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Autorreconhecimento antes do ingresso na PMDF

Capítulo 4 Identificação e desrespeito no trabalho policial: uma análise dos

4.2 Autorreconhecimento antes do ingresso na PMDF

A análise das entrevistas com os demissionários demonstrou que a polícia militar representava antes do ingresso uma oportunidade tangível de ascensão social. Mais do que isso, o ingresso na polícia militar era visto com uma especial temporalidade transitória, ou seja, a expectativa gerada tendia ao pragmatismo e não envolvia o autorreconhecimento enquanto policial militar. A motivação para o ingresso estava ancorada na percepção de que a estabilidade financeira supera a vocação para a atividade policial, em que a permanência na polícia militar é encarada como um estágio transitório. É dizer que a imagem da abnegação que se associa comumente à atividade policial107 perde força e parece estar se limitando ao discurso dos mais antigos na carreira. Durante a pesquisa, essa noção prévia de trabalho temporário mostrou-se, comumente, ligada à oportunidade de financiar os estudos, de contribuir com o sustento da casa ou mesmo de ingressar no mercado de trabalho com estabilidade.

Nesse sentido, ressalta-se que o perfil dos noviços da PMDF tem se alterado apenas recentemente com a exigência de nível superior para o ingresso, cuja seleção acaba sendo dirigida a sujeitos com perfil etário mais elevado e experiências profissionais anteriores108. Entretanto, é marcante nas entrevistas o delineamento das características dos demissionários, à época em que se tornaram policiais militares: são homens, solteiros e jovens. Nesse contexto, a polícia militar representou a primeira experiência de socialização profissional de grande parte de seus integrantes, conforme se evidenciou em diversas interações durante a pesquisa.

Entrevistador109: Qual foi a principal motivação que o levou a ingressar na polícia militar do Distrito Federal?

Sargento Mateus110: Eu não tinha vocação nenhuma. Foram dois aspectos: dinheiro e estabilidade. Tem todo um retrospecto que se eu for contar você chora. Eu saí de casa com 14 anos e vim morar sozinho em Brasília. E um adolescente conseguir um

107 São comuns na literatura sobre as agências policiais referências à cultura policial como sendo uma espécie de sacerdócio, dadas as condicionantes do trabalho. A ideia de que a profissão exige dedicação e vocação é assemelhada pelos policiais ao sacerdócio. Nesse sentido, ver Reiner (2004, cap. 3) e Skolnick (2005, p. 264-279).

108 Ver essas discussões no Capítulo 3, especialmente nas seções 1.3. Idade e estado civil, 1.5. Escolaridade, e 1.10. Trabalho anterior.

109 Entrevista nº 05. O policial contava 14 anos de serviço quando se licenciou da polícia militar em 2011.

110 Os nomes dos entrevistados são fictícios e foram decididos pelos próprios sujeitos a fim de garantir o anonimato dos participantes da pesquisa.

emprego é a coisa mais difícil, ainda mais sem pai nem mãe. (...) Eu trabalhava descarregando caminhão de madeira. Eu era chapa com 14 e até 17 anos. Quando fiz 18 anos, tive a oportunidade de ir pras forças armadas. Com isso, me alistei na aeronáutica e fiquei lá 1 ano e pouco. Lá eu me familiarizei com o militarismo, mas tinha o prazo (refere-se ao período do alistamento obrigatório das Forças Armadas). Foi quando comecei a estudar e a estudar muito. Então, eu sabia que ia sair da aeronáutica e já tinha familiaridade com as regras, com o funcionamento da coisa e na PM não tinha isso de tempo.

Entrevistador: Quais as expectativas que você tinha quanto ao trabalho a ser desempenhado?

Sargento Mateus: Minha expectativa era ficar quatro anos, o tempo de fazer uma faculdade e ir embora. É claro que a gente muda, a gente desenvolve aptidão. Mas minha expectativa era de curtíssimo prazo.

Esse trecho mostra que a familiaridade com as Forças Armadas contribuiu com a escolha da polícia militar como destino profissional. Contudo, “saber o funcionamento da coisa” não estendeu a expectativa de permanência na instituição, que permaneceu de “curtíssimo prazo”. Ora, o desígnio pragmático do Sargento Mateus era “fazer uma faculdade e ir embora”, ou seja, qualificar-se; e, para tanto, a polícia militar representava um meio. Nesse sentido, não existia o autorreconhecimento com os valores, os princípios e a rotina do trabalho policial, tampouco havia identificação com a estrutura militar, mesmo essa lhe sendo familiar. Ainda mais, não se demonstram expectativas positivas diante das atividades a serem realizadas.

