2. A integração entre Teoria da Escolha Pública e Escola Austríaca de
2.1.1 Auto-interesse dos agentes públicos e privados
2.1.1 Auto-interesse dos agentes públicos e privados
34 A questão do auto-interesse dos agentes públicos tornou-se objeto de extenso estudo pela TEP, pois ele acaba influenciando a atuação do Governo como um todo. Esta atuação geralmente é baseada em ações que beneficiem o interesse coletivo, que obteve grande apoio de teorias consideradas convencionais.
A TEP se contrapôs as teorias predominantes no pós-guerra, sendo elas inspiradas na teoria de Keynes, a qual é pautada na capacidade do processo político adotar medidas impulsoras do bem coletivo e de o Estado ser corretor de “falhas do mercado”. A confiança no Estado se dava a partir de uma crença em que o controle estatal sobre as variáveis econômicas era o mais eficaz possível e que as elites tecnocratas eram motivadas principalmente pelo bem comum (BORSANI, 2004).
A capacidade dos atores políticos de serem motivados apenas pelo interesse público foi questionada com a consolidação da TEP no final dos anos 1950. Desde então a intervenção do governo para a correção das “falhas de mercado” foi examinada pela TEP. Esta sugere que os servidores públicos são seres humanos guiados pelos seus próprios interesses. Logo, o processo de tomada de decisão por parte de políticos e burocratas segue uma mesma lógica do que a do consumidor e do empresário (BORSANI, 2004).
Nesse sentido, não existe diferenciação de atuação do indivíduo no âmbito público e no privado, ou seja, o sujeito sempre terá motivações próprias para a sua tomada de decisões, sejam elas no âmbito público ou privado. Tal conceito pode ser considerado simples, mas é primordial para a quebra de parâmetro comumente adotado pela sociologia e ciência política, de maneira que a condução da vida pública possa ser diferente da condução da vida privada pelo mesmo indivíduo (CRUZ, 2011).
Com a premissa de que as pessoas sempre buscam seus interesses próprios e os políticos vivem para ganhar eleições, a teoria discute que as escolhas coletivas sempre serão resultado de um embate de preferências individuais. Desta forma, consolida-se a ideia de que os servidores públicos não são funcionários com a finalidade única de representar a vontade do povo (BUCHANAN, TULLOCK, 1963).
TEP apoia-se na perspectiva econômica de individualismo metodológico. Ela utiliza uma abordagem econômica considerando para destacar que o indivíduo (tanto na esfera pública quanto na privada) é guiado pelo seu interesse próprio e exibe comportamentos alinhados com a hipótese de maximização de utilidade (MUELLER, 1989).
35 TEP faz usa da mesma abordagem de interesse próprio para analisar o “mercado”
político. Desta forma, ela permite o estudo da política “sem romance”. Em tal perspectiva os agentes são guiados por incentivos e, por isso, um ambiente de contratos com transparência e mecanismos de freios e contrapesos (checks and balances) fazem-se indispensáveis para evitar
abusos de poder (BUCHANAN, 1984).
Sendo assim, a TEP apoia-se na metáfora de mercado político para compreender as motivações econômicas dos agentes públicos e as consequências econômicas da capacidade que eles têm de interferir na troca de direitos de propriedade e na vida econômica através de regulações, impostos, subsídios, créditos direcionados a determinados grupos de interesse (TULLOCK, SELDON, BRADY, 2002).
2.1.2 Ignorância Racional
A abordagem econômica do comportamento político, a TEP, faz-nos refletir sobre como as decisões coletivas são construídas, principalmente na escolha dos representantes públicos.
Vale ressaltar que a decisão eleitoral também se dá em contexto de informação assimétrica.
Ademais, os custos da ação coletiva tendem a ser dispersos e os benefícios, concentrados.
Com relação à tomada de decisão eleitoral, pode-se dizer que o candidato tenta extrair as preferências dos eleitores para prometer o que eles querem (TULLOCK, SELDON, BRADY, 2002). Entretanto, vale lembrar que eleitores têm conhecimento limitado e não possuem informações completas sobre os candidatos, gerando, assim, consequências de suas ações em termos de ganhos pessoais e de bem-estar coletivo.
Além disso, o indivíduo racional percebe que seu voto não define o resultado de uma eleição (DOWNS,1957). Logo, o custo marginal para um eleitor mediano se informar sobre os impactos da ação coletiva e investidas dos representantes políticos comumente supera o benefício marginal. Ademais, o sistema de maioria amplamente utilizado gera algumas considerações importantes por parte de dos especialistas em TEP (BORSANI, 2004). Por outro lado, grupos de interesse financiam campanhas para obterem rendas de privilégio em um ambiente de interação, no qual os custos de determinadas intervenções do Estado na economia são dispersos e os benefícios concentrados (BUTLER, 2015).
36 Os benefícios podem ser entendidos como uma questão de se incentivar uma determinada área na economia. A isenção do imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a indústria automobilística pode ser um bom indício de incentivo dado pelo governo a uma indústria específica em detrimento de arrecadação, vista como custo para a sociedade (PEREIRA, 2007).
Assim temos um exemplo de custos dispersos, entendido como a arrecadação que não foi contabilizada e o benefício dado a indústria automobilística.
Desta maneira, a TEP prevê que candidatos fazem recorrentemente promessas pouco críveis para eleitores mal informados (importantes em um regime de votação com regra de maioria) e beneficiam de fato grupos de interesse bem informados que financiam as suas campanhas. Tal abordagem permite examinar criticamente a visão de que a intervenção do Estado na economia maximiza bem-estar social e resolve falhas de mercado (MURAMATSU;
ORLANDI, 2017).