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Capítulo 1 – Economia Colonial e Independência

1.1 Economia colonial: um panorama da discussão recente

1.1.2 Autonomia do mercado interno e arcaísmo como projeto

Após a fase clássica da formulação e discussão de entendimentos e modelos explicativos para a economia colonial a produção historiográfica prosseguiu em pesquisas empíricas e novas formulações teóricas. Juntamente com as discussões a respeito das características dos processos amplos sobre a colonização moderna, realizaram-se novas pesquisas, abordando novas problemáticas e se utilizando de maiores acervos documentais31.

Em meio essas novas contribuições apareceu um grupo de pesquisadores empenhado em superar os modelos clássicos de interpretação da economia colonial. Dentro dessa nova fase da historiografia brasileira destacaram-se dois autores: João Luís Ribeiro Fragoso e Manolo Garcia Florentino. Suas propostas de explicação estão vinculadas aos desenvolvimentos de suas pesquisas empíricas, associadas em sua trajetória acadêmica às pesquisas de Ciro Cardoso e Maria Yedda Linhares. Seu enfoque esteve primordialmente nos setores produtivos associados a circuitos internos à economia colonial32.

O esforço empreendido pelos autores resultou numa série de obras publicadas e de pesquisas orientadas dentro da academia. Buscou dar um novo entendimento a economia colonial

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José Jobson de Andrade ARRUDA & José Manuel TENGARRINHA. Op. cit., 1999 e Diogo Franco MAGALHÃES. Op. cit., 2008, p. 106.

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Nesse ponto Magalhães nos chama a atenção para a insatisfação desses autores em relação ao enquadramento e compreensão da economia colonial unicamente a partir de suas relações externas, vinculada as transformações econômicas vividas na Europa. Diogo Franco MAGALHÃES. Op. cit., 2008, p. 106.

através do redimensionamento de algumas questões, como: a importância do mercado interno, sua autonomia relativa, o papel da escravidão, a importância das estruturas sociais e econômicas da metrópole portuguesa na configuração da sociedade e economia coloniais – vis-à-vis o entendimento da colonização moderna como um processo ligado a expansão comercial e transformações da economia europeia como um todo –, entre outras. Em suma, conferem aos mecanismos e processos internos ao território americano uma importância maior na explicação da economia colonial.

Assim posto, partiremos às contribuições dos dois principais autores dessa corrente historiográfica. Concomitantemente com sua pesquisa, João Fragoso procedeu a uma leitura própria das obras clássicas sobre economia colonial, a partir da qual instrumentalizou sua crítica e suas propostas33. Aqui nos valeremos da sua principal obra publicada, parte de sua tese de doutoramento – como já exposto anteriormente –, Homens de grossa aventura34. Obra que trata da acumulação mercantil e da hierarquia social e econômica na praça do Rio de Janeiro entre os anos de 1790 e 1830, portanto, uma região e uma conjuntura histórica específica.

Depois de apresentar a sua leitura a respeito das obras clássicas, elenca os principais traços estruturais da economia colonial presentes nas mesmas, de acordo com Fragoso (1998, p. 78)

a) produções voltadas para o mercado internacional — internamente, estas se assentariam no trabalho escravo (reproduzido externamente via tráfico atlântico) e na hegemonia de uma classe senhorial; b) transferência e apropriação de parte do sobretrabalho colonial pelo capital mercantil metropolitano, que controlaria assim o ritmo de reprodução da economia colonial; c) a economia colonial estaria desprovida de flutuações econômicas próprias; estas seriam determinadas pelas conjunturas do mercado internacional, das economias aí dominantes; d) em nível microeconômico, a unidade de produção colonial se reproduziria, em grande medida, à margem do mercado; e) como decorrência destes traços, teríamos a impossibilidade de um mercado interno colonial e, portanto, de acumulações endógenas coloniais dele derivadas.

