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1 A AÇÃO DO ESTADO NA APROPRIAÇÃO DO ESPAÇO URBANO NO RIO

3.2 PODER SIMBÓLICO NA CONQUISTA DO ESPAÇO URBANO – CIDADE E

3.2.2 Avenida Central – as primeiras construções

A avenida central, que ligava as duas principais Praças da cidade, inicialmente denominada José Bonifácio, passou a se chamar Avenida Maurício Cardoso; já, a Praça Central, originalmente denominada Cristóvão Colombo, passou a se chamar Praça da Bandeira234.

As construções erguidas ao longo da avenida central conformavam a cidade, dando um aspecto semelhante às edificações existentes nas colônias velhas: casarões construídos de madeira, com dois ou três pavimentos, telhados com inclinações e aberturas dispostas simetricamente.

Havia uma uniformidade nas construções, apresentando características comuns em alinhamento com a calçada e com recuos laterais; além disso, a pavimentação das ruas era feita com barro adensado. Assim, na época das chuvas, as ruas ficavam enlameadas ou, no verão, empoeiradas. É o que se observa nas fotos a seguir:

Ilustração 13 - Avenida José Bonifácio, início década de 1930 Fonte: Arquivo Histórico Municipal de Erechim

A Arquitetura erechinense foi uma conseqüência da aprendizagem e da bagagem técnica que os imigrantes trouxeram das colônias velhas. Ao conservarem laços íntimos com os seus lugares de origem, mantiveram os hábitos alimentares e o próprio estilo arquitetônico das fachadas e das plantas baixas das moradias.

São características das obras construídas pelos imigrantes235:

- O emprego de mão-de-obra livre: embora a imigração italiana iniciasse 13 anos antes da Abolição da Escravidão no Brasil, não houve escravos na região estudada. Vale referir que o culto ao trabalho valorizava a atividade braçal – daí a madeira rachada ou serrada à mão, os tijolos feitos a domicílio e as avantajadas paredes de pedra. O encargo de edificar e organizar as habitações cabia à família, geralmente com a colaboração de um profissional prático. Somente os comerciantes mais abastados tinham condições de assalariar toda a mão-de-obra para as suas construções, serrarias, olarias e pedreiras;

- a diversidade de soluções - Uma das características marcantes desta Arquitetura consiste na criatividade de opções e na engenhosidade para a solução de problemas de acordo com as disponibilidades do meio. Esta criatividade manifesta-se na Arquitetura de madeira surpreendente tanto ao apresentar técnicas e estruturas inesperadas como no uso dos materiais ou na ornamentação;

- a linguagem arquitetônica própria - do emprego dos materiais e das técnicas construtivas, resulta notável expressão plástica, dentro de uma simplicidade que se manifesta na tendência à simetria, de maneira austera, limitando-se aos elementos construtivos, ou através de ornamentação discreta;

- o uso dos materiais existentes no entorno - a falta de estradas e a escassez de recursos provocaram uma Arquitetura independente da industrialização, que usava a madeira, pedra e barro do próprio meio;

- Na Itália, geralmente as funções aglomeravam-se em uma só edificação, em aldeias rurais; no Brasil, a cada atividade corresponde a sua própria construção, no próprio lote do colono.

Enquanto as colônias antigas já haviam superado a fase de sua implantação, a região de Erechim iniciava este processo com construções provisórias – o momento era, pois, de priorizar a atividade produtiva.

Após a organização inicial, passou-se para uma segunda etapa, em que as edificações foram realizadas visando ao conforto e a uma infra-estrutura familiar e social. Vale dizer também que as dificuldades iniciais amenizavam e a prosperidade dava sinais.

As áreas construídas aumentaram e as primeiras residências erguidas ao longo da Avenida já apresentavam a cozinha separada ou tratada como um anexo. Havia um sótão para a estocagem de cereais, e a cobertura das casas era geralmente feita com pequenas tábuas, tudo executado artesanalmente. Neste período inicial, não havia vidros para as janelas.

