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Bússola do que observar: os sujeitos crianças

4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

4.1 INSTITUIÇÃO QUE HOSPEDA O CAMPO DA PESQUISA: A REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE FLORIANÓPOLIS (RMEF)

4.1.4 Bússola do que observar: os sujeitos crianças

Figura 2 - As crianças e suas escolhas

Fonte: Acervo da autora

O grupo de crianças que me recebeu e participou da pesquisa era composto por seis meninas e nove meninos com idade entre dois a três anos. Todas as crianças estavam matriculadas em período integral. Os dados em relação à idade das crianças foram recolhidos das fichas cadastrais da secretaria da creche pesquisada, assim como suas idades e suas características socioculturais. Tais dados foram obtidos com a anuência das famílias e da direção da creche. No quadro 3 são apresentado estes dados e os nomes78das crianças:

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Em relação aos aspectos étnico raciais, as famílias das crianças as declararam de cor e raça branca. Da mesma forma, as famílias das crianças se

autodeclararam de cor e raça branca. 78

O nome das crianças é fictício, conforme acordo firmado no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), entre a pesquisadora, o Comitê de Ética e as famílias responsáveis pelas crianças participantes do estudo.

Figura 3 - Conhecendo as crianças por elas mesmas

Quadro 3 – Apresentação dos aspectos socioeconômicos das crianças Fonte: Autora (2016). Nome da criança Idade em abril de 2014 Cidade de nascimento /Cidade que habita

Bairro onde mora Núcleo familiar da criança (pessoas com quem ela mora) Meninas

Vitória 2 anos e 6 meses Florianópolis Canasvieiras 5 pessoas: a criança, a mãe e três irmãos Letícia 2 anos e 7 meses Florianópolis Cachoeira do Bom Jesus 3 pessoas: criança, mãe e pai Rafaela 2 anos e 9 meses Florianópolis Vargem do Bom Jesus 4 pessoas: criança, mãe e dois irmãos Fernanda 3 anos Florianópolis Vargem do Bom Jesus 4 pessoas: a criança, a mãe, o pai e a irmã

Bárbara 3 anos Florianópolis Vargem Grande 3 pessoas: a criança, a mãe e o irmão Martina 3 anos Florianópolis Canasvieiras 5 pessoas: criança, mãe, pai e dois irmãos Meninos

Igor 2 anos e 3 meses Cuiabá-MT Canasvieiras 5 pessoas: criança, mãe, pai e dois irmãos Diego 2 anos e 6 meses Florianópolis Canasvieiras 6 pessoas: criança, mãe, pai e três irmãos Carlos 2 anos e 7 meses Florianópolis Canasvieiras 4 pessoas: a criança, a mãe, o pai e o irmão Daniel 2 anos e 8 meses Florianópolis Cachoeira do Bom Jesus 2 pessoas: a criança e a mãe

João 2 anos e 9 meses Florianópolis Vargem Grande 4 pessoas: criança, a mãe, o pai e a irmão Paulo 2 anos e 11 meses Florianópolis Canasvieiras 4 pessoas: criança, mãe, pai e uma irmã Lucas 2 anos e 11 meses Florianópolis Cachoeira do Bom Jesus 4 pessoas: criança, mãe e dois irmãos Antônio 2 anos e 11 meses Florianópolis Vargem Grande 5 pessoas: criança, mãe, pai e dois irmãos

O contato com as famílias se deu gradualmente; antes de a pesquisa de campo ser iniciada, fui ao encontro das famílias quando levavam seus filhos para a creche e quando os buscavam. Tentei, junto com a direção da creche, agendar reuniões para poder explicar melhor a proposta de estudo, mas não obtivemos sucesso; a própria diretora já havia me alertado que seria mais fácil eu conversar com as famílias no momento em que elas levavam e buscavam as crianças. Nestas ocasiões, eu me apresentava e explicava o propósito do estudo, perguntava se as famílias gostariam de indicar com que nome seu/sua filho/a poderia ser chamado/a na pesquisa ou se eu deveria escolher um nome fictício. Assim, já explicava sobre o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e solicitava às famílias que o levassem para casa, lessem e, se houvesse acordo, assinassem, autorizando a participação das crianças no estudo, devolvendo-me posteriormente.

O quadro 4 traz as características socioeconômicas das famílias que participaram da pesquisa:

As professoras do grupo III tiveram grande participação nesse processo, enviando documentos via agenda das crianças e enviando bilhetes às famílias com as quais eu não conseguia ter acesso pessoalmente. A direção também se empenhou, telefonando algumas vezes e conversando com as famílias cujos filhos chegavam e saíam da unidade educativa com vans ou na companhia de pessoas que não podiam assinar tal autorização. Desta forma, por intermédio da direção, eu consegui me apresentar e explicar a proposta da pesquisa a estas famílias. Constato que a dificuldade apresentada pelas famílias em comparecer a uma reunião e de permanecerem mais tempo conversando comigo, se deve à sua realidade socioeconômica. Em conversas informais com algumas mães, mesmo elas tendo declarado na inscrição das crianças, no momento de requerer a vaga, que estavam desempregadas ou que eram do lar, revelaram-me que faziam faxinas para auxiliar na renda familiar. A maioria já declarava trabalhar fora, às vezes, distante da creche e de suas casas, o que dificultava sua participação nas atividades que a instituição propunha. Infelizmente a situação socioeconômica das famílias compromete sobremaneira a participação efetiva delas nas vivências dos/as filhos/as fora do contexto familiar. Em relação aos nomes das crianças, devido ao fato de as famílias não se pronunciarem e deixarem sob minha escolha, optei por apresentar nome fictício para cada criança, atendendo à exigência do CEPSH de manter o anonimato dos sujeitos da pesquisa.

