CAMINHOS PARA PRODUÇÃO AGROECOLÓGICA NO ASSENTAMENTO CUNHA
AUTONOMIA CAMPONESA PARA A PERMANÊNCIA NA TERRA
Neste capítulo analisaremos o domínio dos insumos pelos assentados, resultado do diálogo com organizações governamentais de pesquisa e assistência técnica agropecuária, entre outras entidades, e também das redes de troca locais camponês-camponês, intra e inter Assentamento Cunha. Além também da situação de controle dos canais de comercialização, fruto da ação dos movimentos sociais, das organizações parceiras e das estratégias dos próprios camponeses. Esses elementos subsidiaram a análise da renda apropriada pelas famílias. No capítulo também destacaremos as dificuldades para consolidar a transição agroecológica, e as conquistas já efetivadas no assentamento com a adoção da agroecologia.
4.1. Produção agroecológica no Assentamento Cunha: o controle dos insumos e dos canais de comercialização
No gráfico 19 são apresentados os sujeitos e organizações com os quais os camponeses aprenderam a realizar a produção agroecológica. Como destacado nos capítulos 2 e 3, o conhecimento intergeracional foi importante para a agricultura camponesa com princípios agroecológicos e é derivado também, da baixa capitalização das famílias e da precariedade das políticas públicas.
No entanto, apesar de descontínua, a ação de instituições e fundações, como: Serviço Nacional de Aprendizagem (SENAR), Fundação Banco do Brasil, Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Goiás (EMATER-GO), Serviço de Aprendizagem Industrial (SENAE), Universidade de Brasília (UNB), SEBRAE, Instituto de Permacultura, Organização Ecovilas e Meio Ambiente (IPOEMA), Empresa de Assistência Técnica Rede Terra e, principalmente, EMBRAPA Cerrados e Hortaliças contribuíu para a adoção de práticas agroecológicas.
Nesse contexto, os assentados mencionaram cursos de olericultura, minhocultura, suinocultura, apicultura, de adubação orgânica, de correção de solo, de controle natural de
“espécies-praga”, de tratamento de animais, de manuseio de sementes, de produção de sementes, de cultivo de banana e mandioca, de formação de viveiros de espécies do Cerrado, entre outros desenvolvidos pelas instituições citadas. Nesse sentido, o senhor Olavo declara:
“Eu fiz curso técnico de produção orgânica com o MST/EMBRAPA, depois fiz na UNB curso
Eu fiz curso do SENAR, da Fundação Banco do Brasil sobre produção orgânica, gestão e empreendedorismo. Do SENAE fiz curso de minhocultura. Foi fornecida até uma apostila de orientação pra produção agroecológica. A maioria aqui fez os cursos do PAIS, além disso teve curso de apicultura e compostagem.
Os relatos comprovam a importância da rede política, formada para a produção agroecológica. Como destacado no capítulo 3, nessa rede, a EMBRAPA Cerrados teve papel fundamental, com experiências no coletivo “Eldorado dos Carajás.” Machado; Machado et al.
(2007) destacam o alcance, a dimensão e os resultados dos projetos desenvolvidos pelo Programa da Biodiversidade Brasil-Itália, com consequências para todo o assentamento.
No diagnóstico no Assentamento Cunha o autor ressalta que o grupo coletivo
“Eldorado dos Carajás” se encontra em transição para o manejo agroecológico, com baixa dependência de insumos externos. As estratégias que corroboraram para esse processo foram:
a promoção da agrobiodiversidade, por meio da diversificação genética de cultivos, com plantio de variedades de milho, mandioca, banana, abóbora, hortaliças, frutas e espécies nativas do bioma Cerrado.
Além da utilização de práticas de consórcios, rotações, sucessões de culturas, reciclagem de nutrientes, potencializadas pela integração lavoura/produção animal, uso de Gráfico 19 – Assentamento Cunha - Município de Cidade Ocidental –– Sujeitos e organizações com os quais os assentados aprenderam realizar a produção agroecológica – 2013.
Fonte: Pesquisa de campo – 2013. Organização: SILVA, Edson B. da.
