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AwayToMars Interview to Alfredo Orobio

No documento The Fashion Design Entrepreneur (páginas 189-194)

(Transcribed from audio, interview via Skype on 19/07/2017) Questões de perfil :

Nome: Alfredo Orobio Idade: 29

Formação académica: Relações Internacionais (Brasil) Nome do projeto/empresa: AwayToMars

Data de criação: 2014

Cidade(s) em que se baseia o negócio: Londres / Lisboa Como e quando surgiu o seu projeto/empresa?

Alfredo Oróbio: Surgiu em 2014/2015, estava eu a acabar a minha dissertação de mestrado, a minha pesquisa era sobre como as pessoas faziam compartilhamento de informação criativa online. Reparei que em grupos de produtos de moda, havia um potencial muito grande porque muitas ideias geridas nesses grupos ficavam perdidas, não saiam do papel, daí a ideia de juntar todas estas ideias num único espaço com gestão do processo de produção, venda, promoção e etc. Através da cocriação, as ideias poderiam então tomar vida. O projeto começou a ganhar forma em 2015, em 2016 mudamos para Londres, hoje temos 10 funcionários.

Intervenção: Porquê esta mudança para Londres? AO: Questões de burocracia e logística basicamente.

Quais foram as principais dificuldades que encontrou na criação do projeto/empresa?

AO: O principal problema é conseguir ser capaz de mostrar que o modelo de negócio é viável, que existe a possibilidade de criar moda e produtos sem o conhecimento técnico, é uma barreira de entrada na indústria. Vender as roupas é também uma dificuldade óbvia.

Intervenção: Como foi feito o vosso modelo de negócio?

AO: Eu é que o criei, foi um processo que durou um ano, mas hoje continuamos a adaptar esse modelo de negócio, é um processo constante.

Se começasse o seu projeto/empresa agora, o que faria de diferente? AO: Não faria muito diferente. Quer dizer, provavelmente tentaria ser mais rápido nas ações que fizemos, mas mesmo assim, considero o tempo de reação que tivemos bastante rápido, pelo que não faria muito diferente.

Acha que as entidades de incentivo ao empreendedorismo estão disponíveis para apoiar projetos no sector têxtil e do vestuário em Portugal?

AO: Não, hoje existem milhares de incentivos em Portugal, o que é engraçado. Quando abrimos a AwayToMars em Portugal foi muito simples, em 10 horas estava a nossa empresa no mercado e lançada. Agora, considero que existe uma grande barreira com a indústria têxtil e do vestuário em Portugal com marcas pequenas e até hoje sentimos isso, sentimos este preconceito das empresas do setor em Portugal com as pequenas marcas de Portugal. Não há muita abertura com estas empresas e é muito difícil formar parceiras. Muitas vezes, para fazer contacto com empresas portuguesas, fazemos o primeiro contacto em inglês, para obter resposta, se nos apresentarmos como uma pequena empresa portuguesa, não teríamos resposta, o que é muito chato.

Intervenção: Porque acha que acontece este tipo de situação?

AO: Não sei se é um medo ou um preconceito, de não pagar no final de contas, de não ser um volume suficiente ou se pensam que é apenas uma maneira de fazer pesquisa de mercado, não tenho a certeza de onde vem realmente o problema. Estive numa conferencia com o Paulo Vaz da ATP e eu contei-lhe isso, ele concordou comigo. O governo incentiva mas infelizmente, a indústria não está pronta para receber esta abertura. Embora talvez agora com a mudança que se está a sentir nas mentalidades possa haver mais perceção que há potencial, há dinheiro, podem fazer-se bons negócios em Portugal com start-ups, talvez assim as coisas melhorem, pelo menos nas grandes cidades, Porto e Lisboa. Aliás, eu noto essa diferença aqui em londres recebo contactos por parte do mundo inteiro, de fábricas, e uma empresa de confeção Portuguesa não me envia o orçamento que pedi e outros exemplos do género.

Já teve a oportunidade de concorrer ou de usufruir de algum tipo de bolsa ou ajuda para o empreendedorismo em Portugal?

AO: Se formos considerar a plataforma da ModaLisboa, sim, porque considero que sem eles não estaríamos onde estamos se não fosse pelo ModaLisboa, mesmo que a ajuda deles não tenha sido monetária foi uma excelente plataforma para o lançamento da nossa empresa. De resto, não tivemos nenhuma ajuda de incentivos empreendedores.

Qual é a sua opinião em relação a este tipo de incentivos?

AO: Acho que são uma ótima maneira de expandir, para as pessoas arriscarem e não terem medo de empreender, embora não acho que o empreendedorismo desapareça com a falta destes incentivos. Comparando com Londres, aqui não tenho conhecimento de nenhum incentivo, mas as pessoas não têm medo de se lançarem porque em termos de logística e burocracia aqui é muito mais fácil do que foi em Portugal. Em contra- partida, a vida de uma empresa aqui é mais cara porque o aluguer é mais caro e os salários mais altos, mas temos incentivos como por exemplo ajudas de custo para participar em feiras de tendências e outros eventos, como a Pitti Uomo, mas não é para todos, é preciso fazer parte deste circulo fechado, como é a ModaLisboa por exemplo, o que não é correto no meu entender, acho que todos deveriam ser iguais e terem as mesmas oportunidades.

Teve algum tipo de formação sobre empreendedorismo durante o seu percurso académico? Que tipo de formação?

