A avaliação deste projecto de intervenção revela desde logo o forte interesse e motivação dos utentes na aquisição de informação acerca da temática que envolve a ATA. A total adesão dos utentes a esta sessão de Educação para a Saúde justifica por si só a necessidade da realização das mesmas por períodos de 6 em 6 meses. Foi evidente a sua satisfação ao sentirem o empenho da instituição na prestação de cuidados de qualidade com a adopção de medidas que promovem a adesão ao tratamento e reabilitação.
Espera-se obter potenciais ganhos em saúde a longo prazo através da melhor adaptação do utente no período pós-operatório às actividades da vida quotidiana, melhorando assim a sua qualidade de vida em relação àquela que auferia na fase anterior à cirurgia. Pretende-se que o processo de ATA seja menos traumático e moroso com o envolvimento e participação do utente no processo de reabilitação. A limitação do tempo de estágio e o facto de o estágio não ter sido realizado em contexto de trabalho, limitou a construção de indicadores de resultado no período pós-operatório. Assim sendo ficou na consulta externa de ortopedia o registo deste projecto de intervenção que fornece a sustentação para lhe dar continuidade tanto na realização de sessões periódicas aos utentes em lista de espera para ATA como, seguindo a ordem de prioridades de intervenção obtida no instrumento de colheita de dados, alargar o projecto à temática que envolve a artroplastia total do joelho.
Assim, este projecto de intervenção revelou ganhos em saúde:
Para os utentes em lista de espera para ATA, que beneficiaram de mais e melhor informação diminuindo assim a ansiedade inerente ao período pré operatório, e melhor adaptação ao período pós-operatório com a nova condição de prótese total da anca; Para o HCC que conta com a potencial diminuição do tempo médio de internamento por ATA e consequente redução do número de utentes em lista de espera, diminuindo assim os gastos em saúde;
Para o enriquecimento pessoal e profissional do grupo de trabalho favorecendo a excelência na qualidade de prestação dos cuidados de enfermagem.
CONCLUSÃO
A acção de Educação para a Saúde é um processo que tem como objectivo capacitar indivíduos ou grupos para ajudarem na melhoria das condições de saúde das populações. Os profissionais de saúde e a população devem compreender que a saúde na comunidade depende das intenções levadas a cabo pelos serviços de saúde mas também resultam em larga escala pelo esforço da própria população através da sua motivação, da aquisição de conhecimentos, da sua compreensão, reflexão e sobretudo da adopção de práticas de saúde (Kawamoto et al: 1995). A declaração de Alma-Ata, resultante da conferência organizada pela Organização Mundial de Saúde subscreveu alguns aspectos importantes entre os quais: “Os
povos têm o direito e o dever de participar, individual e colectivamente, do planeamento e
execução dos cuidados de saúde” Geraldes (1992: 92). Esta declaração considerou como
primeira prioridade em Cuidados de Saúde Primários a educação sobre os principais problemas de saúde e os métodos de prevenção e controlo dos mesmos, privilegiando a Informação e a Educação para a Saúde.
Os esforços na Educação para a Saúde devem ser encarados numa perspectiva de cidadania, em que todos os cidadãos têm um papel a desempenhar, mas é consensual que os enfermeiros devem assumir um papel de relevo. Como profissionais de saúde as nossas intervenções integram processos educativos que promovem o cuidado responsável do utente e comunidade. Cuidar é também ensinar, uma das componentes do processo de educar. Esta dimensão é bem evidente nalgumas concepções de enfermagem como é o caso de Leininger que define a enfermagem como: “Uma arte e ciência aprendida e humanística que se centra
em condutas de cuidados personalizados (individuais ou de grupo), funções e processos dirigidos para a promoção e manutenção de condutas de saúde ou a recuperação de doenças
que têm significação física, psico-cultural e social, para aqueles que estão assistidos”
(Leininger, 1984: 4,5).
