1 PANORAMA INTERNACIONAL: ASPECTOS GERAIS E DOUTRINÁRIOS DA
1.9 PREVIDÊNCIA SOCIAL – SETOR DE SEGURIDADE SOCIAL
1.9.4 Autonomia do Direito da Seguridade Social
A seguridade social é constituída por princípios próprios e normas que regulam as instituições de Saúde, Previdência Social e Assistência Social.
Para fins didáticos, fala-se da autonomia do Direito Previdenciário, um dos ramos da Seguridade Social, objeto de estudo nesse trabalho acadêmico, não somente com enfoque no âmbito nacional, mas especialmente sua extensão e real efetivação no campo do Direito Internacional Público e Privado no Mercado Comum do Sul, no âmbito político e Constitucional.
A autonomia do Direito Previdenciário, como acontece em qualquer ramo do direito, merece ser investigada sob três aspectos básicos: legislativo, didático e científico. Sob o enfoque legislativo, a autonomia configura-se de forma expressa na Constituição Brasileira em vigor, in verbis: “Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: XXIII – seguridade social”.
A autonomia de competência privativa, da União expressa, nesse artigo, no âmbito do Direito Público Interno, é absoluta no Estado brasileiro, em função de outro impedimento constitucional de transferência de soberania, que é da competência exclusiva do Congresso Nacional, conforme dispõe o art. 49 da CF/88, in verbis: “É da competência exclusiva do Congresso Nacional: I – resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional”.
Existe um significativo avanço jurídico no campo do Direito Público externo (Direito Internacional Público e Privado), em direção ao Direito da Integração que foi permitido de forma expressa na Constituição de 1994 da Argentina, que possibilitou a recepção da regra
49 Conforme Leite et al. (1963, p. 46), “Já mencionamos que a previdência social só se tornou viável quando o Estado, trazendo para sua órbita as técnicas e finalidades do seguro privado e do mutualismo instituiu o seguro social, de caráter compulsório. Com efeito, pode-se ter como pacífico que foi a obrigatoriedade que deu ao seguro social condições de sobrevivência inexistentes ou sobremodo precárias, para as classes assalariadas, tanto no mutualismo quanto no seguro privado”.
comunitária no ordenamento jurídico nacional, caracterizado, especialmente, quando deixou de forma expressa, in verbis:
Art. 75, inciso XXIV - aprobar tratados de integración que deleguen competências y jurisdicción a organizaciones supraestatales em condiciones de reciprocidad e igualdad, y que respeten el orden democrático y los derechos humanos. Las normas dictadas en su consecuencia tienen jerarquia superior a las leys.
Art. 75, inciso XXIV - aprovar tratados de integração que deleguem competências e jurisdição às organizações Supranacionais, em condições de reciprocidade e igualdade, e que respeitem a ordem democrática e os direitos humanos. As normas ditadas em sua conseqüência têm hierarquia superior à das leis.
O Estado-Parte argentino aceita juridicamente a possibilidade da Supra- nacionalidade, conforme dispõe o art. 31, da Constituição de 1994, ao desigualar os tratados de integração, mas ao mesmo tempo estabelecer uma hierarquia própria, conferindo a esses tratados e as suas normas, superioridade em relação às leis pátrias, prevalecendo o direito de integração (comunitário).
A Constituição do Paraguai segue o mesmo caminho, ao assegurar um novo Direito, o da Integração (comunitário) de forma expressa ao possibilitar a criação de uma nova ordem jurídica Supranacional, que irá efetivar os direitos Internacional Público e Privado, fazendo com que os entraves (embates) políticos, possam ser solucionados pelos demais Estados Partes (Brasil e Uruguai), via Congressos Nacionais, assim, não menos importante, o disposto no texto constitucional, in verbis:
Artículo 145. Del Orden Jurídico Supra-nacional.