A dificuldade de comercialização proporcionava um tempo disponível, que era utilizado para a construção de casas e edifícios.

Quando a economia já está de certa forma estruturada, começa a haver construções com obras de maior porte. É uma demonstração da auto-afirmação dos que prosperam e uma evidência de um período de abundância.

Nas construções, são utilizados materiais que mesclam artesanato familiar e beneficiamento industrial. Com o tempo foi crescendo o predomínio do beneficiamento mecânico-industrial e a mão-de-obra profissional. As casas diminuíram de tamanho e normalmente possuíam um porão semi-escavado, com paredes de pedras e também um sótão com a finalidade de dormitório.

Os materiais utilizados chegavam com certa dificuldade e não havia grande variedade. Assim, eram utilizadas as espécies de madeira de lei existentes na região. A araucária constituiu-se no elemento mais importante, juntamente com o angico, o cedro e o louro. A madeira era aplicada nas estruturas, nas paredes, nos pisos, nas coberturas, nas esquadrias e nos móveis. Faziam tábuas largas, em torno de 30 cm, colocavam-nas na vertical, próximas umas das outras, e, na fresta que formava, fechavam com uma pequena tira de madeira, chamada mata-junta.

Quando da aplicação da linguagem decorativa, Denise S. Rigoni afirma:

Há riquezas singelas de serra-de-fita, especialmente lambrequins (adorno recortado), onde a recorrência do perfil onda-e-bico alternados, muito numerosa e aparecendo com variantes, constitui-se um detalhe característico da imigração italiana. Aparecem também, torneados, entalhes, chanfraduras (corte em forma de semicírculo), frisados e pilastras (elementos isolados da parede). A madeira provinha das serrarias e as residências mostram como elemento característico a presença de um corredor coberto ligando um volume maior – a casa, a outro menor – a copa/cozinha. Na expressão plástica, predomina o despojamento, localizando-se a ornamentação principalmente nas laterais dos corredores que ligavam a casa à cozinha236.

Os primeiros italianos chegaram à região por volta de 1910, muitos deles descendentes dos primeiros imigrantes que chegaram ao Rio Grande do Sul por volta de 1875, vindos de diversas regiões ao Norte da Itália. Nem todos os primeiros moradores de Erechim, portanto, eram provenientes da Europa e muitos já haviam aprendido as técnicas de construção no Brasil. O que sabiam era uma combinação e uma adaptação das soluções que agora seriam aplicadas em um novo ambiente.

236 SCHMIDT RIGONI,1990, p. 9.

Como a madeira era o material mais abundante na região, na década de 20, praticamente todas as casas eram feitas com este material, construídas literalmente na base do facão, do machado, do martelo e do serrote. Neste período, já possuíam esquadrias, portas e janelas com vidros bem como a utilização de ferragens e pregos.

Ilustração 14 - Vista parcial da cidade. 1942

Fonte: < http://www.panoramio.com/photo/5164424 1942>. Acesso em: abr. 2009.

Como retrata a foto acima, as aberturas eram colocadas de forma simétrica em relação à cumeeira da casa, ficando a porta no meio de duas janelas no térreo e mais duas janelas no sobrado.

Em seu trabalho, Denise observa que:

A cobertura era feita com bastante inclinação (próxima de 45 graus), pois tomavam como base as construções de sua terra de origem, e utilizavam para a sua execução

tabuinhas que eles mesmos lascavam, chamadas ‗scandole‘, pelos italianos. Mais

tarde passaram a usar telhas de zinco e posteriormente telhas cerâmicas. (...)

A casa, internamente, geralmente era dividida em: sala, cozinha e quartos ladeando o corredor central. Às vezes havia sala de jantar, que chamavam de varanda. Sempre que possível faziam porão onde guardavam alimentos, vinho, acessórios para a montaria. A latrina localizava-se externamente à casa, pois não havia água encanada. A água era tirada de poços e transportada em baldes até a casa237.

237 SCHMIDT RIGONI, 1990, p. 16-17.