PARTE III – DIAGNÓSTICO GERONTOLÓGICO DA UNIÃO DE FREGUESIAS DE RIO MAU E ARCOS
2. Condições materiais de existência
2.4. Avaliação do desempenho funcional dos idosos
Envelhecer com saúde, autonomia e independência, o mais tempo possível, constitui, hoje, um desafio à responsabilidade individual e colectiva (DGS, 2004). O efeito mais evidente do processo de envelhecimento é a limitação progressiva das capacidades do indivíduo para satisfazer, de forma autónoma e independente, as suas necessidades. Assim, tendo em conta os ganhos em longevidade que se estão a registar e face ao novo cenário do país, marcado por um aumento de doenças crónico- degenerativas, pelo crescente número de acidentes envolvendo idosos e por fortes modificações estruturais relacionadas com as famílias (que se têm tornado cada vez mais nucleares, e desta forma, mais limitadas em assistir o idoso dependente no domicílio) (Ferreira, 2015), neste capítulo, analisaremos se existe a necessidade de criação de equipamentos de apoio à terceira idade na União de Freguesias de Rio Mau e Arcos tendo por base a análise dos resultados de dois instrumentos utilizados para a avaliação da (In) dependência funcional utilizados no inquérito: a escala de Barthel e a escala Lawton & Brody.
Começaremos por considerar os resultados obtidos na aplicação da Escala Geriátrica de Barthel que visa medir a perda da independência funcional necessária
0,0% 20,0% 40,0% 60,0% 80,0% 100,0% Supermercado Ginásio Farmácia Jardim Correio Banco Acesso a transportes públicos Centro de Saúde Café Igreja Associação Recriativa 44,4% 6,0% ,9% 9,1% 2,6% 3,4% 69,4% 2,2% 94,8% 74,1% 5,6% Número de respostas (%) Ti p o d e s e rv iç o s
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para cuidar de si próprio em dimensões tão elementares da vida quotidiana como tomar banho, vestir-se, mover-se no interior da habitação, levantar-se, deslocar-se de uma divisão para a outra, descer e subir escadas, ser continente e alimentar-se (Mahoney & Barthel, 1965; Sequeira, 2007). Das informações contidas na tabela A20 (disponível em anexo) ressalta que os indivíduos que já se encontram numa situação de dependência total, grave e moderada, mas que não recorrem a serviços especializados, perfazem percentagens que rondam, ao nível da freguesia os 24%, ou seja, quase 1/4 do total da amostra (3,9% no grupo etário dos 65 aos 69 anos, 4,3% no g upoà et ioà dosà à aosà à eà , %à oà g upoà dosà aisà velhos . Se é certo que a dependência total, grave e moderada se regista fundamentalmente entre os membros
do es al oàet ioà aisàvelho à o àpe e tagens sempre superiores nas mulheres)
não é menos importante notar que a dependência muito leve atinge, de forma
bastante expressiva, membrosà doà g upoà et ioà aisà jove à o à aio à
preponderância nos homens.
Importa, todavia, ter presente que a perda da mobilidade/motricidade e do controlo sobre o corpo, predominantemente, avaliada através da Escala de Barthel, não é a única manifestação de declínio susceptível de perturbar o ordenamento do quotidiano dos indivíduos que envelhecem. A vida quotidiana integra outras actividades indispensáveis para relacionar-se com o mundo envolvente, escapar ao isolamento e, até, cuidar de si próprio. São as chamadas actividades instrumentais da vida diária79 (medidas através da escala de Lawton & Brody) cujo grau de complexidade é mais elevado, desde logo, porque mobilizam capacidades cognitivas, capacidades sensoriais, neuro-locomotoras podendo deixar de ser executadas com segurança mesmo antes das que são avaliadas na Escala da Barthel. As mais comuns prendem-se com a utilização do telefone, realização de compras, preparação das refeições, tarefas domésticas, lavagem da roupa, utilização de meios de transporte,
79 Para o efeito, utilizamos a escala de Lawton & Brody em que cada AVD
i tem vários níveis de
dependência (0 a 8). E, para cada AVDi o idoso é classificado como Dependente (0 pontos) ou
Independente (1 ponto). No caso dos homens não se contabilizam a preparação das refeições, as tarefas domésticas e a lavagem da roupa. A pontuação final resulta da soma da pontuação das 8 AVDi e varia
entre 0 a 8 pontos (0 e 5 pontos no homem), correspondendo ao número de AVDi em que o idoso é
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responsabilidade pela medicação e responsabilidade pelos assuntos financeiros. A incapacidade total ou parcial de continuar a realizá-las implica, pois, o comprometimento de outros no acompanhamento diário dos indivíduos.
