4.4 COLETA DE DADOS
4.4.4 AVALIAÇÃO DOS COMPORTAMENTOS PARA TRANSTORNOS
Os comportamentos de risco para TA foram avaliados por meio de dois questionários autoaplicáveis, um destinado à avaliação dos comportamentos para anorexia, e outro destinado aos comportamentos para bulimia. Ambos foram
entregues às participantes, após explicação de como realizar o correto preenchimento.
O Eating Attitudes Test - EAT-26 (Anexo 3) classifica como comportamento alimentar negativo para anorexia uma pontuação abaixo de 21 pontos e, comportamento alimentar positivo para anorexia, igual ou acima de 21 pontos49.
O Bulimic Investigatory Test, Edinburgh - BITE (Anexo 4) apresenta a classificação da pontuação da escala de sintomas para bulimia nervosa como: abaixo de 10 pontos, comportamento dentro dos limites para normalidade; entre 10 e 19 pontos, sugere padrão alimentar não usual e, em geral, não estão presentes todos os critérios para bulimia, por fim, pontuação superior a 20 pontos indicam comportamento alimentar com possibilidade de bulimia. A escala de gravidade de 5 ou mais pontos foi considerada clinicamente significativa. Uma pontuação de 10 ou mais indicava um alto grau de gravidade.
4.5 ANÁLISE ESTATÍSTICA
Todas as variáveis quantitativas foram testadas quanto à sua normalidade utilizando o teste de Kolmogorov-Smirnov. Variáveis sem distribuição normal foram apresentadas como mediana (Q1 – Q3) e, variáveis com distribuição normal, como média (desvios-padrão). As variáveis categóricas foram apresentadas como frequências absolutas e relativas.
As variáveis não paramétricas foram analisadas pelo teste de Kruskal- Wallis, seguido pelo pós-teste de Dunn para comparação dos três grupos e pelo teste de Mann-Whitney para comparação das variáveis de prática de exercícios entre dois grupos. As variáveis paramétricas foram testadas pela análise de variância (one-way ANOVA), seguida do pós-teste de Tukey. O teste do Qui- quadrado foi utilizado para avaliar as distribuições das frequências das variáveis categóricas considerando os grupos estudados.
A análise de correspondência foi realizada para explorar as associações da IC com os grupos estudados. Essa abordagem resume as informações de variáveis categóricas em poucas dimensões, explicando a quantidade máxima de variabilidade contida nas variáveis incluídas na análise, por meio da inércia calculada pelo modelo. O objetivo da análise é explicar a maior inércia ou variação,
com o menor número de dimensões, que são calculados pelo modelo. Os pressupostos da análise de correspondência são homogeneidade de variância entre variáveis de linha e coluna, variáveis sem zero entrada, preferencialmente com mais de três categorias e sem valores negativos. Assim, o BSQ foi a única variável que atendeu a todos esses pressupostos e utilizado então para representar as associações da IC com os grupos estudados. Os resultados foram representados em um mapa gráfico, mostrando cada categoria das variáveis como um ponto, plotadas nas dimensões construídas pela análise. Quanto mais próximos os pontos, mais forte a relação entre as categorias58.
A correlação de Spearman (r2) foi utilizada para testar a existência de correlação entre as pontuações dos questionários BSQ, EAT-26 e BITE, com as variáveis do estado nutricional antropométrico (IMC) e da composição corporal (%GC e DMO).
A análise dos dados foi realizada utilizando os programas Statistical
Package for Social Sciences versão 11.5 (SPSS Inc. Chicago, IL). Para todos os
5 RESULTADOS
Observou-se participação de adultas com mediana de idade de 25,0 (20,5 – 29,0) anos nos grupos estudados.
As bailarinas treinavam há mais tempo, 14,0 (6,0 – 17,0) anos, do que as desportistas em academias, que treinavam há 1,0 (0,5 – 2,0) ano. A mediana de prática em horas semanais também foi maior para as bailarinas, de 7,5 (6,0 – 10,0) horas semanais, em relação às desportistas em academias, que treinavam 3,0 (3,0 – 5,0) horas por semana.
