CAPÍTULO II A REDE PÚBLICA DE ENSINO
II.1. b O estabelecimento do ensino público (1772)
Foi sobre este estado anémico que a Lei de 6 de Novembro de 1772 se publicou, aprovando a criação de «todas as Escolas públicas, e todos os Mestres dellas», com fi-
nanciamento garantido através do Subsídio Literário106
, conforme representação e plano da Real Mesa Censória. Que princípios a orientaram e que efeitos se produziram?
O documento legal reiterou a necessidade de corrigir as consequências de dois séculos de ensino orientado pela Companhia de Jesus, a quem toda a decadência literá- ria e moral foi imputada:
[…] os funestos Estragos, com que pelo periodo de dous Seculos se vírão as Letras arruinadas nos mesmos Reinos e Dominios, se comprehendêrão as Escolas Me- nores, em que se formão os primeiros elementos de todas as Artes, e Sciencias; achan- do-se destruidas por effeitos das maquinações, e dos abusos, com que os temerarios Mestres, que por todo aquelle dilatado periodo se arrogárão as sobreditas Escolas, e as direcções dellas, em vez de ensinarem, e promoverem o ensino dos seus Alumnos, pro- curárão distrahillos, e impossibilitar-lhes os progressos desde os seus primeiros tyroci- nios.107
No que concerne ao Reino do Algarve, bem poderia aplicar-se o texto à situação que se vivera nos últimos doze anos de reinado josefino. Não obstante, há no plano ide- ológico e institucional um conjunto de medidas régias que neste período convergiram para o ressurgimento das letras e das ciências ou, como no alvará de 11 de Janeiro de 1760 se lê, para a «restauração dos Estudos das Letras humanas», em consonância com
105 «ALGARVE. Comissário do Bispado. PELICÃO, Francisco Pereira – Processo do Concurso de Pro-
fessor de Gramática Latina para o Bispado do Algarve e retrospectiva do ensino até esse momento (23.3.1772)». In ANDRADE – A Reforma pombalina dos estudos secundários… 1981, vol. 2, p. 608- 610.
Estes resultados regionais contrariam a apreciação positiva que tem sido feita à fase inicial da re- gulação dos Estudos Menores. Em estudo dedicado à profissionalização dos professores, conclui António Nóvoa: «Le bilan de la première Réforme Pombaline de l’Enseignement est, sans aucun doute, positif. De 1759 à 1771, le Directeur des Études et ses collaborateurs réussissent à mettre sur pied un réseau de clas- ses royales qui comble le vide laissé par l’expulsion des jésuites: pendant ces douze années il est aussi possible d’organizer et de réglementer l’exercice privé de l’activité enseignante. Les enseignants royaux, le premiere groupe d’enseignants nommés par l’Etat, constituent un des appuis les plus solides de l’action des réformateurs pombalins.» In NÓVOA – Les temps des Professeurs… 1987, vol. 1, p. 163.
106 Imposto sobre vinhos e aguardentes, estabelecido pela Lei de 10 de Novembro de 1772, com especifi-
cações pelos alvarás da mesma data que regularam a forma de arrecadação do subsídio e estabeleceram a junta para a respectiva administração. Sobre a forma de financiamento do ensino, veja-se ADÃO – Estado absoluto e ensino das primeiras letras… 1997, p. 128-145.
