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2. A consagração dos limites materiais expressos no texto Constitucional de 2010

2.11 A autonomia local

O princípio da autonomia local desempenha pelo menos duas funções630: a primeira pode ser definida como a base do «subsistema do poder local»; a segunda joga um papel limitador ao exercício de outros poderes públicos ou coletivos do estado ou mesmo das autoridades tradicionais.631

Ao abranger a autonomia das autarquias locais entre os limites materiais de revisão constitucional (alínea k) do artigo 236º), a CRA reconhece que as autarquias locais são realidades históricas anteriores à Constituição, que esta decide incorporar na esfera do poder político assegurando a sua identidade própria.632633

Na CRA, o poder local vem previsto no Título VI. É notável o papel reconhecido à administração local como pilar da organização democrática do Estado e apoio institucional da prossecução de interesses próprios das populações das circunscrições em que se divide o território do estado. A expressão de uma vontade política das populações das parcelas territoriais institucionalizadas em autarquias supõe que ela se faça através de órgãos próprios dotados de legitimidade democrática direta para a respetiva representação. A Constituição da República garante essa aspiração ao

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VASCONCELOS, Pedro Carlos Bacelar, Constituição Anotada República Democrática de Timor- Leste… 243

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ALEXANDRINO, José de Melo, o poder local na Constituição de Angola: os princípios fundamentais,

in Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Volume LI Nºs 1 e 2, Coimbra Editora,

2010, pág. 85

631

Sobre as autoridades tradicionais em Angola, FEIJÓ, Carlos A Coexistência Normativa entre o Estado e as Autoridades Tradicionais na Ordem Jurídica Plural Angolana, Almedina, 2012, págs. 255 e Segs.

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CORREIA, J.M. Sérvulo, “Direito Constitucional das colectividades territoriais em Portugal,

disponível em:

http://www.servulo.com/xms/files/publicacoes/Artigos_/Artigos_2015/Pub_SC_Caderno_Servulo_de_Di reito_Publico_NoI.pdf, pág. 4, pesquisado no dia 02.11.2015.

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Para maiores desenvolvimentos sobre Autonomia Local no Ordenamento Constitucional Angolano,

Vide 633 FEIJÓ, Carlos, Poder Local: Autonomia Local e a Organização do Poder Territorial na Constituição Angolana, In AAVV «Constituição da República de Angola: Enquadramento Dogmático – A nossa Visão», Volume III, Coordenação de Carlos Maria Feijó, Almedina, 2015, págs. 562 e segs.

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determinar as regras principais sobre a estrutura a forma de eleição dos órgãos das autarquias locais.634

A real configuração Constitucional da autonomia local, como sucede em geral com os demais limites materiais de revisão, não pode ser subtraída à vontade popular manifestada pelo legislador de revisão, contanto que as manifestações essenciais em que se joga autonomia das autarquias locais sejam protegidas.635

Relativamente a implementação e organização do poder local: é de salientar apenas a existência de uma «administração desconcentrada (com províncias, municípios e comunas), com uma reformulação recente das estruturas locais do Estado na província de Luanda»; neste momento não há ainda pacote legislativo sobre as autarquias locais; há um conceito desenvolvido de poder local no texto constitucional e na doutrina; existência de muitas «instituições do poder tradicional (reis, sobas, sobetas, regedores, etc.), ainda que muitas delas sejam autoridades tradicionais inventadas».636

À maneira de conclusão: podemos aludir que o legislador constituinte de 2010 foi bastante extensivo na formulação dos limites materiais de Revisão Constitucional, tendo como base a nosso ver o artigo 288º da CRP, embora não na sua plenitude, na medida em que deixa de fora alguns limites materiais expressos previstos na Constituição Portuguesa. É importante salientar que ainda assim, o artigo 236º não abarca todos os limites materiais, podemos encontrar no texto constitucional outros limites materiais para além dos elencados neste preceito, limites estes que veremos já de seguida.

3. Limites materiais não expressos na Constituição de 2010.

A par de toda uma especialíssima forma que deve ser observada no que tange às alterações constitucionais, a Constituição traz no artigo 236º os denominados limites materiais, são entre outras palavras, as proibições expressas de revisão constitucional. Podemos encontrar outros limites materiais de Revisão constitucional para além dos elencados expressamente no artigo 236.º da CRA?

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CORREIA, J.M. Sérvulo, “Direito Constitucional das colectividades… pág. 5.