Tendo em conta as condições de vida das famílias e das populações, cabe-nos a responsabilidade social de contribuir para a promoção da saúde e prevenção da doença através da sensibilização no âmbito da promoção da saúde e prevenção da doença. A acção de Educação para a Saúde é principalmente a interacção com métodos pedagógicos activos, onde o enfermeiro serve de mediador entre a saúde e as pessoas, pois é feita com base nas experiências individuais dos intervenientes, de onde se identificam as necessidades da população. Como enfermeiros devemos responsabilizar-nos por avaliar os métodos e recursos utilizados na acção de Educação para a Saúde, procedendo à sua alteração, caso não resultem.
É primordial saber compreender as necessidades de saúde da população e para tal não basta Informar, ou seja, comunicar alguma coisa de que julgamos haver necessidade. É essencial educar, transmitir conhecimentos adequados e pertinentes para a saúde do utente/ família/ comunidade, sendo para tal necessário dar as informações sistematizadas como os ensinos pontuais ou acções de Educação para a Saúde em grupo. Contudo, é também importante fornecer a informação sistematizada integrando-a no devido contexto, ou seja, instruir de modo dar oportunidade ao utente/ família/ comunidade de optimizar a sua saúde a fim obter os melhores resultados em termos de saúde. Neste contexto assume primordial importância o facto de tornar os ensinos compreensíveis e claros, através da orientação do utente/ família/ comunidade para as melhores decisões relacionadas com a sua saúde, e também aconselhar e capacitar os indivíduos a tomar as suas próprias decisões. Para tal devemos colaborar, isto é, trabalhar em conjunto com o utente/ família/ comunidade, pois só assim se consegue estimular ou incitar os indivíduos a adoptar comportamentos ditos saudáveis.
O período de integração ao estágio no piso I do centro de saúde de Alvalade proporcionou-me a participação no projecto “Reino da imaginação”. Através da prestação directa de cuidados de enfermagem no CSA e da realização das sessões de Educação para a Saúde sobre Higiene pessoal, Pediculose e Higiene oral dirigidas às crianças em idade escolar e suas mães de etnia cigana residentes no bairro das Murtas, tive oportunidade de percepcionar a existência de carências no âmbito da Informação/ Educação para a Saúde destas mães e suas crianças presumivelmente relacionadas com as tradições e costumes da sua cultura, bem como perceber a disposição e motivação das mesmas para a potencial mudança de comportamentos no sentido da aquisição de hábitos de vida saudáveis reconhecendo a importância dos ensinos realizados e demonstrando progressos na aprendizagem.
Na fase do estabelecimento do Diagnóstico em Saúde realizado na comunidade de mães de etnia cigana residentes no bairro das Murtas com crianças dos 0 aos 11 anos emergiram como necessidades prioritárias sentidas por estas mães no âmbito da Educação para a Saúde das suas crianças: Diagnóstico precoce, Vacinação e Hábitos de uma alimentação saudável. A realização das sessões de Educação para a Saúde no domínio da Promoção da saúde e Prevenção da doença acerca destas temáticas revelou ganhos em saúde para a comunidade de mães e suas crianças de etnia cigana residentes no bairro das Murtas, para o centro de saúde de Alvalade, para os parceiros da comunidade, para o meu enriquecimento pessoal e profissional e para o desenvolvimento da profissão de Enfermagem.
No HCC, a lista de espera para as cirurgias ortopédicas programadas mais frequentes (Substituição total do joelho, Substituição total da anca, e excisão de cartilagem semilunar do joelho) é uma realidade o que não favorece o estabelecimento de um programa de ensino personalizado a estes utentes. O estudo realizado ao grupo de utentes das três cirurgias ortopédicas mais frequentes no período pós-operatório revelou como grupo prioritário, com maior necessidade de Informação e Educação para a Saúde no período que antecede a cirurgia, os utentes com proposta para ATA. Isto poderá dever-se, em relação às outras duas
cirurgias, à maior complexidade na adaptação ao pós-operatório durante a realização das actividades de vida diária destes utentes.
A realização da sessão de Educação para a Saúde acerca da temática que envolve a ATA contou com a participação de um elemento de referência de cada etapa do processo de ATA. A total adesão dos utentes e seus acompanhantes a esta sessão de Educação para a Saúde justifica por si só a necessidade da realização das mesmas por períodos de 6 em 6 meses. Ao longo da apresentação da sessão, o interesse, a interacção e a motivação dos participantes foi uma constante. Esta actividade revelou ganhos em saúde para os utentes em lista de espera para ATA, para o HCC, para o enriquecimento pessoal e profissional do grupo de trabalho e para o desenvolvimento da Enfermagem como profissão.