107 Carta de Lei de 6 de Novembro de 1772. In SILVA – Collecção da legislação Portugueza… 1829, t.
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o ideário das Luzes108
. Refira-se a aprovação de cursos técnicos como a Aula de Co- mércio (19.4.1759) e a Aula Real de Náutica do Porto (1762), a fundação do Real Colé- gio dos Nobres destinado à fidalguia (7.3.1761), a regulação dos Estudos Menores (Gramática Latina, Grego, Hebraico e Retórica, 28.6.1759), a reforma da Universidade (1772), a criação do ensino primário público (6.11.1772) e a respectiva fonte de financi- amento, assim como a criação do subsídio literário (10.11.1772). Paralelamente, e em estreita articulação com as reformas educativas, relevem-se a fundação da Imprensa Régia (24.12.1768) e a aprovação da Sociedade estabelecida para a subsistência dos Teatros Públicos da Corte (17.7.1771), ambas tidas, pela letra da lei, como instituições literárias. A Régia Oficina Tipográfica, fundada com o propósito de «animar as Letras, e levantar huma Impressão util ao público pelas suas producções», veio responder à ne- cessidade de proteger a actividade impressora, de controlar a produção e os custos dos
livros autorizados, nomeadamente no campo pedagógico109
. A Sociedade estabelecida para a subsistência dos Teatros Públicos da Corte, por seu lado, é oficialmente apoiada como um estabelecimento de instrução pública, nos termos seguintes:
108 Sobre a configuração que o conceito assumiu em Portugal, veja-se o indispensável verbete da autoria
de António Coimbra Martins, intitulado «Luzes», publicado em SERRÃO, Joel (dir.) – Dicionário de História de Portugal. Porto: Figueirinhas, 1984, p. 86-106. Vol. IV.
109 O alvará de 17 de Agosto de 1759 é elucidativo quanto ao controlo sobre o mercado livreiro: «Eu El-
Rey, faço saber aos que este Alvará virem que, attendendo ao que me foi reprezentado por Dom Thomás de Almeida, do meu Conselho, Principal Primario da Santa Igreja de Lisboa e Director Geral dos Estudos destes Reinos e seus Dominios, e ao muito que importa animar os mesmos estudos, pela applicação de todos os meyos que podem conduzir para os promover; e tendo mandado imprimir em beneficio delles e das suas necessarias despezas, todos os livros clasicos e diccionarios que forão enunciados nas Instrucções que mandei promulgar, em 28 de Junho deste prezente anno, para os Professores de Gramati- ca Latina, Grega, Hebraica e de Rhetorica, sou servido conceder à sobredita Direcção Geral, privilegio excluzivo da impressão de todos os ditos livros e dos mais que houver por bem mandar estampar, para o uso das clases das referidas lingoas, e arte de Rhetorica, para que, emquanto eu não mandar o contrario, nenhuma pessoa, de qualquer estado, qualidade e condição que seja, possa imprimir, fazer entrar de fora do Reino, ou vender, algum ou alguns dos sobreditos livros, debaixo das penas: pela primeira, do perdimento dos exemplares que lhe forem achados, com o dobro do valor a que se cos- tumarem vender os permitidos; e do tresdobro, pela segunda vez, crecendo esta pena nos mais lapsos, à mesma proporção. Para que se não possão equivocar os livros de contrabando, com os que forem impres- sos a beneficio dos referidos Estudos, sou servido, outrosim, que o Director Geral, assim nesta Corte como nas mais cidades do Reino, nomee Comissarios, que asignem de letra de mão o seu nome, na primeira folha e que se acharem estampados os titulos de cada hum dos sobreditos livros; e que, todos aquelles que forem achados sem os referidos signaes, sejão havidos por contrabando e as pesoas em cuja mão se acharem, logo prezas, até declararem a quem os comprarão, para se lhe imporem as penas acima estabelecidas. Determino que os donos das logens nas quaes se acharem alguns dos referidos livros, ao tempo da publicação deste, sejão obrigados a declarar os exemplares, que tiverem, aos Comissarios, que o mesmo Director Geral nomear, para tomarem razão delles, debaixo das referidas penas. Para o consumo delles lhes concedo o tempo de quatro mezes, depois dos quaes, lhes premito que possão reesportar aquelles exemplares que declararem existentes; bem visto, que não os declarando, e embarcando depois de ser findo o referido termo, aquelles que lhes forem achados serão tambem havidos por contrabando, para terem lugar as penas acima declaradas. Desta geral prohibi- ção esceptuo as duas Gramaticas a que, pelo meu Alvará de vinte de Junho proximo precedente, tenho concedido privilegio excluzivo, emquanto eu não for servido ordenar o contrario. […]». Subls. meus. In ANDRADE – A Reforma pombalina dos estudos secundários (1759-1771)..., 1981, vol. 2, p. 109.
