CAPÍTULO III A CONSTRUÇÃO DO SISTEMA DE JUSTIÇA XUKURU DO ORORUBÁ DO ORORUBÁ
OUTRA POSIÇÃO:
3.6. Autonomia e sujeito coletivo de direitos.
A fim de esclarecer o significado e alcance dos conceitos de autonomia e sujeitos coletivos de direitos no cenário político nacional e internacional, considero ser importante aprofundar essa discussão.
As transformações na relação do Estado com os povos indígenas foram consequência de uma conjuntura política internacional favorável, orientada pelos processos de descolonização dos Estados nacionais a partir da década de 1970. Destacando-se como importante marco histórico, a Declaração de Barbados I, de 30 de janeiro de 1971, exortava os Estados nacionais a romperem com as práticas colonialistas para assegurar que os povos indígenas possam viver segundo seus próprios costumes, conforme esclarece Lacerda (2008):
Para os subscritores da declaração de Barbados I, os Estados deveriam garantir às populações indígenas “o direito de serem permanentemente elas mesmas, vivendo segundo seus costumes”, de “se organizarem e de se governarem segundo sua própria especificidade cultural”, sem, contudo, impedir aos seus membros “o exercício de todos os direitos do cidadão”. Considerava como direito inalienável dos indígenas, o de
serem protagonistas de suas próprias mobilizações de emancipação e seu próprio destino. (LACERDA, 2008, p. 27)
No Brasil, as décadas de 1970 e 1980 foram marcadas pela emergência de inúmeros movimentos sociais que exigiam o fim da ditadura militar e a instalação de uma nova ordem política-econômica-social-cultural que não apenas devolvesse a democracia ao país, mas possibilitasse o reconhecimento de novos sujeitos sociais coletivos.
Destaco, nesse processo, as Assembleias dos Chefes Indígenas realizadas em várias regiões do país que possibilitaram não apenas que suas vozes fossem escutadas pela sociedade brasileira, mas que as lideranças indígenas pudessem criar organizações indígenas que não estavam tuteladas pelo Estado, a exemplo da União das Nações Indígenas (UNI), em junho de 1980.
Viveiros de Castro (2006) ao comentar esse período histórico, esclarece:
A luta contra o projeto de emancipação levou as pessoas que estavam do lado dos índios a se preocuparem com recenseamentos, levantamentos, com informação, com organização, comunicação e propaganda. Tratava-se, em suma, de tornar a questão visível. No fundo, não deixou de ser uma sorte os generais e coronéis da época terem tentado desindianizar uma porção de comunidades indígenas, pois isso, na verdade, terminou foi por reindianizá-las. A atabalhoada tentativa da ditadura de legiferar sobre a ontologia da indianidade “desinvisibilizou” os índios, que eram virtualmente inexistentes como atores políticos nas décadas de 1960 e 1970. (VIVEIROS DE CASTRO, 2006, 03)
Esse acúmulo de forças da sociedade civil brasileira levou a derrocada do período repressivo e a um processo de abertura política lenta e segura39, resultando na convocação de uma nova Assembleia Nacional Constituinte da qual os povos indígenas, em particular dos Xukuru, os trabalhadores, e outras minorias sociais, nunca antes na história brasileira, tiveram participação ativa, assegurando-se a inauguração de uma nova forma de relacionamento do Estado brasileiro com os povos indígenas.
39 A ideia de transição política segura foi defendida pelos setores militares que comandavam o processo de transição da ditadura militar para a democracia como forma de assegurar que não houvesse punições aos atos de exceção praticados durante o período de chumbo, a exemplo da tortura, execução sumária e desaparecimento de presos políticos. Alguns setores de oposição ao regime militar, a exemplo do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) também entendiam que a transição política para o novo regime não poderiam ser mascadas por atos de “revanchismo”, sob pena de retrocesso aos “anos de chumbo”.
Desse modo, a autonomia dos povos indígenas se constitui no elemento central para a construção de um novo modelo de Estado e o reconhecimento dos seus sistemas de justiça. Consuelo Sánchez (2009) afirmou que sem a existência de um território autônomo não há que se falar em sistema de justiça:
No regime de autonomia, o território tem implicações de caráter político, jurisdicional, administrativo, econômico, cultural, simbólico e ecológico. Para que os povos indígenas possam exercer seus direitos (de autogoverno, territoriais, econômicos, culturais), é necessário que o território se configure como território autônomo. Em outras palavras, como a autonomia implica em direitos sociopolíticos, instituições, etc., estas prerrogativas devem ter uma base firme, um espaço de realização e um território que vá além da demarcação das terras como parcelas ou unidades produtivas – ou seja, mais do que o habitat. Trata-se de uma base política e territorial; trata-se de um território com jurisdição própria, para que as coletividades correspondentes possam exercer as tarefas de governo, justiça e outros poderes. (SÁNCHEZ, 2009, p. 69)
Se pensarmos o contexto brasileiro, as terras indígenas não têm o mesmo status de território indígena, como há na realidade da Colômbia40 onde, por exemplo, as autoridades indígenas possuem autonomia reconhecida formalmente e uma jurisdição própria, reconhecida pela Constituição de 1991 (art. 246). Entretanto, no caso Xukuru, isso não foi obstáculo para que pudessem construir um sistema de justiça próprio, mesmo que subordinado ao sistema de justiça estatal.