AO: Eu tive aulas de empreendedorismo na faculdade, mas não acho que aprendi nada. Acho mais importante exercitar a mente, criar, fazer coisas novas. O meu avô é um imigrante espanhol, foi para o Brasil e criou a empresa dele e achou que esse sangue empreendedor sempre correu em mim, tenho e sempre tive ideias para criar coisas novas. Nem consigo entender como pode haver formação académica em empreendedorismo. Para mim empreendedorismo é mandar-se para um buraco negro e tentar safar-se o melhor possível.

Considera que se tivesse tido formação nessa área teria tomado decisões diferentes na criação do seu projeto/empresa?

AO: Acho que não, a minha formação académica não me ajudou, quer dizer, obviamente ajudou um pouco, mas para este negócio em particular, o que me teria ajudado seria de ter tido 10 anos de experiencia com marcas ou empresas, porque quando empreendemos, temos que ser capazes de aprender com os erros que vimos, e os 5 fundadores da AwayToMars tiveram todos experiências em start-ups antes, pelo que lhes deu essa visão e essa experiência. Eu sou a favor da formação académica, mas também acho que a formação académica atual precisa de uma evolução, porque sinto que não acompanha aquilo que os profissionais de hoje necessitam.

Considera que os Cursos de Design de Moda deveriam formar os alunos na área do empreendedorismo? Porquê?

AO: Na verdade não, acho que estes cursos deveriam concentrar-se em formar as pessoas a pensar criativamente. Acho que muitos das pessoas que nos vêm procurar não sabem fazer a gestão das coisas, hoje a AwayToMars faz todo este serviço para quem tem uma ideia, mas o que faz falta é aparecerem pessoas com ideias fora da caixa. Por isso é que acho que é mais importante uma pessoa aprender a ser criativa, porque como é que uma pessoa pode ensinar a empreender? Eu fiz dois anos de faculdade de DM, não terminei o curso, porque saia das aulas sem nada agregado na minha mente e era estranho.

Intervenção: Voltando à sua frase sobre formar pessoas criativas, acha que esta criatividade está relacionada com empreendedorismo?

AO: Sim, claro, as pessoas empreendedoras, seja em design de Moda, seja em outras áreas criativas, são pessoas que não têm medo de perder, de arriscar, porque empreender é um risco, pode ser um fracasso ou um sucesso, como criar roupa nova, mas estas pessoas não têm medo de arriscar, por isso é que sou um pouco contra, aliás muito contra o estudo académico do design de moda, mesmo que hajam referências, técnicas etc... Ninguém pode aprender a ser designer de moda. Podemos ensinar alguém a fazer moldes, a costurar etc. Mas não ensinamos a ser criativo, a ser disruptivo, pode ser aprendido ao longo dos estudos mas quem não estudou também pode ser criativo e aprender o resto de outra forma.

Pensa que os jovens estudantes de Design de Moda têm mais oportunidades em termos de criação de negócios próprios do que teve na sua altura? Porquê?

AO: Qualquer pessoa hoje, não só em design de moda, de empreender. É muito mais fácil hoje criar uma marca, um site de venda etc, existem soluções para tudo. Antigamente, criar um site com possibilidade de venda online era tão complicado e custava muito dinheiro, enquanto hoje temos plataformas para isso, com tudo a disposição. Acho que não teria conseguido criar a AwayToMars a 10 ou 15 anos atrás, porque a empresa nasceu sem investimento financeiro, nunca tive ajuda financeira dos meus pais nem de ninguém, mas hoje é tudo mais fácil com estas ferramentas, sem isso nunca teria conseguido criar a empresa sem estas ferramentas. Por outro lado, existe muito mais competição do que no passado, são criadas muito mais marcas lançadas no mercado e que são os meus concorrentes diretos, por mais que não os conheça porque aparecem todos os dias marcas novas.

AO: Muitas delas não vão sobreviver, porque a tarefa mais complicada quando nos lançamos no mercado é perceber o que o consumidor quer, e é por isso que confiamos no modelo de negócio da AwayToMars, falamos diretamente com as pessoas, tentamos traduzir em tempo real os desejos do consumidor. Muita gente diz-me que o consumidor não sabe o que quer, mas discordo, e nós conseguimos traduzir estas necessidades.

Considera que deveria existir uma plataforma especialmente dedicada a fomentar o empreendedorismo na área do Design de Moda?

AO: Sim, acho interessante, penso que deveria ser até um incentivo do governo, a primeira fase de incubação deveria ser gratuita e fornecida pelo governo, o problema é que a procura é muito elevada. Mas se tal plataforma existisse, muitas mais empresas seriam criadas em Portugal.

Que funções poderia assumir uma plataforma desta natureza?

AO: Eu sofri aqui em Portugal, da parte burocrática, porque em relação a Londres, onde nem preciso de sair de casa para tratar de papeis, em Portugal, temos que ir de sítio em sítio para preencher pedidos e papeis etc. Pelo que essa parte legal e burocrática seria excelente se fosse simplificada por esse meio. A parte administrativa também, e da contabilidade, porque é uma parte muito complicada para quem nunca tratou disso. Outra função deveria ser relacionada com o contacto com a indústria. Saber quais são as empresas, que tipo de produto fazem e sobretudo se o fazem bem, se são recomendadas por outros mentores que trabalharam com elas, facilitaria imenso o processo todo de pesquisa. Uma sócia nossa, a Paula, perde dias a fazer este tipo de contactos e às vezes não dá em nada.

Appendix IV. ATP- Interview to Paulo

No documento The Fashion Design Entrepreneur (páginas 189-194)

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