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2. DIFERENTES ABORDAGENS TEÓRICAS DO ENSINO DE ADULTOS

2.3. ANDRAGOGIA

2.3.8 AVALIANDO OS POTENCIAIS E OS LIMITES ANDRAGÓGICOS 47

Um dos limites da Andragogia de Knowles, como já mencionado anteriormente, diz respeito à escassez de pesquisas empíricas que sustentam seu modelo. Nesta lógica, pesquisas realizadas para testar os pressupostos andragógicos se revelaram inconclusivas, demonstrando que futuras investigações precisam ser realizadas de forma mais criteriosa para efetivamente testar a validade de cada pressuposto (RACHAL, 2002). Por esta razão, as críticas de autores como Houle (1972), Elias (1979), entre outros, foram incisivas.

Porém, as contribuições de Knowles são notáveis. Basta citar exemplos como a liberdade de opção de seu modelo educacional para adultos, ou o privilégio que ele confere às metodologias ativas em detrimento do modelo de ensino tradicional, assim como a importância que é dada à experiência vivenciada como recurso para aprendizagens, entre outros. Apesar das críticas

tecidas em relação ao modelo andragógico, o seu potencial é notável, pois contribui com seus pressupostos e ideias inovadoras a respeito da educação de adultos. Neste sentido, vale lembrar que durante muito tempo não havia diferenciação quanto à educação de crianças e adultos.

Também, um postulado amplamente aceito pela comunidade científica trata da experiência prévia que é trazida pelo aprendente adulto. Outros autores como Freire (1970) e Mezirow (1990) exploraram esta ideia sugerindo que um ponto de partida para a educação de adultos poderia ser as vivências prévias em relação ao conhecimento abordado. Assim, a aprendizagem mostra-se como um processo de interação entre o aprendente e o mundo através do auxílio do professor que é o facilitador deste processo. Em outras palavras, Knowles

“enfatiza a natureza psicológica individual do aprendente e considera que cada indivíduo procura autonomizar-se e desenvolver-se de forma única e singular”

(NOGUEIRA, 2004, p. 11).

Ademais, a posição de Knowles mostra-se fortemente influenciada pela abordagem Humanista que considera que para a realização pessoal os adultos buscam aprendizagens para o autodesenvolvimento, desde que seja uma escolha pessoal. Por esta razão, esse modelo educacional tem viés otimista por considerar a natureza humana como sendo boa, e, mesmo que nem todos os pressupostos sejam cientificamente testados, constituem postulados que possibilitam o percorrer de novos caminhos. E, a aplicabilidade do modelo de Knowles mostra algumas vantagens em relação à Pedagogia, assim:

a) É aplicável em contextos muito diversos (formais, informais e não formais; b) pode aplicar-se no seu todo ou apenas em parte;

c) os aprendentes possuem liberdade de escolha em todo o processo de aprendizagem; d) não possui referenciais culturais restritivos (embora a possibilidade de aplicação em regimes ditatoriais seja mais reduzida); e) é aplicável no campo das ciências exatas e também no das ciências humanas; f) o seu espectro de atuação abrange todas as idades (embora inicialmente tenha sido conceptualizada para adultos). (Ibidem, p. 18).

Portanto, parece que a perspectiva andragógica procurou estabelecer um modelo de pressupostos relativos à aprendizagem advindos da prática que este

autor teve com certo sucesso com o público adulto, e que buscou sistematizar constituindo seu modelo que não pode ser considerado como uma teoria definitiva. No entanto, a Andragogia, ao diferenciar o aluno adulto das crianças, trouxe importantes contribuições.

A aplicabilidade do modelo de Knowles é um importante diferencial, pois pode ser inserido em diferentes contextos e culturas com sucesso. Neste sentido, é muito adaptável e foi implementado com sucesso em diversos continentes e com “populações de diversos níveis socioculturais, de diferentes idades e tendo como referência de conteúdo as ciências naturais e humanas”

(ibidem, p. 20). Assim, algumas ideias andragógicas foram mais utilizadas como, por exemplo, estabelecer o clima propício para a aprendizagem, aprender de forma autodirigida, o estabelecimento de um contrato de aprendizagem, o papel da experiência prévia como recurso, o ensino individual, a elaboração de autodiagnóstico e da auto-avaliação (ibidem, p. 20).

O principal desafio advém da dificuldade dos professores em abandonar anos de práticas pedagógicas nas quais buscavam transferir o conhecimento de forma bancária e procuravam ensinar conteúdos, postura esta inadequada em relação à do facilitador, que crê na capacidade, na liberdade de escolhas, e na ação dos aprendentes adultos, que dividem as responsabilidades educativas com os instrutores, e motivam-se mais quando percebem que o projeto do qual fazem parte lhes pertence.

2.4. APROXIMAÇÕES ENTRE A ANDRAGOGIA E A TEORIA PIAGETIANA Alguns dos pressupostos andragógicos parecem ter tido como inspiração ideias presentes na teoria de Jean Piaget. De fato, as ideias chave que norteiam a andragogia são extremamente próximas dos conceitos presentes na obra piagetiana.

O primeiro pressuposto de Knowles (1980; 1984) diz respeito a dependência dos indivíduos. Conforme amadurecem desenvolvem a capacidade de autodirigirem-se e tomam consciência de suas responsabilidades. Da mesma forma, a teoria piagetiana fala de fatores de desenvolvimento e a maturação é

um deles. O desenvolvimento depende não só da maturação nervosa, mas também de outros fatores que são a experiência, as transmissões sociais e a equilibração que os integra. Outro pressuposto andragógico diz respeito a experiência adquirida que também está presente na obra piagetiana. Aliás, o construtivismo como um todo aponta para a interação entre o sujeito e o objeto como fonte do conhecimento, ou seja, há ênfase nos processos de interação ativa do sujeito com o mundo que dá origem a aprendizados.

Além disso, o papel do professor mostra pontos em comum entre o pensamento de Knowles e Piaget. O professor para ambos deve ser um ente neutro na sala de aula, de modo a deixar o aluno se desenvolver por si mesmo.

Knowles fala de facilitador ao passo que Piaget fala de um professor pesquisador que deve instigar os alunos a tornarem-se eles próprios pesquisadores. Ambos criticam o modelo pedagógico que mantém os aprendentes dependentes do professor. Assim, a critica ao modelo tradicional é explicita tanto no modelo de Knowles quanto no piagetiano. O professor facilitador andragógico provoca os alunos e mostra diferentes caminhos como o professor pesquisador piagetiano, ambos buscam despertar aprendentes curiosos, pesquisadores e ativos.

Apesar de Piaget não ter se interessado diretamente pela aprendizagem adulta, seu modelo teórico estuda o desenvolvimento de estruturas cognitivas que estejam em equilíbrio. Isto pressupõe um sujeito epistêmico que chega a tomadas de consciência e ao pensamento generalizante que se torna, de certa forma, autônomo. Da mesma forma, Knowles fala de um aprendente independente que se autodirige progressivamente chegando também a um determinado equilíbrio cognitivo. A aprendizagem autodirigida é um dos pressupostos da andragogia que desenvolveu-se e é, hoje em dia, uma abordagem de destaque no que tange a aprendizagem de adultos.