CAPÍTULO 4: ANÁLISE E DISCUSSÃO
4.4 AVALIANDO O PROCESSO
A partir de todo o cenário apresentado, foi possível compreender quais os pressupostos que embasam a promoção humana desenvolvida na instituição e na aula de música. Foi possível também perceber que a admissão deste compromisso com uma ação humana e social gerou grandes consequência sobre o processo educativo.
Nas compreensões da música e da educação musical dos sujeitos da instituição foi possível verificar que em todos os níveis, coordenador, professor e aluno, fazia-se presente o entendimento de que podem ser alcançados resultados de promoção humana por meio da música. Além disso, destacou-se que o processo de ensino e aprendizagem de música deste contexto de projetos e obras sociais assume configurações específicas, diferenciando-o de outros ambientes nos quais elementos, como por exemplo a técnica, encontrariam maior espaço para seu desenvolvimento.
As compreensões e avaliações do processo educativo apresentaram certa disparidade. Em todos os depoimentos foi verificado que existem limitações a serem superadas no que diz respeito ao processo de ensino e aprendizagem de música, já as avaliações caminhavam para perspectivas diferentes. O coordenador ressalta encontrar muitos pontos positivos nas práticas desenvolvidas. Os alunos, mesmo destacando os problemas encontrados nas aulas, apresentam uma visão de que sua aprendizagem é positiva e satisfatória. Já o docente, por sua vez, ressalta que não considera que o processo foi muito positivo, o que não o impede de ressaltar que as decisões foram tomadas pragmaticamente e de acordo com a realidade possível encontrada na obra social, atribuindo-lhe um conceito 7 (de 0 a 10) como sua avaliação.
Em relação às compreensões e avaliações da promoção humana, o coordenador ressalta encontrar na música particularidades com as quais pode-se desenvolver uma ação de formação humana e social e, inclusive, salienta as experiências que vivenciou em relação ao fato. O docente, por sua vez, reconhece a necessidade do desenvolvimento de ações de promoção humana por meio da música no ambiente da obra social e destaca, ainda, que sua prática pedagógica assume características diferenciadas naquele local justamente por tais pressupostos. Entretanto, ao avaliar os resultados diz não acreditar que a música possa alcançar objetivos desta natureza. Isto se configura como uma contradição com as afirmações anteriores, pois não acreditando ele no desenvolvimento de tal promoção humana por meio da música, porque configuraria sua prática de modo diferenciado dos outros ambientes nos quais
Com o entendimento das características da promoção humana na música, então, poderia ser feita a questão: há um desenvolvimento efetivo de uma promoção da pessoa humana por meio das aulas de música na obra social?
Os resultados analisados levam a crer que a resposta é negativa. Foi possível identificar pontos positivos no processo educativo, tais como o desejo de transformação da realidade nutrido pelo educador, bem como seu afeto em relação aos alunos, a noção das potencialidades do fazer musical em relação à formação dos sujeitos e à sua superação enquanto pessoa e instrumentista, os impactos das apresentações nas famílias, entre outros. Entretanto, não se pôde verificar uma articulação destas características com uma sólida prática pedagógica e um qualificado desenvolvimento da formação musical dos alunos, com os quais se estabeleceria um processo educativo atento para os aspectos essencialistas e contextualistas.
O que se pôde perceber foi, portanto, o desenvolvimento de iniciativas individualizadas de promoção humana. Estas podem ser percebidas como potenciais elementos para uma futura ação de promoção humana por meio da música, desde que atreladas à superação das precariedades pedagógicas, musicais e humanas com as quais ainda lida o processo educativo de música na obra social.
Assim sendo, pode-se questionar quais elementos configuraram-se de modo a obstruir os resultados da ação desenvolvida na obra social e quais aspectos poderiam ser levados em conta para que se potencializassem os esforços de promoção humana.
Neste sentido, um primeiro ponto negativo é a ação e planejamento de toda a aula de música voltada majoritariamente para as apresentações e para as necessidades a ela relacionadas. Toda a potencialidade e pluralidade de possibilidades da música condicionam- se, e por isso talvez não encontrem espaço nas aulas. Assim gera-se um ciclo infértil para a educação musical: não há uma aprendizagem musical eficiente por ser necessário dispensar o tempo com o preparo das apresentações e também não há um resultado musical efetivo nas apresentações porque não houve formação musical.
