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B – Estudo laboratorial e pesquisa experimental

A pesquisa experimental envolve tentativas de adquirir controle sobre as variá-veis de interesse e estabelecer relações causais do tipo se-então. Na abordagem experimental, por exemplo, o pesquisador pode criar condições de alta,

mode-rada e baixa ansiedade, e observar os efeitos de graus tão variados em ansieda-de nos processo ansieda-de pensamento ou no comportamento interpessoal. O objetivo é conseguir fazer afirmações específicas sobre a causa, ou seja, alterando-se uma variável, pode-se produzir mudanças em outra variável. O laboratório pro-porciona o cenário para esse tipo de pesquisa (Pervin & John, 2004).

Segundo Cloninger (2003), numa verdadeira pesquisa experimental, rela-ções hipotéticas de causa e efeito diretamente testadas, uma variável indepen-dente, que o pesquisador suspeita ser a causa, é manipulada por ele. Um grupo experimental é exposto à variável independente. Um grupo de controle não é exposto à variável independente. Ambos os grupos são, então, comparados para se verificar se apresentam resultados diferentes na variável dependente, que é o efeito hipotético.

Poderia ser realizado um experimento com o exemplo acima para verificar se assistir muita televisão estimula o comportamento agressivo. Um grupo ex-perimental assistiria muita televisão e um grupo de controle, pouca. Depois, o comportamento agressivo de ambos os grupos no parque seria observado. Se assistir televisão (a variável independente) for a causa, haverá diferenças entre os dois grupos no seu nível de agressão (a variável dependente). Se alguma ou-tra variável for a causa, os dois grupos não apresentarão diferenças quanto à agressividade (Cloninger, 2003).

Segundo Pervin e John (2004), a pesquisa clínica e a pesquisa experimental apresentam forte contraste em diversas maneiras. Ao passo que os clínicos fa-zem observações que são as mais próximas possíveis da vida, permitem que os eventos se desdobrem e estudam apenas alguns indivíduos. A pesquisa experi-mental no laboratório envolve o controle rígido sobre as variáveis e o estudo de muitos sujeitos. Para apreciarmos a abordagem experimental, vamos conside-rar um programa de pesquisa dirigido para um entendimento dos efeitos do es-tresse e do desamparo. O foco aqui é o uso de procedimentos experimentais no cenário do laboratório, embora vejamos que esses esforços foram ampliados ao uso de outros procedimentos de pesquisa.

Como ilustração à abordagem de laboratório à pesquisa, iremos conside-rar o importante trabalho de Seligman e o conceito de desamparo aprendido.

Durante seus primeiros trabalhos sobre aprendizado e condicionamento do medo, Seligman e seus colegas observaram que os cachorros haviam transferi-do sua sensação de desamparo para outras situações em que o choque seria evi-tável. Na primeira situação, os cachorros eram colocados em uma situação em

que nenhuma resposta que eles fizessem poderia afetar o começo, o final, a du-ração ou a intensidade de choques. Quando colocados em uma segunda situa-ção diferente, na qual pular sobre uma barreira poderia levar à fuga do choque, a maioria dos cachorros pareceu desistir e aceitar o choque passivamente. Eles haviam aprendido na primeira condição em que estavam desamparados, no sentido de não poderem influenciar os choques, e transferiram esse aprendiza-do para a segunda condição. Veja que isso ocorreu com a maioria aprendiza-dos cachorros (aproximadamente dois terços), mas não com todos (Pervin & John, 2004).

Ainda seguindo a descrição do experimento feita por Pervin & John (2004), o comportamento dos cachorros que haviam aprendido a ser desamparados foi particularmente marcante em comparação com o dos cachorros que não rece-beram nenhum choque ou que recerece-beram choques em condições diferentes.

Na situação em que fugir e evitar os choques era possível, os cachorros corriam freneticamente até acidentalmente tropeçarem na resposta que levava à fuga. A partir daí, eles progressivamente aprenderam a mover-se para aquela resposta com mais rapidez, até que, finalmente, eles eram capazes de evitar o choque por completo. Em comparação com esses cachorros “saudáveis”, os cachorros com desamparo aprendido correram da mesma forma frenética a princípio, mas depois pararam, deitaram-se e ganiram. Com tentativas seguintes, os ca-chorros passaram a desistir mais rapidamente e a aceitar o choque de forma mais passiva – a resposta clássica do desamparo aprendido. A profundidade de seu desespero tornou-se tão grande que ficou extremamente difícil mudar a na-tureza de suas expectativas. Os experimentadores tentaram facilitar a fuga dos cachorros e fazer com que eles fossem para os locais seguros, atraindo-os com comida – mas sem sucesso. Em geral, os cachorros apenas ficavam deitados onde estavam.