38 Escola, onde os Póvos aprendem as maximas sãs da Politica, da Moral, do Amor da Patria, do Valor, do Zelo, e da Fidelidade, com que devem servir aos seus so- beranos: civilizando-se, e desterrando insensivelmente alguns restos de barbaridade, que nelles deixárão os seculos infelices da ignorancia.110.
A oficialização da prática da leitura e da escrita foi, assim, acompanhada pelo apoio concedido a outras instituições e canais de transmissão, que produziram um efeito
social amplificador111
.
Todavia, a racionalidade do plano que criou as escolas de Ler, escrever e contar para «beneficio della ao maior número de Póvos, e de Habitantes delles, que a possibili- dade podesse permitir», não universalizou a escola, sendo claras as restrições que a lei impôs, a fim de conservar a ordem social. A escola revela-se aí um meio de acomoda- ção de cada membro ao lugar que lhe é destinado pelo contexto sociofamiliar de origem. Através da metáfora organicista do «Corpo Politico», o texto produziu um efeito para- doxal, revelando-se concomitantemente integrador e segregador. Ao limitar os níveis de instrução, o diploma garantiu para cada indivíduo um lugar na sociedade, de que fez depender o equilíbrio e o bem-estar de todos. Deste modo, ficaram de fora: (i) aqueles que deviam sacrificar-se em nome do «Bem Commum e Universal», mantendo-se anal- fabetos, porque a racionalidade da reforma apenas permitia criar escolas nos aglomera- dos populacionais; (ii) aqueles que, pela distribuição hierárquica apresentada, «os em- pregados nos serviços rusticos, e nas Artes Fabris, que ministrão o sustento aos Póvos, e constituem os braços, e mãos do Corpo Politico», apenas bastaria «as Instrucções dos Parocos», ou seja, uma muito rudimentar alfabetização, ou como já dissemos, uma alfa- betização auditiva e visual, suportada na oralidade. Dos restantes, por fim, acederiam conforme os «diversos destinos» e «desigualdade nas suas respectivas applicações» às aulas de Ler, escrever e contar (escolarização) e às aulas de Latim e Filosofia (letrados). A Filosofia ficava reservada ao «menor número dos outros Mancebos, que aspirão ás applicações daquellas Faculdades Academicas, que fazem figurar os Homens nos Esta- dos».
Criando as bases do sistema educativo português, o diploma reforçou a estratifi- cação da organização socioprofissional, mantendo a escola, agora régia - formalizada
110 Alvará de 17 de Julho de 1771. In SILVA – Colecção da legislação Portugueza… 1829, t. II, p. 542. 111 No reinado de D. Maria I mantém-se a protecção a instituições dedicadas ao ensino e ao desenvolvi-
mento literário e científico de que são exemplo a fundação da Academia das Ciências de Lisboa (1779) e a Real Biblioteca Pública da Corte (1796). O elo entre estas duas instituições pode ler-se em CABRAL, Maria Luísa – A Real Biblioteca e os seus criadores em Lisboa: 1755-1803. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2014, p. 78-87.
39 nos seus métodos, matérias, inspecção, financiamento e acesso – como um equipamento cultural para uma minoria urbana. Assim não se frustrassem os planos.
No cômputo geral das 817 cadeiras criadas em Portugal, Ilhas e domínios Ultra- marinos pela Lei de 6 de Novembro de 1772, coube ao Algarve a aprovação de 10 ca- deiras de Ler, Escrever e Contar, distribuídas por Alvor (1), Castro Marim (2), Faro (1), Lagos (1), Loulé (1), Silves (1), Tavira (2) e Vila Nova de Portimão (1). Quanto aos Estudos Menores, foram instituídas 4 cadeiras de Gramática Latina em Faro (1), Lagos (1), Tavira (1), Vila Nova de Portimão (1); 2 de Grego em Faro e Lagos; 2 de Retórica
nas mesmas cidades e 1 de Filosofia em Faro112
.
