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Autonomia, diversidade cultural e identidades

PARTE I – AUTONOMIA INDIVIDUAL: O IDEAL NA IMPERFEIÇÃO DOS QUOTIDIANOS

1.2. Autonomia, diversidade cultural e identidades

A autonomia direcciona o indivíduo para o dispor de si, para uma manifestação de exercício soberano face ao seu percurso e fins. Numa estrutura de valores que encoraja ou mesmo obriga à escolha e à decisão, os caminhos individuais possíveis e concretos multiplicam-se e complexificam-se, em incontáveis combinações biográficas. Se hoje esta é uma evidência da comunicação de todos os dias ou algo naturalizado na reflexão individual quotidiana, um mais profundo olhar indica que corresponde antes a uma característica historicamente situada da modernidade. A primazia do self face à expressão do colectivo, como traço característica da individualidade que hoje conhecemos, não é de todo um dado transhistórico. O facto de se atribuir maior importância àquilo que distingue as pessoas umas das outras, ao invés do que aquilo que elas têm ou possam ter em comum é uma característica estrutural das sociedades dos nossos dias (Elias, 2004). Para o citado autor, a identidade do self confere assim uma resposta simultânea à questão de quem somos do ponto de vista individual e de quem somos do ponto de vista social. Uma vez que o “eu” não existe sem o “nós”, nesta relação a única coisa que muda é a posição relativa de um em relação ao outro.

A crescente diferenciação social das sociedades, será, porventura, o elemento mais mobilizado na constatação e na justificação do surgimento do tema do indivíduo. A uma sociedade pouco diferenciada, com poucos espaços sociais de movimento, corresponde um indivíduo pouco singularizado, porque essencialmente ligado à tradição e ao reduzido questionamento que esta implica (Beck & Beck-Gernsheim, 2002; Beck, Giddens, & Lash, 1994; Giddens, 1994). No reverso, sociedades complexas, porque profundamente diferenciadas, criam e estimulam as condições sociais necessárias a uma crescente singularização.

Nas sociedades ocidentais contemporâneas, o reconhecimento das diferentes identidades culturais é um ponto aberto de discussão, cuja pertinência se encontra estritamente ligada à vivência democrática liberal (Martuccelli, 1996; Taylor, 1994). A exigência e as pressões sociais em torno deste reconhecimento surgem por se atribuir algum nível de relação entre “reconhecimento e identidade, significando este último termo qualquer coisa como a maneira como uma pessoa se define, como é que as suas

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características fundamentais fazem dela um ser humano” (Taylor, 1994, p. 45). Conforme vimos nas secções anteriores, também esta é uma noção moderna, cuja familiaridade se entranha nos quotidianos, ao ponto de não mais se estranhar qualquer discurso que em seu torno se teça.

O desaparecimento das hierarquias sociais, estritamente associadas à noção de honra, e a emergência das identidades individualizadas, já no final do século XVIII, em estreita ligação ao ideal de autenticidade individual, são as bases histórico-filosóficas que propulsionaram a noção de identidade individual (Taylor, 1994). Na opinião deste autor, é Johann Gottfried von Herder (1744-1803) que proporciona uma ênfase muito particular a estas ideias. Não sendo o seu criador, Herder articula-as de forma inovadora, afirmando que cada pessoa tem a sua maneira original de ser humano. O seu contributo afirma-se como fracturante, uma vez que antes do seu tempo, ninguém havia considerado que as diferenças entre sujeitos pudessem, alguma vez, assumir este nível de importância moral. O que surge então é que se alguém não viver “à sua maneira”, deixa de compreender o significado da sua vida (Taylor, 1994).

