• Nenhum resultado encontrado

Capitulo IV – SAGRADO E PROFANO, ESCRITO E ORAL

4.2 Oralidade, continuidade e ruptura

4.2.1 Autoria e origem

Segundo Paul Zumthor, os temas épicos carolíngios das canções de gesta tem uma continuidade oral que pode ser observada em parte do repertório dos poetas populares do Nordeste brasileiro no século XX154. A “História de Juvenal e o dragão” não é uma épica carolíngia, mas uma continuidade pode ser traçada entre a épica medieval e a narrativa moderna. A poesia de Barros apresenta um tema heroico, o de um jovem que parte em busca de aventuras e, por meio de suas virtudes, como a fé e a esperança, combate o mal. Seu conteúdo a relaciona também a um tema hagiográfico, o de São Jorge, que combate o dragão, símbolo do mal, para salvar uma princesa. Assim como algumas gestas, a narrativa de Juvenal tem a maioria dos versos octossilábicos além de ser feita para ser transmitida pela voz, oralmente, como no caso da apreensão feita por Samico da história. Também podemos partir da questão da transmissão para apontar algumas rupturas que podem ser identificadas entre as duas formas. Diferente das épicas medievais que eram transmitidas pela voz, cujos “manuscritos de jograis” tinham a função de servir como ajuda à memória, os folhetos modernos são impressos tipograficamente e vendidos nas feiras em grande quantidade, indicando uma preocupação com a cultura escrita inexistente anteriormente. Também acontecem adaptações referentes ao tempo e ao espaço no qual cada forma está inserida. E mesmo sem a narrativa escrita se referir a algum lugar geográfico específico ou época na qual a história acontece, tem certas características que, interpretadas por Samico e representadas em sua gravura, a aproximam do contexto espacial do Nordeste brasileiro, vivido pelo artista.

Ao refletir sobre a poesia medieval o uso do termo “origem” praticamente perde o sentido. A aproximação, mesmo a ausência de uma separação clara entre a epopeia e a história, possibilitava aos poetas se apropriar de temas amplamente divulgados na memória coletiva. Para Zumthor, até o século XIII, os medievais viveram a poesia. Os criadores das canções de gesta reinterpretaram as lembranças dos feitos carolíngios sob o impacto das cruzadas, uma generalização da luta contra o Islã como um tema da cristandade. São textos que têm uma lógica orientada conforme a visão de mundo da época. Os aspectos sociais, intelectuais, estéticos e tecnológicos da época determinam o modo de transmissão dos textos e

são por eles incorporados, tornando-se um aspecto de sua interioridade separado das contingências vividas. Se o texto funciona independente das circunstâncias, o receptor não recebe nada além da literalidade e, por isso, nesse sentido não havia a noção de plágio. Desde o século XII, as trocas entre os textos eram constantes por imitação ou cópia. Algumas narrativas mais tardias chegavam a incorporar poemas inteiros155. Essa apropriação de temas que, de certo modo, pertencem a uma coletividade, indica o quão profundamente a memória coletiva permeia as memórias individuais, fornecendo a um indivíduo outros testemunhos nos quais sua memória pode se apoiar. A memória coletiva contribui para a continuidade de temas medievais, na medida em que na transmissão das histórias, apesar das atualizações que acontecem, muito da essência se mantém, e, assim, podemos observar a continuidade do tema heróico na “História de Juvenal e o dragão”. Mesmo colocadas por escrito, impressas por um processo industrial e com uma autoria definida, as poesias de cordel, ao tratar de temas generalizados, mantém uma relação frouxa com a definição da autoria. O uso de temas divulgados no imaginário coletivo, que são encontrados em linguagens e formas diferentes, incorpora nas histórias de cordel trechos de narrativas, construindo novas histórias adequadas ao público local. A reinterpretação de antigos temas indica uma continuidade dos mesmos, as diferenças entre personagens, as inserções espaciais, as condições de tecnologia de reprodução e a transmissão indicam rupturas com as formas medievais. É essa propriedade de se adaptar a novas necessidades sociais, de aceitar as rupturas, que permite a sobrevivência de um tema.