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Um primeiro artigo sobre o assunto foi publicado em 1988: João Luís Ribeiro FRAGOSO. Modelos explicativos da economia escravista no Brasil. In: Ciro Flamarion CARDOSO. Escravidão e Abolição no Brasil: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. Para uma breve explanação da leitura e crítica de Fragoso às obras de Caio Prado Jr., Celso Furtado, Fernando Novais, Jacob Gorender e Ciro Cardoso ver Diogo Franco MAGALHÃES. Op. cit., 2008, p. 108-111. Jobson Arruda já nos adverte para a prática “da sistemática desqualificação dos interlocutores que delinearam o quadro mais geral das explicações. Daí, a tendência à radicalização dos escritos dos ‘adversários’, atribuindo aos mesmos afirmações que não fizeram, isto é, negar qualquer significado à produção interna no processo de constituição histórica da colônia”. José Jobson de Andrade ARRUDA. O sentido da colônia. Revisitando a crise do Antigo Sistema Colonial no Brasil (1780-1830). In: José TENGARRINHA (org.). História de Portugal. Bauru: EDUSC, 2001.

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Compartilhando o entendimento apresentado por Fragoso, Manolo Florentino, em seu trabalho, esteve largamente preocupado em refutar e desenvolver uma crítica às obras clássicas. Sua pesquisa dirige-se ao tema da escravidão e do tráfico de escravos, na qual o autor pretende incorporar as estruturas internas ao continente africano na explicação desse processo histórico de utilização da mão-de-obra escrava negra, conferindo uma maior importância à oferta de cativos. Sua indagação inicial, sob a qual construiu toda sua interpretação, refere-se ao fato de que se a escravidão e o tráfico são frutos de um projeto colonizador com hegemonia do capital mercantil europeu, como que persistiram entre os anos de 1810 a 1850. Visto serem apontados como contrários aos interesses do capital industrial europeu em desenvolvimento na época35.

Como resultado de um amadurecimento e compartilhamento de algumas teses defendidas pelos dois autores, esses lançaram O Arcaísmo como projeto36, obra na qual buscam uma síntese das proposições no sentido de superar os modelos clássicos de explicação da economia colonial. Nessa sobressai à importância das estruturas sociais e econômicas do reino português na conformação da sociedade e economia coloniais já estudadas pelos autores, conformando um sentido para a colonização portuguesa.

Vejamos a partir de então quais os argumentos que o autor desenvolve para superar tais elementos presentes nos autores criticados. Ou seja, quais as teses formuladas e defendidas a respeito da economia colonial.

Para entender a economia colonial e suas relações comerciais os autores chegam ao entendimento de que essa estava inserida dentro do que chamaram de Sistema Atlântico

Português – que compreende o fluxo de mercadorias e homens dentro do espaço do Império

português. O processo histórico de formação desse sistema – o projeto colonizador – deu-se como consequência, mais do que da intenção de criação de uma economia monocultora de exportação, de um projeto que visava reproduzir e estender no tempo e no espaço uma hierarquia altamente diferenciada37.

A colonização ultramarina, assim entendida, assume o formato de um projeto arcaico, quer dizer, transformou-se em precondição para a preservação no tempo da estrutura social da sociedade portuguesa. Sociedade essa caracterizada pela atrofia do setor agrícola, baixo desenvolvimento urbano e industrial e, concentração de pessoas em atividades não produtivas –

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Manolo FLORENTINO. Op. cit., 1997, p. 8.

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João Luís Ribeiro FRAGOSO e Manolo FLORENTINO. O Arcaísmo como Projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil em uma economia colonial tardia: Rio de Janeiro, c.1790-c.1840. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

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clero, fidalgos e mercadores38. Nesse ponto ganha força a ideia de atraso da sociedade portuguesa, ao qual esteve vinculada a formação das estruturas coloniais. O entendimento dos autores é de que a Expansão Marítima e a ulterior colonização americana modificaram a antiga sociedade e economia lusitanas para preservá-las no tempo39.

Analisando algumas características da sociedade portuguesa ao longo de todo o período que envolve a colonização americana, concluem que o século XVIII assistiu à sedimentação desse quadro. O comércio colonial tornou-se elemento fundamental para a manutenção da renda e da posição da aristocracia reinol vis-à-vis a incapacidade da estrutura agrária em manter tal condição. Tal aristocracia barrava uma possível modernização, por um lado, evitando o fortalecimento dos grandes comerciantes e, por outro, na persistência dos valores não-capitalistas em tal sociedade. Gerando assim, uma canalização dos recursos da empresa mercantil para atividades aristocratizantes40. De acordo com Fragoso e Florentino (2001, p. 52)

Daí também poder-se assumir que o ‘atraso’ português, em pleno século XVIII, não se constituísse em mero anacronismo, fruto de uma putativa incapacidade de acompanhar o destino manifesto capitalista europeu; ao contrário, o arcaísmo era, isto sim, um verdadeiro projeto social, cuja viabilização dependia, no fundamental, da apropriação das rendas coloniais.41

Tais teses conformaram e foram conformadas junto às pesquisas específicas dos dois autores. Pesquisas essas que concentram seu escopo de análise no mercado atlântico português, mas mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro42. Para Fragoso importa as relações dessa

38

Ibid., p. 42-43.