O percurso ao longo dos campos de estágio permitiu-me desenvolver e sedimentar competências essencialmente de Planeamento em Saúde e Gestão de Cuidados de enfermagem para prestar, além de cuidados gerais, cuidados de enfermagem especializados em enfermagem comunitária, contribuindo assim para valorizar e potenciar a qualidade dos cuidados na assistência de enfermagem avançada a grupos, famílias e comunidade. Foi privilegiada a Educação para a Saúde aos três níveis de prevenção como um processo orientado para a utilização de estratégias que ajudem o indivíduo e comunidade a adoptar ou modificar comportamentos que lhes permitam um melhor nível de vida. Os objectivos gerais e os específicos delineados para cada campo de estágio foram atingidos.
Considero que esta caminhada representou um grande desafio, principalmente por se tratar de áreas diferentes do meu contexto de trabalho o que exigiu inicialmente grande capacidade de aprendizagem para posteriormente elevar progressivamente as competências adquiridas a um nível avançado da prática de enfermagem. Isso verificou-se em cada campo de estágio em si, como também em relação aos três campos de estágio como um todo; o Módulo III reflectiu o culminar deste processo com maior destreza no desenvolvimento de competências aliado ao gosto pelo trabalho a desenvolver e a potencialização dos resultados obtidos.
As competências desenvolveram-se a partir dos conhecimentos técnicos e científicos adquiridos e sua aplicação adequada e congruente às situações concretas vivenciadas em cada campo de estágio. Benner (2001) identifica cinco níveis de competência na prática clínica da enfermagem. Defende que independentemente dos conhecimentos obtidos através da pesquisa e da formação, as competências desenvolvem-se ao longo do desempenho profissional no contexto do trabalho. Esses níveis são: Iniciado, Iniciado avançado, Competente, Proficiente e Perito. Existe uma evolução gradual e temporal. Tal como nos refere Dias (2004:64) “leva-nos a acreditar que este desenvolvimento das competências, mais ou
menos rápido, se deve à capacidade de reflexão e interiorização, ligado às características
individuais do individuo e aos contextos do trabalho”. Assim procurei utilizar um pensamento
crítico e uma análise reflexiva da prática como estratégia de aprendizagem e fica sem dúvida a convicção de que o meu olhar hoje é diferente do olhar que tinha antes de iniciar o estágio, pois a reflexão constante do desempenho e da actuação permitiriam o desenvolvimento de
competências visando o desenvolvimento da profissão, evidenciando o impacto positivo das intervenções de enfermagem na qualidade de vida das pessoas e comunidade.
Como refere Lalanda (1995: 28), “reflectir sobre o que fazemos e como fazemos...” permite olhar a prática dos Cuidados de Enfermagem como uma interacção social e reflectir sobre essa interacção. De facto toda esta trajectória contribuiu para o meu processo de crescimento profissional e pessoal, constituindo um momento de aprendizagem de excelência, dotado de significado e de sentido. Mas também foi incitador de alguma angústia e desânimo, pois houve momentos em que este trabalho parecia não ter fim, acrescido do facto de algum desgaste físico e intelectual. Contudo, com persistência e coragem tudo ia ficando mais claro, tendo sido esta experiência muito gratificante com ganhos efectivos na minha formação, quer como pessoa quer como profissional de enfermagem.
Ao longo do estágio todos os momentos de aprendizagem constituíram os alicerces para o meu perfil como Especialista em Enfermagem Comunitária, tendo desde já uma importância vital na minha prática do exercício profissional, pois que a promoção da saúde aliada ao conceito de prevenção da doença está inerente à prática de enfermagem qualquer que seja o contexto de trabalho. Ao finalizar esta caminhada vislumbra-se um futuro incerto quanto à tomada de posse e afirmação como Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária. Tenho plena consciência de que esse caminho se encontra ladeado de incertezas contudo subsiste a esperança e “O Caminho faz-se à Medida que Caminhamos”.