Miguel Bartolomé (1998) entendeu que a autonomia assegura a manutenção da identidade coletiva de um povo:
Autónomos significa autorregularse, darse reglas, autodeterminarse, autogovernarse, autonomia es entonces sinônimo de autodeterminación y de autogovierno.
[...] Pero para los pueblos indígena se trata de está de
ejercer uno de los derechos humanos más fundamentales, el derecho a la existência: porque um pueblo que carece de autodeterminación carece precisamiente del derecho de existir como estál; se manifesestá solo como uma colectividad lingüística o cultural desarticulada y sujeiestá a imposiciones de toda índole. El derecho a la existência de
un pueblo como sujeito colectivo, como entidad de derecho
40 Na experiência Colombiana, as terras ou territórios indígenas têm autonomia para resolver os diversos conflitos eventualmente existentes entre os membros do grupo. Essa autonomia é reconhecida constitucionalmente como “jurisdição especial indígena”, uma justiça específica dos povos indígenas, organizada de acordo com a organização sócio-política de cada povo (ver art. 246 da Constituição da Colômbia de 1991). Importante esclarecer que essa jurisdição especial indígena está subordinada ao respeito à própria Constituição e a leis do país.
colectivo, es imposible si algún nível de autodeterminación política, estál como la propuesto la Conferencia de Naciones sin Estado de Europa. (BARTOLOMÉ, 1998, p. 184/185, grifo
nosso)
Com base no conceito de identidades coletivas, Figueroa (2010) afirma que o sujeito coletivo Xukuru compreende seu território tradicional e sua organização política:
O sujeito coletivo Xukuru compreende o território tradicional, que está localizado no município de Pesqueira, agreste pernambucano, com 27.555 (vinte e sete mil, quinhentos e cinquenta e cinco) hectares, homologado pelo Presidente da República em 2001; uma população estimada atualmente em 10.300 (dez mil e trezentos) indígenas divididos em 24 (vinte e quatro) aldeias; com organização político-social constituída por Cacique, Vice-Cacique, Pajé, Conselho de Lideranças – que é composto por representantes das aldeias -, a COPIXO – Conselho de Professores Indígenas Xukuru do Ororubá -, CISXO - Conselho Indígena de Saúde Xukuru do Ororubá - e equipe JUPAGO – equipe de indígenas que trabalham com projetos de etnodesenvolvimento. (FIGUEROA, 2010, p. 82)
Considero, porém, que o território Xukuru constitui a base social fundamental para manutenção da identidade e da autonomia desse povo, ou seja, sujeito de direitos é o ser coletivo (sua organização social).
Convém ressaltar, conforme esclareceu Wolkmer (2005), que esses sujeitos coletivos de direitos não devem ser pensados como coletividades humanas que sempre existiram, mas como “um sujeito vivo, atuante e livre, que autodetermina-se e modifica a mundialidade do processo histórico-social”. (WOLKMER, 2005, p. 104)
Para Viveiros de Castro (2006) o nosso texto constitucional consagrou, reconheceu como sujeito de direitos as comunidades indígenas e não os índios individualmente:
Com a Constituição, consagrou-se o princípio de que as comunidades indígenas constituem-se em sujeitos coletivos de direitos coletivos. O “índio” deu lugar à “comunidade” (um dia vamos chegar ao “povo” – quem sabe), e assim o individual cedeu o passo ao relacional e ao transindividual, o que foi, desnecessário enfatizar, um passo gigantesco, mesmo que esse transindividual tenha precisado assumir a máscara do supraindividual para poder figurar na metafísica constitucional, a máscara da Comunidade como Super-Indivíduo. Mas de qualquer modo
o individual não podia deixar de ceder ao relacional, uma vez que a referência indígena não é um atributo individual, mas um movimento coletivo, e que a “identidade indígena” não é “relacional” apenas “em contraste” com identidades não- indígenas, mas relacional (logo, não é uma “identidade”), antes
de mais nada, porque constitui coletivos transindividuais intrarreferenciados e intradiferenciados. Há indivíduos
indígenas porque eles são membros de comunidades indígenas, e não o inverso. (VIVIEIROS DE CASTRO, 2006,
p. 4, grifo nosso)
A existência de outros territórios dentro do Estado-nação, reconhecidos ou autoproclamadas como de “outras nações” ou mesmo territórios étnicos representa um desafio para a ideologia territorial do Estado, particularmente para sua noção de soberania. Essa é uma das razões pelas quais o Estado brasileiro teve e tem dificuldade em reconhecer os territórios dos povos tradicionais como parte da sua problemática fundiária.