De acordo com Pervin & John (2004), mesmo fora dessa situação, o com-portamento dos cachorros desamparados foi diferente do dos cachorros não desamparados: “Quando um experimentador vai à jaula e tenta remover um cachorro não-desamparado, ele não obedece zelosamente; ele late, corre para o fundo da jaula e resiste a ser manipulado. Ao contrário, os cachorros desam-parados parecem murchar, eles afundam passivamente no chão da jaula, oca-sionalmente rolando e adotando uma postura submissa; eles não resistem”

(Seligman, 1975, p.25).

Outros estudos desenvolvidos por outros estudiosos comprovaram que a teoria do desamparo aprendido não é só replicável em animais, mas também

em seres humanos e em situações diferentes à testada. O desamparo pode ser aprendido também pelo modelo de aprendizagem social, de Albert Bandura.

Em outras palavras, a pessoa pode aprender o desamparo à medida que presen-cia pessoas executando comportamentos que refletem o desamparo.

A explicação de Seligman sobre o fenômeno do desamparo aprendido foi que o animal ou a pessoa aprende os resultados não afetados pelo seu compor-tamento. A expectativa de que os resultados sejam independentes da resposta do organismo, portanto, possui implicações motivacionais, cognitivas e emo-cionais (Pervin & John, 2004):

1. Eventos incontroláveis impedem que a motivação do organismo inicie outras respostas que possam resultar em controle;

2. Como resultado da incontrolabilidade dos eventos anteriores, o orga-nismo tem dificuldade de aprender que a sua resposta pode ter um efeito sobre outros eventos;

3. Experiências repetidas com eventos incontroláveis levam a um estado emocional semelhante ao identificado em humanos, como depressão.

Essa é a teoria do desamparo, uma teoria que também leva à sugestão com relação à prevenção e à cura. Em primeiro lugar, para prevenir que um orga-nismo espere que os eventos sejam independentes de seu comportamento, devem-se proporcionar experiências em que ele possa exercitar o controle. Em particular, a experiência de controlar o trauma protege o organismo dos efei-tos causados por experiências de trauma inevitável. Seligman lembra que os cachorros na pesquisa original que não se sentiram desamparados, mesmo quando expostos ao choque inevitável, provavelmente tinham históricos de traumas controláveis anteriores à sua vinda ao laboratório. Essa hipótese foi testada, e verificou-se que os cachorros com pouca experiência em controlar qualquer coisa eram particularmente susceptíveis ao desamparo (Beck, 1991;

Pervin& John, 2004).

O que podemos perceber sobre estes relatos é que o método experimental foi o responsável por dissecar a teoria do desamparo aprendido. No entanto, como é possível perceber, principalmente quando levamos em conta os efeitos deste tipo de experimento, as respostas são alcançadas pelo método correlacio-nal, que falaremos mais a seguir. Afinal de contas, até pelo fato da Psicologia ser um conhecimento pré-paradigmático, grande parte de seus conhecimentos ainda não foram esgotados e para se concluir algo sobre um assunto, muitas

vezes torna-se necessário mesclar formas de atuação, conhecimentos e outras ferramentas existentes.

De acordo com Pervin & John (2004), os psicólogos que criticam a pesqui-sa de laboratório sugerem que, com exagerada frequência, espesqui-sa pesquipesqui-sa é ar-tificial e limitada em sua relevância para outros contextos. A sugestão aqui é que o que funciona no laboratório pode não funcionar em outros locais. Além disso, embora possam ser estabelecidas relações entre variáveis isoladas, essas relações podem não valer quando a complexidade do comportamento humano verdadeiro é considerada. Além disso, como a pesquisa de laboratório tende a envolver exposições relativamente breves a estímulos, esse tipo de pesquisa pode não captar processos importantes que ocorrem com o passar do tempo.

Essas críticas são adicionadas, é claro, à limitação potencial devido ao fato de que nem todos os fenômenos podem ser reproduzidos em laboratório.

Em contrapartida, muitas das críticas à pesquisa experimental foram com-batidas por psicólogos experimentais. Na defesa dos experimentos de labora-tório, os seguintes argumentos são usados (Berkowitz & Dornnerstein, 1982;

Pervin & John, 2004):

1. Essa pesquisa é a base adequada para testar hipóteses causais. A gene-ralidade da relação estabelecida é, então, objeto de outras investigações;

2. Alguns fenômenos jamais seriam descobertos fora do laboratório;

3. Alguns fenômenos que seriam difíceis de estudar em outros locais po-dem ser estudados em laboratório (por exemplo, os sujeitos têm os limites bas-tante severos do cenário social natural);

4. Existe pouco suporte empírico para o argumento de que os sujeitos tipi-camente tentam confirmar a hipótese do experimentador ou para a significân-cia dos artefatos experimentais de maneira mais geral. De fato, muitos sujeitos são mais negativos do que conformistas.

Em suma, mesmo com alguns argumentos contrários à sua prática e va-lidade, é inegável que o método experimental demonstrou o seu valor e que não podemos prescindir suas contribuições na construção de uma psicolo-gia científica.