As bailarinas apresentaram valores médios de IMC de 20,9 (2,4) Kg/m2 e de %GC de 29,8 (8,0) %, significativamente inferiores quando comparadas às desportistas em academias, de 22,1 (2,4) Kg/m2 e 32,9 (7,5) %, respectivamente, assim como às sedentárias, de 23,2 (3,5) Kg/m2 e 38,6 (5,6) %, respectivamente. A DMO do corpo total mostrou-se dentro dos limites esperados para idade, nos três grupos, sendo em média de 0,4 (0,8) Z-scores, sem diferença estatística entre eles (Tabela 1).
A análise de correspondência mostrou que as bailarinas apresentaram maior proximidade à categoria de ausência de preocupação com a IC pelo BSQ. As desportistas em academias apresentaram maior proximidade com leve/moderada preocupação com a IC, enquanto as mulheres sedentárias foram mais próximas à extrema preocupação com a IC. A inércia total do modelo foi de 11,5%, significando que pertencer a um dos grupos estudados explica 11,5% da preocupação com a IC (Figura 1).
A pontuação do BSQ apresentou somatório médio de 92,6 (30,8) pontos, indicando que as participantes apresentaram leve preocupação com a IC (Figura 2). A distorção da IC, avaliada pela EFS, não diferiu entre os grupos, sendo 75,0% nas bailarinas, 87,5% nas desportistas em academias e 89,5% nas sedentárias, (p = 0,460). A maior parte das mulheres estudadas percebia-se maior do que realmente era e isso não diferiu entre os grupos estudados (p = 0,479) (Tabela 2). O grau de distorção da IC também não diferiu entre os grupos (p = 0,688), sendo em média de 1,6 (2,2).
Já a insatisfação com a IC foi significativamente menor (p = 0,041) nas bailarinas (75,0%) e desportistas em academias (70,6%) e em relação às sedentárias (100%) (Tabela 2). A maioria das mulheres estudadas gostaria de ter
uma silhueta inferior à que pensa ter e isso não diferiu entre os grupos estudados (p = 0,074) (Tabela 2). O grau da insatisfação também não diferiu entre os grupos estudados (p = 0,089), sendo em média -1,2 (2,8).
A pontuação do EAT-26 não diferiu entre os grupos (Tabela 2), sendo a mediana do somatório de 10,0 (5,3 – 16,0) pontos, indicando comportamento de risco negativo para anorexia (< 21 pontos) (Figura 2). A pontuação da escala de sintomas do BITE foi significativamente menor (Pós-teste de Tukey, p = 0,005) nas bailarinas [(5,32 (5,6)] quando comparada às mulheres sedentárias [10,9 (4,8)] (Tabela 2).
Tabela 1. Caracterização do tempo de treino, antropometria e composição corporal nos grupos estudados.
Variáveis
Total Bailarinas Desportistas Sedentárias
p valor mediana (Q1 – Q3) ou média (SD) mediana (Q1 – Q3) ou média (SD) mediana (Q1 – Q3) ou média (SD) mediana (Q1 – Q3) ou média (SD) Idade (anos) 25,0 (20,5 – 29,0) 24,0 (20,0 – 29,0) 25,0 (23,0 – 30,0) 25,0 (20,0 – 37,0) 0,461
Tempo de prática (anos) 3,0 (1,0 – 14,3) 14,0 (6,0 – 17,0) 1,0 (0,5 – 2,0) - <0,0005
Tempo de treino (horas/sem) 5,0 (3,0 – 8,0) 7,5 (6,0 – 10,0) 3,0 (3,0 – 5,0) - <0,0005
Índice de Massa Corporal (Kg/m2)
22,0 (2,9) 20,9 (2,4)a 22,1 (2,4)a,b 23,2 (3,5)b 0,040
Gordura Corporal (%) 34,4 (30,3 – 38,9) 31,2 (21,6 – 34,4) a 34,3 (30,2 – 38,3)a,b 38,9 (34,2 – 42,2)b 0,002 Densidade mineral óssea (Z-
score)
0,4 (0,8) 0,8 (1,1) 0,3 (0,5) 0,3 (0,8) 0,153
Dados não paramétricos analisados pelo teste de Kruskal-Wallis, seguido do pós-teste de Dunn, e pelo teste de Mann Whitney. Dados paramétricos analisados por One-way ANOVA, seguido do pós-teste de Tukey. Letras diferentes indicam diferenças estatísticas entre os grupos. IMC: Índice de Massa Corporal; GC: Gordura corporal; DMO: Densidade Mineral Óssea.
