3. BASES DA NEGOCIAÇÃO COLETIVA NO BRASIL
3.3. b Ultratividade das normas coletivas negociadas
A Constituição Federal prevê a relatividade do conteúdo das convenções coletivas ao autorizar alterações in pejus (redução salarial e aumento de jornada e carga semanal de trabalho, art. 7º, VI, XIII, XIV) (Almeida, 1996, p. 1604).
Porém, a Emenda Constitucional 45 de 2004, ao alterar o artigo 144, parágrafo 2o.99, lança argumentos em favor da ultratividade das normas convencionadas. Pelo menos em se tratando de sentença normativa, aquelas devem ser respeitadas.
A legislação ordinária ocupou-se, em parte, dos efeitos da cessação das convenções coletivas. A Lei 7.788/89, artigo 12, parágrafo único100 determinava a redução ou supressão de vantagens salariais somente por convenções posteriores. Contudo, esse dispositivo foi revogado pelo artigo 14 da Lei 8.030/90.
Posteriormente, o artigo 1o., parágrafo único, da Lei 8.222/91 que também regulava a matéria, foi vetado pelo Presidente da República. A Lei 8.542/92, artigo 1º, §1º,101
99 Constituição Federal, Art. 114 (...) §2º. Recusando-se qualquer das partes à negociação ou à arbitragem, é facultado aos respectivos sindicatos ajuizar dissídio coletivo, podendo a Justiça do Trabalho estabelecer normas e condições, respeitadas as disposições convencionais e legais mínimas de proteção ao trabalho.
(grifo nosso).
100 Lei 7.788/89, art. 12, parágrafo único. As vantagens salariais asseguradas aos trabalhadores nas convenções coletivas só poderão ser reduzidas ou suprimidas por convenções ou acordos posteriores. (grifo nosso)
101 Lei 8.542/92, Art. 1 º A política nacional de salários, respeitado o princípio da irredutibilidade, tem por fundamento a livre negociação coletiva e reger-se-á pelas normas estabelecidas nesta lei.
estabeleceu ter a política nacional de salários, por fundamento, a livre negociação coletiva e determinou a integração aos contratos individuais das normas oriundas de convenções coletivas.
Contudo, referida lei teve os parágrafos 1° e 2° do artigo 1°, revogados pelo artigo 17 da Medida Provisória 1.053/95, com sucessivas reedições, sendo que a última foi a Medida Provisória nº 2.074-73 de 25/01/2001, publicada no DOU de 26/01/2001.
Após ADINs102 que discutiram a constitucionalidade de Medidas Provisórias reeditadas revogarem em parte a lei referida, resta a subsistência da revogação do parágrafo 1º da Lei nº 8.452103. Assim, não é permitida esta incorporação.
Outra visão é a baseada nos artigos 613, II e IV e o 614, parágrafo 3º da Consolidação das Leis do Trabalho104 para os quais as condições ajustadas valem para o respectivo prazo de vigência (ALMEIDA, 2002, p. 654).
Argumenta estar a temporalidade e a relatividade do conteúdo dos acordos ou convenções coletivas de trabalho claramente reconhecidas pelo Decreto nº 908/93, artigo 2º e 4º105 (este decreto fixa as diretrizes para as negociações coletivas de trabalho das empresas públicas, sociedades de economia mista e demais empresas sob controle direto ou indireto da União).
Tal fato é verificado inclusive pelo incentivo à negociação coletiva direta entre os parceiros sociais, em caso de frustração, pelo socorro à mediação, que pode ser feita através do Ministério do Trabalho e Emprego também, como prevê o artigo 11 da Medida Provisória nº 1.079/95 , já comentada.
A corrente defendida por Almeida afirma ser o artigo 468 da Consolidação das Leis do Trabalho destinado ao Direito Individual do Trabalho. Considerando a natureza jurídica
§1º As cláusulas dos acordos, convenções ou contratos coletivos de trabalho integram os contratos individuais de trabalho e somente poderão ser reduzidas ou suprimidas por posterior acordo, convenção ou contrato coletivo de trabalho.(grifo nosso)
§2º As condições de trabalho, bem como as cláusulas salariais, inclusive os aumentos reais, ganhos de produtividade do trabalho e pisos salariais proporcionais à extensão e à complexidade do trabalho, serão fixados em contrato, convenção ou acordo coletivo de trabalho, laudo arbitral ou sentença normativa, observados, dentre outros fatores, a produtividade e a lucratividade do setor ou da empresa.
