Antes de tratar dos riscos no mercado de energia elétrica, é necessário entender o seu conceito. De forma macroscópica, fazendo um paralelo do processo de geração até a distribuição de energia com o mercado de ações, pode-se fazer as seguintes considerações. As usinas geradoras são os vendedores, as concessionárias de energia elétrica são os inves- tidores, cujo investimento é a aquisição de ativos para aumentar seu poder aquisitivo, e o ativo, bem ou produto adquirido é a energia elétrica. Os eventos, que podem impactar de forma significativa a transação financeira, são chamados de incertezas. No caso específico, são exemplos de incertezas: o déficit de água nos reservatórios, as restrições operacionais nas linhas de transmissão, a demanda de energia elétrica, etc. O indicador quantitativo
que reflete o grau da incerteza associada ao investimentos é denominado risco (DUARTE,
1996). No gerenciamento de riscos em mercados financeiros, destaca-se o conceito de risco
definido por Jorion (2006), como a volatilidade de resultados inesperados, geralmente
associados aos valores de ativos ou passivos de interesse.
As particularidades do mercado de energia apresentam as características necessá- rias para identificar os seus riscos e entender suas minúcias. Este entendimento possibilita práticas de boa governança e auxilia na tomada de decisão em operações de comercializa-
ção de energia elétrica. Fazendo um paralelo com o mercado financeiro, Pilipovic (2007)
apresenta essas características, que serão esclarecidas a seguir.
∙ Maturidade do mercado: como foi citado nos capítulos anteriores, o mercado de energia elétrica começou a ganhar maturidade recentemente. Somente após o marco regulatório e a crise do apagão, que ocorreram no início dos anos 2000, a cultura de utilização de metodologias eficientes para gestão de riscos foi integrada no planejamento, operação e expansão do sistema hidrotérmico brasileiro.
∙ Indutores fundamentais do preço: existem diversas variáveis que influenciam na formação do preço de energia, são elas: os níveis dos reservatórios, o preço do combustível das termoelétricas, a demanda de energia, etc. Por isso, a criação de
modelos de previsão de preços exatos e condições de mercado se torna uma tarefa árdua, principalmente pela dinamicidade desses fatores.
∙ Impacto de ciclos econômicos: de modo geral, os ciclos econômicos determinam padrões que regem o comportamento de diversos tipos de mercado devido a baixa variabilidade diante da média obtida. Por exemplo, no mercado financeiro, os ciclos econômicos regem o comportamento das taxas de juros. Qualquer influência irá re- sultar em uma variação dentro do previsto. Contrapondo esse cenário, o mercado de energia, em sua singularidade, utiliza os ciclos econômicos para definir parâme- tros mas estes não estabelecem padrões, uma vez que eventos imprevisíveis podem impactar o mercado de maneira distinta e criar cenários fora do previsto, divergen- tes dos padrões. Por exemplo, a crise do apagão em 2001, e a grande estiagem no Brasil, em 2014 e 2015, criaram desbalanços entre oferta e demanda jamais vistos e impossibilitaram o retorno do balanço dos preços de energia em torno da média. ∙ Frequência dos eventos: as séries históricas apresentam um comportamento pa-
drão das varáveis indutoras de preço. Assim, as previsões do planejamento podem ser feitas de acordo com a alta frequência de eventos.
∙ Correlação entre a formação de preços de curto e longo prazo: os preços de energia variam por condições de armazenamento a curto prazo, e por condições de suprimento a longo prazo.
∙ Sazonalidade: os períodos de seca e estiagem distribuídos em horizontes de tempo diferentes no território brasileiro surgem como oportunidade para desenvolvimento de tecnologias de geração por fontes alternativas e por fontes térmicas.
∙ Regulação: a existência de várias reformas no arcabouço legal do setor revelam que o mercado ainda está sendo modelado e adaptado em diversos aspectos.
∙ Liquidez: liquidez se refere a conversão do ativo em valor. Pelo fato das ativi- dades da cadeia produtiva serem interligadas, o tempo necessário para liquidar o investimento é longo.