Figura 1: Gráfico de análise de correspondência entre imagem corporal (IC) avaliada pelo Body Shape Questionnaire (BSQ) em bailarinas, desportistas em academias e sedentárias. Os pontos azuis representam as categorias de classificação do BSQ: ausência de preocupação, leve preocupação, moderada preocupação e extrema preocupação com a IC. Pontos verdes representam os grupos estudados. A inércia total do modelo foi de 11,5%, e a dimensão 1 explicou 96,0% do modelo e a dimensão 2, 4,0%.
Figura 2: Imagem corporal e comportamentos de risco para transtornos alimentares nos grupos estudados. (A): pontuação no
Body Shape Questionnaire (BSQ); (B): Pontuação no Eatting Attitude Test (EAT-26). (C): Pontuação do Bulimic Investigatory Test, Edinburgh (BITE). * one-way ANOVA, p = 0,007, pós teste de Tukey, p = 0,005.
Tabela 2. Imagem corporal e comportamentos para transtornos alimentares (TA) nos grupos estudados.
Imagem corporal Total
n (%) Bailarinas n (%) Desportistas em academias n (%) Sedentárias n (%) Qui-quadrado, p valor BSQ Ausência de preocupação 20 (35,7) 9 (47,4) 7 (38,9) 4 (21,1) 0,373 Leve preocupação 20 (35,7) 6 (31,6) 7 (38,9) 7 (36,8) Moderada preocupação 9 (16,1) 3 (15,8) 3 (16,7) 3 (15,8) Extrema preocupação 7 (12,5) 1 (5,3) 1 (5,3) 5 (26,3) Total 56 (100,0) 19 (100,0) 18 (100,0) 19 (100,0) Escala de Silhuetas Presença de distorção 43 (84,3) 12 (75,0) 14 (87,5) 17 (89,5) 0,460
Percebe-se menor do que é 8 (18,6) 2 (16,7) 4 (28,6) 2 (11,8)
Percebe-ser maior do que é 35 (81,4) 10 (83,3) 10 (71,4) 15 (88,2) 0,479
Total 43 (100,0) 12 (100,0) 14 (100,0) 17 (100,0)
Presença de insatisfação 43 (82,7) 12 (75,0) 12 (70,6) 19 (100,0) 0,041
Quer parecer menor do que pensa que é 31 (72,1) 11 (91,7) 6 (50,0) 14 (73,7)
0,074
Quer parecer maior do que pensa que é 12 (27,9) 1 (8,3) 6 (50,0) 5 (26,3)
Total 43 (100,0) 12 (100,0) 12 (100,0) 19 (100,0)
Comportamentos para TA n (%) n (%) n (%) n (%) Qui-quadrado,
p valor
EAT-26
Comportamento negativo para anorexia 48 (85,7) 16 (84,2) 17 (94,4) 15 (78,9)
0,393
Comportamento positivo para anorexia 8 (14,3) 3 (15,8) 1 (5,6) 4 (21,1)
Total 56 (100,0) 19 (100,0) 18 (100,0) 19 (100,0)
BITE
Escala de sintomas
Comportamento normal 33 (57.9) 15 (78.9) 12 (63.2) 6 (31.6) 0,044
Padrão alimentar não usual 21 (36.8) 3 (15.8) 6 (31.6) 12 (63.2) Comportamento alimentar para bulimia 3 (5.3) 1 (5.3) 1 (5.3) 1 (5.3)
Total 57 (100.0) 19 (100.0) 19 (100.0) 19 (100.0)
Escala de gravidade
Clinicamente significante 6 (100.0) 0 (0.0) 1 (100.0) 5 (100.0)
Alto grau de gravidade 0 (0.0) 0 (0.0) 0 (0.0) 0 (0.0)
Total 6 (100.0) 0 (0.0) 1 (100.0) 5 (100.0)
No grupo das bailarinas, houve correlação positiva entre o IMC e a pontuação do BSQ (r2= 0,657, p = 0,002) e do %GC com a pontuação do BSQ (r2 = 0,574, p = 0,010). No grupo das desportistas em academias, houve correlação negativa do %GC com a pontuação do EAT-26 (r2 = - 0,571, p = 0,013). No grupo das sedentárias, houve correlação positiva entre o IMC e o %GC com a pontuação do BSQ (r2 = 0,653, p = 0,002, r2 = 0,524, p = 0,026, respectivamente) e entre o IMC e o EAT-26 (r2 = 0,462, p = 0,047) (Tabela 3).
