O Brasil é considerado atualmente o líder global no ranking de produtividade florestal. A área necessária para a produção de 1,5 milhão de toneladas de celulose por ano no país é de 140 mil hectares, um quinto da área necessária para o mesmo plantio na Escandinávia e metade da área necessária na China30. A Figura 4.13 apresenta a
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produtividade do plantio de eucalipto e Pinus de algumas economias da indústria de celulose e papel. Nesse aspecto, o Brasil não só possui a maior produtividade do plantio de eucalipto, atingindo 39 m³/ha ao ano, como também a maior produtividade do plantio de
Pinus, que foi de 31 m³/ha ao ano em 2014. Verifica-se, por exemplo, que a produtividade
florestal do país é mais do que o dobro da produtividade florestal dos Estados Unidos, tanto para o eucalipto quanto para o Pinus.
Figura 4.13. Produtividade florestal do Brasil e alguns players mundiais, em m³/ha ao ano (2014)
Fonte: Adaptado de Pöyry (2014 apud IBÁ, 2015a).
Já a Tabela 4.3 apresenta o tempo de rotação em anos das principais espécies de árvores de algumas economias. Percebe-se que uma das características que fazem o plantio de árvores ser tão produtivo no Brasil é sua alta rotação, que chega a uma média de sete anos para o eucalipto. O eucalipto, nos países ibéricos, por exemplo, demora de 12 a 15 anos para ser recolocado, enquanto as plantas de fibra curta, como a bétula, nos países nórdicos possuem uma rotação de 35 a 40 anos. O mesmo ocorre com o Pinus plantado no Brasil, que possui uma rotação de 15 anos, contra 25 anos nos Estados Unidos e de 70 a 80 anos nos países nórdicos para a plantação de Picea, espécie de fibra longa encontrada em climas temperados.
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Tabela 4.3. Rotação de espécies de celulose de fibra curta e longa no Brasil e em alguns players mundiais, em
anos (2014)
País Fibra curta Fibra longa
Espécie Rotação Espécie Rotação
Brasil Eucalipto 7 Pinus spp. 15 África do Sul Eucalipto 8-10 - - Chile Eucalipto 10-12 Pinus radiata 25 Portugal Eucalipto 12-15 - - Espanha Eucalipto 12-15 - - Suécia Bétula 35-40 Picea abies 70-80 Finlândia Bétula 35-40 Picea abies 70-80 Nova Zelândia - - Pinus radiata 25 Estados Unidos - - Pinus elliottii / taeda 25 Canadá - - Pinus de Oregon 45
Fonte: Adaptado de Pöyry (2014 apud BRACELPA, 2014).
A alta produtividade do plantio de eucalipto no Brasil não apenas se deve às suas condições edafoclimáticas favoráveis, que conferem vantagens competitivas ao país na produção dessa árvore, mas também, e principalmente, à sua acumulação de capacidades tecnológicas na área florestal da indústria brasileira de celulose e papel. A trajetória da celulose de fibra curta de eucalipto no país, já analisada em trabalho anterior31, demorou décadas para atingir um nível de liderança mundial. Em uma análise histórica dos últimos cem anos da indústria de celulose e papel no Brasil, podem-se delimitar quatro fases distintas da trajetória da fibra curta de eucalipto: pré-emergência (1940-1959), emergência (1960-1979), crescimento (1980-1999) e maturidade (2000-2010). A Figuras 4.14 apresenta a evolução da trajetória tecnológica da fibra curta no Brasil, em paralelo à da fibra longa nas fases citadas.
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Figura 4.14. Evolução da trajetória tecnológica da fibra curta no Brasil
Fonte: Figueiredo (2016, p. 6).
As evidências sugerem que a trajetória tecnológica da fibra curta era próxima à da fibra longa no país entre os anos de 1940 e 1970, quando a primeira começou a afastar-se da segunda. Enquanto a trajetória tecnológica da fibra longa centrou-se na utilização e melhoria de tecnologias convencionais estabelecidas pelos países líderes globais (países da América do Norte e da Escandinávia), a da fibra curta de eucalipto estabeleceu bases locais, com grau de novidade. A evolução dessa trajetória foi possível graças ao papel da construção e do acúmulo de capacidades tecnológicas das empresas brasileiras e do apoio de instituições e políticas públicas locais.
Durante o período de pré-industrialização (1910-1930), havia uma alta dependência na importação de matérias-primas, especificamente celulose, e de bens de capital da indústria de papel no Brasil. Isso conduziu a buscas por matérias-primas alternativas à celulose estrangeira à base de fibra longa e levou a estudos do eucalipto como uma fonte adequada para a indústria de celulose e papel no país. Esses estudos remontam à década de 1920, na tentativa de superar a fragilidade da fibra curta diante da pressão trazida pelas máquinas de papel, que já estavam presentes em algumas empresas de forma experimental. No entanto,
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foi só a partir do fim da década de 1940 e início de 1950 (fase de pré-emergência) que a indústria de celulose e papel interessou-se pelo uso do eucalipto de forma econômica.
