CAPÍTULO 1. A CONCEPÇÃO DE HOMEM EM B F SKINNER: UM
1.1. B REVE CONTEXTO HISTÓRICO DO BEHAVIORISMO
A psicologia acadêmica predominante até o final do século XIX e o início do século XX foi a psicologia Introspectiva, que teve como seus principais representantes Wundt e Titchener. Nessa tradição de pensamento, alguns métodos e instrumentos da Fisiologia foram adaptados para tratar de alguns dos problemas tradicionais da Filosofia, tais como a origem do conhecimento humano, a gênese e composição das sensações e percepções sobre o mundo (Carvalho Neto, 2002).
Em 1913, J. B. Watson (1913/1965) publica “Psychology As The Behaviorist
Views It” e anuncia o rompimento com a forma de fazer Psicologia que fora
estabelecida até então; o artigo ficou conhecido como um “manifesto behaviorista”. Segundo Marx e Hillix (1963), Watson foi o fundador do Behaviorismo com dois interesses principais: um positivo e um negativo. Em seu aspecto positivo, propôs uma psicologia completamente objetiva. Desejava aplicar as técnicas e os princípios da psicologia animal aos seres humanos. O seu principal ponto positivo foi a insistência na primazia do comportamento como fonte dos dados psicológicos. A ênfase negativa de Watson caracterizou-se como sua posição contra os conceitos mentalistas em psicologia e a psicologia introspeccionista. Entretanto, mesmo não defendendo o predomínio dos problemas metafísicos na Psicologia, esse autor assumiu uma posição metafísica
definida ao negar a existência da mente, pelo menos por implicação de seus argumentos. Entretanto, segundo Morris e Todd (1999), Watson nunca argumentou, de forma positiva, sobre a inexistência da consciência como uma entidade. Ele simplesmente rejeitou, em vez de explicar tais fenômenos, concentrando seus argumentos sobre as dificuldades metodológicas da introspecção.
Vejamos uma passagem do que foi conhecido como o manifesto behaviorista:
“Psychology as the behaviorist views it is a purely objective experimental branch of natural science. Its theoretical goal is the prediction and control of behavior. Introspection forms no essential part of its methods, nor is the scientific value of its data dependent upon the readiness with which they lend themselves to interpretation in terms of consciousness. The behaviorist, in his effort to get a unitary scheme of animal response, recognizes no diving line between man and brute. The behavior of man, with all of its refinement and complexity, forms only a part of the behaviorist’s total scheme of investigation” (Watson, 1913/1965, p. 158).4
Alguns dos principais postulados de Watson foram: a) o comportamento seria um composto de elementos de resposta, podendo ser analisado por métodos científicos, naturais e objetivos; b) o comportamento compõe-se de secreções glandulares e
4 “A psicologia, tal como o behaviorista a vê, é um ramo puramente objetivo e experimental da
ciência natural. A sua finalidade teórica é a precisão e o controle do comportamento. A introspecção não constitui uma parte essencial dos seus métodos e o valor científico dos seus dados não depende do fato de se prestarem a uma fácil interpretação em termos de consciência. Em seus esforços para obter um esquema unitário da resposta animal, o behaviorista não reconhece a existência de qualquer linha divisória entre o homem e o bruto. O comportamento do homem, com todo o seu refinamento e complexidade, forma apenas uma parte do esquema total de investigação do behaviorista” (Watson, 1913/1965, p. 158).
movimentos musculares; assim era visto como redutível a processos físico-químicos; c) o comportamento é rigorosamente determinado por uma relação de causa e efeito e d) os processos conscientes não podem ser cientificamente estudados e representam tendências de uma fase pré-científica da psicologia. Assim, para o Behaviorismo de Watson, as relações estímulo-resposta constituíam a unidade base de descrição, reconhecendo no condicionamento clássico de Pavlov a base de toda a aprendizagem. Desse modo, os hábitos considerados mais complexos podiam ser compreendidos como combinações e cadeias de reflexos mais simples.
Portanto, Watson substitui o objeto de estudo da psicologia da época, que era a consciência, pelo comportamento dos organismos; abandonou a introspecção como método e adotou a experimentação de processos diretamente observáveis no comportamento dos organismos; realizou os contornos de uma psicologia útil voltada à previsão e controle do comportamento; voltou-se para um rigoroso monismo físico, no qual o “mental” era visto como uma descrição do modo como os eventos físicos funcionavam e a consciência não teria uma existência independente ou particular (Carvalho Neto, 2002; Marx & Hillix, 1963).
Segundo Marx e Hillix (1963), embora os primeiros trabalhos de Watson se relacionassem com problemas animais, o melhor exemplo de seu programa behaviorista experimental era a pesquisa que realizou sobre condicionamento e recondicionamento das reações emocionais em crianças pequenas. Segundo Carvalho Neto (2002), a chamada escola Behaviorista posterior a Watson ficou conhecida como a escola “neobehaviorista” e teve como principais representantes autores como Clark Hull, Tolman, Lashley, Spencer, Guthrie, Boring e Stevens.
O Behaviorismo Mediacional, posterior ao Behaviorismo de Watson, teve como seus principais representantes Edward C. Tolman (1886-1959) e Clark Hull
(1884-1952). Tais autores postularam a intencionalidade do comportamento e tiveram como principal paradigma o “S-O-R”. Nesse caso, o comportamento era visto como resultado de uma intenção do organismo diante de um estímulo, em conjunto com outros processos internos. A psicologia deveria então estudar os processos internos, as variáveis intervenientes, na determinação do comportamento dos organismos.