Conforme discutiremos adiante, a temporalidade transitória que registramos nos relatos dos demissionários reflete uma espécie de lacuna entre os fatores de identificação positiva dos policiais e os aspectos do habitus policial militar, os quais parecem constituir polos que se opõem diante de situações rotineiras. Esses conflitos de reconhecimento variam de acordo com as propriedades e afinidades individuais, contudo são especialmente relevantes nos aspectos centrais do habitus policial militar. É o caso da valorização da exposição ao risco e ao perigo. Nesse caso, por exemplo, são comuns conflitos em torno das distinções entre as atividades administrativas e as operacionais. Ainda mais, essas oposições permeiam o processo de engrandecimento e valorização das características que lhes distinguem. De outra forma, a valorização da exposição ao risco é central às atividades operacionais, em que a lógica do flagrante se sobrepõe ao restante. Todavia, por outro lado, representa uma ameaça àqueles que não se identificam com estas características. Em suma, certos aspectos da rotina, dos valores e das disposições que marcam a socialização na polícia militar eventualmente se tornam obstáculos importantes na trajetória dos demissionários, mitigando a identificação positiva e catalisando a percepção de experiências de desrespeito.

Por vezes, os relatos dos demissionários quanto à percepção que tinham sobre a polícia militar antes do ingresso demonstram que a instrumentalidade associada ao trabalho

sobressaía a eventuais experiências negativas das quais tenham sido sujeitos. O autorreconhecimento dos demissionários antes do ingresso na polícia militar raramente esteve associado à vocação profissional, pelo contrário, a polícia normalmente inspirava reações de medo e resistência nos futuros policiais e seus familiares. Todavia, a estabilidade oferecida pelo emprego público parece ter sido o fiel da balança. Em grande medida, a análise das entrevistas com os demissionários assinalou que a polícia não povoava suas aspirações de crianças quanto ao futuro profissional, e, por mais que tenham tido eventuais experiências negativas com a polícia ou com militares, optaram por ingressar na polícia militar. É o caso, por exemplo, do Sargento Paulo, cujo relato reproduzimos em seguida.

Entrevistador: Qual era a imagem que você tinha da polícia militar?

Sargento Paulo111: Era de medo, medo! Um medo danado, não podia escutar a sirene que saía correndo.

Entrevistador: Por quê?

Sargento Paulo: No interior, tinha toque de recolher às 22 horas. Quem fosse pego após isso, dormia no xadrez. Era o exército que fazia esse controle.

Entrevistador: Para você era diferente a polícia militar e o Exército?

Sargento Paulo: Tudo a mesma coisa! Inclusive, quando eu já tinha entrado, que a gente tava na sala de aula e alguém testava a sirene, aquilo me dava vontade de sair correndo!

Entrevistador: Mas por que decidiu entrar então?

Sargento Paulo: De início, falei que não ia fazer o concurso. Porque eu tinha medo de militar danado. Meu trauma no Exército foi... porque eu vim servir o exército voluntário e lá eu fiz um curso de cabo e passei meu tempo todo em curso... era campo de instrução de Formosa, jogando granada.... aquele negócio, matar a galinha e chupar o sangue, matar coelho, porco.... Ali eu passei um trauma danado, físico e psicológico. Daí eu pensava que na PM era igual né. Ainda fiquei um tempo sem fazer o concurso, deixei de fazer dois ou três, daí meus colegas foram e disseram: vou fazer... Até que todo mundo tava tentando entrar na PM. Fiz o concurso e passei. Para quem era só estudante, não tinha expectativa nenhuma de arrumar emprego, deu um direcionamento tremendo na vida, né?

No relato do Sargento Paulo, a experiência no Exército foi “traumática”, num resquício do período de exceção que não parece se dissociar dos militares estaduais. Essa noção ajuda a informar, em parte, a pecha negativa que associa a atividade policial à violência e à arbitrariedade, e que participa da composição do reconhecimento social que se atribui à PMDF. Mesmo para o sujeito que serviu o exército, portanto familiarizado, a ideia que trazia era a de que seria “tudo igual” na polícia militar. De certa forma, essa percepção que os próprios

demissionários revelam sobre a época de seu ingresso na polícia militar parece não ter sofrido alterações substanciais. Nesse sentido, os resultados da pesquisa com os noviços apresentados no Capítulo 3 são sugestivos. Por exemplo, destacamos que 66% dos noviços, em 2010, consideram a PMDF uma instituição autoritária, 52,6% pretendem sair da instituição, e sua percepção de reconhecimento social depois da socialização na Corporação apresentou variação negativa em todos os itens analisados.

