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CAPÍTULO 2 DO ORDENAMENTO JURÍDICO

2.2 Autonomia do Direito Processual do Trabalho

A teoria geral do processo é a parte da ciência jurídica que se ocupa em estudar as generalidades do processo como um todo, organiza os institutos fazendo um complexo de valores, diretrizes, regras, princípios e fontes que servem amplamente, independentemente do ramo do direito especificado.

Trata-se de um sistema metodológico, induzido ao grau máximo de generalização. Tratam de objetivos relacionados aos valores fundamentais da sociedade, de natureza jurídica, social e política.

A Teoria Geral do Processo traz os tópicos comuns de cada ramo do direito processual, identificando suas generalidades, o que pode ser aplicado a todos os ramos, como princípios gerais de todos os subsistemas processuais.

Numa palavra, a teoria geral do processo permite, a um só tempo, o livre trânsito de idéias entre os diversos ramos do direito processual, propiciando uma fonte permanente de atualização dos diferentes subsistemas processuais, bem como as noções gerais das finalidades do direito processual.

Isso não significa, porém, que não haja diferenças entre os diversos ramos do direito processual. Ao revés, é absolutamente necessário reconhecer as peculiaridades inerentes a cada ramo do direito processual, o que permite um estudo separado para cada espécie de processo.50

A teoria geral do processo harmoniza os diferentes sistemas processuais a partir da definição de diretrizes e objetivos comuns. Ao tratar de atividades relacionadas ao exercício do poder, garante de forma ampla a todos o contraditório e o procedimento legal. Igualmente comuns a todos os ramos do direito processual, os princípios do juiz natural, contraditório, duplo grau de jurisdição, economia processual, publicidade, persuasão

racional, contraditório, além de outros meios ligados à defesa como recursos, preclusão, coisa julgada, competência.

Nessa perspectiva é que se deve compreender a autonomia de cada ramo do direito processual, propiciando assim, que os diversos processos cumpram os seus escopos em harmonia com os valores objetivados pelos diferentes direitos materiais a que servem.51

Diferenciam alguns autores, a teoria geral do processo com a do processo do trabalho, em razão da universalidade da primeira, que traz os grandes conceitos, as generalidades lógicas e universais condizentes a todos os ramos do direito processual. A última, mais delimitada, traz as generalidades e universalidades dentro da especificidade do direito do trabalho, é o geral mas dentro das particularidades trabalhistas.

Nesse sentido, embora consciente de que o direito processual do trabalho seja um ramo autônomo, o mesmo não se encontra isolado, mas integra o direito processual e a teoria geral do processo, como uma unidade de raciocínio “[...] ligada ao objetivo final e comum de todos os ramos do direito processual, que é atender os escopos do sistema processual de natureza social, política e jurídica.” 5253

Não temos dúvida de que o direito processual do trabalho seja autônomo em relação ao direito processual civil e penal.

Esta autonomia do direito processual laboral, no sentido de diferenciação, é decorrente e própria da permeabilidade do processo (oriunda de seu caráter instrumental) às influências relacionadas ao modo de ser do direito material, posto à base da pretensão processual, e aos valores específicos da realidade fática a axiológica da relação jurídica material.

É inquestionável que o processo trabalhista, em si, é diferenciado do processo civil. Até porque, processo significa relação jurídica processual, associada ao procedimento, e os procedimentos dos processos trabalhistas

51

Nesse sentido: LEITE, C.H.B., 2004, op. cit., p. 35

52 CASTELO, Jorge Pinheiro. O direito processual do trabalho na moderna teoria geral do processo. São Paulo: LTr, 1996, p. 23.

