Etapa 2.1 – Avaliação por juízes especialistas
Conforme Menezes e Murta (2018), “entende-se por sensibilidade cultural a intensidade
com que as características culturais, como normas, valores, padrões de comportamento, crenças, aspectos ambientais, históricos e sociais estão incluídas na intervenção, em seus materiais, forma de entrega e proposta de avaliação” (Menezes & Murta, 2018, p. 682). De
modo geral, o objetivo da avaliação do material pelos juízes foi identificar se o programa de intervenção adaptado era culturalmente sensível à realidade brasileira.
Considerando o conceito de sensibilidade cultural, é possível destacar dois elementos que o constituem: estrutura superficial e estrutura profunda. Em relação à estrutura profunda, trata-se dos elementos centrais, fundamentais à uma intervenção. São incluídos na estrutura profunda elementos relacionados, consoante Menezes e Murta (2018), aos comportamentos saudáveis visados pela própria intervenção. Entre os objetivos da intervenção, é possível destacar, por exemplo, favorecer o aumento de comportamentos adaptativos, atenuar e prevenir
problemas comportamentais relacionados à exposição à VPI. Deste modo, elementos relacionados a tais objetivos, e que são visados por meio de atividades previstas no programa fazem parte da estrutura profunda. Os aspectos relativos à estrutura profunda abordados no programa foram considerados relevantes pelos juízes, que consideraram o objetivo, estrutura das sessões e abordagem do programa adequados à realidade brasileira.
No tocante à estrutura superficial, é importante sublinhar que a mesma envolve aspectos que podem tornar um programa de intervenção mais atraente, compreensível e culturalmente relevante para dada população – entre fatores que a constituem, destacam-se linguagem, materiais lúdicos, entre outros recursos da intervenção (Menezes & Murta, 2018). Para este âmbito do programa adaptado, foram sugeridas modificações e alterações.
Os juízes recomendaram o uso de linguagem mais informal nos materiais destinados aos participantes, em relação à linguagem que foi utilizada em alguns trechos da primeira versão traduzida. Em um dos materiais destinados às mães, por exemplo, frases ilustrando pensamentos que seus filhos poderiam ter foram originalmente traduzidos como “isso [a situação de violência] nunca irá parar” e “como teremos dinheiro para comer se mamãe o deixar?”. Após recomendações dos juízes, tais pensamentos foram ilustrados em linguagem
mais coloquial – “isso nunca vai parar” e “como vamos ter dinheiro se mamãe o deixar?”. Outro tipo de sugestão de modificação se referiu à substituição de termos de tradução literal, como por exemplo, “abuser” no inglês. Sugeriu-se que o termo fosse substituído por “agressor” para o português, ao invés de “abusador”, que seria o termo utilizado em uma
tradução literal - o conceito de “agressor” é mais utilizado no contexto brasileiro.
Etapa 2.2 – Consulta a profissionais da rede de proteção
Participaram desta etapa sete profissionais, cujas características são sumarizadas na Tabela 4. Entre os sete entrevistados, de idades entre 26 e 47 anos, cinco dos participantes haviam concluído o ensino superior. Dois destes participantes, P3 e P7 haviam concluído
mestrado e doutorado relacionados à sua formação e também à área de atuação profissional. Por fim, P2 era estudante de graduação (para maiores informações ver o terceiro artigo desta dissertação).
A análise dos dados obtidos a partir das entrevistas pôde fornecer um panorama inicial sobre a adequação do programa em relação à realidade brasileira. Os apontamentos dos participantes permitiram concluir que a proposta do programa de intervenção adaptado é compatível com a realidade brasileira, em termos de conteúdo, estrutura e atividades propostas. Em primeiro lugar, os participantes destacaram considerar que as demandas de intervenção observadas ao longo de sua experiência se relacionam principalmente à necessidade de desenvolvimento de recursos de autoproteção e enfrentamento, com vistas ao favorecimento do curso de um desenvolvimento saudável, dadas as condições adversas às quais a população-alvo está exposta. Também houve ênfase sobre a necessidade de intervenção voltada ao tratamento e recuperação de possíveis problemas decorrentes da exposição à situação de VPI. Todos estes aspectos fazem parte da estrutura e princípios norteadores do programa de intervenção adaptado.
No decorrer da entrevista, apresentou-se aos entrevistados uma lista com 17 itens contendo os temas abordados pelo programa original. Todos os temas foram considerados relevantes por pelo menos cinco dos sete profissionais. Os profissionais ressaltaram objetivos como favorecimento de resiliência, habilidades de enfrentamento e estratégias de autoproteção e prevenção de violência para as crianças e adolescentes, bem como atividades relacionadas à educação emocional.
No tocante às características de uma intervenção voltada para este público, sublinharam que as sessões devem ser passíveis de serem realizadas de maneira individual ou em grupos, considerando que as atividades devem incluir materiais lúdicos, contação de históricas e oficinas/atividades pontuais incluindo o encontro entre mães/cuidadoras, famílias e crianças/adolescentes. Tais aspectos são compatíveis com a versão adaptada do CGTP. Em
relação a temas ou atividades que não fazem parte ou não são diretamente abordados pelo CGTP, e que foram apontados pelos participantes, destacam-se as sugestões de um dos participantes para a realização de atividades a respeito de cidadania, e atividades acerca de regras e limites por outro participante entrevistado.
Por fim, os profissionais contribuíram com relatos a respeito do que consideravam dificuldades específicas no momento de se realizar intervenções como o CGTP. De acordo com eles, a adesão de participantes representa a maior dificuldade a ser encontrada. Além disso, outros fatores como condutas inadequadas dos pais das crianças e adolescentes a serem atendidos, bem como aspectos emocionais e psicológicos decorrentes de uma situação de exposição à VPI também foram sublinhados como desafios a serem encontrados. Ademais, a própria identificação de situações de violência intrafamiliar foi descrita como uma dificuldade presente no cotidiano de profissionais da rede de proteção, de modo que localizar pessoas que necessitariam de um encaminhamento para tratamento consiste também, de acordo com os entrevistados, em um desafio. Encaminhar e amenizar os efeitos de tais dificuldades dependerá da consulta a procedimentos disponíveis na literatura relacionados às variáveis determinantes de tais dificuldades, de modo a diminuir seu impacto e otimizar o tratamento proposto.