• Nenhum resultado encontrado

Autonomia do aluno no aprendizado de línguas estrangeiras

No documento 2007IvomarAntonioSpilmann (páginas 51-55)

1.4 Abordagem comunicativa: formação do professor e a autonomia do

1.4.2 Autonomia do aluno no aprendizado de línguas estrangeiras

A AC concebe o ensino e a aprendizagem como um processo dinâmico, que se desenvolve num determinado espaço (sala de aula), tendo por base o diálogo e a troca de experiências entre o professor e os alunos. Isto significa que para ambos são atribuídos novos papéis e responsabilidades, pois, numa metodologia mais tradicional, o aluno limitava-se a executar o que lhe era pedido ou exigido.

Ao professor cabe a responsabilidade de organizar o processo de ensino- aprendizagem, criando reais oportunidades do aluno aprender, e estimulando-o a tornar-se um aprendiz autônomo. Contudo, essa tarefa deverá ser dividida com o próprio aluno que passará a ter um papel muito mais ativo no processo, facilitando o desenvolvimento da sua independência e também responsabilidade pela própria aprendizagem.

Antes de discutir este assunto, é necessário fazer uma revisão sobre os conceitos de autonomia e, mais adiante, responsabilidade dentro da literatura.

Inicia-se pela definição dada pelo Dicionário Aurélio (2000, CD-ROM):

Autonomia: [Do gr. autonomía.] S. f. 1. Faculdade de se governar por si mesmo. 2. Direito ou faculdade de se reger (uma nação) por leis próprias. 3. Liberdade ou independência moral ou intelectual. 4. Distância máxima que um veículo, um avião ou um navio pode percorrer sem se reabastecer de combustível. 5. Ética. Condição pela qual o homem pretende poder escolher as leis que regem sua conduta [Cf., nesta acepç., autodeterminação (2), heteronomia (2) e liberdade (11)].

Já dentro da área da lingüística, começa-se pela definição de Holec (1981, p. 3) que diz que autonomia: “É a habilidade de se responsabilizar pela própria aprendizagem”. No nosso entendimento, este conceito pode ser viável se o aprendiz está cercado pelos elementos que propiciam esta habilidade: material didático, abordagem do professor e senso de responsabilidade do aprendiz.

Este senso de responsabilidade é corroborado por Dickinson (1987, p. 9) quando afirma: “Um aprendiz autônomo é aquele que é totalmente responsável para tomar decisões que dizem respeito à sua aprendizagem e para implementá-las”.

Porém, ter responsabilidade pela própria aprendizagem não é uma afirmação que pode ser dada a qualquer aprendiz de língua estrangeira. O autor também sugere que a

autonomia é um objetivo da educação mais do que um procedimento ou método, e que o treinamento do aprendiz é a chave para a autonomia.

Todavia, “autonomia é uma capacidade que pode ser aprendida” segundo as palavras de Candy (1989, p. 101). Esta afirmação é também aceita por Dickinson (1987), que apresenta quatro sugestões de como o professor pode promover a independência do aluno: legitimando a independência no aprendizado demonstrando que o professor aprova e encoraja esta atitude; convencendo o aprendiz que ele é capaz de ser independente e que isso será mais eficaz no seu aprendizado; oferecendo ao aluno oportunidades de exercitar sua independência (através de projetos, por exemplo); ajudando o aprendiz a desenvolver técnicas (estratégias de aprendizado) para que ele possa exercitar sua independência.

Autonomia no aprendizado é essencialmente uma questão de atitude quanto ao aprendizado. Um aprendiz autônomo é aquele que toma para si a responsabilidade de seu próprio aprendizado, mas que possui ao seu redor elementos motivadores que propiciem esta independência.

De acordo com Dickinson (apud LEFFA, 1994, p. 5):

Autonomia é um objetivo da educação mais do que um procedimento ou método e o treinamento do aprendiz é a chave para a autonomia, ou seja, o aprendiz deve ser envolvido no processo de tomar as decisões necessárias sobre seu aprendizado.

Quanto ao aprendiz, Littlewood o define da seguinte maneira:

Podemos definir uma pessoa autônoma como aquela que tem a capacidade de fazer escolhas e conduzir suas próprias ações. Esta capacidade depende de dois componentes: habilidade e desejo. Assim, uma pessoa pode ter a habilidade de fazer escolhas independentes, mas não sentir nenhuma vontade de implementá-las (porque tal comportamento não é, por exemplo, percebido como apropriado ao seu papel em uma determinada situação). Por outro lado, uma pessoa pode ter o desejo de exercitar escolhas independentes, mas não ter a habilidade para fazê-lo. (1996, p. 428).

O aprendiz eficiente como sendo capaz de aprender independentemente e deliberadamente através da identificação, formulação e reconstrução de objetivos, o uso de um planejamento estratégico, o desenvolvimento e execução desses planos e o engajamento em monitorar-se.

Ainda segundo Wang e Peverly (1986), essas estratégias de aprendizado são divididas em cognitivas e metacognitivas. As estratégias cognitivas envolvem formas conscientes de lidar com as atividades. Por exemplo, um aluno pode memorizar uma lista de palavras repetindo-as ou pode decidir por associar cada palavra da lista com um objeto na sala em que está estudando. As estratégias que o aluno decide tomar são selecionadas através de operações mentais – o aprendiz deve assegurar-se de que sabe o que a atividade requer para selecionar a estratégia cognitiva apropriada para realizar. Esse controle do processo de aprendizado se chama de estratégia metacognitiva. A atividade deve ser identificada, possibilitando ao aprendiz perguntar-se qual é a atividade, que tipo é e se já fez isto antes.