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cobertura morta e adubos verdes, com utilização de mucuna cinza (Mucuna pruriens DC), preta (Mucuna aterrima), guandu anão (Cajanus cajan L.), crotólaria (Crótoloria breviflora), feijão de porco (Canavalia ensiformis) e amendoim forrageiro (Arachis pintoi krapovickas &
gregory), dentre outras espécies. Os autores, desse modo, destacam como principais práticas agroecológicas no coletivo “Eldorado dos Carajás”:
[...] integração da produção vegetal com a criação de animais, adubação orgânica por meio de compostos e biofertilizantes, consórcios e rotações de culturas, incluindo adubos verdes e cobertura do solo. Alternativa para preparo dos solos de modo a reduzir a necessidade de implementos pesados como a grade aradora [...]
bem como métodos de coleta e conservação da água e manejo de irrigação mais adaptados as condições locais. (MACHADO; MACHADO et. al, 2007, p. 28).
Machado; Machado et al. (2007) acrescentam que as experiências agroecológicas não ficaram circunscritas ao coletivo “Eldorado dos Carajás”. Outras dezenove famílias do assentamento se aproximaram do coletivo, formando o chamado grupo de cooperação. Nesse sentido, o senhor Ricardo destaca: “A Embrapa fez experiências no assentamento, quem quizesse eles faziam, fez até na área comum e foi importante.”
A partir das ações EMBRAPA/MST, além das de outras organizações, e da rede local camponês-camponês houve a difusão da produção agroecológica para todo o assentamento. A esse respeito, o senhor Reginaldo menciona: “Eu uso adubo de gado que recebo dos vizinho.”
No mesmo sentido, o senhor Otávio assevera: “Eu fiz troca de semente ano passado, de milho e feijão, com o vizinho.”
Portanto, a transição para a produção agroecológica no assentamento é fruto das redes políticas interna e dessas com redes externas ao assentamento. No gráfico 20 também se percebe esse processo, a maioria das famílias utilizam adubo de origem animal, proveniente da criação de galinhas e bovinos.
Esse processo corroborou para a autonomia relativa dos camponeses em relação aos insumos. Segundo o PR do Assentamento Cunha (2011), nele quarenta famílias utilizam adubação orgânica, vinte e três plantio em nível, doze rotações de cultura, onze cobertura morta, sete consórcios de cultivos e uma cerca viva.
Os assentados relataram que antes já realizavam o aproveitamento do adubo de origem animal, aprendida com os pais. Todavia, o diálogo com organizações parceiras como a EMBRAPA permitiu melhor aproveitamento desse recurso no local. O esterco do rebanho bovino e dos galináceos, além da utilização tradicional, se tornou um componente importante da compostagem e do biofertilizante.
Como se observa na foto 6, os assentados construiram galinheiros em piquetes para melhor aproveitamento do adubo, apesar de parte da criação de galinhas ainda ser realizada solta. O fato é que o camponês utiliza a criação dos galináceos e dos bovinos numa perspectiva multifuncional. Os primeiros produzem ovos, carne e fornecem adubos para a produção agroecológica. Os segundos fornecem carne, adubo e leite, matéria-prima para a fabricação de queijos, doces, requeijão, e funcionam como uma poupança estratégica para os momentos de crise. No gráfico 20 vê-se que o uso da compostagem também é representativo entre as famílias assentadas.
Na foto 7 se nota sua presença numa parcela do assentamento em questão. Para sua produção as famílias utilizam recursos locais, como a gramínea da variedade brachiária (Urochloa), o esterco de origem animal, além dos resíduos vegetais de bambu (Bambusa vulgaris schrad).
A brachiária é cortada nas parcelas ou na área do grupo coletivo “Eldorado dos Carajás.” A técnica de sua produção foi aprendida na relação com a EMBRAPA e, principalmente, com a Fundação Banco do Brasil e a Empresa de Assistência Técnica Rede Terra.
Gráfico 20 – Assentamento Cunha - Município de Cidade Ocidental – Tipos de adubo utilizados pelas famílias assentadas, segundo os assentados entrevistados – 2013.
Fonte: Pesquisa de campo – 2013 Organização: SILVA, Edson B. da.
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Fa rinha de osso Pó de rocha Ba ga ço de ca na Ca lcá rio Aduba çã o verde Biofertiliza nte Composta gem Esterco de origem a nima l
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Nº de famílias