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O estudo do conhecimento frenológico é desenvolvido através da caracterização da estrutura da sociedade de Edimburgo no início do século XIX, bem como da função das idéias naquele contexto. Shapin principia a tipificação da estrutura social em uma dimensão ampla para identificar o processo de diferenciação social experimentado pela sociedade de Edimburgo naquele período. Ele destaca momentos nesse processo de diferenciação.

Antes do Tratado da União (1707), Edimburgo era a capital de uma nação quase independente. O Tratado tornou o status político da cidade ambíguo, mas aquela continuou a ser um grande centro administrativo regional da Grã-Bretanha. Durante o século XVIII a cidade manteve toda infra-estrutura antiga que fazia de Edimburgo a mais notável e atrativa das cidades provinciais: universidade, juízos autônomos, o centro administrativo da igreja presbiteriana, bibliotecas, escolas de medicina, etc. Porque a cidade não era industrializada, a divisão social não era conhecida no sentido típico das sociedades industriais. A capacidade para a cidade resolver, harmoniosamente, os conflitos sobre interesses diversos era destacada. A pequena aristocracia e a nobreza, juntamente com os advogados, dominavam a sua cena cultural.

No início do século XIX, começam a ganhar destaque o crescimento do caráter mercantil e a perda de identidade cultural da cidade. As classes mercantis, antes “tão subservientes para serem temidas”, iniciam um processo de reivindicação de participação na vida política e cultural da cidade. As classes médias mercantis começam a questionar os privilégios da aristocracia e da elite profissional de Edimburgo, a disputar seus valores, maneiras e domínio cultural. “Em 1817, as classes médias emergentes tinham seu próprio jornal – The Scotsman –, órgão de divulgação social, cultural e política que criticava os Tories, a universidade, a igreja estabelecida e o que essas classes viam como obscurantismo intelectual”.226 Por outro lado, entre os trabalhadores da Old Town ocorriam crimes violentos, revoltas e insolência. Esse período caracteriza-se, portanto, como um momento em que as classes sociais tornam-se conscientes de suas diferentes identidades e de seus interesses irreconciliáveis.

Mas, se esse cenário amplo, no qual desponta a configuração da divisão social em Edimburgo na época em estudo, é o background do conflito analisado, isso não significa que esse conflito tenha sido presente em todas as dimensões da sociedade. Por um lado, é destacado o fato de que as próprias classes se posicionaram diferentemente face à nova realidade social. Segundo Shapin, embora os fatos caracterizadores da sociedade de Edimburgo como marcada por diferentes experiências, valores e interesses fossem evidentes, nem todos que viviam naquele momento “viam” o processo de diferenciação. Nem todas as pessoas vivendo em uma mesma sociedade acreditam nas mesmas coisas. No

caso de Edimburgo, os “fatos” característicos da nova realidade social diferenciada foram recebidos de forma diversa pelos principais grupos ou classes sociais.

As classes ou grupos tradicionais – nobreza, profissionais, etc. –, movidos por valores como os representados pela noção de solidariedade escocesa e cujo interesse era o de uma sociedade harmônica e orgânica, não se sentiram inclinados a aceitar esses fatos ou a elaborar um tipo de conhecimento de acordo com eles. Já as classes mercantis sentiram mais fortemente os fatos da divisão e do conflito social ao perceberem que a noção de solidariedade contribuiu para sua opressão. “Neste caso, tais setores da sociedade podem

elaborar ou aderir a um tipo de conhecimento que enfatiza as diferenças reais entre os

homens”.227

Shapin identifica a posição social, tanto dos frenologistas quanto dos anti- frenologistas, com diferentes segmentos da sociedade de Edimburgo na época. Grosso modo, a frenologia estava ligada às classes mercantis e de trabalhadores, enquanto a filosofia moral, doutrina cujos expoentes rejeitavam a frenologia, estava ligada à elite da sociedade. Ele destaca o enorme apoio e a adesão que a frenologia recebeu de mercantes e trabalhadores, os quais viam naquela um instrumento de luta contra os valores institucionais. A elite, por sua vez, via na frenologia uma séria ameaça. Enquanto a frenologia era excluída das escolas das classes ricas, como a School of Arts, de Edimburgo, nas escolas populares a “frenologia tinha uma honrada posição”.