53

Em sentido contrário temos: “Os princípios de todos os ramos do direito não penal são os mesmos (celeridade, oralidade, simplicidade, instrumentalidade, publicidade etc.), e os institutos também (relação jurídica processual, revelia, confissão, coisa julgada, execução definitiva etc.). assim, do ponto de vista jurídico, a afinidade do direito processual do trabalho com o direito processual comum (civil, em sentido lato) é muito maior (de filho para pai) do que com o direito do trabalho (que é objeto de sua aplicação). Assim acontece com o cirurgião de estômago, cuja formação principal pertence à clínica cirúrgica, mais do que à clínica médica, que estuda o funcionamento e tratamento farmacológico daquele órgão. Isso leva à conclusão de que o direito processual do trabalho não é autônomo com referência ao processual civil e não surge do direito material laboral. O direito processual do trabalho não possui princípio próprio algum, pois todos os que o norteiam são do processo civil (oralidade, celeridade, etc.); apenas deu (ou pretendeu dar) a alguns deles maior ênfase e relevo. O princípio ‘em dúvida pelo mísero’ não pode ser levado a sério, pois, se se tratar de dúvida na interpretação dos direitos materiais, será uma questão de direito do trabalho e não de direito processual. E, se se plausibilidade, fontes de experiência comum, pela observação do que ordinariamente acontece (CPC, art. 335) ou contra quem possuía maior facilidade de provar etc.” CARRION, Valentin. Comentários à Consolidação das Leis do Trabalho. 32. ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 559.

têm notas peculiares e diversas daquelas presentes nos demais sistemas processuais.

Todavia, esta diferenciação do direito e do próprio processo trabalhista não deve levar a uma visão dissociada dos parâmetros jurídicos da teoria geral do processo, ou seja, dos escopos que permeiam e determinam o modo de ser da atividade jurisdicional.54

Ainda conforme Jorge Pinheiro Castelo55, para uma análise do sistema processual, deve-se ter como premissas:

a) consciência da teoria geral do processo com o reconhecimento da integração do direito processual do trabalho a esta teoria;

(teoria geral do processo estabelecendo parâmetros gerais a todas as esferas processuais e materiais)

b) reconhecimento do dualismo do ordenamento jurídico, plano material e processual, para análise dos diversos institutos processuais;

(o que auxilia numa análise harmônica e própria para cada instituto, com as soluções cabíveis a cada ramo, sem prejuízo do caráter unitário e indissociável do ordenamento jurídico).

c) o estudo do direito processual a partir da ótica da jurisdição e não da ação; em que a atividade jurisdicional, primeiramente (imediatamente), cumpre aos objetivos/interesses do estado (sociais, políticos e jurídico) e conseqüentemente (mediatamente), os objetivos/interesses dos particulares.

Nesse entendimento, deve-se observar o sistema processual na perspectiva de quem presta a jurisdição e não de quem pede a tutela jurisdicional. Sendo a jurisdição como exercício de poder, o tema central da teoria geral do processo.

A falta da consciência ou a análise das questões distantes das premissas elencadas, leva o judiciário a soluções casuísticas, possibilitando a existência de soluções controvertidas em casos semelhantes.

É o que, infelizmente, costuma ocorrer no universo trabalhista, em que o reclamante é tido como hipossuficiente e o Estado-Juiz passa a atuar em favor do mesmo

54 CASTELO, op. cit., p. 22. 55 Ibid., p. 18-21.

para compensar uma “suposta” desigualdade, deixando de efetuar uma análise livre de preconceitos, em prejuízo da harmonia do sistema processual laboral, dos grandes conceitos, princípios e estruturas do direito processual, feita dentro da ótica da teoria geral do direito processual.56

A efetividade do processo como instrumento de acesso à justiça, depende de que os operadores do processo tenham a consciência das noções fundamentais da ciência do processo, especialmente que o processo é um instrumento destinado a servir ao Estado e à sociedade no cumprimento de escopos sociais, políticos e jurídicos.57

Nesse sentido, é preciso superar a visão protecionista do judiciário brasileiro. É certo que a Consolidação das Leis do Trabalho, tem em sua origem histórica a formação de preceitos protecionistas, de garantias de direitos dos trabalhadores que eram explorados sem as mínimas condições de dignidade. Daí a necessidade de um ordenamento que valorizasse o trabalho e protegesse o trabalhador, o que foi feito. Agora, todavia, não cabe ao judiciário na resolução do caso concreto, valer-se de valores e posicionamentos tendenciosos, uma vez que o desequilibro entre as partes já foi devidamente compensado na realização das leis trabalhistas.