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REGIÃO UF INTOLERÂNCIA RELIGIOSA EDUCAÇÃO NOS TERREIROS TOTAL

3. QUESTÕES METODOLÓGICAS

3.7 Auto Reflexividade.

Ingressar no Mestrado em Educação do Centro Acadêmico do Agreste em Caruaru foi fruto de um percurso que envolveu não só luta como também uma história de quatro tentativas não bem sucedidas em outras instituições, contudo com um projeto que não tinha nenhuma relação com a temática atual.

Hoje, com maior amadurecimento acadêmico e espiritual, reflito que a minha pesquisa é fruto de um compromisso social para com o povo de santo, que é também meu povo, diante dos episódios de exclusão social que essa parcela da população vem vivenciando no decorrer da história. Por isso, que a minha seleção só ocorreu no tempo certo com esse projeto.

Logo após o resultado da aprovação na seleção do Mestrado, ocorreram os primeiros contatos com os terreiros de Caruaru. Nesse sentido, contei com a ajuda imprescindível da Sra. Graça Costa, Sacerdotisa de Umbanda do Recife, pessoa muito articulada no meio afro-brasileiro e que me apresentou o Profº. Ary Velozo, da Secretaria da Mulher de Caruaru, numa festa de Jurema que aconteceu em Dezembro de 2011 na praia de Boa Viagem em Recife-PE.

Acredito que não foi o acaso, visto que este trabalho vem sendo traçado pelos Orixás desde sua ideia inicial. Então, o Profº Ary Velozo, protegido de Ogum e Exu, Orixás que dentre outros atributos possuem a chave dos caminhos e da comunicação, abriram os meus rumos no campo de pesquisa, permeando o acesso aos terreiros em Caruaru.

Começo do mestrado, a vida dividida.

A experiência de fazer um mestrado em outra cidade levou-me ao afastamento do convívio diário com a minha família, pois tive que estabelecer residência em Caruaru. Não só para facilitar a minha presença nas aulas que aconteciam durante a semana, como também visando à aproximação com os terreiros, que ainda estava em fase de visitas

prospectivas em busca de um que oferecesse melhores adequações aos objetivos da pesquisa.

Durante esse período nada foi fácil, primeiro as idas e vindas pela BR-232, que sempre me causaram ansiedade e certo medo de não chegar, em seguida morar num bairro de difícil acesso ao Campus do Agreste e longe dos meus, diferente de minha realidade do Recife, onde resido vizinha a meus pais no bairro que se situa a Reitoria do Campus da UFPE.

Tudo mudou e não foram poucos os obstáculos a serem enfrentados, problemas sérios de saúde na minha família e depois em mim. Demandas afetivas de meus filhos, no casamento e muitas cobranças. Tudo isto ocorreu em simultâneo no primeiro ano do meu mestrado. Mas felizmente tudo foi superado, com sofrimentos, mas também com redenção. Tudo isso me angustiava, atrapalhava a minha concentração e somatizava na minha saúde, e mais um problema uma forte crise de coluna em vésperas do depósito do projeto de qualificação. Todavia os Orixás sempre estiveram do meu lado e aquilo era um tempo de aprendizado, para que eu pudesse passar pelos problemas sem perder o foco nos meus objetivos. Era a busca do autocontrole, movido pela determinação. Num desses momentos minha orientadora me disse:

- É fácil viver uma vida elevada, enclausurado num mosteiro. Difícil é viver uma vida elevada, com muitos problemas tendo que encará-los todos de uma vez. Isto sim é difícil, mas é necessário, ainda mais quando se está a fazer um mestrado.

Então, consegui ultrapassar os problemas familiares, e passei a vivenciar alguma autonomia, ao me afastar do convívio diário familiar com seus problemas, para poder cursar as disciplinas do mestrado e assim, trabalhar na busca incessante de concentração – tive que aprender - para leitura e escrita em meio às dificuldades. Foi uma conquista que veio de uma luta travada diariamente.