Esta atribuição não foi aleatória. O estudo estatístico desenvolvido por «Coro- grafos peritos» garantiu a racionalidade, a proporcionalidade e a utilidade pública da medida, denotando o conhecimento objectivo do território. Tratou-se de uma acção cul-
tural integradora, pensada a partir da ordem do território113
.
Ainda que informada, a medida não foi plenamente satisfatória e a ela reagiram as forças locais, municípios e particulares, requerendo o aumento do número de cadei- ras. A adequação entre as necessidades locais e o poder central foi realizada de forma célere, daí resultando, no ano imediato, o alvará de 11 de Novembro, que criou 88 novas cadeiras: 38 cadeiras de Gramática Latina, 2 de Retórica, 1 de Filosofia e 47 de Ler,
112 O «Mappa dos Professores, e Mestres das Escolas Menores; e das Terras, em que se Acham Estabele-
cidas as suas Aulas, e Escolas neste Reino de Portugal, e seus Dominios», não se encontra na colecção de legislação de António Delgado da Silva, que aqui se utiliza. Consultámos MACHADO, J. T. Montalvão – «Mappa dos professores, e mestres das escolas menores; e das terras em que se acham establecidas as suas aulas, e escolas neste Reino de Portugal, e seus Dominios [extratexto]». In No II Centenário da Ins- trução Primária: 1772-1972. Lisboa: Ministério da Educação Nacional, 1972.
113 O texto preambular do diploma explicita a metodologia que serviu de base ao estudo para a criação das
cadeiras de ensino público, isto é a cartografia, estatística e pareceres institucionais: «Sendo sobre a con- sideração de tudo o referido formado debaixo das Minhas Reaes Ordens pelos Corografos peritos, que para este effeito nomeei, hum Plano, e Cálculo Geral, e Particular de todas, e cada huma das Comar- cas dos Meus Reinos, e do número dos Habitantes dellas, que por hum regular, e prudente arbitrio podem gozar do beneficio das Escolas Menores com os sobreditos respeitos: E sendo pelo sobredito Plano regulados; o número dos Mestres necessarios em cada huma das Artes pertencentes às Escolas Menores; a distribuição delles em cada huma das Comarcas, e das Cidades, e Villas dellas, que podem constituir huns Centros, nos quaes os Meninos, e Estudantes das Povoações circumvizinhas possão ir com facilidade instruir-se: […]. Porque depois de ouvir ainda sobre todas as referidas Considerações, e Combina- ções, além do referido Tribunal da Real Meza Censoria, outro grande número de Ministros do Meu Conselho, e do de Estado; muito doutos, e muito zelosos do serviço de Deos, e Meu, e da utilidade pública dos Meus Vassalos; foi por todos assentado de uniforme acordo: Que nem a necessidade da Minha Real Providencia podia ser mais instante; nem o número, e qualidade dos Mestres encarregados das Escolas Menores; nem a distribuição delles pelas Cidades, e Villas principaes, que devem constituir os Centros proporcionados para os Meninos, e Estudantes das Povoações circumvizinhas hirem com faci- lidade buscar as suas instrucções; podião ser outros, que não fossem os que se contém na sobredita Con- sulta, e Mappa, que com ella subio.» Subls. meus. Lei de 7 de Novembro de 1772. In SILVA – Collecção de Legislação Portugueza… 1829, t. II, p. 613-4.
40 escrever e contar. Destas, couberam ao Algarve três cadeiras de Primeiras Letras em Albufeira, Aljezur e Monchique e mais 1 cadeira de Retórica em Vila Nova de Porti- mão. O panorama escolar resultante dos diplomas de 1772 e 1773 sistematiza-se no Quadro II.3 Cadeiras atribuídas ao Algarve em 1772 e 1773 e Figura II.5 Distribuição geográfica oficial da rede escolar no Algarve em 1773.