As identidades constituem-se como um processo, como algo que muda ao longo do curso de vida. A noção de identidade é algo escorregadia. Profusamente utilizada, mas escassamente definida, variando as definições de acordo com o campo disciplinar, não deixa, contudo, de ser central aos diferentes debates científicos. No domínio sociológico, e não só, a importância das identidades reside no facto de serem, entre outros elementos, formadas pela existência ou não do seu reconhecimento, ou, noutro patamar, pelo seu reconhecimento incorrecto (Taylor, 1994). Qualquer uma destas formas sociais de reacção ou de invisibilidade social podem distorcer ou perverter a forma como pessoas ou grupos se vêem a si mesmos, com o inerente prejuízo nas suas vidas e respectivas concretizações. Neste âmbito, e abandonadas as formas de hierarquia social até então dominantes, os eixos de diferenciação social entre indivíduos foram, e de forma diversa ao longo da modernidade, esgrimidos em processos vários de reclamação de reconhecimento e da respectiva dignidade. Nas palavras de Jürgen Habermas (2010), a modernidade “vai de mãos dadas com uma diferenciação e simultânea destradicionalização de um mundo da vida que, de um modo desconcertante, perde os seus traços, que absorvem a contingência da

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familiaridade, transparência e fiabilidade” (p. 321). Nesta perspectiva, a modernidade é muitas vezes vista como uma força que promove a desintegração social, pelo acrescentar de uma vasta complexidade social.

Assim, as sociedades contemporâneas, mais do que em qualquer outro período anterior, lidam de forma particular com o fenómeno do multiculturalismo. Não tanto como uma propriedade da sua estrutura, uma vez que as sociedades nacionais de classe também foram atravessadas por diferenças culturais, quer ao nível regional, quer ao nível comunitário-classista (Martuccelli, 1996). Antes, e para o citado autor, o interesse em examinar a ideia de uma sociedade multicultural está no dilema moderno

que coloca às identidades na sua articulação com a esfera política.

O multiculturalismo questiona, ao nível prático e intelectual, o implícito democrático da universalidade face à demanda social (Martuccelli, 1996). As reivindicações de carácter particular – próprias do multiculturalismo – têm por objecto direitos que se sugerem como dificilmente universalizáveis e os conteúdos destas reivindicações terminam a questionar os limites institucionais fixados pela liberdade negativa. Nas palavras do referido autor, “os indivíduos já não se satisfazem com uma identidade privada e, a partir daí, a extensão do processo de individualização é acompanhada da afirmação pública das identidades” (Martuccelli, 1996, p. 20).

As diversidades só podem tornar-se politicamente significativas no interior de uma concepção liberal (Martuccelli, 1996). Para o citado autor, a adopção de tal perspectiva exige que se abandone a concepção de igualdade no interior de uma concepção global da injustiça (a qual remete para uma situação estrutural de dominação e exploração), para se passar para uma concepção de justiça social enquanto igualdade de oportunidades. Com esta passagem, “a sociedade deixa de ser concebida como um lugar de conflito, para tornar-se o lugar de uma corrida social” (Martuccelli, 1996, p. 21, ênfase nosso). É neste âmbito que emerge o conceito de equidade, como reconhecendo a pertinência política das especificidades culturais dos indivíduos e dos grupos, bem como a aceitação do tratamento diferenciado destes.

Na presença de uma sociedade multicultural, a liberdade positiva, ou seja, a liberdade de um sujeito colectivo, torna-se a liberdade de um sujeito individual. Reconhece-se a autodeterminação de um sujeito individual enquanto membro de um

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grupo. O que é específico da modernidade é que se pode considerar esta uma

autonomia individual, e não mais a da expressão de uma comunidade (Martuccelli,

1996). Por outras palavras, ao primado da vontade geral enquanto essência do político, sucede o primado da política da autenticidade. Os indivíduos procuram afirmar-se positivamente na cena social, enquanto tal, num processo de individualização crescente, pelo que, por exemplo, as gramáticas de género, sexuais ou étnicas “nada mais são do que signos precursores de um processo mais geral” (Martuccelli, 1996, p. 22). Assim, a modernidade vem defender a ideia de que cada indivíduo possui um carácter único e potencialidades especiais, que podem ou não vir a ser realizadas, em função das circunstâncias e dos contextos (Giddens, 1994).

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