A entrada no campo é sempre um momento crucial para o bom andamento da pesquisa. No caso de estudos que envolvem a participação das crianças bem pequenas, esse desafio se torna ainda maior. Sobretudo por existirem diferenças ―óbvias entre adultos e crianças‖, como a cognitiva e comunicativa, de poder e de tamanho (CORSARO, 2004, 2011). Diante dessas óbvias diferenças, há de se pensar na posição assumida pelo pesquisador frente às crianças, em um contexto coletivo de educação, em que a autorização para elas participarem da pesquisa foi concedida por seus responsáveis, e não por elas mesmas79.

Graue e Walsh (2003) ressaltam que dificilmente são as crianças a definirem o que vai acontecer em uma pesquisa em que elas fazem parte. De modo geral são os adultos que determinam o que pode ou não

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Mais a frente apresentaremos uma subseção em que é demonstrado que a autora procurou ter o assentimento das crianças para a entrada e permanência no campo da pesquisa.

acontecer. Nesta direção, torna-se necessário haver o assentimento80 de todas as partes (crianças e adultos) para que o pesquisador possa permanecer, conhecer e compreender aquele contexto de convívio coletivo, assim como tomar como informantes da pesquisa as próprias crianças, como representantes diretas do que lhes é cotidianamente proposto (CORSARO, 2011), conhecendo mais de sua alteridade.

Na tentativa de exercitar a alteridade, colocando-me no lugar do outro, organizei uma estruturação teórica e metodológica procurando, nos primeiros dias de entrada no campo, identificar em que momento havia, de fato, o assentimento para eu estar ali. Era necessário que as crianças, efetivamente, me autorizassem a realizar observações e registros, convivendo e permanecendo com elas por um tempo prolongado. Para Ferreira,

[...] nas pesquisas com crianças pequenas, mais do que falar em consentimento informado, talvez seja mais produtivo falar em assentimento para significar que, enquanto atores sociais, mesmo podendo ter um entendimento lacunar, impreciso e superficial acerca da pesquisa, elas são, apesar disso, capazes de decidir acerca da permissão ou não da sua observalidade e participação [...]. (2010, p. 164)

A observação implica, portanto, um processo de decisão sobre o que observar e como observar. Nas premissas de Corsaro (2011), podemos fazer a escolha de pesquisar com as crianças e, em nosso caso, também com as professoras, e não sobre os sujeitos partícipes de um dado contexto. Um grande desafio estava em desenvolver uma escuta sensível, uma vez que, apesar do fato de as professoras terem suas faculdades mentais plenamente desenvolvidas e poderem falar claramente o que desejavam e esperavam ou não de mim, não havia nenhuma certeza de que isso aconteceria. Seria necessário estar atenta à contra palavra, ao dito e ao não dito, à fronteira entre o verbal e o extraverbal das enunciações dos adultos e das crianças (BAKHTIN e VOLOCHÍNOV, 2011).

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O conceito de assentimento está relacionado à ideia de as partes estarem de acordo, haver anuência, consentir (HOUAISS, 2009), porém de modo negociado, e não apenas firmando uma aceitação de participar de algo, devido a uma assinatura. No caso das pesquisas com crianças bem pequenas, esse conceito é bastante importante e falaremos melhor dele na seção seguinte, quando apresentamos as crianças interlocutoras do estudo.

Tornou-se necessário acentuar a atenção ao significado das entoações, movimentos, silêncios, olhares e palavras que cada criança expressava, no sentido de compreender se assentiam ou não minha presença. Desde as primeiras proposições deste estudo, procurei me posicionar em relação às professoras e às crianças, de modo a compreendê-las em sua concretude, na vivência das relações, e não como objetos a serem estudados. Eis a prerrogativa de realizar a pesquisa com e não sobre elas. Para as pesquisadoras Cruz & Cruz,

[...] no lugar de alunos abstratos que precisam ser adequados ao que a instituição planeja prioriza, devem ser considerados bebês e crianças concretos, sujeitos culturais e de direitos, contextualizados social e historicamente, que precisam e têm direito de ser ouvidos, na acepção mais ampla da palavra. (2012, p. 06).

A passagem trazida acima pelas autoras vem ao encontro do que entendemos ser importante em uma pesquisa de campo com crianças e adultos. Além do que, ver as crianças na concretude de suas vivências nos auxilia a interpretar como elas mesmas interpretam o que transcorre no cotidiano de um coletivo em que passam horas por semana. Dessa forma, compreendemos que entrecruzar nosso olhar de pesquisadora com o olhar dos interlocutores da pesquisa orienta a aproximação e o distanciamento entre o lugar que ocupo e o lugar que ocupam elas (professoras e crianças). É um caminho para encontrar, observar, apreender e voltar ao meu lugar estranho do delas, interpretando o que conheci.

Posso afirmar que fui privilegiada por ter recebido um suporte das professoras do Grupo III, anterior à minha entrada no campo. Desde que a pesquisa foi autorizada e que anunciei o seu início para a semana posterior, as professoras começaram a conversar com as crianças, explicando que receberiam uma ―visita‖. Esta ―visita‖ ficaria com elas por alguns meses, em alguns dias da semana, para conhecer o que acontecia no dia a dia delas. Segundo as professoras, foi perguntado às crianças se elas aceitariam minha presença e algumas que demonstravam entender o que lhes tinha sido dito, concordavam com minha chegada.

Na seção seguinte são apresentados os métodos, instrumentos e estratégias para entrar e permanecer no campo.

4.2 MOVIMENTO DE APROXIMAÇÃO E DISTANCIAMENTO NA