La Republica del Paraguay, en condiciones de igualdad con otros Estados, admite un orden jurídico Supra-nacional que garantice la vigencia de los derechos humanos, de la paz, de la justicia, de la cooperación y del desarrollo, en lo político, económico, social y cultural.
Dichas decisiones sólo podrán adoptar-se por mayoria absoluta de cada Cámara del Congresso.
Artigo 145. Da Ordem Jurídica Supranacional. A República do Paraguai, em condições de igualdade com outros Estados, admite uma ordem jurídica Supranacional que garanta a vigência dos direitos humanos, da paz, da justiça, da cooperação e do desenvolvimento político, econômico, social e cultural. Ditas decisões somente poderão adaptar-se por maioria absoluta de cada Câmara do Congresso.
O Brasil e Uruguai são os únicos dos Estados-Partes do MERCOSUL, que criam óbices em suas Constituições em vigor, nas quais inexiste qualquer dispositivo que expressamente atue na direção de um Direito de Integração (Direito Comunitário). Embora, no caso do Brasil, as relações internacionais devam orientar-se pelo legislador pátrio, com os
princípios fundamentais, contidas no parágrafo único do art. 4º da CF/88.
Nesses casos, em relação à autonomia legislativa, no campo do Direito Previdenciário para um Mercado Comum de Trabalho, dependemos de alguns requisitos básicos50. Com relação aos Estados-Partes Argentina e Paraguai, há significativo avanço no
campo das relações internacionais (via constitucional), para efetivação de um Direito à Integração Regional, que iria viabilizar, a longo prazo, a uniformização da legislação previdenciária51.
Em sentido inverso, os Estados-Partes (Brasil e Uruguai), mantêm regras constitucionais impeditivas nos seus textos a respeito de uma ordem jurídica Supranacional, contrariando o disposto no parágrafo único do art. 4º da CF/88 (Brasil).
O estabelecimento de uma ordem jurídica Supranacional para o MERCOSUL, somente será possível através de reformas nas Constituições dos Estados Partes Brasil e Uruguai.
Sob o enfoque didático, o Direito Previdenciário, foi incluído nos cursos de graduação em Direito, como uma disciplina do ramo de Direito Público Interno e até em currículos de pós-graduação; o que lhe dá completas características de um ramo de direito autônomo, mas afim com outros ramos de direito.
Quanto a sua autonomia científica, os elementos se tornam também evidentes, esse ramo de Direito tem suas fontes de informação, integração e de interpretação em princípios próprios do seu tronco jurídico maior – Direito da Seguridade Social, o qual possibilita constituir um sistema de proteção legal unitário para estudos de seus conteúdos jurídicos, distinguindo-se dos demais ramos de Direito.
O Direito Previdenciário possui terminologias próprias (termos, expressões ou categorias jurídicas), igualmente distintas dos demais ramos do Direito, a exemplificar as mais usuais nas Academias ou foros judiciais: Beneficiários: Segurados e dependentes, Manutenção e Perda da Qualidade de Segurado (período de graça), Inscrição, Matrícula, período de carência, salário-de-contribuição, salário-de-benefício, renda mensal do benefício,
50 “De fato, a questão da livre circulação de trabalhadores não conta de forma explícita entre as normas que
instituíram o MERCOSUL. O Mercado Comum, todavia, depende de um mercado comum de trabalho, que há de preencher os seguintes requisitos básicos:
a) favorecer a liberdade de acesso de trabalhadores de um Estado-membro aos postos de trabalho em outros Estados-membros;
b) garantir um tratamento paritário em relação ao trabalhador dispensado tanto quanto aos trabalhadores do lugar onde o serviço tenha sido prestado; manter uma disciplina previdenciária durante e após a cessação do trabalho”. (MATTIOLI, 2008).
51
Conforme Martinez (1995, p.242): “Algum dia poderá ser chamado de Direito Internacional Previdenciário. Ele tem por base, profunda solidariedade Internacional”.
reajustamento do valor dos benefícios, benefícios, contagem recíproca de tempo de serviço/contribuição, etc.