É evidente que o plano pombalino obedeceu a critérios de centralidade urbana e populacional (v. Quadro II.4 Relação do número de cadeiras por número de fogos em 1772), mas também à lógica político-administrativa e militar, que, no caso algarvio, distinguiu Castro Marim (antiga, importante e estratégica praça militar), Tavira (resi- dência oficial do Governador e Capitão-General), Lagos (cabeça de comarca) e Vila
Nova de Portimão114
, o que explica a atribuição de três cadeiras a Vila Nova (e mais uma em Alvor), quando esta apenas possuía 1101 fogos. O Alvará de 11 de Novembro de 1773, mais próximo das sensibilidades locais, estendeu a rede de instrução pública até zonas rurais, como Monchique e Aljezur.
Desta atribuição não pode deduzir-se o imediato funcionamento das cadeiras. Seguiu-se a abertura de concursos para colocação dos respectivos mestres e professo- res115
, o que constituiu, nas palavras de Bento José de Sousa Farinha um dos primeiros desafios à rede de ensino público: «Acudiram de todo o Reino e Conquistas muitos pre- tendentes a estes exames e acharam-se bons e maus; e bons e maus foram providos, e
espalhados por todas as Cidades, Vilas, e Aldeias do Reino»116
. Rogério Fernandes sub- linhou que, entre 1772 e 1773, a nível nacional, apenas 33% das cadeiras criadas esta-
114 O favorecimento de Vila Nova de Portimão remete-nos para o plano pombalino, que consistiu na divi-
são do bispado do Algarve em dois, passando a dispor de duas capitais, uma em Faro e outra em Porti- mão. Apesar de o projecto não se ter concretizado, o bispo do Algarve, Frei Lourenço de Santa Maria, renunciou ao cargo em ruptura com a Coroa. A este respeito, v. VIDIGAL – Câmara, Nobreza e Povo… 1993, p. 90-98.
115 Distingue-se mestres de professores, respeitando a terminologia da época. A categoria «mestre régio»
designava os que ensinavam a ler, escrever e contar e a de professor todos os que leccionavam as restan- tes disciplinas. Ambas as designações corresponderam a um esforço de dignificação da profissão, até aí vista como mecânica, como explica D. António da Costa – Historia da instrucção popular em Portugal desde a fundação da monarchia até aos nossos dias. Lisboa: Imprensa Nacional, 1871, p. 144. Pelo alva- rá de 28.6.1759 foi concedido o privilégio de nobreza a estes profissionais: «Todos os ditos Professores gozarão dos Privilegios de Nobres, incorporados em Direito commum, e especialmente no Código, Titulo De Professoribus, et Medicis.». In SILVA – Collecção da legislação Portugueza… 1830, p. 677. T. I e o decreto de 14.7.1775 reiterou: o «Professor Régio goza dos privilegios, que por Direito pertencem aos Professores publicos, entre os quaes se comprehende o da Nobreza.» In SILVA – Collecção da legislação Portugueza… 1828, p. 50. T. III.
116 FARINHA, Bento José de Sousa – «Prantos da Mocidade Portuguesa». Revista de Educação e Ensino
Publicação Mensal Illustrada. Alexandre José Sarsfield, dir. Leça da Palmeira: Bibliotheca de Obras Uteis e Illustradas, 1893, p. 25.
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vam preenchidas117
, sendo a taxa de provimentos na região do Algarve de apenas 15%,
ou seja, somente 2 escolas118
. António Nóvoa, por outro lado, tendo localizado no Ar- quivo Nacional Torre do Tombo os 61 volumes do «Assentamento dos Professores das Instruções Primária e Secundária feito por Comarcas e Provedorias», relativos ao perío- do compreendido entre 1772 e 1794, e confrontando-os com os «Livros de Assentamen- to dos Ordenados […] pagos pelo Cofre do Subsídio Literário, 1773-1794», provou que o ensino público continuou a expandir-se no reinado mariano, rectificando a tradição historiográfica que atribuía a D. Maria I uma ruptura na esfera das reformas pedagógi- cas encetadas durante a administração pombalina (v. Quadro II.5: Número de mestres
de Ler, escrever e contar em exercício entre 1772 e 1794 a nível nacional)119.
