4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.8 Considerações sobre a atividade de atendimento à criança/adolescente com
4.8.2 Avaliação da atividade para a formação profissional
O segundo eixo refere-se à avaliação da atividade para a formação profissional. Para todos os dezesseis respondentes a atividade ajuda na formação profissional52 como psicólogos. Das respostas dadas, foram construídas as seguintes categorias: “relação com o outro/postura profissional”, “questões ética decorrentes da aprendizagem de postura profissional”, “conhecimento teórico decorrente da atividade”, “aprendizagem de técnicas específicas”, “aplicação do conhecimento” e respostas “genéricas”.
A categoria “relação com o outro/postura profissional” foi dada por seis alunos (33%). Temos como exemplo a resposta do questionário 11 (...) acredito que a coisa mais importante que estou aprendendo é essa relação terapeuta-paciente, a lidar com os sentimentos que ele nos causa (...) não só ele, como os pais, a escola (...) a perceber que não é um bicho de sete cabeças. Essa categoria, apesar de trazer uma visão de Psicologia Clínica Tradicional (paciente-terapeuta), por outro lado, desmistifica a atuação do psicólogo ao enfocar as relações entre o terapeuta - “outros” (pais, escola, família). Ou seja, aponta que o psicólogo deve ter uma atuação voltada para a interdependência das relações das quais o sujeito está envolvido.
As respostas referentes às “questões éticas decorrentes da aprendizagem da postura profissional” foram dadas por dois alunos (11%). Um exemplo dessa categoria é a resposta do questionário 4: (...) acho que num primeiro contato, foi possível esclarecer dúvidas sobre ética e o papel que o psicólogo desempenha com o outro (criança) (...). Essa categoria amplia a categoria anterior ao apontar que, além da aprendizagem da postura profissional, há aprendizagem de questões éticas no atendimento, as quais são fundamentais para o exercício crítico e compromissado de toda e qualquer profissão.
52 Nesse item, tivemos as respostas dos questionários 11 e 12 que foram incluídas em duas categorias, o que ao final
Com relação ao “conhecimento teórico decorrente da atividade”, foi dada uma resposta (6%): (...) aprendi (ou estou aprendendo) muito. Fazemos relação de várias disciplinas com esse trabalho (questionário 11). Essa categoria manifesta a perspectiva de que o conhecimento teórico toma visibilidade a partir da prática.
A perspectiva de “aprendizagem de técnicas específicas” foi dada por dois alunos (11%) e pode ser assim expressa: “Sim. Como conduzir uma entrevista psicológica e como proceder nela; alguns aspectos que devem ser observados nas queixas trazidas, pelo menos sobre dificuldade de aprendizagem; sempre buscar informações além do que é trazido pelo sujeito” (questionário 1). Essa categoria nos aponta para uma visão de aprendizagem pragmática.
A “aplicação do conhecimento”, por sua vez, é manifestada por quatro alunos (22%) e pode ser expressa na seguinte afirmação: Sim, foi possível ver na prática como as diferenças culturais se impõem em todos os contextos em que o sujeito transita, também vimos como é preciso estar sempre pondo em questão a fala do sujeito, o que ele traz, assim como a dificuldade de se chegar a questões que são difíceis do sujeito lidar (questionário 2). Essa categoria aponta que esses alunos reconhecem que conhecimentos teóricos embasaram a prática, contrariamente ao que tínhamos como respostas dos alunos, principalmente, no primeiro questionário. Podemos entender que por estarem em uma outra fase do Curso de Psicologia esses alunos tenham mais clareza da importância da teoria na formação profissional. Porém, ainda assim, vemos nessa resposta a visão de que a teoria foi aplicada, por isso reconhecida como importante. Destacamos também que esta resposta aponta para a aprendizagem de postura não etnocêntrica.
As três respostas que eram amplas foram categorizadas como “genéricas” (17%). Temos como exemplo a seguinte resposta: (...) a necessidade de compreensão da individualidade de cada sujeito. As atividades, jeito de falar variam de acordo com a pessoa, idade (questionário 3).
O exame das respostas à questão em que eram solicitados a avaliarem a atividade no Curso de Psicologia apontou que todos os dezesseis alunos a consideram positiva. Podemos exemplificar na resposta do questionário 11: (...) acredito que essa atividade faz total diferença no sentido de que agora aprendo, percebo os conteúdos de praticamente todas as disciplinas com outro olhar, com o olhar de quem está passando por uma prática, de que está tendo que lidar com tudo que ela nos produz. Esses dados apontam que há um entendimento de que a atividade proporciona uma formação profissional diferenciada à medida que a prática proporciona a articulação entre os
conteúdos aprendidos nas diversas disciplinas do Curso. Porém, podemos entender essa categoria como uma reafirmação da perspectiva pragmática na formação profissional.
Quando solicitados a responderem se teriam lido alguma bibliografia específica para o trabalho, analisamos as respostas nas seguintes categorias: a) “bibliografia específica de Psicologia” com sete respostas (44%): (...) trechos de Obras de Rogers, Piaget, Vygotski, Catania e Edwiges et al. (questionário 15); b) “bibliografia de Psicologia e áreas afins ao atendimento”, com duas respostas (13%): principalmente sobre o processo de alfabetização e dinâmicas de grupo (questionário 8); c) “bibliografias de áreas afins”, com 2 respostas (13%): (...) alguns artigos e capítulos de livros sobre alfabetização de crianças (questionário 16); d) “não sabe especificar/não lembra”, com duas respostas (13%): (...) não me lembro nenhum título no momento (questionário 13); d) “não”: (...) talvez leremos agora para fazer o relatório final (questionário 5) duas respostas (13%) e, e) “não respondeu”, uma resposta (6%), questionário 3. Vemos que houve uma procura tanto por bibliografia na própria área, quanto de áreas afins para o desenvolvimento da atividade, o que parece ampliar o campo teórico desses alunos. Vemos uma preocupação em buscar conhecimentos apropriados à realidade em que estavam inseridos, o que em parte se faz necessário para a atuação, e por outro lado, vem confirmar a visão pragmática da formação por parte desses alunos respondentes do segundo questionário.
Em síntese, concluímos que os alunos reconhecem na atividade a possibilidade de aprendizagem da postura profissional. Porém ela ainda está marcada pelo caráter individualizante. Outro ponto a ser destacado refere-se à relação teoria-prática. Vemos que os alunos têm uma visão pragmática da teoria. Ou seja, ela só se torna conhecimento subjetivo (apreendido) a partir de uma aplicação direta.