1.8 NOVOS INSTRUMENTOS COOPERATIVOS
1.8.3 Auxílio Direto
Maria Rosa Guimarães Loula leciona que, no Brasil, os primeiros tratados
bilaterais sobre cooperação jurídica internacional em matéria penal que não se referiam à carta
rogatória foram o Acordo de Cooperação Judiciária em Matéria Penal entre o Governo da
República Federativa do Brasil e o Governo da República Francesa (Decreto n. 3.324, de
30/12/1999) e o Tratado entre a República Federativa do Brasil e a República Italiana sobre
Cooperação Judiciária em matéria penal (Decreto n. 863, de 09/07/1993). No entanto, seus
textos não eram claros quanto à adoção da sistemática do auxílio direto. Para a autora, o
Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa
do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América (Decreto n. 3.810, de 02/05/2001) é o
mais significativo a respeito da temática, sob a nomenclatura de Mutual Legal Assitance
Treaties – MLAT, na medida em que não deixa dúvidas quanto à inaplicabilidade da carta
rogatória e, no que refere a esse acordo em específico, assinala:
Nos acordos de cooperação jurídica internacional penal (estilo MLAT) não
há expressa referência ao instrumento da carta rogatória. (...).
Existe uma explicação para isto, no que se refere ao MLAT com os EUA. O
MLAT é um modelo de acordo estabelecido pelos EUA. No modelo
norte-americano, o MLAT é um acordo para ser utilizado pela acusação e pelas
autoridades de investigação. Uma vez que a carta rogatória é um
procedimento entre juízes, o MLAT não faz referência a ela. Assim, se a
acusação precisar produzir provas nos EUA, ela se valerá do MLAT; se a
defesa precisar produzir provas, ela terá que se dirigir ao Poder Judiciário
Nacional e solicitar a expedição de carta rogatória aos EUA (...).
(...) Para os EUA, portanto, a utilização do MLAT deve ser restrita a
acusação. O MLAT é um acordo de cooperação que se propõe a instituir
mecanismo de cooperação mais ágil e mais eficaz entre os Estados. Ocorre
que, na visão dos EUA, este diploma só pode ser utilizado pela acusação,
uma vez que foi celebrado apenas com esse fim (...) No Brasil, todavia, esta
discussão ainda não foi levada ao Poder Judiciário. A nossa posição
particular é que os princípios constitucionais do devido processo legal e da
igualdade processual impedem a obediência a essa interpretação restritiva do
acordo feita pelos EUA. Se esta é uma das interpretações literalmente
possíveis do referido artigo do acordo bilateral, será necessário, então,
proceder à interpretação conforme a Constituição, para compreender o
MLAT como mecanismo não exclusivo de cooperação para a acusação.
97Com semelhante viés, seja sob a designação de Mutual Legal Assistance – MLA,
seja sob a nomenclatura de auxílio direto, a autora registra outros acordos bilaterais firmados
pelo Brasil com a Colômbia (Decreto n. 3.895, de 23/08/2001), a Itália (Decreto n. 2.649, de
01/07/1998), o Peru (Decreto n. 3.988, de 29/10/2001) e Portugal (Decreto n. 1.320, de
30/11/1994).
Fábio Ramazzini Bechara ensina que a gênese do instrumental do auxílio direto
associa-se à morosidade e ineficiência das cartas rogatórias, notadamente as de natureza
executória, que, historicamente, até a Emenda Constitucional n. 45/2004, eram consideradas
atentatórias à soberania nacional, salientando:
A partir do instante em que a autoridade nacional passa a agir por
provocação da autoridade estrangeira tendo plena autonomia e controle sobre
o mérito e formalidades do pedido, escusa-se do recurso à soberania como
argumento de autoridade a impedir a cooperação.
98Nadia de Araujo define auxílio direto como sendo:
[...] a cooperação prestada pela autoridade nacional apta a atender a demanda
externa, no uso de suas atribuições legais, como se um procedimento
nacional fosse, embora oriundo de solicitação de Estado estrangeiro.
99Maria Rosa Guimarães Loula corrobora:
97
LOULA, Maria Rosa Guimarães. Auxílio direto: novo instrumento de cooperação jurídica
internacional civil. Prefácio de Jacob Dollinger. Belo Horizonte: Fórum, 2010. p. 103-104.
