2. Situações não delimitadas como AUGI: no total, foram contabilizadas 728 situações não delimitadas como AUGI.
6.3. B AIRRO DA P EÇA E DO C ERRADO G RANDE – C ASCAIS
No sentido do estudo do papel da memória e identidade no processo de requalificação de um bairro, pareceu pertinente iniciar o desenvolvimento deste caso de referência com um pequeno enquadramento a partir de “Rapsódia ao Triunfo”, pelo Arquitecto João Pestana (2009:251):
Qual organismo vivo, de génese difícil, veio para ficar, numa manta de terra polvilhada de boa gente que agora se encontra longe da terra do coração, mas perto da certeza dum futuro melhor.
Num concelho com um litoral soberbo, o valor dos terrenos situados numa segunda linha determina a fixação destas populações, que aliás trazem consigo a marca do interior, pelo que não estranham muito a adaptação ao local – alentejanos às searas de São Domingos de Rana, beirões e transmontanos de volta aos pés da serra.
Quem não se adaptou desde logo às dinâmicas vigentes foram as entidades, cujos modelos de gestão não estavam preparados para este despontar de vida que foi alastrando, e que no bom sentido, necessitava de cuidados. Por isso sentem-se sós, embora rodeados de conterrâneos, por outro lado (re)nasce o espírito de comunidade e já se sabe, o processo não pode voltar atrás.
O município reage e lança mãos à obra, congregando sinergias, dando prioridade às “prioridades”, depois virá a legalização. E porque do trabalho nasce a obra, ninguém quis ficar atrás, sonhos não faltaram. Feito isto, temem pelos filhos que agora são uma realidade emergente, não lhes chega o tecto, lá mais para a frente querem dar um pouco a cada um.
Imagem 42-Bairro da Peça e do Cerrado Grande(limites)
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77 | P á g i n a Surge em boa hora a lei, um novo mundo se abre e voltam a sentir-se povo dum país com direitos, de tal forma que os deveres já fazem agora sentido.
É muito papel, muita luta, mas lá no fim vale a pena, o neto que o diga.
Hoje lembram com saudade os tempos difíceis de então, o mundo é agora outro, o pior já passou, ou talvez não, mas é esta consciência de sociedade que (mais uma vez) se conquistou, que vai mover qualquer montanha, ou porque não, definir um novo horizonte…lá no sítio onde se começa o céu.
Assim, neste concelho e especificamente no bairro em questão, pela ausência de planeamento, as intervenções devem ser pontuais e devem respeitar as pré-existências, que por si só devem a sua singularidade a lógicas diferenciadas das sociedades urbanas, às condições da economia familiar, às particulares relações de vizinhança e às noções de modos de vida ruralizados.
Deste modo, parece, de certa forma, interessante manter estas lógicas de apropriação do território tão nobres e cheias de significado, é neste contexto que se procura intervir tendo em conta as referências identitárias dos habitantes do bairro, dando principal prioridade à arquitectura de paisagem.
Devido à dimensão do bairro (cerca de 111,560m2 e de 1000 habitantes) e à rara existência de espaços devolutos, de dimensões significativas, que não sejam destinados à habitação, a intervenção neste bairro, como acontece mais à frente no bairro dos Peões, incide principalmente sobre a requalificação dos arruamentos.
Neste contexto, foi introduzido o sombreamento natural (CI) através da plantação de árvores, com aplicação de caldeiras com grelha de protecção. No sentido de melhorar um pouco a imagem e o ambiente (CI) do bairro foram igualmente criados canteiros com composição arbustiva e herbácea.
Imagem 43-Bairro da Peça e do Cerrado Grande (antes da
reconversão e requalificação)
Fonte: Actas da Conferência, 2009, Cascais
Imagem 44- (idem)
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Da mesma forma se procedeu ao alargamento dos passeios (CI), optimizando-os ao criar espaço suficiente para a deslocação pedonal, por exemplo entre vizinhos, separando assim de forma mais eficaz o trânsito viário do pedonal (CI). Também os lancis foram rebaixados para facilitar e encorajar o pedestre (AL). Foram introduzidas ilhas ecológicas para deposição de resíduos e recolha selectiva (CI) e definidos cais para contentores do lixo com dispositivos de segurança com o intuito de criar as condições para que os habitantes mantenham o bairro limpo e cuidado.
Ao nível da acessibilidade foi colocado estacionamento ao longo das ruas com caldeiras para árvores de arruamento (AL/CI) e os sentidos e sinalização de trânsito foram rigorosamente definidos de forma a organizar melhor o bairro e a dar prioridade à circulação pedonal (AL). A pavimentação em pavê também ajuda nessa diferenciação.
O loteamento foi redefinido e completado e procedeu-se à demolição de alguns anexos em condições precárias, no entanto as construções apresentam no geral um bom estado de conservação (CI).
Embora predomine o uso habitacional neste bairro, foram cedidos pelos moradores 5 lotes para a implantação de equipamentos numa zona que se pode considerar uma centralidade do bairro uma vez que se encontra junto ao seu principal acesso que é a estrada Conceição da Abóbada e num ponto cujo acesso pedonal é igualmente viável para todo o bairro. Da mesma forma foi negociada a cedência de cerca de 55821 m2 para zonas verdes em logradouro. Existem ainda cerca de 34 lotes dispersos, uns já a funcionar como comércio ou serviço, outros destinados a tal; uma creche/jardim de infância/ATL e uma igreja pouco evidente e pouco qualificada pela sua envolvente.
Imagem 45-Bairro da Peça e do Cerrado Grande (depois da
reconversão e requalificação)
Fonte: Actas da Conferência, 2009, Cascais
Imagem 46-(idem)
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79 | P á g i n a No que concerne ao conforto e imagem subsistem aspectos que carecem e intervenção, por exemplo poder-se-ia introduzir mobiliário urbano, ao longo de algumas ruas, de modo a estimular o encontro e a paragem pontual para que se estabeleçam interações sociais (S). Neste tipo de bairros, por norma, as pessoas tendem a encontrar-se em casa umas das outras ou nos cafés. A falta de diversidade de usos e actividades ao longo das ruas (UA) não estimula a população a frequentá-las. Deste modo, parece não haver vivências ao nível da rua, durante o dia ou noite, por adultos ou crianças. Também a escassez de espaços públicos, verdes ou edificados, dificulta o divertimento das pessoas no seu bairro. Estas realidades podem levar, cada vez mais, ao isolamento (S).
Em jeito de conclusão, a intervenção feita neste bairro colmatou, principalmente, alguns problemas de mobilidade e acessibilidade e conseguiu o aumento do conforto e melhoria da imagem do bairro, contribuindo para o aumento da qualidade da rua, enquanto espaço público.
Pela área cedida para espaços verdes, espera-se que, futuramente, se criem espaços de permanência para as pessoas, que viabilizem as interacções entre os habitantes e contribua positivamente, em conjunto com as intervenções já realizadas, para o sentimento de orgulho pelo bairro em questão e para o aumento da qualidade de vida dos seus residentes.
Imagem 47-Jardim de infância do Bº da Peça e Cerrado Grande
Fonte: https://www.google.pt/maps
Imagem 48-Igreja do Bº da Peça e Cerrado Grande
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