A publicação do livro Principles of Behavior em 1943 por Clark L. Hull marcou o surgimento de um novo tipo de Behaviorismo. Hull tentou estabelecer a estrutura de uma teoria abrangente de todo o comportamento mamífero; delineou um conjunto de postulados e corolários, logicamente interligados ao estílo hipotético- dedutivo, o qual considerou um modelo de teorização científica. O principal suporte do sistema de Hull foi também o reflexo de Pavlov. Entretanto, diferente de Watson, Hull não negou a existência dos fenômenos mentais: defendia que os fenômenos mentais necessitavam de explicação e acreditava que um relato tão completo quanto possível da ação poderia algum dia vir a explicar a consciência (Marx & Hillix, 1963).
Em seu programa behaviorista, tentou utilizar conceitos que pudessem ser redutíveis a termos físicos; assim deu definições fisicalistas de estímulo e reposta. Interessou-se intensamente pelas variáveis intervenientes e por alguns problemas metodológicos que não foram considerados por Watson. A teoria de Hull ocupou-se essencialmente de três tipos de variáveis: o estímulo (input), a variável interveniente (intraorganística) e a resposta (output). As variáveis de entrada são, por exemplo, o número de ensaios reforçados, a privação, a intensidade do estímulo condicionado e a quantidade de recompensa. Tais variáveis estariam associadas aos processos resultantes que funcionariam dentro do organismo, consideradas variáveis intervenientes de primeira ordem tais como força do hábito como uma função do número dos ensaios, impulso como função de condições como as de privação, dinamismo da intensidade do
estímulo, como uma função da intensidade do estímulo e o reforço de incentivo, como uma função da quantidade da recompensa (Marx & Hillix, 1963). As variáveis intervenientes, ao serem consideradas como organísmicas, implicavam certo compromisso fisiológico.
O modelo de Tolman também apresentava um paradigma “S-O-R” (estímulo- organismo-resposta) em que, entre o estímulo e a resposta, o organismo passaria por eventos mediacionais. Baseado nesses princípios, ele apresentou uma teoria do processo de aprendizagem sustentada pelo conceito de mapas cognitivos. Esse autor aceitava os processos mentais sem atribuir uma explicação causal mentalista e acreditava no caráter intencional do comportamento para atingir algum objetivo do organismo. Segundo Abib (1997), o ato comportamental proposto por Tolman apresentava três características gerais: 1) o comportamento seria dirigido para objetivos e metas ambientais; 2) o organismo envolvia-se com atividades e objetos de seu ambiente que seriam necessários para atingir seus objetivos e metas e 3) havia uma tendência nos organismos para selecionar meios, atividades e objetos do ambiente que fossem mais fáceis e rápidos para alcançar objetivos e metas ambientais.
Baseando-se nessas características do ato comportamental, Tolman definiu os conceitos de propósito e cognição. Assim, se os organismos comportavam-se para atingir metas, então o comportamento seria proposital, e se eles escolhiam os meios mais fáceis para esse objetivo, então apresentavam relações entre meios e fins. Portanto, o comportamento era proposital e cognitivo. Segundo Abib (1997), o conceito de propósito em Tolman é definido como a prontidão do organismo para persistir na busca de uma solução para seus problemas. O conceito de cognição refere-se às modificações do comportamento em função das alterações das condições em relação ao sucesso ou insucesso para atingir a meta. Defendeu que propósito e intenção eram propriedades do
comportamento, assim, assumia os conceitos mentais sem dar margens a suposições mentalistas. Segundo Abib (1997), Tolman se valeu do fisicalismo metodológico com o objetivo de construir uma teoria do comportamento que incluísse termos mentais, definidos objetivamente.
Nesse contexto, surge na década de 30 do século XX o Behaviorismo Radical através dos textos publicados por Skinner. Segundo Carvalho Neto (2002), foi em 1945 que Skinner denominou seu “behaviorismo” de Behaviorismo Radical, para diferenciar- se das outras versões do Behaviorismo, como a versão Watsoniana. Desse modo, surge o Behaviorismo Radical com seus pressupostos filosóficos que embasariam a Ciência do Comportamento de Skinner. Nessa nova ciência, o comportamento deveria ser o objeto de estudo da psicologia. Entretanto, ao contrário de Watson, Skinner enfatizou que os eventos privados do organismo não deveriam ser negligenciados pela Ciência do Comportamento, todavia não deveriam ser entendidos como causas do comportamento.
Os primeiros trabalhos de Skinner objetivaram uma investigação de caráter histórico e conceitual sobre a noção de reflexo, o desenvolvimento de novos recursos metodológicos e técnicos e uma extensa linha de pesquisa experimental em laboratório (Skinner, 1938/1966). Esses estudos e outros que ocorreram posteriores a 1935 proporcionaram a base empírica para a Ciência do Comportamento de Skinner. Como veremos no decorrer desta tese, os temas investigados pelo autor são diversos; vão desde os estudos experimentais em laboratórios com animais até às suas indagações sobre os problemas humanos mais amplos como a sobrevivência da humanidade. Skinner é um pensador que gera questionamentos atuais e frutíferas investigações conceituais, experimentais e aplicadas.
Esta tese busca realizar uma investigação conceitual em que o modelo explicativo de Skinner para a evolução do comportamento será a base para defendermos
uma concepção de Homem em sua teoria. Assim, passamos neste momento a esses aspectos do Behaviorismo de Skinner. Tomaremos como base a lógica da explicação skinneriana para a evolução do comportamento e dos processos sob os quais o comportamento evolui. É a partir dessa lógica que procuraremos defender uma concepção de Homem que primeiro deve ser um planejador de contingências que aumente a probabilidade de o comportamento produzir consequências que fortaleçam a cultura, e segundo, a partir desse planejamento, permitir ao comportamento humano a evolução do comportamento altruísta.
1.2. CARACTERÍSTICAS GERAIS NA EVOLUÇÃO DOS PROCESSOS DE VARIAÇÃO E