39 Aqui, retomando Vitorino M. Godinho e Charles R. Boxer, definem o papel da transferência de renda colonial para a

Metrópole: “a manutenção de uma estrutura parasitária, consubstanciada em elementos como a hipertrofia do Estado; a hegemonia dos Grandes da aristocracia que, diretamente ou indiretamente, viviam dos recursos do Ultramar; e o sustento de categorias sociais como o fidalgo-mercador e de sua contrapartida, o mercador-fidalgo”. Ibid., p. 42-43. Acreditamos aqui podermos fazer uma crítica pertinente ao entendimento da transferência de renda da colônia para a metrópole apresentada pelos autores. Não a entendemos como errada, mas talvez como incompleta – embora tal análise nos pareça mais sincrônica do que diacrônica, privilegiando os aspectos de permanência em detrimento dos de ruptura. Visto que, para explicar melhor o papel dessa transferência de renda ser necessário ainda completar a análise no que respeita as relações travadas pela metrópole portuguesa com o restante da economia européia. Aqui poderíamos encontrar outros mecanismos, outros processos em andamento, atentando para a necessidade de reportarmos para a totalidade do processo histórico em questão.

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João Luís Ribeiro FRAGOSO e Manolo FLORENTINO. Op. cit., 2001, p. 51-52.

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Seguindo a análise de Godinho, entendem as tentativas de modernização pela introdução de manufaturas, tanto no setecentos como no oitocentos, como meros estratagemas para enfrentar conjunturas de dificuldade na manutenção desse projeto arcaico. Passadas tais fases, o projeto arcaizante foi retornado com novo fôlego. Para a clássica interpretação das tentativas de modernização através do fomento manufatureiro, como indicado, ver Vitorino Magalhães GODINHO. Estrutura da Antiga

Sociedade Portuguesa. Lisboa: Arcádia, 1975, p. 89-93.

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A escolha da cidade do Rio de Janeiro foi justificada pelos autores por se tratar do pólo dinâmico da economia colonial portuguesa que despontava nos séculos XVIII e XIX. Por tratar-se de praça mercantil que aglutinava crescentemente as transações comerciais, formando um mercado expressivo e um entreposto comercial que ganhava em importância. Mantinha um comércio

praça mercantil com as demais regiões produtoras, na América portuguesa, a ela relacionadas – aqui nos referimos ao centro-sul brasileiro. Enquanto que Florentino tem por foco o tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro. O período a que se reportam compreende os anos entre 1790 e 1830.

Em suas formulações, os autores questionam vários dos elementos constantes nas interpretações a respeito da economia colonial. Um primeiro aspecto por eles contestado é o seu caráter extrovertido, o que implicará em refutar muitas das características a ele associadas na formação da sociedade brasileira. O primeiro indício apontado para tal foi, com base em alguns dados, a inferência de que essa economia apresenta autonomia frente às flutuações internacionais. O ciclo de Kondratieff que compreende os anos entre 1792 e 1850 possuí uma fase A, de crescimento, que vigorou no intervalo entre 1792 e 1815 e uma fase B, de depressão, que se estendeu de 1816 até 1850. Contudo, a agroexportação fluminense, mesmo com a queda dos preços internacionais, conseguiu manter o crescimento de suas receitas com o acréscimo dos volumes negociados. Tal tendência se manteve pelo menos até 183043.