∙ Centralização do mercado: o mercado de energia é descentralizado, pois os preços de energia variam de acordo com a localização, isto é, o preço do MWh de energia é diferente para cada submercado.
∙ Complexidade dos contratos derivativos: a maioria dos contratos são comple- xos devido a dificuldade em definir os preços por um período de tempo longo, tendo em vista que não é possível obter certeza dos cenários futuros.
∙ Acoplamento no tempo: a tomada de decisões quanto ao uso dos recursos no presente influenciam na quantidade disponível para suprimento da demanda futura.
Nesse contexto, os principais riscos que afetam os agentes do setor elétrico são
elencados nos trabalhos deKawai(2015),Mayo(2010) eTamarozi(2002), cujos resultados
serão especificados a seguir.
2.1.1
Riscos de Mercado
O risco de mercado também pode ser chamado de risco sistêmico, pois seu impacto tem o poder de impactar o sistema como um todo, ou sua maioria, mesmo que as partes deste sistema não estejam diretamente relacionadas. Esse risco é definido pelas variações de preço ou parâmetros de mercado. Nele, estão inclusos a oscilação de preços, a probabi- lidade de desequilíbrio entre oferta e demanda, a incapacidade de liquidez dos agentes, a volatilidade de ações, taxas de juros, câmbios, etc. Quanto maior a oscilação do mercado, maiores são os riscos de mercado.
2.1.2
Riscos Técnicos e Climáticos
Os riscos técnicos envolvem os riscos operacionais que podem impossibilitar a capa- cidade de entrega total de energia ao consumidor (risco de entrega), e como consequência, gerar perdas financeiras aos agentes. Este risco, especificamente, é difícil de ser mensurado devido grande variedade de causas e efeitos. As falhas podem ser originadas por pessoas, sistemas, gerenciamentos, ou operações e processos. Também podem ser causadas por eventos externos e inesperados.
Em um sistema predominantemente hidrotérmico, o risco hidrológico não pode ser negligenciado. A relação entre a presente disponibilidade de água nos reservatórios e as previsões de chuvas futuras definem o despacho das usinas, conforme mencionado. Essas previsões são relativas, pois mesmo com a possibilidade de se estimar os índices pluviométricos para o futuro, existe um nível de confiança envolvido. Portanto, faz-se necessário utilizar o ponto ótimo do uso dos recursos, caso contrário haverá falta de água. A questão do risco hidrológico será abordada mais detalhadamente no próximo capítulo por se tratar da causa do problema a ser estudado no presente trabalho.
2.1.3
Riscos Econômicos e Financeiros
Os riscos econômicos e financeiros podem ser representados pelos riscos de crédito, de investimentos, de tributos, e são fortemente impactados por alguns riscos de mercado como a variação cambial e da taxa de juros. Os riscos de crédito referem-se as incertezas do cliente em arcar com seus passivos financeiros. Esse risco é comumente visto no mercado financeiro.
O risco de investimento inclui também o risco de financiamento. No mercado de energia considera-se principalmente a variação cambial, que expõe os agentes a uma in-
certeza de custos referentes a investimentos e financiamentos e pode impactar fortemente o retorno de aplicações e paybacks.
O risco tributário é uma particularidade do mercado de energia. O histórico do SEB retrata a ocorrência de várias mudanças no arcabouço legal para proporcionar melhor adequação dos requisitos legais à dinamicidade do mercado. Neste cenário, os agentes ficam expostos ao risco de pagar impostos, encargos e contribuições que não foram considerados no início do investimento.
2.1.4
Riscos Legais e Regulatórios
Os riscos legais e regulatórios tratam-se da probabilidade de ocorrer mudanças significantes nas leis e regulamentações do mercado de energia que possibilitam a alteração no faturamento das empresas. Estão inclusas a criação de novos encargos, abertura para alteração ou quebra de contratos, estabelecimentos de novos limites de preços, como já foi visto acontecer no teto do PLD. Por esta razão, as mudanças de mercado devem andar em conjunto com as adequações legais.