Em geral, o texto medieval se dirigia a uma coletividade, independente de sua função, ou do público específico ao qual ele se direcionava. Ao longo da Idade Média, em geral, os textos eram concebidos para funcionarem em condições teatrais. Entre os séculos IX e XII, a memória e a voz tiveram papel fundamental como meio de transmissão. Por isso, a necessidade de uso de procedimentos de memorização adquire uma importância funcional na construção da poesia. Os textos eram feitos para serem declamados, encenados, a transmissão vinha acompanhada de uma teatralidade, ocorriam em um determinado espaço. Na sociedade medieval, em que pouquíssimas pessoas sabiam ler, a voz agia como um veículo de transmissão de extrema importância e penetração social. Para a maioria das pessoas da Idade Média e durante a maior parte dessa época, o texto é um objeto auditivo, fluido e móvel156. Acreditamos que mesmo com o uso da imprensa, ao produzir os folhetos, os poetas modernos

155 ZUMTHOR, 1972. pp. 21 – 24. 156 Ibid., pp. 32 – 41.

privilegiaram a transmissão oral. Nas últimas décadas do século XX e nessa primeira década do século XXI, as relações que os poetas têm com as condições de produção e transmissão dessa forma de poesia, são diferentes das relações que os poetas tinham até a primeira metade do século XX. Mas, no caso de Samico, sabemos que ele ouvia a “história de Juvenal e o dragão” de um narrador que não era o autor da história. Era uma pessoa que não sabia ler, portanto memorizou a história a partir do que ouvia. Talvez tenha procurado ser o mais fiel possível à narrativa que lhe serviu de fonte, mas, mesmo que tenha buscado uma fidelidade, provavelmente acrescentou, consciente ou inconscientemente, algo à história. Assim, a cada interpretação, por meio de seus gestos, suas expressões, da ênfase em certas partes da poesia, o narrador se fazia um pouco autor daquela obra, mas também, e principalmente, se fazia continuador dela. Mesmo o cordel impresso se dirige a uma coletividade, de uma maneira diferente da narrativa cantada. Ao ler uma poesia, o leitor tem uma relação de individualidade com a obra, é apenas ele e o objeto, o livro. Mas também é coletivo, na medida em que diversas pessoas têm acesso a uma cópia idêntica da mesma obra, que é reproduzida mecanicamente. A atualização dos eventos e personagens, a generalização do sujeito, remete a uma coletividade, a pensamentos, se não comuns, ao menos parecidos.

Antes de 1100, a noção de autor implicava a de continuador. Parecia inexistir a noção de autenticidade de uma obra, principalmente no que diz respeito à língua vulgar, e isso permaneceu ao menos até o final do século XV. Um dos traços mais marcantes da poesia medieval é sua extrema estabilidade, que se mantém ao longo do tempo, mais que em outras épocas, pela existência coletiva. Zumthor aponta que há, pelo menos, dois tipos de tradição, uma mais evolutiva e criadora e outra mais conservadora e repetitiva, que é o caso da maior parte das tradições medievais. A existência impessoal do texto medieval, no qual a autoria, conforme entendemos hoje, é desconhecida faz com que esses textos tenham para nós, uma aparência de folclore. Em oposição à manifestação folclórica, o texto literário se caracteriza de modo concreto e único. Nesse sentido, os textos medievais apresentam uma característica ambígua, alguns como o romance se aproximam da obra moderna, enquanto as canções de gesta parecem se aproximar mais do folclore. A tradição aparece como uma finalidade pré- existente ao texto determinando o seu funcionamento. A tradição diz respeito mais ao futuro que ao passado, do qual ela provém historicamente, projeta o passado sobre o futuro, designa o construído antes que ele apareça157. A edição da “história de Juvenal e o dragão” a que nos referimos, de 1974, foi editada por João Martins de Athayde e ele próprio aparece como autor,

isso porque Athayde comprou os direitos autorais dos herdeiros de Barros sobre sua obra158. Não entendemos a atitude de Athayde como um plágio, ou uma tentativa de ofuscar o nome de Barros, reivindicando para si uma criação original. Entendemos sua atitude mais como a dos poetas medievais que transmitiam por meio de sua voz as longas narrativas apreendidas oralmente. Athayde, assim como os poetas medievais, atuou em um sentido de continuador da obra ao se apropriar de uma narrativa existente. Até mesmo porque acreditamos que não é impossível que Barros tenha ouvido essa história contada por outra pessoa, ou lido em algum lugar, sem ter sido o que entendemos modernamente como autor. Se isso aconteceu, provavelmente ele teria acrescentado ou modificado algo na história, como faziam os poetas medievais ao adaptar o tema, modificavam as canções para adaptá-las a questões formais ou para adaptá-las às condições históricas. Mesmo as memórias dos poetas, deixariam de reter alguns detalhes enquanto guardariam outros com mais facilidade.