2.1 Língua e ensino
2.1.3. Bakhtin e o funcionamento da linguagem
2.1.3.1 Autoria
subjetividade. Assim, a língua não é monológica, mas dialógica e ideologicamente parcial, e se configurando num espaço de confronto de vozes e contradições.
Outros conceitos da vasta obra bakhtiniana, como ideologia, tema e significação, gêneros discursivos, estilo e autoria, quando estudados por pesquisadores da educação linguística, contribuíram para o estabelecimento ainda mais direto entre o pensamento de Bakhtin e o ensino de língua materna numa perspectiva sociointeracionista. Neste trabalho, nos deteremos apenas nas reflexões sobre autoria, pela sua estreita relação com a materialidade discursiva. Para ampliar a discussão, traremos outros estudos que considerem este tema e suas implicações para o ensino da produção textual.
2.1.3.1 Autoria
Em O autor e o herói na atividade estética, texto escrito por volta de 1920, Bakhtin faz uma distinção entre autor-pessoa e autor-criador. O primeiro seria o escritor de fato, o artista, enquanto que o segundo seria a própria função estético-formal que norteia uma obra.
O narrador, para Bakhtin (2004), na formulação do seu enunciado, parte de regras de ordem sintática, de estilo e de composição a fim de elaborar suas próprias estratégias linguísticas para incluir o outro em seu discurso, ao mesmo tempo em que se posiciona axiologicamente diante do que enuncia. Faraco (2005), atento a esse aspecto, ressalta o fato de que o autor se posiciona valorativamente e, assim, expõe a constante relação travada pelo eu com o seu mundo.
De uma visão de que o mundo é múltiplo e heterogeneamente interpretado, Bakhtin, de acordo com Faraco (2005), acredita que a linguagem é concebida “como heteroglossia, como um conjunto múltiplo e heterogêneo de vozes ou línguas sociais, isto é, um conjunto de formações verbo-axiológicas. Dessa maneira, no ato da criação, há um constante deslocamento envolvendo as línguas sociais, “pela qual o escritor (que é aquele que tem o dom da fala refratada) direciona todas as palavras para vozes alheias e entrega a construção do todo artístico a uma certa voz” (p. 40).
Mais tarde, Possenti (2002) amplia a discussão da autoria quando publica o ensaio Indícios de autoria. Neste trabalho, o autor propõe que a noção de autoria seja revisada para abranger efeitos de sentido de textos que não são obras completas, mas do cotidiano, como, por exemplo, a redação escolar.
Para sustentar a sua tese, Possenti comenta que a escola foi espaço para o discurso de que texto bom é texto gramaticalmente correto. A gramática era a baliza de julgamento da boa escrita. O professor que decidisse ir além do gramatical na avaliação de um texto correria o risco de cair na subjetividade, no gosto pessoal. Charolles (1978), segundo o autor, foi quem assinalou que durante muito tempo os professores tiveram à disposição categorias para avaliar um texto em relação à sua adequação gramatical, mas que problemas de outra ordem, como os de textualidade (coesão e coerência, por exemplo), não eram explicitados, mas apenas indicados sinais interrogações escritas na margem do texto do aluno.
Possenti (2002), acreditando que os estudos linguísticos já nos dão ferramentas suficientes para ir além do que Charolles delimitou, afirma que um texto não pode ser avaliado em apenas termos de sua textualidade (e muito menos de categorias gramaticais), mas em termos discursivos:
Isto quer dizer que a questão da qualidade do texto passa necessariamente pela questão da subjetividade e de sua inserção num quadro histórico – ou seja, num discurso – que lhe dê sentido. O que poderia interpretar assim: trata-se tanto de uma singularidade quanto de tomada de posição (POSSENTI, 2002, p. 109).