Como já afirme anteriormente, a decisão do Egrégio Supremo Tribunal Federal, ao analisar o decreto de homologação do território de Raposa Serra do Sol (Petição nº 3388-4 RORAIMA), é emblemática para perceber como o Estado brasileiro compreende o território dos povos indígenas, conforme se verifica no voto do eminente Relator da Ação Popular, Min. Carlos Aires Brito:
As terras indígenas como categoria jurídica distinta de territórios indígenas. O desabono constitucional aos vocábulos “povo”, “país”, “território”, "pátria” ou “nação” indígena.
62. Esta revelação do querer objetivo da nossa Lei Maior em prol da causa indígena conhece, porém, um contraponto que é preciso expor com toda clareza: ela, Constituição, teve o cuidado de não falar em territórios indígenas, mas, tão-só, em “terras indígenas”. È que todo território se define como parte elementar de cada qual das nossas pessoas jurídicas federadas. Todas elas definidas, num primeiro e lógico momento, como o conjunto de povo, território e governo (só num segundo instante lógico é que toda pessoa federada se define como o conjunto dos seus órgãos de poder: Legislativo, Executivo e Judiciário, com a ressalva de este último não faz parte da estruturação do Município). Governo soberano, tratando-se da República Federativa do Brasil; governo autônomo, cuidando-se de qualquer das pessoas políticas de direito interno. E já ficou demonstrado que terra indígena e ente federativo são categorias jurídicas de natureza inconfundível. Estão como água e óleo, não se misturam (grifos no original, p. 22/23)
Ora, o povo Xukuru, como também a maioria dos povos indígenas em nosso país, não reivindica a sua secessão do Estado brasileiro. O que deseja, em verdade, é o que o Estado lhe respeite enquanto sujeito coletivo que possui o direito humano de “conduzir livremente seus modos de vida, exercer o controle de seus assuntos, gerenciarem certas questões por si mesmas e exercer um conjunto de direitos”. (SANCHEZ, 2008, p. 70).
Sobre o conteúdo emancipatório da mobilização dos povos indígenas e sua relação com o Estado, afirmou Souza Filho (1998):
Se um povo indígena criasse um novo Estado, o conceito de Estado continuaria o mesmo, só que em número maior e com territórios menores. Essa proposta não tem nenhum sentido porque não é, nem nunca foi, reivindicação dos povos indígenas americanos criar em algumas centenas de pequenos e novos Estados, mas rever alguns conceitos que possibilitem a sua jurisdição concomitantemente com o império do Estado, criando uma jurisdição plural. (SOUZA FILHO, 1998, p. 193)
Esse autor esclareceu ainda sobre a importância do território para efetivação de um Direito próprio desses grupos étnicos:
Assim, quando o povo e seus direitos estão circunscritos a um território, apesar das dificuldades já expostas, tem sido possível reconhecê-los e garanti-los. Uma grande dificuldade surge quando não há essa circunscrição territorial, como no caso dos ciganos, ou quando a circunscrição não é clara, como no caso dos guarani. (SOUZA FILHO, 2003, p. 103)
Nesse sentido, a dimensão multicultural do Estado brasileiro expressa na decisão do STF sobre o caso Raposa Serra do Sol pode ser entendida não como reconhecimento efetivo dos modos de fazer e viver dos povos indígenas, mas que o Estado, ao reconhecer a diversidade de povos e culturas existente em seu território, não está disposto a modificar as suas estruturas para permitir que outras lógicas culturais possam ser efetivamente respeitadas. Trata-se, nesse caso, como afirmou Fidel Tubino (2001), de tolerar a diversidade cultural. No próximo capítulo, a partir do estudo de casos, analisarei os princípios norteadores do Sistema de Justiça Xukuru do Ororubá e a forma como esses conflitos são resolvidos internamente serão mais bem analisadas, que permitem demonstrar a existência de uma normatividade jurídica própria desse grupo étnico e a sua relação com a justiça estatal.