635

MEDEIROS, Rui, Anotação em Jorge Miranda e Rui Medeiros, Constituição portuguesa Anotada...pág. 951

636

ALEXANDRINO, José de Melo, Síntese comparativa In: AAVV, Jornadas de direito municipal comparado lusófono, Coordenação de José de Melo Alexandrino, AAFDL, Lisboa, 2014, pág. 207

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Ao lado destas vedações explícitas, há o que se pode denominar de «de vedações ou limites implícitos» do poder de revisão, isto é, limites não enquadrados explicitamente no artigo 236.º do texto constitucional, mas que merecem o mesmo respeito imposto às cláusulas pétreas expressamente consagradas.

A parca reflexão entre os Constitucionalistas Angolanos ainda que forma superficial tem-se centrado basicamente na análise dos limites expressos de Revisão Constitucional, deixando de lado a questão dos limites não expressos.

Como já foi referido anteriormente, na dicotomia entre a Rigidez e Flexibilidade Constitucional, a Constituição Angolana se enquadra entre as primeiras, o que se depreende dos artigos 233º e seguintes da CRA. Os limites materiais constituem a expressão mais acabada de rigidez constitucional e esta serve fundamentalmente para garantir estabilidade constitucional 637 sendo a nossa Constituição rígida, a própria rigidez constitucional é considerada em Angola um limite implícito de revisão constitucional.638 A revisão constitucional deve obedecer ao processo previsto na Constituição para não se contestar a sua validade. O poder de revisão constitucional não tem competência para pronunciar o abandono total e definitivo do processo vigente até então, em benefício de um novo processo de revisão; ele apenas pode modificá-lo ligeiramente, na medida do regime e que exteriorizam precisamente por esse processo de revisão.

Para além da rigidez constitucional podemos encontrar outros limites materiais implícitos de Revisão Constitucional.

Do nosso ponto de vista as normas referentes aos direitos fundamentais são limites materiais de revisão constitucional, por exemplo a alínea e) do artigo 236º estabelece o núcleo essencial dos direitos liberdades e garantias como sendo limite material ao poder de revisão, o que dizer dos direitos económicos, sociais e culturais, como por exemplo o direito ao trabalho previsto no artigo 76º da nossa Constituição? Poderá o legislador constitucional por intermédio de uma reforma constitucional proibir o direito a férias,

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ALEXANDRINO, José de Melo, a estruturação do sistema de direitos e liberdades e garantias na Constituição Portuguesa, VOL. II (A Construção Dogmática), Dissertação de Doutoramento em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Almedina, Outubro de 2006, pág. 350.

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ou permitir que a entidade patronal efetue despedimento sem justa e sem qualquer indemnização?

Pensamos que não se pode aceitar que os deveres fundamentais, pelo facto de não estarem expressamente previstos na constituição haja para o Legislador Constitucional a absoluta liberdade de os suprimir como bem entender. Inferir que esta ausência de regulamentação expressa dos deveres fundamentais não vincula o legislador constitucional é porém inaceitável.639

Destarte é nosso entendimento que os direitos fundamentais apesar da sua não consagração expressa no artigo 236º fazem parte daquelas matérias que a princípio devem ser respeitadas no processo de revisão.

Podemos também fazer referência, as normas que dizem respeito ao titular do poder constituinte, não pode o poder de Revisão Constitucional, modificar a titularidade do poder constituinte pertencente ao povo nos termos do nº 1 do artigo 3º da CRA pois seria absurdo destituir o titular de um poder superior ao seu.640

A Constituição estabelece uma «estrutura pluralista da propriedade dos meios de produção»641 a coexistência do setor público, do setor privado e do setor cooperativo e social de propriedade dos meios de produção (artigo 89.º e 92.º da CRA)642 também pode ser apontado como limite implícito. Este limite implícito de Revisão Constitucional pretende acautelar o respeito pelo princípio, igualmente acolhido de uma economia de mercado aberto e de livre concorrência, o princípio da compatibilidade entre as iniciativas públicas privadas e cooperativa ou social, com a consequente concorrência entre iniciativas e abertura aos impulsos económicos independentemente da natureza dos agentes.643

639NABAIS, José Casalta, o Dever Fundamental de Pagar impostos… pág.176. 640

CANTARELLI, João Lustosa, O Poder de Reforma Constitucional in Revista Justitia, São Paulo 48 (134) Abr/ Jun. 1998 Pág.95

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FEIJÓ, Carlos, A Constituição Económica da República de Angola, In AAVV «Constituição da República de Angola: Enquadramento Dogmático – A nossa Visão», Volume III, Coordenação de Carlos Maria Feijó, Almedina, 2015, Pág. 103

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Este limite material de Revisão Constitucional consta de forma expressa na alínea f) do artigo 364.º que contempla os limites materiais expressos de Revisão no Anteprojeto de Constituição da República, apresentado pelo partido UNITA.

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MEDEIROS, Rui, Anotação em Jorge Miranda e Rui Medeiros, Constituição portuguesa Anotada...Pág. 945.