces de usuários. A ideia de que “poucos falam para muitos” é convertida através de uma mídia distributiva composta por milhões de agentes disseminado- res de opiniões que se vinculam não a sensação de “todo mundo está falando isso” construído pela mídia massiva, mas sim de “meus amigos recomendam” construído pela mídia distributi- va, o que funciona mais a longo prazo enquanto fonte de confiabilidade da comunicação, segun- do o autor Fábio Malini (2010).

Formam assim grupos de solidariedade e conscientização, em zonas contextualmente políticas, de interesses institucionais, em que é possível, através da internet, reagir. Pois vemos cada dia mais crescer o número de mulheres que optam pelo parto domiciliar, e essa opção, certamente não advém de conselhos médicos, mas de conselhos das mulheres, de ideais que constroem diariamente na web.

08 Comentário feito pela internauta Danielle Freitas no relato de parto domiciliar de Shayana Busson postado na internet em 16 de janeiro de 2014, disponível em: http:// vilamamifera.com/parteriaurbana/relato-de-parto-domiciliar-em-maceio/

ressante que a constituição de um movimento social atuante, especialmente na ordem do dis- curso virtual, dá se com a divulgação de inti- midades do corpo feminino como fotografias e vídeos de mulheres nuas na hora de parir. Tor- nou-se uma das formas frequentes de se posi- cionarem frente a um sistema que, segundo as ativistas, violentam vaginas, barrigas, mentes e bebês.

Ortega (2003) chamou de biossociabilida- de a interação entre capital, medicina e biotec- nologias. Para o autor, a biossociabilidade é uma forma apolítica constituída por grupos segundo interesses em saúde, performances corporais, doenças específicas, longevidade. Grupos esses que não se inscrevem nas antigas demarcações como raça, classe, estamento, ideologia política. Na biossociabilidade prevalece a formação de um sujeito que deve se autocontrolar, autovi- giar, autopericiar, a fim de corresponder aos critérios avaliativos da medicina fisicalista, que tem como pano de fundo o discurso do risco. Para o autor, na mesma proporção, “o interesse sobre o corpo gera o desinteresse sobre o mun- do” (ORTEGA, 2003: 73), ou seja, a preocupação com o mundo, desde a antiguidade clássica, fora substituída pela preocupação com o homem, a descoberta de si, sua vida privada (ARENDT apud ORTEGA, 2003).

No entanto essa análise de Ortega (2003) não deve ser apreendida de maneira genera- lizada, posto que, em alguns casos, como no movimento de jovens mulheres pelo parto hu- manizado, a biossociabilidade é uma conquista política. A formação de uma rede de mulheres na luta pelo parto humanizado, com tarefas constantes de conscientização sobre seus cor- pos, evocando “poderes de parir” e seus bene- fícios fisiológicos, torna-se uma atitude trans- gressora à “ordem” contemporânea que coloca a grande maioria dos partos como um evento necessariamente médico e hospitalar. Para as ativistas, enquanto o sistema de saúde não se transforma e não se “humaniza”, o hospital se encarna como um ambiente “desumano” e bas- tante perigoso por seu intervencionismo tecno- lógico, daí o simbólico parto domiciliar.

Assim, a percepção das mulheres em rela- ção ao poder/saber médico exercido sobre seus corpos e sexualidade, sobressai, e uma disputa de discursos médico/paciente é travada nas re- des diariamente, desconstruindo, com relatos, vídeos, e fotos, grande parte da “autoridade” de recomendações médico-institucionais. “Pacien- tes” engajadas sistematizam todo um enredo empírico-científico contra práticas hegemôni-

artigos e documentos da OMS e da MBE, dispo- níveis na internet.

Danielle Freitas: A felicidade não cabe em mim, quando uma mulher pari em casa!!!!! Esse bebê já nasceu remando contra a maré!!!!!08

Nessa fala, a integrante do grupo virtual Roda Gestante elogia uma mulher que postou seu relato e fotos da hora de seu parto domi- ciliar. Danielle metaforiza que o bebê nasceu “remando contra a maré” justamente porque o parto domiciliar se apresenta para essas mu- lheres como a maior manifestação individual de transgressão ao jogo mercadológico e autoritá- rio que envolve a medicina obstetrícia e os hos- pitais nesse momento. É notório, portanto, que uma atividade naturalmente fisiológica como o parto, e tradicionalmente comum, como o “anti- go” parto em casa, possa ser uma das maiores referências e exemplos para um movimento so- cial. Tal como o autor Robert Darton (1986) des- creveu sobre o massacre de dezenas de felinos durante a Revolução Francesa como forma de protesto e deboche ao principal bicho de esti- mação da Elite Real, aqui, a referência à quebra de uma lógica hegemônica dá-se a partir de um evento no mínimo curioso, que é parir como nossas avós, mas, principalmente, demonstrar a todos, por meio da internet, que foi capaz de parir, que acreditou em seu próprio corpo, e não o disponibilizou à médicos e hospitais.