Essa qualidade que passa pela subjetividade tem relação com o modo como se dá voz explicitamente a outras vozes sociais, incorporando ao texto discursos correntes. Nesse sentido, Possenti (2002) afirma que os indícios que deveriam ser levados em conta para a atribuição do efeito autoria são dar voz ao outro e manter distância. A primeira categoria discursiva tem a ver com o modo como orquestramos as diferentes vozes sociais e nos posicionamos valorativamente diante delas; a segunda se constitui quando os enunciadores marcam a sua posição em relação ao que dizem e ao que diz a interlocução. Portanto, de acordo com Possenti, a autoria é um efeito concomitante entre um jogo estilístico e uma tomada de posição enunciativa.
Pensando sobre o processo de escrita do ENEM, Cavalcanti et al (2007) faz um estudo relacionado à autoria e ao apagamento da autoria nos textos dos candidatos a esse exame. Inicialmente, os autores afirmam que a materialidade discursiva permite observar a constituição da autoria por meio da relação entre a produção discursiva e as regras sociais. Adequar-se às regras do dizer, isto é, às normas da comunidade em que o discurso circulará, é um modo de o autor deixar-se perceber no que fala. Dessa maneira, “as marcas da presença dele [do autor] são, por assim dizer, orientadas pelas formas que dizem de sua apreensão do discurso do outro, ou seja, o discurso que diz se determinadas formas são ou não aceitáveis” (p. 198).
Na análise dos dados, Cavalcanti et al (2007) afirma que os candidatos do ENEM, em suas produções de texto, se localizam entre a tensão da autoria e do apagamento do autoria por terem em mente, também, o avaliador da redação que estão produzindo. Nos textos, os candidatos tendem a anular a própria voz para, baseados nos textos motivadores que vem junto com a proposta de produção, escrever o que acreditam que o avaliador quer ler. Transcrevemos abaixo um trecho do corpus analisado no artigo em estudo:
Redação 1 (fragmento)
Minha mãe sempre queria que eu fosse alguém na vida, na verdade toda mãe quer isso para o seu próprio filho, minha mãe sempre costumava me dizer, filho não falte na escola, não mate aula, filho leia um livro... (p.201).
De acordo com os autores, nesse texto o candidato seguiu o roteiro do texto motivador de Moacyr Scliar (Minha mãe muito cedo me introduziu aos livros...), que vem impresso na prova de redação, e também o gênero textual em que o autor publicou, fugindo da produção de uma dissertação. Na tentativa de moldar o seu discurso à situação (edição do ENEM 2006), o candidato não se coloca como autor do seu próprio discurso, mas adota o de outro. Em “na verdade toda mãe quer isso para o seu próprio filho”, o candidato traz para seu texto não só o que Scliar escreveu, mas também o avaliador da sua prova, colocando-o diante do fato de que não é só a mãe do Scliar que quer o bem para o filho, mas todas as demais.
Em artigo intitulado A constituição da autoria das ciências exatas e humanas, Alexandre e Silva (2011), discutem como graduandos de Letras e Matemática da Universidade Federal de Pernambuco, em produções escritas de monografias e de artigos científicos, emergem como autores das suas pesquisas e, ao mesmo tempo, obedecem às regras da academia quanto à produção de gêneros científicos. Os resultados demonstraram que os graduandos das duas áreas, humanas e exatas, fazem uso de estratégias para adequar o seu dizer ao dogmatismo da ciência sem, no entanto, deixar de emergir como autores das suas produções.
O desaparecimento versus aparecimento do sujeito, no corpus, foi elaborado ora pelo uso de modalizadores do discurso, ora pelo uso de verbos na forma pessoal e de primeira pessoa do plural. Isso permitiu chegar à conclusão de que mesmo em espaços discursivos em que se convencionou o apagar das marcas da pessoalidade, há possibilidades de expor a individualidade e de se configurar, assim, como autor do que se diz uma vez que o fazer acadêmico é, também, um fazer persuasivo.
A partir do referencial que afirma a diversidade de concepções de língua e suas consequências para o ensino de português, bem como a partir das ideias bakhtinianas sobre a linguagem e seu funcionamento, passaremos agora a discutir o ensino de português, mais precisamente o ensino da produção de texto, indicando e os desafios que o cenário do mundo atual, no tocante a educação, tem colocado.