Tabela 3. Correlações entre variáveis nutricionais e imagem corporal, avaliada pelo
Body Shape Questionnaire (BSQ), e comportamentos para transtornos alimentares,
avalidos pelo Eating Attitudes Test (EAT-26) e Bulimic Investigatory Test, Edinburgh (BITE), nos grupos estudados.
Variáveis nutricionais
Bailarinas
BSQ EAT-26 BITE
r2 (p valor) r2 (p valor) r2 (p valor)
IMC 0,657 (0,002) 0,426 (0,069) 0,194(0,426)
%GC 0,574 (0,010) 0,280 (0,246) 0,140 (0,569)
DMO (Z-score) 0,128 (0,636) -0,236 (0,380) 0,203 (0,451)
Variáveis nutricionais Desportistas em academias
BSQ EAT-26 BITE
r2 (p valor) r2 (p valor) r2 (p valor)
IMC 0,351 (0,153) - 0,100 (0,692) 0,234 (0,351)
%GC 0,013 (0,958) -0,571 (0,013) 0,009 (0,971)
DMO (Z-score) - 0,061 (0,823) - 0,219 (0,414) 0,042 (0,878)
Variáveis nutricionais Sedentárias
BSQ EAT-26 BITE
r2 (p valor) r2 (p valor) r2 (p valor)
IMC 0,653 (0,002) 0,462 (0,047) 0,355(0,135)
%GC 0,524 (0,026) 0,421 (0,082) 0,229 (0,360)
DMO (Z-score) -0,083 (0,759) -0,131 (0,628) -0,431 (0,096)
IMC: Índice de Massa Corporal; %GC: Percentual de Gordura Corporal; DMO: Densidade Mineral Óssea.
6 DISCUSSÃO
Acredita-se que a distorção e insatisfação da IC e os sintomas de comportamentos relacionados ao desenvolvimento de TA, como a perda de peso, e estratégias inadequadas para o controle do peso, sejam mais frequentes em bailarinas quando comparadas a população feminina em geral59. Este estudo objetivou avaliar se bailarinas adultas não profissionais apresentam diferença na percepção da IC e comportamentos para TA, quando comparadas às desportistas em academias e sedentárias. Surpreendemente, nossos resultados demonstraram que as bailarinas apresentaram menor insatisfação da IC quando comparadas às sedentárias e menos comportamentos para bulimia, quando comparadas aos demais grupos. Não houve diferença na distorção com a IC e nos comportamentos para anorexia entre os grupos estudados. Este é possivelmente o primeiro estudo a comparar essas variáveis em bailarinas adultas não profissionais com desportistas em academias e sedentárias.
As bailarinas apresentaram os menores valores de IMC e % GC quando comparadas aos demais grupos estudados. Esses resultados estão de acordo com outros estudos60,61 e podem ser explicados pelo fato de que - no geral - as bailarinas possuem um corpo magro já que o ballet clássico exige horas de ensaio, devido a coreografias e espetáculos ao longo do ano61, até mesmo no caso das praticantes não profissionais, como demonstrado pelos resultados de maiores horas de treino/semana nas bailarinas deste estudo. Essa demanda de energia aumentada afeta o estado nutricional e a composição corporal destas praticantes, exigindo suporte nutricional adequado que, por vezes, não é garantido62.