Essas diferenças entre os partidários da frenologia e os filósofos morais eram percebidas na composição das instituições estabelecidas de Edimburgo. Shapin compara os membros da Phrenological Society (fundada em 1820) com os da principal instituição da elite, a Royal Society of Edinburgh, para mostrar que somente entre os comerciantes, artesãos, artistas, engenheiros e advogados a primeira detinha maioria, em 1826. Neste ano, nenhum professor, seja da Universidade de Edimburgo ou de outras instituições, pertencia a seus quadros. Além disso, nobres, aristocratas, médicos, militares e outros pertenciam, esmagadoramente, à Royal Society. Depois, Shapin especifica os grupos sociais que se tornaram os participantes ativos na controvérsia. Numa formulação que ele próprio considera mais genérica, Shapin diz que julga apropriado e valioso identificar a comunidade frenológica de Edimburgo como um grupo social e culturalmente outsider, ao

passo que seus maiores oponentes constituíam um grupo insider.228 Ou seja, os proponentes e elaboradores da frenologia constituíam um grupo completamente distinto da elite literária de Edimburgo, ao passo que seus oponentes eram completamente integrados a essa elite.

Contudo, em uma formulação mais específica, Shapin destaca que o conflito “entre frenologistas e os filósofos morais pode, em larga medida, ser tratado como um conflito entre professores universitários e aqueles expostos ao ensino universitário, por um lado, e aqueles não associados com a universidade, por outro”.229 Já mencionamos o destaque dado por Shapin ao fato de que, por volta de 1826, ápice da controvérsia, nenhum professor universitário pertencia aos quadros da Phrenological Society. Por outro lado, é claramente enfatizada por Shapin a dificuldade que a frenologia e os frenologistas tinham de penetrar na universidade. Ele destaca que, em 1827, foi negada permissão a George Combe para que pudesse replicar, ao final, uma conferência anti-frenológica proferida na universidade por Sir William Hamilton, assim como, posteriormente, foi-lhe negada permissão para usar uma sala da universidade para que proferisse uma resposta formal a Hamilton. Uma tentativa de George Combe de obter uma cadeira na Universidade de Edimburgo teria sido tratada com indiferença. Shapin cita, inclusive, uma espécie de sentimento antiuniversitário que tomou conta, com o tempo, dos próprios frenologistas. Por exemplo, W. Mattieu Williams defendeu, em A Vindication of Phrenology (London, 1894), que a frenologia poderia perder seu vigor caso se tornasse um respeitável estudo universitário.

Os principais porta-vozes das doutrinas em disputa são identificados. Da parte dos frenologistas as maiores referências são para George Combe que é apontado como sendo o responsável por dar continuidade ao trabalho, iniciado por Spurzheim, de adaptação da frenologia ao ambiente britânico. Ele proferiu um grande número de conferências para audiências cada vez mais numerosas com o propósito de divulgar a frenologia em Edimburgo. “Por volta de 1823, George Combe estava aplicando os princípios de frenologia a todos os incidentes da vida”.230 Dentre seus vários trabalhos citados, constam

Essays on phrenology (1919) e Constitution of man (1828). Por outro lado, o nome mais

citado como adversário dos frenologistas e principal interlocutor de Combe é o de Sir William Hamilton, na época professor de História Civil de Edimburgo. Segundo Shapin,

228 Shapin registra seu débito para com Robert Merton ao usar tais expressões distintivas de grupos sociais. 229 Shapin, “Phrenological Knowledge and the Social Structure”, loc. cit., p. 226.

Hamilton foi o responsável por apresentar à Royal Society, de 1825 a 1827, inúmeros ensaios de caráter anti-frenológico.