CAPÍTULO II – OS PRINCÍPIOS DO ENSINO NA HISTÓRIA
1.4 Autoritarismo e outorga da Constituição de 1937
O Brasil vive tempos conturbados na década de trinta. Passa por duas revoluções – a de 1930, que coloca Getúlio Vargas ditatorialmente no poder, e a de 1932, concretizada pelos paulistas, os quais exigem a redemocratização constitucional do país – e, ademais, possui boa parte de sua liderança política inspirada nos acontecimentos europeus, em que os governos ditatoriais predominam, tendo à testa o fascismo na Itália e o nazismo (“nacional- socialismo”) na Alemanha.
Neste contexto, sob a desculpa de que estaria a ocorrer à proliferação da anarquia que colocaria em risco as conquistas sociais do ser humano e, ainda, a própria sobrevivência do Estado brasileiro,64 o Governo Federal, sob a ditadura de Getúlio Vargas, outorga nova Carta Constitucional a 10 de novembro de 1937, a qual, segundo Walter Costa Porto (2001: 24-29), é inspirada na Constituição polonesa de 23 de abril de 1935 e na Constituição do Rio Grande do Sul, de 14 de julho de 1891.
Todavia, lembra Porto (2001: 17-18), além de ilegítima, a Constituição de
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64 Francisco Campos (2001: 198), o principal ideólogo do regime de Vargas, tem
consciência do tumultuado contexto histórico e pretende legitimar o Estado Novo dizendo que este “nasceu como imposição da ambiência social e política” e do “estado de incerteza em que estava o Brasil, insatisfeito com a solução das suas instituições”.
1937 tem sua vigência contestada ante o descumprimento de seus artigos 175 e 80,65 combinados, os quais declaram: a) que o povo deverá decidir pela aceitação ou rejeição do Texto Constitucional de 1937, estando a continuidade do mandato presidencial atrelada ao voto popular positivo em relação à Constituição; b) em qualquer situação, a duração do mandato presidencial será a de seis anos. A decisão popular deveria ter lugar mediante a efetivação de “plebiscito” – ou, em linguagem jurídica precisa, “referendo”66– a ser convocado pelo Governo Federal, o que não ocorreu.
Aliás, o principal mentor intelectual da Constituição de 1937, Francisco Campos, em entrevista publicada no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 3 de março de 1945 – reproduzida em Porto (2001: 39-52) e concedida em época em que Campos já rompera com Vargas –, busca defender a Constituição de 1937 ao declarar que, “não se tendo realizado o plebiscito [a que se referem os arts. 175 e 187] dentro do prazo estipulado pela própria Constituição, a vigência desta, que antes da realização do plebiscito seria de caráter provisório, só se tornando definitiva mediante a aprovação plebiscitária, tornou-se inexistente. A Constituição de 1937 não tem mais, portanto, vigência constitucional.”
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65 Pontes de Miranda (1953, v. I: 23) afirma: “a Constituição de 1937 foi solapada, logo
depois, pelos seus próprios autores. não se realizou; não foi respeitada – quase toda, nem sequer existiu”. Waldemar Ferreira (2003: 108) diz que, tendo sido mero “engodo”, já “que destituída de sinceridade”, a Constituição de 1937 “não passou de documento de valor puramente histórico, [...] por não haver adquirido ou haver perdido a sua vigência”.
66 Segundo Walter Porto (2001: 16), Francisco Campos, “principal autor da Constituição
de 1937, [...] entendeu não houvesse diferença conceitual entre plebiscito e referendo, utilizando unicamente o primeiro termo para a consulta popular”, quer prévia quer posterior à efetivação de um ato estatal.