No presente estudo, a DMO corporal total estava dentro dos limites esperados para a idade nas bailarinas e nos outros grupos estudados. O estilo de vida das bailarinas pode apresentar vários fatores predisponentes a uma baixa DMO, como alimentação desordenada, baixo peso, baixa ingestão de energia e micronutrientes – como o cálcio e vitamina D, atividade física excessiva e amenorreia. No entanto, um estudo que comparou bailarinas adultas com universitárias sedentárias, também encontrou DMO dentro da normalidade para ambos grupos, sem diferença estatística entre eles63.
A distorção com a IC foi semelhante nos grupos estudados, porém com menor presença nas bailarinas, em relação aos outros grupos. Os espelhos são
ferramentas usadas durante a prática do ballet clássico e podem afetar as atitudes perceptivas da IC em bailarinas. A menor distorção nas bailarinas estudadas pode ser explicada pelo fato de que as praticantes treinam muitas horas de exercícios semanais em frente aos espelhos e precisam necessariamente ter uma boa observação do próprio corpo para realizar os movimentos. Embora alguns autores mencionem os espelhos como um fator negativo para a percepção da IC, muitas bailarinas sentem que o espelho é crucial para o seu desempenho, promovendo objetivos de autoconsciência durante a prática de exercícios64. Além disso, como as bailarinas estudadas eram adultas e não profissionais, a demanda por um alto desempenho e um corpo mais magro pode não ser tão rígida quanto o esperado para bailarinas profissionais.
A presença de insatisfação da IC foi significativamente menor nas bailarinas quando comparada ao grupo das sedentárias. Esse resultado pode ser explicado pelo fato de as bailarinas estudadas praticarem ballet clássico há muitos anos, estando essa prática associada a um corpo mais magro, como demonstrado por nossos resultados. O corpo magro aproxima as bailarinas estudadas do corpo esteticamente idealizado pela maioria das mulheres. A análise de correspondência reforçou essa ideia de que as bailarinas estudadas apresentavam um corpo mais próximo do corpo esteticamente idealizado pela maioria das mulheres, uma vez que eram o grupo mais próximo da categoria sem preocupação com a IC. Já as mulheres sedentárias, possivelmente por não praticarem exercícios físicos, encontram-se mais distantes do corpo considerado ideal e, por isso, mais insatisfeitas.
Em relação aos comportamentos para TA, o presente estudo mostrou menos comportamentos para bulimia nas bailarinas e nenhuma diferença de comportamentos para anorexia quando comparada aos outros grupos estudados. Embora a literatura enfatize que a prática de esportes estéticos aumenta o risco para o desenvolvimento de TA65,12, os comportamentos para TA não foram exclusivos no grupo das bailarinas, e isso está de acordo com o fato do estudo ter encontrado maiores percentuais de insatisfação em mulheres sedentárias.
Alguns estudos avaliaram a IC e comportamentos para TA em bailarinas, comparando com outros grupos e encontraram resultados diferentes do presente estudo. Um estudo comparou bailarinas adolescentes com jogadoras de basquete e não atletas e encontrou autopercepção física e comportamentos alimentares
perturbados nos grupos das bailarinas e jogadoras de basquete66. Um estudo com modelos adultas, bailarinas e jovens estudantes constatou que as modelos adultas e bailarinas apresentaram maior distorção da IC, escores mais altos no desenvolvimento de TA e nos sintomas do perfeccionismo neurótico65.
No presente estudo, os comportamentos para TA não foram maiores nas bailarinas, como esperado na hipótese inicial, mas foram maiores em mulheres sedentárias. Isso pode ser explicado pelo fato de terem sido estudadas bailarinas adultas não profissionais, que talvez não sejam altamente pressionadas a ter um desempenho perfeito. Por outro lado, as mulheres sedentárias cobram para si um corpo ideal, possivelmente por influência da mídia e a cultura da beleza do corpo feminino mais magro como o mais belo, mas sem adotar um estilo de vida mais saudável quando se trata de exercício físico, o que pode trazer impactos comportamentais negativos.