Ganha sentido “fazer movimento com as próprias mãos”, isto é, contrariar toda uma ideo- logia que medicaliza o nascimento e “violenta” mulheres, com uma atitude individual, parti- cular, em casa, na presença de família, tirando foto, postando imediatamente na rede. Vê-se assim um modelo de narrativa política bastante subjetiva, e privada, mas que afeta um imenso coletivo de mulheres.

ABDEL-MONEIM, (2002) chama de “teatro da resistência” os adereços, fotos, vídeos, gritos de guerra e entrevistas de ativistas dissemina- dos pela web. Nessa mediação, as “guerrilheiras virtuais” em suas constantes produções, tam- bém promovem o aparecimento de esquemas de solidariedade e comunicação, onde, nesse caso, a história individual e privada da vida ma- terna das mulheres é acionada cotidianamente em público.

Por todas essas expressividades, o mo- vimento de jovens mulheres pelo parto hu- manizado, em sua face virtual, demonstra que a forma de transformar uma sociedade, ou no mínimo um grande problema para as mulheres,

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tem funcionado com a publicação de bastante informações e experiências de outras mulheres. E que essa estratégia, aparentemente simples, não se separa da lógica em se opor e recusar todo um sistema de dominação nas ruas, com barricadas. Também um movimento social não contesta a ordem vigente apenas com apelos racionalizantes, genéricos, e universais. É pos- sível que a luta em defesa de nossos corpos em um momento de nossas vidas, que é o ato de parir, tenha implicações e repercussões sociais de grande extensão. A esperança de que vídeos e relatos de partos humanizados e domicilia- res lançados na web comovam outras mulhe- res, bem como a divulgação de dados de saúde baseado em evidências científicas resgatem sua autoconfiança, pode estar consagrando va- lores de militância calcados na ideia de que a ação coletiva pode se expressar em curtidas e compartilhamentos, não se reduzindo necessa- riamente a elas, mas confiando nelas como alia- das das mobilizações, que diariamente seriam quase impossíveis no plano offline.

Como salienta Filho (2005), muitas cul- turas juvenis da atualidade não se confundem com gritos de desistência política ou de passi- vidade, ao contrário aliam criatividade, prazer, ideologia, hedonismo e macropolítica. De acor- do com o autor, a prosperidade do uso da comu- nicação baseada no computador, por exemplo, ao contrário de apenas promover o jovem no mercado global e/ou no fetichismo da merca- doria, como muito se reduz seu papel dentro da esfera virtual, serve agora de ferramenta na elaboração de estratégias contra-hegemônicas. A organização de atos de desobediência civil e ações políticas antiglobalização, tem en- contrado opositores, em sua maioria jovens, na rede mundial de computadores.

A internet oferece relatos, fotos, tes- temunhas e pontos de vista mais di- versificados sobre as motivações e os desdobramentos dos carnavais antica- pitalistas, em contraste com a cober- tura da corrente central da mídia, que costuma enfatizar os “atos irracionais

09 Entrevista feita em 05 de junho de 2014 com coordenadora do grupo do Facebook chamado Roda Gestantes.

de desordem” o “caos no trânsito”, a “destruição do patrimônio público”, os “atentados contra propriedade priva- da”, minimizando a violência policial e silenciando e diluindo as perspectivas críticas dos insurgentes- afinal, como levar a sério as reivindicações de um bando de vândalos e lunáticos exóti- cos, contrários aos desígnios do merca- do, este santuário da sensatez? (FILHO, 2005, p. 154).

Não faltam predicados inovadores para caracterizar a paisagem política que alia juven- tude e internet. No ciberespaço, presenciamos verdadeira quebra das noções de política dentro de determinada instituição; também se alimen- ta a ideia de que tanto no plano natural quanto no artificial, teria validade atuar na vida pública. A capacidade de interferir nas rotinas e suge- rir condutas mais éticas, enérgicas, reforçando direitos, criando polêmicas e alterando pontos de vista, salienta um desejo de participação bastante aflorado entre as jovens conectadas. O nível de liberdade de expressão estimulado e vivenciado por essas jovens ampliam enorme- mente, e de maneira recíproca, a promoção de uma sociedade sem vínculos padronizados de atuação política, sem correspondência à “ordem burguesa” de prática política democrática. De certa forma, as relações convencionais de po- der são desmaterializadas, pois as jovens, uti- lizando-se da mediação do computador, trans- cendem às “normas de etiqueta” impostas pelo conjunto do imaginário político tradicionalista.