Contudo, com a ajuda de meus Orixás e dos meus protetores espirituais, conseguimos a nomeação do meu primogênito no concurso público que por sinal foi em Caruaru e passamos residir juntos. Tornou-se mais afetiva minha estadia nesta cidade. Superada a fase mais difícil dos problemas pessoais, pude reorganizar a minha vida e

passei a me dedicar ao trabalho de campo nos terreiros e a fase da dissertação tornou-se mais tranquila, possibilitando uma entrega total a pesquisa.

Contribuição do Candomblé para a vivência pessoal

Estar num terreiro de Candomblé como pesquisadora e ao mesmo tempo tendo mediunidade não foi nada fácil para mim. A energia dos Orixás que circundam no Candomblé é muito forte e contagiante, então tive que desenvolver estratégias de autocontrole para não perder o foco na pesquisa.

No começo, principalmente na hora em que se chamava o Orixá Xangô ao Aiê, o meu peito apertava e a minha pulsação acelerava, as pernas tremiam, com os mesmos sintomas de transe vivenciados na Umbanda, contudo de uma forma mais intensa. No entanto, eu dizia para mim mesma: - Estou aqui como pesquisadora, preciso me controlar, senão ponho tudo a perder. Pedia Agô ao Rei de Oió, o Orixá Xangô, e voltava para o meu eixo. Na medida em que o tempo passava fui adquirindo o autocontrole e a função da pesquisadora prevaleceu, desta forma, eu aprendi a lidar com o ambiente sem me deixar ser levada pelas emoções e sensações da experiência acadêmica dentro do terreiro.

Outra aprendizagem importante foi o refinamento de minha percepção em relação aos processos de manifestação espiritual, passando a olhar com mais perspicácia e espírito crítico o fenômeno do transe. No Candomblé existe uma postura rígida em relação a esse processo, não é a qualquer momento que a incorporação acontece e nem tampouco qualquer pessoa que entra em transe e vai tumultuando a sequência do ritual. Existe muita disciplina dos médiuns e as entidades respeitam e aprendem a se comportar de acordo com as determinações superiores. A comunicação com os Orixás é algo forte, contudo controlado, disciplinado. Isto foi uma lição de vida para mim, pois me ensinou que mesmo estando sobre forte influência de uma outra personalidade que se funde com a nossa, as regras do ambiente devem ser respeitadas. O domínio da psiquê, mesmo diante do envolvimento com o sagrado é algo difícil, mas se for trabalhado é possível de ser contornado.

Em relação à Educação nos Terreiros tive a oportunidade não só investigar como também aprender heranças da tradição africana que são revividas em cada ato que aproxima as pessoas que compõem o Candomblé aos Orixás. No Candomblé aprendi também uma lição que levarei para toda vida de que não existem barreiras entre as

religiões e que lá se exercita a interculturalidade, pois todos são bem vindos ao Reino dos Orixás.

No Candomblé não há fronteiras, não há etnias, não há diferença religiosa, tudo se intercomunica num exercício constante da interculturalidade, na relação que são travadas entre os seus membros e entre os que lá chegam. A dimensão divina é respeitada e todos independente de suas crenças, sua cor, ou identidade cultural, dança e canta para o santo e recebe o seu Axé. Não há barreiras, os caminhos são sinônimos de possibilidades. Todos e todas são bem vindos.

Na escrita desse trabalho dedicado ao Candomblé e ao Povo do Santo também não houve barreiras. Na dimensão do sagrado, todos se intercomunicaram, o universo conspirou ao nosso favor. As barreiras quem criam somos nós os seres humanos. No mundo espiritual não existem divisões. Candomblé, Umbanda, Jurema, Kardercismo e as demais religiões e seu patamar sagrado se comunicam entre si. Eles trabalham sem fronteiras no propósito de tornar o mundo mais humano, minimizando as injustiças e comungando do amor universal.

No campo me fiz pesquisadora, e nas dobras da experiência me humanizei, pois ao aproximar-me do sagrado me renovei e emancipei a Ariene que mora em mim.