O perfil das escolas de dança pode contribuir com a vulnerabilidade das bailarinas ao desenvolvimento para TA, pelo apelo à competitividade e ao perfeccionismo. Bailarinas das escolas profissionais exibem mais características de magreza, perfeccionismo e são mais propensas a restringir as dietas, induzir o vômito e a controlar o peso do que as bailarinas em escolas amadoras. Existem escolas de dança não profissionais em que a IC magra não é promovida, e, aprender a dançar nesse contexto, pode ajudar positivamente a IC, uma vez que até bailarinas não profissionais tendem a ter um corpo mais magro - como demonstrado por nossos resultados - e isso afeta a IC67. Neste estudo, embora as bailarinas fossem de escolas e fundações públicas e privadas de referência, todas eram não profissionais.
O IMC e o %GC foram correlacionados positivamente com a preocupação com a IC avaliada pelo BSQ, no grupo das bailarinas e sedentárias. Os padrões de beleza impostos pela mídia e sociedade sobre o corpo magro, principalmente para as mulheres, conduzem ao descontentamento com o próprio corpo, gerando a insatisfação com a IC. Alguns indicadores antropométricos e de composição corporal, como o IMC e o %GC, podem servir de parâmetro para indicar se a preocupação com a IC é consequência do baixo ou excessivo acúmulo de gordura. Alguns estudos apontam que quanto maiores estes indicadores, maior a insatisfação, confirmando que as mulheres almejam um corpo mais esbelto68,69.
Já no grupo das desportistas em academias, o %GC foi correlacionado negativamente com o comportamento para anorexia. A literatura mostra que existe uma relação entre TA e %GC, onde um menor %GC pode estar relacionado com uma maior chance de anorexia9. Especificamente no caso da anorexia, muitos compartimentos corporais são atingidos, incluindo a gordura corporal. Um estudo que analisou adolescentes com anorexia nervosa constatou menor índice de massa gorda neste grupo, com escores Z inferiores ao esperado para idade, raça e sexo70. Desta forma, mulheres que apresentam anorexia nervosa tem reduções significativas no %GC.
Algumas limitações deste estudo devem ser mencionadas. O fato das desportistas em academias e sedentárias terem sido selecionadas pela divulgação em mídia social pode ter tendenciado a viés de seleção, uma vez que as mulheres, nestas mídias, podem estar mais preocupadas com a IC. O tamanho amostral pequeno, determinado pelo fato de ter sido estudada uma população específica, muito homogênea de bailarinas, é uma limitação para uma maior generalização.
Além disso, é limitado o número de estudos epidemiológicos no ballet clássico, tentando entender IC e comportamentos para TA. Essa limitação pode ser explicada pela complexidade dos grupos de bailarinas, que se tornam escassos nos níveis intermediário e avançado da prática. Além disso, esses grupos de bailarinas, às vezes, são difíceis de serem avaliadas, devido aos professores, que tendem a ser rígidos e a evitar interferências externas. Esses fatores podem ser o caso do presente estudo e uma análise recente demonstrou que as bailarinas indicaram os professores como uma das influências negativas mais predominantes na satisfação corporal em relação à exigência corporal64.
Arcelus et al.12, em uma metanálise, descreveram que a prevalência de TA em bailarinas é difícil de medir exatamente porque, devido à limitações de tamanho amostral, a maioria dos estudos com bailarinas ao invés de determinar a prevalência dos TA acabam por estudar os TA em sua relação com outros fatores, como menstruação ou lesões, sem comparação adequada com outros grupos. Essas limitações dificultam a compreensão da ocorrência de TA em bailarinas, principalmente aquelas que são adultas e não profissionais, como é o caso do presente estudo.
