3.2 A Natureza Jurídica dos Direitos Autorais: O ponto inicial das controvérsias
3.2.1 Autor e Titularidade de Direitos Autorais
Não se deve confundir autor com o titular de direitos autorais. O autor é o mentor intelectual da obra, que materializa as ideias num suporte de fixação, possuindo, geralmente, a posição inicial de titular de direitos sobre a obra criada187.
Gama Cerqueira diz que é autor aquele que produz
[...] trabalhos literários ou obras de arte, o compositor de peças musicais, o sábio que escreve sobre assuntos científicos ou se entrega a investigações da mesma natureza, o inventor de novos produtos ou novos processos e aplicações industriais, o artífice que cria novas formas para o embelezamento dos produtos da indústria, assim como o escritor, o professor, o jornalista, o orador, o pregador, os que exercem profissões liberais, todos, enfim, que se dedicam a qualquer atividade intelectual188.
No mesmo sentido, Carlos Alberto Bittar afirma ser autor “o criador da forma protegida, a saber, a pessoa que concebe e materializa a obra de engenho, qualquer que seja sua idade, estado ou condição mental, inclusive, pois, os incapazes, de todos os níveis” 189. Ascensão afirma com toda clareza que “autor é o criador intelectual da obra” 190.
Assim, todas essas pessoas podem ser chamadas de autores originários. Como bem assevera Newton Silveira
O fundamento do direito sobre tais obras se explica pela própria origem da obra, do indivíduo para o mundo exterior. A obra lhe pertence originalmente pelo próprio processo de criação; só a ele compete decidir revelá-la pondo-a no mundo, e esse fato não destrói a ligação original entre obra e autor191.
187 Por exemplo, nas obras coletivas, a autoria é do organizador do conjunto da obra; nos escritos publicados pela imprensa, diária ou periódica, com exceção dos assinados ou que apresentem sinal de reserva, a autoria pertence ao editor, salvo convenção em contrário.
188 CERQUEIRA, João da Gama. Op. Cit., p. 67. 189 BITTAR, Carlos Alberto, Op. Cit., p. 33.
190 ASCENSÃO, José de Oliveira. Direito Autoral. 2. ed., ref. e ampl. Rio de Janeiro: Renovar, 1997,p.70.
191 SILVEIRA, Newton. A Propriedade Intelectual e as novas leis autorais. 2 ed. rev. ampl. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 15.
O art. 11 da LDA, adotando o sistema de proteção do Droit d’Auteur, afirma que “autor é a pessoa física criadora de obra literária, artística ou científica”. Assim, o título da obra pertence a seu criador. A diferenciação entre conferir autoria à pessoa física ou jurídica depende do sistema de proteção adotado pela legislação. No sistema do copyright, pode ser considerado autor da obra uma pessoa jurídica, por exemplo, através de uma ficção jurídica concedida a quem não é o criador original192.
No outro vértice, a titularidade de direitos autorais ocorre quando o titular não participa da criação da obra. A diferença entre autoria e a titularidade de direitos autorais reside, então, no fato de que “a criação cria um vínculo indissolúvel entre autor e obra, mas a titularidade pode ser adquirida por terceiros em virtude de contrato (inter-vivos) ou em função de sucessão (mortis-causa)” 193. Otávio Afonso ainda indica a titularidade por presunção legal, como ocorre com as obras anônimas ou pseudônimas, nas quais cabe a titularidade a quem publicá-las, conforme previsto no art. 40 da LDA. Assim “todo autor é titular de direitos autorais, nem todo titular de direitos é autor” 194. Enquanto a autoria é originária, a titularidade é derivada.
No caso da transmissão dos direitos autorais por sucessão, a titularidade cabe aos herdeiros descendentes, ascendentes, cônjuge e colaterais, de acordo com a ordem de vocação hereditária prevista no Código Civil. Ressalva-se que, caso o autor ou titular tenha celebrado contrato, inter-vivos, os direitos autorais pertencerão a quem de direito, conforme estipulação contratual.
A Lei 9.610 ainda prevê que o prazo de duração do exercício dos direitos patrimoniais é de setenta anos após a morte do autor, contados a partir de 1º de janeiro do ano subsequente à morte, após os quais a obra cai em domínio público. Porém, o art. 14 diz que “é titular de direitos de autor quem adapta, traduz, arranja
192 AFONSO, Otávio. Direito Autoral: conceitos essenciais. Barueri: Manole, 2009, p. 30-33. O renomado autoralista, recentemente falecido, também lembra que a legislação anterior, no art. 15, dizia que “quando se tratar de obra realizada por diferentes pessoas, mas organizada por empresa singular ou coletiva e em seu nome utilizada, a esta caberá sua autoria” (Art. 15 da Lei 5.988/73), porém a nova lei corrigiu esse problema, que gerava confusão entre os conceitos de autoria e titularidade de direitos autorais.
193 ASCENSÃO, José de Oliveira. Direito Autoral. 2. ed., ref. e ampl. Rio de Janeiro: Renovar, 1997, p. 71.
194 AFONSO, Otávio. Op. Cit., p. 30-34. Lei 9.610/98 “Art. 40. Tratando-se de obra anônima ou pseudônima, caberá a quem publicá-la o exercício dos direitos patrimoniais do autor”.
ou orquestra obra caída no domínio público, não podendo opor-se a outra adaptação, arranjo, orquestração ou tradução, salvo se for cópia da sua”.
Outra diferença é que a autoria pode ser atrelada aos direitos morais do autor, que são inalienáveis e intransmissíveis, ao passo em que a titularidade é atrelada aos direitos patrimoniais, que são passíveis de alienação e, então, outras pessoas podem vir a se tornar titulares de direitos patrimoniais autorais. É o que ocorre, por exemplo, com as editoras de livros, que compram os direitos de publicação das obras, ou com as gravadoras, que adquirem os direitos de fixação das músicas em fonogramas, tornando-se titulares dos direitos sobre estes. São os chamados titulares derivados de direitos autorais.
Sandra Véspoli195 explica que, na obra musical, tem-se como autor (aquele que compõe a música), compositor (aquele que compõe a letra), editor (aquele que edita a música e letra), subeditor (aquele que edita no Brasil obra de outro país), sendo estes titulares de direitos autorais. Também se enquadram nessa categoria os adaptadores. Já os titulares de direitos conexos são o intérprete (aquele que interpreta a obra), produtor fonográfico (gravadora que grava ou regrava uma obra) e as empresas de radiodifusão. Como a exploração da obra se trata de direito patrimonial autoral, podem ser eles alienados.
A importância dessa diferença, entre autor e titular, irá se refletir nos contratos de transferência de direitos autorais, que serão abordados no capítulo seguinte, gerando discussões sobre a vulnerabilidade dos autores nos contratos de edição, especialmente os de edição musical.