3 GESTÃO UNIVERSITÁRIA: TENDÊNCIAS E MUDANÇAS NO NOVO CENÁRIO
3.2 AUTONOMIA E COMPETITIVIDADE NA GESTÃO UNIVERSITÁRIA
Dois aspectos que consideramos centrais para tratar da gestão estratégica de IES são: a questão da autonomia universitária; e a competitividade no segmento. A nosso ver, se não houver consenso e liberdade quanto aos rumos a serem tomados pelas IES no que tange às 65
suas finalidades, qualquer modelo de gestão poderá ser meramente mais uma atividade burocrática que trará sobrecarga e acúmulo de funções e atribuições.
No escopo da discussão sobre suas finalidades, as IES precisam refletir sobre as relações de autonomia e competitividade. Para tanto, procuramos desenvolver a fundamentação teórica dessas duas definições diante das questões que envolvem o mercado e as constantes mudanças.
Mas o que significa autonomia na gestão universitária? A palavra autonomia é de origem grega e denota a ideia de direção própria, cujo surgimento se reporta ao início da idade média. Para Bevilacqua (1998, p. 202), “a autonomia é um atestado de maturidade da universidade e que pressupõe a capacidade de escolha da instituição”.
O autor sustenta-se na liberdade de escolha do corpo docente e demais pessoas que compõem a estrutura da universidade, ao afirmar que autonomia é acreditar, defender e seguir o que considera coerente, compreensível e aplicável no ponto de vista histórico da universidade. (BEVILACQUA, 1998).
Para Vogt (1998), a autonomia tem dois lados: o que ela significa do ponto de vista do funcionamento e da otimização das relações de gestão e de desenvolvimento interno das universidades; e o que ela significa nas relações da universidade com a sociedade. O autor discorre acerca da primeira possibilidade posicionando-se sobre como tornar a universidade independente. Essa lógica, por mais paradoxal que seja, afirma Vogt (1998, p. 205), “pressupõe que se dê ênfase aos aspectos técnicos e filosóficos que constituem a essência da vida e da atividade universitária. Já a segunda possibilidade, remete ao desafio de suprir as necessidades da sociedade no que tange ao ensino”.
Neste sentido, a autonomia leva a universidade à consciência de que não existe só para ela mesma e para a sua reitoria, mas também para interagir com a sociedade e com os governos que as regulamenta. Ela existe para cumprir sua finalidade específica, mas, também, nas relações entre órgãos superiores e sua estrutura de decisão. Em outras palavras, importa como princípio de autonomia universitária a descentralização das decisões (VOGT, 1998).
Somos favoráveis aos posicionamentos de Bevilacqua e Vogt, pois consideramos que a autonomia universitária pressupõe liberdade de escolha e de decisão, ao passo que se torna necessário se alto conhecer e conhecer também as variáveis ambientais externas que podem afetar, positiva ou negativamente, sua estrutura. Assim, autonomia não quer dizer compromisso social, mas, o repensar da própria liberdade de escolha diante do que a
Outra estudiosa sobre a questão da autonomia na universidade, Oliveira (2001), aponta que a autonomia universitária não deve ser analisada em situações isoladas, mas, particularmente, no contexto maior, no qual se discute o verdadeiro papel da universidade e das perspectivas qualitativas de elevação dos padrões educacionais.
A autora afirma que autonomia “supõe conceitos que devem ser examinados em conjunto e num quadro de avaliação dos impactos, implicações e conseqüências que são capazes de provocar” (OLIVEIRA, 2001, p. 113).
Na visão da autora, a universidade possui uma forma diferenciada de autonomia, a qual emerge da óptica de pensar a instituição sob as diversas possibilidades que tem para definir seu caminho, tanto de ensino como de pesquisa e de extensão (OLIVEIRA, 2001).
Discordamos em parte da afirmação de Oliveira, pois consideramos que esse contexto de autonomia da universidade não se aplica às IES privadas. A nosso ver, nas IES privadas, não existe essa liberdade de escolha e decisão descentralizada. Também nas IES públicas existe certo enfrentamento da falta de liberdade de decidir os rumos da pesquisa, pois criticamos o atual modelo que se subordina aos interesses do mercado. Sendo esse modelo aprisionador e condicionador dos rumos da pesquisa para interesses específicos de determinado setor.
Embasamos nossa posição, por meio do pensamento de Boaventura de Souza Santos, um dos principais pesquisadores do ensino superior, que remete a falta de autonomia da universidade ao seu posicionamento sobre o mercado, o Estado, e até mesmo à sociedade. Posicionamo-nos no sentido de que as universidades, especialmente as públicas, não podem condicionar-se a produção de conhecimentos visando atender especificamente as necessidades do mercado.
Somos adeptos também da utilização equilibrada do uso das práticas empresariais por parte das IES, visando, mormente, a resgatar sua autonomia e consequentemente, estando preparadas para as mudanças decorrentes desse cenário globalizado.