A resolução régia de 16 de Agosto de 1779 com a «Lista das terras, conventos, e pessoas destinadas para Professores de Philosophia Racional, Rhetorica, Lingua Grega, Grammatica Latina, Desenho, Mestres de Ler, Escrever, e Contar como tambem dos
aposentados nas suas respectivas cadeiras»120
foi a determinação de maior efeito no pa- trocínio real às escolas públicas, ainda que deixasse por preencher 105 cadeiras (10,27%). Segundo o mesmo documento, as 26 cadeiras régias existentes no Algarve estavam providas. Para este efeito, recorreu a rainha D. Maria I às ordens regulares es- palhadas por todo o território português, como demonstra o Quadro II.6: Distribuição de aulas públicas por entidades, segundo resolução régia de 16.8.1779.
A atribuição não evidencia qualquer opção privilegiada no que toca às comuni- dades regulares. O que sobressai é a ampla diversidade de instituições dispersas pelo
território que agiram no domínio educativo no último quartel de Setecentos121
. No Al-
117 FERNANDES – Os Caminhos do ABC…, 1994, p. 76. 118 Id., p. 608.
119 O autor considera que o que distinguiu a acção desenvolvida nos reinados em apreço foi uma diferente
concepção doutrinária sobre as finalidades da educação pública, determinando diferentes estratégias de acção: «les réformateurs pombalins soulignent l’aspect technique, c’est-à-dire l’acquisition d’un certain nombre d’instruments culturels (autrement dit, l’apprentissage d’une série de savoirs et de savoir-faire); l’entourage de Maria Ire renforce l’aspect moral, c’est-à-dire la transmission des normes religieuses et des
règles de conduite en vigueur.», p. 229.
120 In Portugal. Collecçaõ das leys, decretos, e alvarás, que comprehende o feliz reinado delrey fidelisimo
D. José o I. Nosso Senhor. [em linha] (Jan.1750-Dez.1815), t. 5, Abr. 1777-Dez. 1788, fls. 92-99. Dispo- nível em: http://zip.net/blr4V0.
121 A saber: Província Reformada da Piedade, Ordem de Cristo, Eremitas de São Paulo, Trinos Descalços,
Monges de S. Bernardo, Monges de S. Bento, Província da Ordem Terceira dos Regulares de S. Francis- co, Província da Arrábida, Observantes da Província dos Algarves, Agostinhos Descalços, Província Reformada de Santo António, Província dos Carmelitas Calçados, Cónegos Seculares de S. João Evange- lista, Província dos Eremitas de Sto. Agostinho, Monges de S. Jerónimo, Província dos Observantes de Portugal, Província dos Carmelitas Descalços, Província Reformada da Conceição, Província Reformada da Selodade e Congregação do Oratório de S. Felipe de Neri. V. FERNANDES – Os Caminhos do ABC…, 1994, p. 608-612.
42 garve, a importância pedagógica dos regulares é maior do que na média nacional, estan- do responsáveis por 10 das 24 cadeiras em funcionamento (42%), como demontra o Quadro II.7 Cadeiras e respectivos Professores destinados ao Algarve. Em consequên- cia, não será avisado reflectir sobre a formação literária sem levarmos em conta a cola- boração destas instituições religiosas, que, até 1834, apoiaram a sustentação da rede pública de ensino.
Entre 1773 e 1779, a rede pública de instrução no Algarve não sofreu substanci- ais alterações, considerando o número total de cadeiras, pois existiam 22 em 1773 e 24 em 1779. Verificam-se, sim, alterações, mas no domínio da qualidade das cadeiras, identificando-se uma diminuição no grupo das que constituíam os estudos secundários,