98
BECHARA, Fábio Ramazzini. Cooperação jurídica internacional em matéria penal: eficácia da
prova produzida no exterior. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 55.
99
ARAUJO, Nadia de (Coord.). Cooperação jurídica internacional no Superior Tribunal de Justiça:
Por intermédio do auxílio direto, a parte interessada (a própria parte – por ela
mesma ou por meio de autoridade central, o Ministério Público ou até
mesmo a autoridade policial), e não o Juízo estrangeiro, municia a
autoridade brasileira – via autoridade central – com elementos de convicção
para que um procedimento inteiramente nacional se inicie e seja levado a
cabo (...).
(...) ao se utilizar o instrumento do auxílio direto, a parte autora se submeterá
inteiramente à decisão do juiz estrangeiro, único juiz da causa.
(...) não há o reconhecimento em solo nacional de qualquer decisão
pronunciada por Jurisdição estrangeira. (...) há, no auxílio direto, a produção
de uma decisão que é ab initio nacional, apenas provocada pela parte
estrangeira. Por esta razão, não cabe falar em juízo de delibação no auxílio
direto. O que existe no auxílio direto é o convencimento do Juízo nacional,
exatamente igual ao que ocorre em hipótese puramente interna.
100Carmem Tibúrcio sintetiza as principais diferenças entre o auxílio direto e a carta
rogatória:
Por meio do auxílio direito, permite-se que autoridade estrangeira solicite a
realização de diligências no país, tal como ocorre no âmbito das cartas
rogatórias. As principais diferenças entre os institutos são o direito aplicável
e a origem da decisão que enseja o pedido. Enquanto cartas rogatórias têm
como fundamento decisão de autoridade estrangeira proferida de acordo com
suas próprias leis, o pedido de auxílio direto não se fundamenta em uma
decisão prévia, havendo a necessidade de que autoridade brasileira
competente, judicial ou não, decida, de acordo com as leis brasileiras, sobre
a viabilidade da diligência. Ou seja, as comissões rogatórias se submetem tão
somente ao juízo de delibação da decisão estrangeira; diversamente, o
auxílio direto tem como requisito decisão de autoridade nacional que, à luz
do direito brasileiro, determinará a possibilidade do pedido.
101A Resolução STJ n. 9, de 04/05/2005 consagrou o auxílio direto, nos seguintes
termos:
As cartas rogatórias podem ter por objeto atos decisórios ou não decisórios.
Parágrafo único. Os pedidos de cooperação jurídica internacional que
100
LOULA, Maria Rosa Guimarães. Auxílio direto: novo instrumento de cooperação jurídica
internacional civil. Prefácio de Jacob Dollinger. Belo Horizonte: Fórum, 2010. p. 106-109.
101
TIBÚRCIO, Carmem. Avanços em matéria de cooperação jurídica internacional: cartas rogatórias,
homologação de sentenças estrangeiras e auxílio direto. Revista do Tribunal Regional Federal 4ª
Região, ano 26, n. 89, 2015. p. 229. No mesmo trabalho, Carmem Tibúrcio trata da questão da
constitucionalidade do auxílio direto, mencionando entendimento do Supremo Tribunal Federal no
sentido de que toda e qualquer solicitação feita por autoridade estrangeira deva, necessariamente,
percorrer a via da carta rogatória (STF, HC n. 85588/RJ, Rel. Min. Marco Aurélio, j. 04/04/2006). A
autora analisa a ratio do art. 181 da Constituição da República, que reputa visar impedir a atuação
direta da autoridade administrativa ou judiciária estrangeira no País, concluindo não vincular toda e
qualquer solicitação proveniente do exterior ao instrumento da carta rogatória, aludindo à previsão do
auxílio direto na Convenção das Nações Unidas sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro de 1946
(Decreto n. 56.826/65).
tiverem por objeto atos que não ensejem juízo de delibação pelo Superior
Tribunal de Justiça, ainda que denominados como carta rogatória, serão
encaminhados ou devolvidos ao Ministério da Justiça para as providências
necessárias ao cumprimento por auxílio direto.