A importância da autonomia é relevante no processo de aprendizagem de línguas estrangeiras, pois quando os alunos conseguem autonomia no seu aprendizado, eles se tornam aprendizes mais eficazes e levam isto para além da sala de aula, transferindo as estratégias de aprendizado de línguas para outras atividades. De acordo com James e Garret (1992), a consciência quanto ao uso da língua e sobre sua individualidade cultural é uma área que vem sendo analisada e discutida por professores e pesquisadores.

Porém, esta capacidade de ser ativo e independente no processo de aprendizagem da L2 requer treinamento por parte dos professores para que seus alunos sejam orientados a, gradativamente, desvencilharem-se da dependência do professor e de sua própria comodidade e tentar, por si sós, compreenderem o processo para adquirirem a nova língua. E, para que os aprendizes sejam envolvidos no processo de aprendizagem, discorrem Scharle e Szabó (2000), primeiro eles precisam perceber que o sucesso da aprendizagem depende de ambos – alunos e professores - e que devem partilhar a responsabilidade. Quanto aos alunos, estes obterão um desenvolvimento melhor se tiverem o senso de responsabilidade. Personalidade, estilos preferidos de aprendizagem e atitudes culturais também estabelecem limites para o desenvolvimento da autonomia.

Entretanto, os alunos, mesmo pertencendo a uma comunidade lingüística e social semelhantes, podem não sentir-se confortáveis em abordagens individuais,

preferindo atividades coletivas, não desejando ou sendo, talvez, incapazes de desenvolver, inicialmente, uma atividade individual. (SCHARLE e SZABÓ, 2000, p. 5).

Alguns alunos podem sentir-se acuados em trabalhar sem a supervisão do professor ou, ainda, não gostarem de atividades de conversação aberta onde não exista apenas uma resposta correta e vejam no professor uma figura de autoridade, que está sempre presente para dizer a eles o que fazer. Estas possibilidades são constantes em qualquer ambiente ou comunidade em que o aluno estude ou resida. Cabe, então, aos professores, analisar e avaliar estas prerrogativas e saber, ou tentar saber, como superá-las.

Os LDs aqui analisados – e que seguem um modelo comunicativo - apresentam suas atividades e exercícios considerando que os alunos possuem autonomia e conhecimento suficientes para formular suas próprias regras ou que os professores devam instruí-los para atingir esta capacidade. Porém, considerar uma teoria que envolva o aprendizado de línguas como sendo algo que possa ser utilizado amplamente em qualquer parte do mundo sem que haja alterações e observações quanto ao perfil da comunidade lingüística a ser trabalhada, é considerar que o LD utilizado supre todas suas necessidades e entende sua cultura. Assim como todos os demais países, o Brasil possui sua própria identidade educacional e cultural que, por sua vez, diverge em cada região do país. Há, então, que se esquadrinhar melhor a área em que o professor atua, conhecer e diagnosticar o perfil daquela comunidade e do grupo de alunos que formam a escola para, então, treinar os alunos a desenvolverem a autonomia desejada e, não ocorrendo o sucesso desejado partir, talvez, para outras técnicas e métodos que auxiliem o aluno a compreender a estrutura que se quer.

O processo para se obter a autonomia do aluno nem sempre é eficaz apenas para aquele momento e deverá ser repetido incessantemente durante o curso devido à falta de capacidade do aluno em compreender – até mesmo na L1 – o que é ser autônomo.

Ao analisar a autonomia do aprendiz no ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras deve-se perguntar também se o aprendiz possui responsabilidade em seu aprendizado. Aprendizes responsáveis, segundo Scharle e Szabó (2000, p. 3) “São aqueles que aceitam a idéia de que seu próprio esforço é crucial ao progresso na aprendizagem, assim como seu comportamento”. Portanto, ao realizar as tarefas solicitadas pelo professor, o aluno não está simplesmente acatando uma ordem, mas se esforçando para aprender algo. Ainda segundo Scharle e Szabó (2000), os aprendizes devem ter o desejo de cooperar com

o professor e os colegas no aprendizado em grupo para o benefício de todos. Não é apenas a cooperação, entretanto, que qualifica um aprendiz responsável, mas o monitoramento do seu progresso para obter proficiência na L-alvo. Embora se tenha mencionado o termo responsabilidade com mais ênfase apenas no final deste item, ela não é uma continuidade da autonomia, mas um requisito para que o aluno se torne autônomo. No ensino de línguas, os professores podem oferecer todos os inputs e requisitos necessários para o aprendizado, mas este só acontecerá se os aprendizes têm o desejo de contribuir, ou seja, o sucesso da aprendizagem depende muito da responsabilidade dos aprendizes em obter o máximo de aproveitamento das aulas e isso inclui o desejo de tornar-se autônomo, independente, absorver o máximo das aulas e de sua própria capacidade cognitiva.

No documento 2007IvomarAntonioSpilmann (páginas 51-55)