Outrossim, dada a visão do Constitucionalismo brasileiro que se busca imprimir nesta tese sobre os princípios constitucionais do ensino, bem como porque estes constam da Constituição de 1937 e, nesta parte, o Governo Federal de então deles se ocupa na prática, não se pode olvidar a existência desta Carta Magna. Por conseguinte, não é possível abordar qualquer discussão acerca da efetivação dos ditos princípios, já que estes foram impostos mediante Carta Magna outorgada e, em conseqüência, sem que tenha havido verdadeiro debate para sua propositura e concretização no texto fundamental. Ainda assim, pode-se buscar elucidar algo de seu substrato ideológico ao abordar o pensamento de Francisco Campos, o principal autor da Constituição de 1937. É o que se faz agora.
Campos (2001: 194) deixa claro que, em sua visão, é papel do Estado educar as crianças e jovens para a cidadania marcada pela mitigação da doutrina liberal, com adesão à concessão dos direitos sociais e defesa de nacionalismo centralizador em termos políticos. Igualmente, este doutrinador (2001: 67) acredita que a educação e o ensino devem preparar o indivíduo para aquele trabalho necessário ao desenvolvimento econômico do país. Também Getúlio Vargas (1978: 699) expõe seu pensamento ao afirmar, em 1936, que o estabelecimento das bases do ensino nacional e a elaboração do plano nacional de educação escolar devem levar em consideração a necessidade do Estado de assumir, na sua ação educativa, posição defensiva, “não somente contra o influxo dissolvente do comunismo, mas no esclarecimento das suas diretrizes de preparação política”. Para isto, segundo Vargas (1978: 700), é preciso
reforçar, ministrando metodicamente, em todos os graus e ramos da educação, tanto a pública, dos estabelecimentos oficiais, como a que se acha a cargo das instituições privadas, o conhecimento e análise dos valores consagrados pela nossa formação política.
O preparo para a cidadania, na ótica de Campos (2001: 66-67), deve ter lugar por meio da disciplina Educação Moral e Cívica. Ademais, para Campos (1941: 147-155), o ensino religioso deve ser incentivado, ou ao menos não tolhido, pelo Estado nas escolas públicas, porque contribui para a modelagem do futuro cidadão.
Os pensamentos de Francisco Campos (1925: 1) a respeito da educação moral, cívica e religiosa como necessárias à cidadania e ao Estado é expresso em entrevista ao jornal A noite, transcrita no periódico A União:
Certamente a educação moral e cívica pode concorrer para a formação e o esclarecimento da consciência nacional. Mas quais os fundamentos dessa educação moral, no meio da anarquia das doutrinas contemporâneas e na desorientação geral das inteligências? Só a religião pode oferecer ao espírito pontos de apoio e motivos e quadros de ação moral regulada e eficiente. A educação moral não é mais que um subproduto da educação religiosa. [...] O de que precisamos, se precisamos de educação moral, como não se contesta, é de educação religiosa.
Já a instrução para o exercício de profissão útil à sociedade e ao país, notadamente das classes menos favorecidas, exige: a) ensino pré-vocacional, em que terá lugar, no primário, a cultura de trabalhos manuais, e profissional (técnico), desde a instrução ginasial; b) a outorga de gratuidade tão somente aos alunos pobres, cabendo aos demais custear sua instrução; c) a atribuição às indústrias e sindicatos econômicos (patronais) do dever de criar escolas de natureza técnica.
A liberdade de pensamento e de ensino, principalmente em seus sustentáculos de discussão livre e de divulgação do saber através da imprensa, na visão de Campos (2001: 66-67), deve ser restringida a fim de não gerar a anarquia, bem como para que se não imponha certo ponto de vista ideológico dogmático em detrimento dos outros.
Francisco Campos (2001: 68) defende, ainda, a igualdade de oportunidades a todos os brasileiros jovens, no tocante ao acesso e permanência na escola. Isto ele defende por meio de gratuidade do ensino ao aluno pobre que tenha bom rendimento escolar, ou seja, que o mereça. Também ele acredita que é preciso trabalhar no indivíduo suas aptidões e tendências vocacionais para que seja bem sucedido. Muitas das idéias de Campos sobre a educação escolar têm lugar na Constituição de 1937.