Um ponto forte deste estudo é a comparação das bailarinas com as desportistas em academias, que também poderiam ter um risco maior para TA, e
mulheres sedentárias, que não praticavam atividades físicas que pudessem estar relacionadas à TA. Embora as bailarinas sejam reconhecidas como um grupo de risco para TA, a IC e os comportamentos não foram maiores nas bailarinas. Novos estudos para entender as pressões da mídia e da sociedade poderão contribuir para a compreensão e os determinantes da distorção e insatisfação da IC observada nos grupos estudados.
7 CONCLUSÃO
As bailarinas apresentaram satisfação com IC semelhante à das desportistas em academias e maior que a das sedentárias, menos comportamentos para bulimia e também menor preocupação com a IC quando comparadas aos demais grupos estudados. Não houve diferença na distorção da IC e comportamentos para anorexia entre os grupos estudados. O IMC e o %GC foram correlacionados positivamente com a percepção da IC em bailarinas e mulheres sedentárias.
REFERÊNCIAS
1. Prati, Sérgio Roberto Adriano; Prati ARC. Níveis de aptidão física e análise de tendências posturais em bailarinas clássicas. Rev Bras Cineantropometria&Desempenho Hum. 2006;8(1):80–7.
2. Moura UIS, Mendes LR, Silva IPO, Ângelo RCO, Schiwingel PA. Consumo Alimentar, perfil antropométrico e imagem corporal de bailarinas clássicas do Vale Do São Francisco. Rev Bras Nutr Esportiva. 2015;9(51):237–46.
3. Sousa, Suzana Martins de; Barbosa, Larissa Silva; Filmari LLM. Perfil antropométrico de bailarinos clássicos profissionais de uma escola de dança. Rev Bras Nutr Esportiva. 2019;13(78):247–53.
4. Deminice, Rafael; Rosa, Flavia T. Pregas cutâneas vs impedância bioelétrica na avaliação da composição corporal de atletas: uma revisão crítica. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum. 2009;11(3):334–40.
5. Haas AN, Garcia ACD, Bertoletti J. Imagem corporal e bailarinas profissionais. Rev Bras Med do Esporte. 2010;16(3):182–5.
6. Rossi L, Tirapegui J. Body image dissatisfaction among gym-goers in Brazil. Rev Bras Med do Esporte. 2018;24(2):162–6.
7. Ribeiro LG, Veiga GV da. Imagem corporal e comportamentos de risco para transtornos alimentares em bailarinos profissionais. Rev bras med esporte. 2010;16(2):99–102.
8. Maciel Hartmann L, Yumi Uchimura K, Maria Dos Santos, Silvana Mezzomo Thais R. Sintomas de transtornos alimentares em bailarinos profissionais. Nutr Clin y Diet Hosp. 2017;37(3):151–7.
9. Monteiro MF, Correa MM. Eating disorders among classic ballet dancers. Rev Bras Promoc Saude. 2013;26(3):389–96.
10. Oliveira FP de, Bosi MLM, Santos VP dos, Vieira R da S. Comportamento alimentar e imagem corporal em atletas. Rev Bras Med do Esporte. 2003;9(6):348–56.
11. Carvalho, MB; Val, AC; Ribeiro, M MF; Santos L. Itinerários terapêuticos de sujeitos com sintomas anoréticos e bulímicos. Ciência e Saúde Coletiva. 2016;21(8):2463–73.
12. Arcelus J, Witcomb GL, Mitchell A. Prevalence of eating disorders amongst dancers: A systemic review and meta-analysis. Eur Eat Disord Rev.
2014;22(2):92–101.
13. Yager J, Devlin MJ, Halmi KA, Herzog DB, Mitchell JE, Powers P, et al. Guideline Watch (August 2012): Practice Guideline for the Treatment of Patients With Eating Disorders, 3rd Edition. Focus (Madison). 2014;12(4):416– 31.
14. Pereira Junior M, Campor Junior W, Silveira FV. Percepção e distorção da autoimagem corporal em praticantes de exercício físico: a importância do exercício físico na imagem corporal. Rev Bras Nutr Esportiva. 2013;7(41):345–