Em matéria de capacidade para realizar tarefas instrumentais da vida quotidiana, os resultados que constam da tabela A21 (disponível em anexo), permite- nos constatar que os homens e as mulheres com uma dependência total ou dependência grave que necessitam obrigatoriamente de ajuda regular de alguém, perfazem na nossa amostra uma percentagem perto dos 15% (14,4%). Observando a distribuição, por género e grupos etários, conclui-se que à semelhança do que constatamos com os resultados da escala de Barthel, também aqui os maiores níveis
deà depe d iaà assu e à u à pesoà asta teà aisà a e tuadoà oà g upoà dosà aisà
velhos à , %à fa eà aosà %à osà doisà g uposà et iosà aisà ovos ,à eà oà g upoà dasà
mulheres (9,7% contra os 2,7% nos homens). Ao contrário da dependência mais elevada, a dependência moderada tem mais impacto nos homens (3,9% face aos 3,1% nas mulheres) principalmente entre os membros do escalão etário mais novo (1,6% face a 1,2% nos dois grupos etá iosà aisà velhos .à Já a dependência ligeira é mais acentuada nas mulheres (12,8% contra aos 5,0% dos homens) parecendo afectar prioritariamente as mais idosas. Por fim, constata-se ainda que os homens são mais independentes que as mulheres (31,0% face aos 29,8% dos homens).
De forma a apreender mais objectivamente os resultados da escala de Barthel socorremo-nos de testes estatísticos contemplados na tabela n.º 19 que nos dá indicações sobre a existência ou não de diferenças estatisticamente significativas entre género e escalões etários.
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Tabela n.º 19 - Média e desvio padrão do índice de Barthel por género, escalão etário e valor
de p do teste Mann-Whitney e Kruskal-Wallis Índice de Barthel N válido Média Desvio padrão valor-p p<0.05 Género* Feminino 147 87,82 24,34 Masculino 111 93,39 26,21 Total 258 90,22 25,26 p<0.05 Faixa Etária** 65-69 anos 84 99,00a 16,04 70-74 anos 57 90,61a 25 ≥7 a os 117 83,72b 28,8 Total 258 90,22 25,26
*Resultado de acordo com o teste de Mann-Whitney (p<0.05) **Resultado de acordo com o teste de Kruskal-Wallis. Comparações par-
a-par, Mann-Whitney (p<0.05)
Com efeito, a análise de significância do teste de Mann-Whitney relativo ao resultado comparativo entre o género, cujos dados estão apresentados na tabela imediatamente anterior, podemos verificar a existência de diferenças estatisticamente significativas na escala de Barthel com valores de p <0,05.
No que concerne à média, constata-se que os valores são inferiores no género feminino (87,82) face à média bastante superior (93,39) registada no género masculino. Estes resultados dão-nos a indicação que as mulheres encontram-se num nível de dependência moderada (valores entre 61 e 90) e que os elementos do sexo masculino apresentam uma dependência muito leve (com valores entre 91 e 99). Ou seja, também nas questões de dependência, são as mulheres que se encontram numa situação mais vulnerável.
Ainda de acordo com a informação da mesma tabela, mas agora com o objectivo de perceber se existem diferenças estatisticamente significativas entre escalões etários, recorremos à significância do Teste Kruskal-Wallis. O resultado proveniente deste teste dá-nos a indicação que à semelhança do género, também aqui, existem diferenças estatisticamente significativas (p<0,05). Com efeito, os
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maiores níveis de dependência situam-seà oàg upoàet ioàdosà aisàvelhos à o àu a
média de 99,00 face aos 90,61 registados no grupo etário dos 70 aos 74 anos e 83,72
oà g upoà dosà aisà ovos .à Assim, podemos concluir que se extrairmos estes
resultados para o universo de idosos na União de Freguesias, muito provavelmente encontraríamos os mesmos resultados, ou seja, quanto mais velhos são os idosos, maior o nível de dependência.
Em suma, a dificuldade de desempenho de certas actividades da vida diária na nossa amostra, ocorre primeiramente em relação às AVDi (medidas pela escala de Lawton & Brody) com uma percentagem de dependentes totais e graves na ordem dos 14,4%, face aos valores inferiores apuradas nas AVDf (medidas pela escala de Barthel) com percentagens para os mesmos níveis de dependência, que perfazem 9,7% da amostra. Como nota final, importa ainda mencionar que os resultados da nossa investigação convergem com os resultados de outros estudos efectuados anteriormente por outros investigadores em que as perdas relativas às AVDf surgem após as perdas das AVDi (Oliveira, 2006 citado por Rodrigues, 2009).