Ademais, consideramos que as universidades precisam conhecer-se para analisar com precisão os prós e os contras das mudanças de que necessitam para então direcionar seus esforços na busca e obtenção da qualidade de ensino e prestação de serviços à sociedade. A partir daí, conhecendo sua realidade, poderia produzir conhecimentos visando não somente a contribuir com o desenvolvimento do país, mas, sobretudo, de uma sociedade mais justa, crítica e sabedora de seus direitos.
De acordo com Melo (2000, p.55), para que a universidade tenha condições de se autoproclamar autônoma, é preciso que a mesma detenha a posse e os subsídios necessários para realizar, de maneira eficiente, eficaz e efetiva, suas tarefas e ser útil à sociedade.
“As IES, para gozarem de certa autonomia, tanto as públicas, quanto privadas, devem realizar auto-avaliações periódicas para discutirem seus caminhos e direções tomados ao longo de suas histórias, principalmente porque, explica o autor, ‘a modernização das universidades dependem de dois aspectos: (1) ter autonomia decisória e financeira; (2) contribuir para o desenvolvimento do país com responsabilidade’” (MELO, 2000, p. 56).
Nesse sentido, a autonomia teve, tem e sempre terá um lugar especial nas discussões sobre os avanços e retrocessos da universidade, o que nos ajuda a compreender sua essência.
Melo (2000, p.56) resume enunciando que:
“As universidades, independente da competitividade externa, precisam de autonomia para o desenvolvimento de políticas internas que estimulem a integração entre os processos participativos e de decisão, visando alinhar o desenvolvimento institucional ao regional/nacional”.
A explicação do autor é justificada num contexto de dentro para fora. No entanto, quando o cenário é analisado de fora para dentro, parece-nos que a competitividade mostra-se como um desafio à autonomia da universidade. Nosso entendimento se baseia num importante pesquisador do ensino superior na América Latina, Pablo Gentili, que afirma ser a universidade, em especial a pública, vítima de diversas ações para reduzir sua força e torná-la distante da função social de educar, sendo determinada pelos graus de eficiência, eficácia, efetividade e produtividade, movida pela competitividade.
Gentili (2001, p. 98) afirma que, para as IES públicas, os principais desafios que se apresentam são:
“O financiamento público incipiente; a reestruturação jurídica do sistema; redefinição do papel do estado; e a avaliação da produtividade institucional são práticas neoliberais que visam desestruturar as universidades públicas e que tende a um processo de terceirização do ensino, o que se lhes impõe uma reconfiguração do modo de ser e fazer educação superior”. Compartilhamos da mesma visão de Gentil num ponto. Nossa sustentação, assim como a do autor, é de que existe uma estratégia expansionista das universidades privadas movidas pela competitividade e busca pelo lucro. Porém, quando nos voltamos para as IES
públicas, verificamos que, mesmo em proporção menor que as IES privadas, existe2 um
aumento da quantidade de IES públicas no Brasil, nos últimos anos, e que os investimentos estão se expandindo gradativamente, mesmo que desproporcionais à sua estrutura acadêmica. Sendo assim, consideramos que a afirmação de Gentili se revela desatualizada, pois, tanto as IES públicas quanto as IES privadas têm sofrido mudanças em suas bases ideológicas e estruturais, dessa maneira, trilhando pelos caminhos da competitividade do ensino superior.
Colocamos aqui a competitividade, no contexto das IES privadas, como a busca por serviços inovadores que possam refletir na satisfação das pessoas, visando a alcançar um padrão de qualidade administrativa; expandir seus negócios por meio do maior número possível de clientes-alunos; e superando a concorrência, que se mostra igualmente nesse contexto. Já nas IES públicas, a competitividade revela-se como um fator de busca de novas alternativas para melhorar os serviços em todos os âmbitos; e no emprego de novas tecnologias e de inovação para tentar acompanhar a velocidade das mudanças.
Achamos ainda que a universidade no Brasil, com o processo de globalização, terá que introduzir em seus processos mecanismos que proporcionem melhores resultados na prestação de serviços à sociedade. Essa tendência, ora se mostra nos moldes das universidades norte-americanas, cujas bases seguem padrões empresariais, ora, apresenta-se num cenário de disputas políticas e econômicas, objetivando adequar-se ao uso de novas possibilidades de gestão e contribuir, de alguma forma, para o desenvolvimento do país, sendo ambas respaldadas pelas exigências da própria população.
Dourado (2003, p. 23) explica que as IES sofrem interferências internas e externas, e que essas interferências as tornam dependentes do ambiente externo. Para o autor, há várias forças que atuam interna e externamente para que as universidades, especialmente as públicas, modifiquem seu modo de ser e de agir, sendo o campo universitário marcado por disputas históricas de reestruturação do ensino, da pesquisa e da extensão. Essas forças, segundo o autor, são advindas do processo de competitividade a que se submetem as IES.