102 ADI 1.849-0-DF e ADI 2.081-DF.
103 Isto porque a última medida provisória foi convertida na Lei Ordinária nº 10.192, de 14/02/2001, publicada no Diário Oficial da União de 16/02/2001.
104 Consolidação das Leis do Trabalho, Art. 613. As convenções ou acordos deverão conter obrigatoriamente:
(...)
II - prazo de vigência; (...)
IV- condições ajustadas para reger as relações individuais de trabalho durante a sua vigência;
Art. 614, parágrafo 3º. Não será possível estipular duração de convenção ou acordo superior a 2 (dois) anos.
105 Decreto nº 908/93, Art. 2º (...) todas as cláusulas do acordo coletivo vigente deverão ser objeto de negociação a cada nova data-base.
Art. 4º (...) o acordo coletivo vigorará por prazo não superior a 12 (doze) meses.
diversa da convenção coletiva e do contrato individual de trabalho, não é possível invocar o princípio legal da imodificabilidade das condições contratuais de trabalho previstos no art.
468 da Consolidação das Leis do Trabalho, pondera.
Rebate, ainda, a aplicação analógica da súmula 51 do Tribunal Superior do Trabalho106 pretendida, visto que o regulamento, ao contrário da norma coletiva, normalmente não tem prazo de validade. Por fim, a convenção coletiva não gera direito adquirido como previsto no art. 5º da Constituição Federal, vez que a norma coletiva tem vigência temporária e a Constituição Federal trata o direito adquirido em relação à lei.
O Tribunal Superior do Trabalho se orienta pela não incorporação em definitivo das normas coletivas, através da Súmula 277107, aplicada analogicamente às convenções coletivas.
Uma terceira posição admissível é no sentido de que as cláusulas da convenção coletiva não continuam em vigor após a sua extinção, mas existiria uma exceção que é a denominada de "vantagem individual adquirida". Explica o autor que, com base no direito francês, tratando-se de vantagem adquirida por força de aplicação de cláusula normativa, há a incorporação no contrato individual de trabalho (Lei Auroux de 13/11/82 ou Código de Trabalho francês).
A controvérsia gerada pela extensão desse tipo de vantagem no tempo é tão grande que necessitou de instituição por lei naquele País, exatamente por não ser da natureza da cláusula normativa agregar-se definitivamente ao contrato individual. É possível compreender que por trás dessa regra está o princípio da proteção social, visando a um conteúdo muito maior do que o próprio espaço destinado à autonomia coletiva privada.
A cláusula, referindo-se a um indivíduo assim considerado e não à coletividade, como por exemplo, as contempladoras de comissões de representação de empregados, integrar-se-iam ao contrato de trabalho daquele empregado.
Os requisitos para configuração de tal hipótese são: primeiramente, o empregado deve implementar as condições para beneficiar-se daquele benefício durante a vigência da norma coletiva; e, além disso, o benefício deve ser continuado, e não episódico, explica.
106 Tribunal Superior do Trabalho, Súmula Nº 51 NORMA REGULAMENTAR. VANTAGENS E OPÇÃO PELO NOVO REGULAMENTO. ART. 468 DA CLT. (incorporada a Orientação Jurisprudencial nº 163 da SBDI-1) - Res. 129/2005 - DJ 20.04.2005
I - As cláusulas regulamentares, que revoguem ou alterem vantagens deferidas anteriormente, só atingirão os trabalhadores admitidos após a revogação ou alteração do regulamento. (ex-Súmula nº 51 - RA 41/73, DJ 14.06.1973).
II - Havendo a coexistência de dois regulamentos da empresa, a opção do empregado por um deles tem efeito jurídico de renúncia às regras do sistema do outro. (ex-OJ nº 163 - Inserida em 26.03.1999).
107 Tribunal Superior do Trabalho, Súmula Nº 277 SENTENÇA NORMATIVA. VIGÊNCIA. REPERCUSSÃO NOS CONTRATOS DE TRABALHO. As condições de trabalho alcançadas por força de sentença normativa vigoram no prazo assinado, não integrando, de forma definitiva, os contratos.(Res. 10/1988, DJ 01.03.1988)
Exemplifica com a cláusula que garanta estabilidade no emprego a empregado acidentado no trabalho, que se torne incapaz para exercer a função anterior, mas que apresente condições de readaptação em outra função. Nesse caso, a ocorrência das condições para o implemento deu-se na vigência da norma coletiva, estabelecendo um benefício de estabilidade que não deu-se encerrará quando do fim da vigência daquela norma.
4. SUGESTÕES PARA MELHOR NEGOCIAR PARA ALCANÇAR OS PRINCÍPIOS