Um segundo ponto que enfraquece a ação realizada é a falta de homogeneidade entre os discursos e práticas apresentadas por coordenação e docente. Além de não proporcionar uma atuação conjunta entre os profissionais, também não proporciona uma postura efetiva para os educandos, bem como seus familiares.
Um terceiro e último ponto atenuante é a passividade do docente em vista de uma possível promoção humana. Isto se verifica não somente na ausência de sua autoridade nas aulas mas também em sua compreensão de que um desenvolvimento humano seria
atingido simplesmente pelo fato de não obstruir ou orientar quaisquer atitudes provenientes de um educando.
Como respostas às situações verificadas na instituição um primeiro aspecto a ser levado em conta para uma qualificação de sua ação é formação pedagógica do docente. Muito possivelmente a lacuna em sua formação, realizada em curso de bacharelado em música, seja um dos fatores de maior proeminência para o despreparo para lidar com as situações encontradas no decorrer do processo educativo. Deste modo, seria preciso capacitá- lo adequadamente para a docência.
Um segundo aspecto seria uma formação de modo a gerar uma maior compreensão da educação musical, principalmente no que diz respeito a todos os avanços de seus estudos, para toda a equipe de coordenação. Não basta que o docente compreenda o papel e os desafios da educação musical contemporânea, é preciso também que seus superiores o façam, de modo a auxiliar e potencializar sua prática docente.
Com isto surge então o terceiro e último elemento, a necessidade de uma atuação conjunta entre docente e coordenação em relação às posturas e propostas a serem adotadas em vista da promoção humana. Se este é um tema recorrente e relevante para tal contexto, faz-se necessário que ele seja trabalhado e abordado de forma mais qualificada do que com o uso de jargões ou noções de senso comum, com metas e procedimentos estudados por toda coordenação e corpo docente e aplicados com profundidade nas aulas.
CAPÍTULO 5 Considerações .
CAPÍTULO 5: CONSIDERAÇÕES
A presente pesquisa adentrou no amplo e complexo contexto dos projetos e obras sociais. Este se configurou como um rico cenário em aprendizagens e reflexões, as quais se espera poder compartilhar nas páginas desta dissertação.
Logo nos primeiros estudos e leituras realizadas fez-se possível verificar que em cada detalhe dos processos educativos que ali se desenvolvem pode-se descortinar uma variedade de motivações, concebidos a partir dos mais distintos valores, pressupostos teóricos, institucionais, políticos e sociais.
Muito além do exclusivo ensino de teorias e habilidades, este ambiente lida cotidianamente com pressupostos de uma transformação da pessoa de cada educando, o que se faz profundamente satisfatório ao verificar os passos já caminhados e as conquistas alcançadas, mas que também mostra seu peso em meio às cobranças e dificuldades de sua realidade.
Assim, encontram-se nas obras sociais diferentes rostos e histórias. No espaço das instituições se aproximam as lutas daqueles que enfrentam uma difícil realidade. Encontram-se também profundos anseios e desejos daqueles que tanto almejam uma transformação para suas crianças e adolescentes educandos.
Em meio a esta pluralidade de preocupações e anseios, ali também a música encontra seu espaço. E justamente a compreensão das características e peculiaridades desse espaço, ora grandioso, ora discreto, constituiu um dos cernes da presente pesquisa.
Parece subentendido que toda atividade dentro de uma obra social assuma características voltadas para uma ação humana e social. Entretanto, compreender, de fato, quais as especificidades que esta afirmação carrega em si implica no desenvolvimento de muitos estudos.
No caso da música, este cenário faz-se ainda mais pleno de detalhes e dúvidas, visto que as características de seu processo educativo, como aponta Kleber (2006), ainda não se consolidaram de modo a promover alguma homogeneidade nas instituições. Ao levar em conta, ainda, as diferentes vertentes de compreensão desta promoção humana, bem como seus desdobramentos nos processos de ensino e aprendizagem, as possibilidades tornam-se ainda maiores.
A partir desta desafiadora realidade, determinou-se o objetivo principal da pesquisa: neste contexto, investigar e compreender as especificidades do ensino de música e da promoção humana por meio dele realizada em uma obra social.