Independentemente das expectativas com o novo trabalho, a instrumentalidade associada ao trabalho, por vezes, sobressaía à natureza do trabalho a ser desempenhado. A relação com a estabilidade financeira é também refletida no relato da Soldado Sarah:

Entrevistador: Quais as expectativas que você tinha quanto ao trabalho a ser desempenhado?

Soldado Sarah112: Na verdade, eu estava muito angustiada para entrar logo. Não queria saber o que encontrar, não fui atrás de saber de nada. Inclusive, fui a primeira policial da família. (...) Eu estava quase trancando a faculdade e precisava muito do dinheiro. O período de seleção, aqueles testes todos, foi um sofrimento porque eu precisava entrar logo. Não pensava no que ia fazer.

Por outro lado, esse autorreconhecimento precário, orientado pelo pragmatismo, expressa uma satisfação instrumental que, por um lado, atende à necessidade “de entrar logo”. Ou seja, representa a concretização de um objetivo que se lhes propuseram. A despeito de serem comuns os relatos dos demissionários que demonstram uma imagem negativa sobre a polícia militar antes de a conhecerem por dentro, os entrevistados se engrandeceram com o ingresso. Por outro lado, essa orientação pragmática abre espaço à lacuna identitária no trabalho policial. Equivale a dizer que a expectativa dos novos policiais não se dirigia aos aspectos que caracterizavam o trabalho ou a instituição. Pelo contrário, o financiamento de seus estudos e a necessidade de contribuírem com o sustento familiar, por exemplo, eram valores mais fortes, e isso independentemente da imagem que muitos deles tinham antes de se pensarem como parte da polícia e depois da socialização. De toda forma, o ingresso na polícia militar foi festejado e representou fator de valorização e reconhecimento social. É o caso dos relatos abaixo em que o desígnio de estudar e o fetiche da autoridade são evidentes.

Entrevistador: Existe algo mais que gostaria de falar sobre a PMDF?

Sargento Mateus: Graças a Deus que a PM apareceu na minha vida, porque senão toda a evolução intelectual que eu tive, não que ela tenha facilitado os meus estudos, mas propiciou de alguma forma. Eu tinha segurança financeira, tinha estabilidade.

Entrevistador: Como sua família, amigos e pessoas próximas reagiram quando você ingressou na PMDF?

Sargento Paulo: Ah... eles moravam no interior. O delegado da cidade todinha era um cabo! Ahhh... meu pai tinha o maior orgulho. Meu pai falava pra todo mundo: meu filho é da polícia de Brasília! Avisava quando eu ia chegar, contava pra todo mundo com orgulho. E eu com 19 anos!

Entrevistador: Você se lembra de algum caso que ilustre isso?

Sargento Paulo: Tem sim. Eu cheguei lá uma vez e numa noite colocaram meu sobrinho para fora de uma danceteria porque era menor de idade. Eu fui lá e coloquei pra dentro de novo. Falei pro segurança que ele iria entrar ou todos os menores iam ter de sair! Me identifiquei e o garoto ficou na festa. Resolvido o problema. Autoridade, né!? (risos). E aquilo correu a cidade inteira! Foi bom.

Diante dos relatos, percebe-se que o raciocínio pragmático que instrumentaliza a polícia militar fica evidente também nas comemorações. Trata-se de um emprego e não de uma carreira, em que o trabalho desempenhado serve para suprir necessidades de natureza “intelectuais” ou “financeiras”.

Em suma, os demissionários não apresentavam expectativas de reconhecimento com o trabalho policial. De fato, antes do ingresso, as racionalizações demonstradas indicam no sentido pragmático de se obter uma ocupação, por assim dizer, a polícia militar representava um instrumento de ascensão social, e não um objetivo profissional em si. Com efeito, a polícia militar representou a primeira experiência profissional de grande parte dos entrevistados. Dessa forma, configura-se um cenário de especial temporalidade transitória, em que o pragmatismo reflete a lacuna identitária entre os fatores positivos de reconhecimento e aspectos do habitus policial militar.