Partindo para o estudo das estruturas e do funcionamento dessa economia, para assim captar os mecanismos que possibilitaram tal autonomia frente às oscilações externas, Fragoso focaliza sua análise nas relações internas ao território colonial do sul-sudeste as quais têm como centro dinâmico a praça mercantil do Rio de Janeiro. Ou seja, o entendimento dessa economia para além da plantation escravista-exportadora. Sua atenção se dirige para as outras formas de organização do trabalho e para as regiões nas quais não predominavam a grande unidade produtora escravista para exportação. São essas: as áreas do Rio de Janeiro destinadas à produção de alimentos, empregadoras de mão-de-obra escrava; o complexo agropecuário voltado para o abastecimento interno formado na região de Minas Gerais, fundado na combinação do trabalho escravo e camponês; as fazendas de criação e a agricultura de alimentos em São Paulo, não inteiramente escravista e empregadora de trabalho livre familiar; e a região sul, onde figuravam as estâncias-peonagem, a charqueada escravista e a produção camponesa de alimentos44.

A partir do estudo desse mosaico de formas não-capitalistas de produção é que Fragoso desenvolve o entendimento da colônia como uma formação econômica e social. Essas garantiriam o abastecimento interno e a hegemonia do escravismo colonial dentro dessa formação ativo tanto com os produtos de abastecimento produzidos nas regiões do centro-sul da colônia americana, quanto com os escravos vindos da África e com os produtos vindos da Europa e Ásia.

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João Luís Ribeiro FRAGOSO e Manolo FLORENTINO. Op. cit., 2001, p. 92-94.

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e constituiriam assim um mercado interno em grande medida responsável pela reiteração do escravismo colonial. Havia um mercado urbano e circuitos mercantis entre as regiões voltadas para o abastecimento, que tinham formas de organização do trabalho nas quais o fator trabalho não se constituía numa mercadoria plena. Aqui reside um dos principais fatores na constituição da autonomia da economia colonial: o baixo custo monetário dessas produções e a consequente oferta barata de mercadorias de abastecimento45.

Demonstrada as dimensões assumidas por esse mercado interno, seus circuitos mercantis e sua função na reprodução do escravismo colonial, passou-se então a afirmar a capacidade de internalização dos excedentes produzidos por parte de uma elite mercantil residente. Estavam criadas assim as possibilidades de acumulação endógena, ou seja, de reprodução e reiteração desse complexo econômico, garantidas pela maior retenção do sobretrabalho na economia colonial. A hegemonia da elite mercantil estava associada às estruturas não-capitalistas presentes nessas formas de produção, nas condições em que se efetuam os processos de reprodução endógena46. A frágil divisão social do trabalho, aliada a outras características das produções coloniais, gerava um mercado restrito, ou seja, marcado por poucas oportunidades de negócios, favorecendo a especulação, o monopólio e a prática de usura47.

Articulando tal entendimento da economia colonial com as estruturas históricas do Antigo Regime português, os autores promovem uma reinterpretação da empresa colonizadora da época moderna. A elite lusitana, permeada por um ideal arcaizante, promoveu a colonização como um meio de criar espaços para o desenvolvimento de atividades mercantis concomitantemente com a preservação das estruturas no território reinol. Sendo assim, ao criar espaços de ascensão social, tais como as atividades mercantis e mesmo administrativas, liberava a sociedade nobiliárquica portuguesa de tensões sociais48. Como aponta Magalhães, interpretada dessa forma, a colonização deixa de ser encarada como um movimento que contribuiria, em última instância, para a acumulação primitiva de capitais na Europa, e passa a ser entendida como

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Ibid., p. 144-147.

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Cabe aqui referirmos dois aspectos de importância para tal entendimento: primeiro, que o tráfico atlântico de escravos, entre a África e o Rio de Janeiro, constituía-se desde meados do século XVIII em um negócio interno, controlado por negociantes residentes; segundo, a baixa monetização era contornada pela formação de cadeias de adiantamento/endividamento, o que garantia e reforçava a hegemonia da elite mercantil do Rio de Janeiro, detentora da liquidez. Para o primeiro aspecto referido ver João Luís Ribeiro FRAGOSO. Op. cit., 1998, p. 159 e 174-178 e Manolo FLORENTINO. Op. cit., 1997, p. 111-139. Para o segundo aspecto ver João Luís Ribeiro FRAGOSO. Op. cit., 1998, p. 241-252 e João Luís Ribeiro FRAGOSO e Manolo FLORENTINO.

Op. cit., 2001, p. 203-219.

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João Luís Ribeiro FRAGOSO. Op. cit., 1998, p. 181-185.

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um projeto reacionário da elite portuguesa frente às transformações que ameaçavam as estruturas do Antigo Regime português49.