Nas décadas de 1960 e 1970 (fase de emergência), algumas empresas brasileiras engajaram-se em vários tipos de experimento e seleção de espécies de eucalipto, na aquisição e absorção de conhecimentos relacionados ao eucalipto proveniente de outros países e em pequenas melhorias e modificações nos equipamentos de processo produzidos localmente. Esses engajamentos foram incentivados por vários instrumentos de políticas públicas, como, por exemplo, a Lei Florestal, de 1966, que forneceu incentivos fiscais para empresas que desenvolvessem florestas próprias de eucalipto.
Nesse período, também foram criados o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em 1967, e planos governamentais, como o Programa Nacional de Papel e Celulose (1975-1979), que tinham o objetivo de promover a autossuficiência de papel e celulose no Brasil e a entrada no mercado internacional para exportação. Esse período foi marcado, ainda, pelo arranjo de parcerias de pesquisa entre empresas e universidades, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF), e pela criação de várias universidades e cursos voltados para a produção florestal, o que começou a promover recursos humanos mais especializados para a indústria florestal brasileira.
Já as décadas de 1980 e 1990 foram caracterizadas como o período de crescimento da trajetória da fibra curta à base de eucalipto no Brasil. Essa fase foi marcada por três características principais: reorganização e evolução do arranjo das instituições locais, engajamento no mercado mundial e acumulação de capacidades tecnológicas em nível de liderança mundial. A reorganização institucional foi marcada pelo envolvimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do IPEF em pesquisas moleculares e genômicas do eucalipto. O engajamento no mercado mundial foi marcado por políticas públicas, como o segundo Programa Nacional de Papel e Celulose, lançado em 1987, que tinha como um de seus objetivos o aumento das exportações de celulose e papel. Já a acumulação de capacidades tecnológicas em nível de liderança mundial das empresas brasileiras de celulose e papel evidenciou que, mesmo em um período de liberalização econômica, o setor conseguiu ser competitivo o suficiente para não depender mais de políticas verticais protecionistas.
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Por fim, o período de maturidade da trajetória tecnológica da fibra curta no Brasil pós- 2000 foi marcado pela consolidação da capacidade inovadora em nível mundial de algumas empresas líderes. Essas empresas continuaram desenvolvendo novas tecnologias mediante esforços em atividades inovadoras, em parceria ou não. Incentivos governamentais também marcaram esse período, como, por exemplo, a Lei de Inovação (2004) e a Lei do Bem (2005), que forneceram financiamento e incentivos fiscais para inovação.
O fato de algumas empresas brasileiras situarem-se em nível de liderança mundial de capacidade tecnológica em suas áreas florestais não significa, no entanto, que todas as empresas do Brasil encontram-se na mesma situação. Apesar de concentrado, o setor brasileiro de celulose é heterogêneo no que diz respeito à capacidade tecnológica de cada empresa. A área industrial dessas empresas também se encontra em níveis distintos e não tão avançados quanto na área florestal em termos de capacidade tecnológica, principalmente ao considerar empresas que só produzem papel. As diferenças das firmas de celulose e papel no Brasil no que diz respeito aos seus níveis de capacidade tecnológica entre os anos de 2003 e 2014 serão analisadas na próxima seção.
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5 Resultados da Pesquisa
As diferenças entre as empresas de celulose e papel no Brasil no que diz respeito à sua acumulação de capacidades tecnológicas entre 2003 e 2014 são o foco de análise desta seção, que obedece ao desenho de pesquisa apresentado na seção 0. Dessa maneira, busca-se delimitar níveis e padrões de acumulação de capacidades tecnológicas, a influência dos mecanismos de aprendizagem que geram esses padrões e os impactos da capacidade tecnológica no desempenho competitivo da indústria de celulose e papel no Brasil no período mais recente. Essas análises objetivam, na medida do possível, identificar e quantificar essas relações por padrões de acumulação de capacidades tecnológicas e por área tecnológica (florestal e industrial).
Esta seção está organizada em três subseções. Na subseção 5.1, apresentam-se uma descrição e uma análise dos níveis e padrões de acumulação de capacidades tecnológicas encontrados para a indústria de celulose e papel no Brasil entre 2003 e 2014. Na subseção 5.2, analisa-se a influência dos mecanismos de aprendizagem na acumulação de capacidades tecnológicas. Por fim, na subseção 5.3, analisam-se os impactos da acumulação de capacidades tecnológicas no desempenho competitivo. Essas três subseções ressaltam evidências quantitativas e qualitativas das empresas pesquisadas ao longo do período estabelecido, bem como suas diferenças e semelhanças.