A Portaria Interministerial MRE/MJ n. 501, de 21/03/2012
102, em seu art. 2º,
estabeleceu tratar-se de pedido de auxílio direto passivo o pedido de cooperação jurídica
internacional ―[...] que não enseja juízo de delibação pelo Superior Tribunal de Justiça, nos
termos do art. 7º, parágrafo único da Resolução STJ nº. 9, de 04 de maio de 2005‖,
acrescentando, em seu art. 3º, que, nos casos em que o pedido de cooperação jurídica
internacional passivo não enseje a concessão de exequatur pelo Superior Tribunal de Justiça,
e puder ser atendido pela via administrativa, não necessitando da intervenção do Poder
Judiciário, ―[...] caberá ao Ministério da Justiça diligenciar seu cumprimento junto às
autoridades administrativas competentes‖.
Mais recentemente, o Novo Código de Processo Civil, Lei n. 13.105
103, de
16/03/2015, aplicado, analogicamente ao Processo Penal (Decreto-Lei n. 3.689
104, de
03/10/1941, art. 3º), dispôs, expressamente, sobre o instrumento do auxílio direto (arts. 28 a
34), prevendo que, além dos casos previstos em tratados de que o Brasil faça parte, o auxílio
direto terá os seguintes objetos:i) obtenção e prestação de informações sobre o ordenamento
jurídico e sobre processos administrativos ou jurisdicionais findos ou em curso; ii) colheita de
provas, salvo se a medida for adotada em processo, em curso no estrangeiro, de competência
exclusiva de autoridade judiciária brasileira; iii) qualquer outra medida judicial ou
extrajudicial não proibida pela lei brasileira (CPC, art. 30).
É característico do procedimento do auxílio direto que não tramite entre
autoridades judiciárias. Bechara
105reforça que sua provocação pode advir das partes
interessadas, do Ministério Público ou da autoridade policial, não necessariamente de um juiz.
Quando previsto em tratados, é efetuado entre as autoridades centrais dos Estados
Partes. No Brasil, como visto, é o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação
102
BRASIL. Ministério das Relações Exteriores; Ministério da Justiça. Portaria Interministerial
MRE/MJ n. 501, de 21 de março de 2012. Disponível em: < http://www.tjsp.jus.br/ Download/
Corregedoria/CartasRogatorias/Documentos/Portaria501_2012.pdf>. Acesso em: 03 nov. 2017..
103
BRASIL. Presidência da República. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de processo
civil. Diário Oficial da União, 17 mar. 2015. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 11 jun.
2018.
104
BRASIL. Presidência da República. Decreto-Lei n. 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de
processo penal. Diário Oficial da União, 24 out. 1941. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689.htm>. Acesso em: 11 jun. 2018.
105
BECHARA, Fábio Ramazzini. Cooperação jurídica internacional em matéria penal: eficácia da
prova produzida no exterior. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 55.
Jurídica Internacional – DRCI o órgão centralizador dos pedidos ativos e passivos de auxílio
direto.
Quando for necessária decisão judicial para atendimento do pedido do Estado
estrangeiro, é proposta ação perante a Justiça Federal brasileira, pela Advocacia Geral da
União ou pelo Ministério Público Federal.
Diversamente das cartas rogatórias, não há exequatur, não é emitido juízo de
delibação quanto aos aspectos formais do pedido pelo Estado requerido. A análise é de
mérito, cabendo ao Estado estrangeiro proferir decisão jurisdicional referente a determinada
questão em litígio em seu território, não havendo razão sequer para que observe qualquer
peculiaridade da legislação processual do Estado requerente.
Alternativa aos instrumentos clássicos, como a carta rogatória e a extradição,
nota-se que a amplitude das medidas solicitadas por intermédio desse novo mecanismo de
cooperação e das autoridades legitimadas a utilizá-lo possibilita que a cooperação jurídica
torne-se mais acessível e efetiva.
Contrário à existência de uma reserva material em relação ao uso da carta
rogatória para determinados assuntos, em detrimento do auxílio direto, Bechara
106salienta a
importância da realização de uma interpretação a favor da cooperação, sob a perspectiva que
se mostrar mais adequada em relação ao resultado pretendido e à idoneidade do meio
utilizado, considerando que os Estados envolvidos têm relação de identidade quanto a
determinados valores comuns, expressos nos acordos internacionais.
No documento
COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL PARA O COMBATE AO CRIME DE LAVAGEM DE DINHEIRO
(páginas 74-78)