Como se viu, a constante contribuição que a juventude militante de mulheres pelo parto humanizado fornece e absorve na internet vem promovendo um emaranhado de novos hábitos tanto para movimentos quanto para as próprias militantes, isso porque a condição tecnológica propicia modos diferenciados de relação. Reu- niões e assembleias dantes centralizadas em estruturas sólidas e hierárquicas, na internet, por exemplo, multiplicam seu funcionamento, e tornam mais difícil a cooptação e centralização de pessoas em torno de lideranças, partidos, etc.

Um modo de participação menos centralizado na figura de líderes e instituições, e mais pau- tado por apelos imagéticos e informação, de- senvolve, portanto, elementos inovadores para pulsões políticas, orientando e desestruturando uma diversidade de situações, que, sobretudo vêm se construindo com mais individualidade e autonomia por cada internauta, pois, com o aparato tecnológico minimizador da noção de grupo e território, adquire-se dimensões pró- prias de temporalidade, vontade, interesse, e território.

Se a maioria das jovens ativistas contri- buem para ações políticas virtuais, destaca-se ora similaridades entre a esfera virtual e a esfera presencial, ora diversidades. A interativi- dade entre esses dois mundos, dialeticamente, impõe acordos de projetos políticos juvenis não engajados necessariamente na lógica de refe- rências concretas e materiais, por exemplo, há militantes que se filiam a grupos que nunca co- nheceram na forma presencial, ou seja, não de- mandam referências presenciais. Das 3 coorde- nadoras de grupos virtuais entrevistadas, todas já participaram de grupos políticos que nunca conheceram na forma off line. A coordenadora do grupo “Roda Gestantes” salienta que “o Roda começou a partir de um grupo de mulheres que até então existia apenas no Orkut ”09.

A busca por direitos e justiça social em sua face virtual, ainda ganha entornos significativa- mente pessoais, pois mesclam projetos particu- lares (publicação de fotos de família, de amigos, imagem de bichos, de comidas), com denúncias sérias à toda ordem social. É possível que o perfil virtual de uma militante do movimento pelo parto humanizado contenha informações e conteúdos políticos, e paralelamente, imagens e vídeos de toda sua história pessoal.

Finalmente, precisamos, no entanto, levar em conta não somente o vigor tecnológico, mas também a força e a capacidade imaginativa das jovens que se vivifica a partir de dinâmicas de entretenimento, auto imagem, conflitos, e ideo- logia política. Para a coordenadora do grupo Pediatria Radical “a internet ajuda a bagunçar ainda mais, dá prazer e excitações”.

Referências

ABDEL-MONEIM, SARAH GRUSSING. O Ciborgue Zapatista: tecendo a poética virtual de resistência no Chiapas cibernético. Rev. Estud. Fem., Jan 2002, vol.10, no.1, p.39-64. ISSN

0104-026X

DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos, e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

DINIZ, Carmen Simone Grilo. Humanização da assistência ao parto no Brasil: os muitos sentidos de um movimento. Ciênc. saúde coletiva vol.10 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2005.

DOSSIÊ PARA A CPMI DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES. Violência Obstétrica “Parirás com dor” elaborado pela Rede Parto do Princípio. 2012

FILHO, João Freire. Das subculturas às pós subculturas juvenis: música, estilo e ativismo político. Contemporânea, Vol. 3, n 1, p. 138-166, 2005

MALINI, Fábio; ANTOUN, Henrique. Ontologia da liberdade na rede: a guerra das narrativas na internet e a luta social na democracia. Rev. Famecos – Mídia, Cultura e Tecnologia.

Sept-Dec, 2010, Vol. 17(3).

MANNHEIM, Karl. O problema da juventude na sociedade moderna. In: Diagnóstico do nosso tempo. Rio e Janeiro: Zahar, p. 36-61, 1961.

PAIS, José Machado. A construção sociológica da juventude: alguns contributos. Análise Social, vol. XXV, p. 139-165, 1990.

ORTEGA, Francisco. Práticas de ascese corporal e constituição de bioidentidades. Cadernos Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 2003, 11(1): 59-77.

TORNQUIST, Carmem Susana. Parto e poder: o movimento pela humanização do parto no Brasil. 2004. Tese de Doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina.

JUVENTUDES E INFÂNCIAS L ATINO -AMERIC ANAS : A EXPERIÊNCIA D A ESC OL A DE P ÓS -GR ADUA ÇÃ O

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