Depois de tal empreendimento, fundador de novas explicações para a economia e sociedade coloniais, outros pesquisadores se engajaram em novos temas, estando alicerçados em tais conclusões e buscando expandir as áreas em estudo. A coletânea O Antigo Regime nos

trópicos foi, portanto, organizada para reunir artigos referentes às pesquisas concluídas ou em

andamento que, de um modo geral, compartilhavam uma unidade de entendimento sobre a história colonial da América portuguesa. Fragoso, em um de seus artigos presente na obra, remonta sua pesquisa para os séculos XVI e XVII, buscando identificar os mecanismos presentes na formação da economia colonial no Rio de Janeiro. Hebe Maria Mattos redefine o entendimento sobre a escravidão moderna nos quadros do Império português. E Maria de Fátima Silva Gouvêa estuda o poder político e a administração na formação do que ela chamou de complexo atlântico português50.

Essa corrente historiográfica, que estava definindo novos rumos para as pesquisas históricas e para a elaboração de novas explicações, estava em certa medida conectada aos rumos em que a historiografia internacional tomava então. Russell-Wood nos reporta sobre as influências e as direções seguidas por essas novas pesquisas destacando o modelo de centro- periferia proposto por Edward Shils, a influência da noção de sistemas mundiais de Wallerstein e o conceito de autoridades negociadas de Jack Greene. Tudo isso se conforma na negação de um dualismo rígido entre metrópole e colônia e na refutação de uma sobrevalorização da esfera econômica. Retomando a questão do pacto colonial, sugere uma visão mais holista e flexível, que esteja atenta para os contextos e as práticas prevalecentes no mundo colonial51.

49 Diogo Franco MAGALHÃES. Op. cit., 2008, p. 113-114. 50

João Luís Ribeiro FRAGOSO. A formação da economia colonial no Rio de Janeiro e de sua primeira elite senhorial (séculos XVI e XVII). In: João FRAGOSO, Maria de Fátima GOUVÊA & Maria Fernanda BICALHO (Org.). O Antigo Regime nos

Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Hebe Maria

MATTOS. A escravidão moderna nos quadros do Império português. In: João FRAGOSO, Maria de Fátima GOUVÊA & Maria Fernanda BICALHO (Org.) O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Maria de Fátima GOUVÊA. Poder político e administração na formação do complexo Atlântico português (1645-1808). In: João FRAGOSO, Maria de Fátima GOUVÊA & Maria Fernanda BICALHO (Org.) O Antigo Regime

nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Podemos

considerar esses três artigos como as principais contribuições de autores brasileiros presentes na obra, também considerados e ainda analisados por Magalhães. Esse conclui que esses autores no seu conjunto “entendem que o nexo explicativo fundamental da realidade colonial não se expressava nas determinações advindas das relações de poder entre metrópole e colônia”. Diogo Franco MAGALHÃES. Op. cit., 2008, p. 122.

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A. J. R. RUSSELL-WOOD. Prefácio. In: João FRAGOSO, Maria de Fátima GOUVÊA & Maria Fernanda BICALHO (Org.) O

Ganhou força na historiografia internacional, principalmente a partir do Congresso Internacional de História Econômica realizado em Milão no ano de 1994, formulações que negavam a grande importância atribuída ao colonialismo no desenvolvimento capitalista europeu, que culminou na Revolução Industrial. A direção adotada era a de se desvencilhar das perspectivas totalizantes e seguir as evidências empíricas, que revelavam a pouca importância das relações econômicas entre metrópoles e colônias para o desenvolvimento daquelas. Privilegiavam-se as relações internas ao continente europeu, colocando a ênfase em transações nas quais não figuram a lógica de transferência de excedentes econômicos entre as regiões do planeta52.

Sobre a historiografia a respeito da colonização portuguesa na América, de acordo com Magalhães (2008, p. 126)

Entre os historiadores preocupados em estudar o conjunto das possessões portuguesas durante a época moderna, também ocorre uma transformação importante. As interpretações deixam de se pautar pela comparação e enquadramento dos processos de colonização portuguesa frente ao desenvolvimento geral do processo de colonização na era moderna, para dar ênfase às particularidades da sociedade, coroa e colonização portuguesas. Na nova perspectiva, são os valores do Antigo Regime português um dos principais