africana na Bahia do século XVI incompatível com os números do portal Slave Voyages, Vianna Filho utilizou a mesma documentação de Rodrigues para contestar as estimativas do padre Anchieta, que já previa a presença de 3.000 negros em 1584, e calculou em 20.000 o número de escravizados(as) raptados no continente africano no século XVI, pois levou em consideração a existência de 36 engenhos em 1587, quantidade que chegou a 40 no final daquele século58.
Tomando qualquer um dos métodos de apuração apresentados, ou outros minimamente criteriosos, não resta dúvida de que o tráfico de pessoas escravizadas eram um pujante e cobiçado negócio para diversos interesses envolvidos com a lógica da colonização ou com a dinâmica do modo de produção escravista. Também é impossível diminuir a posição da Bahia como um dos portos que mais receberam pessoas cativas da África, objetivando a produção de riqueza nos diversos momentos da sua formação política e econômica.
traficantes baianos e ainda deixa rastros sobre a gênese da burguesia que foi gestada em Salvador, seu perfil e organização:
Ser traficante foi sobretudo uma profissão rendosa. Apesar de informar o Conde dos Arcos que “quase todos os carregadores de escravos se arruinão”, negociar em negros, pelo menos posteriormente, deu margem a formação de vultosos cabedais. “Tendia a lucros tais, escreve Pedro Calmon, que as maiores fortunas da América eram os dos armadores de brigues de tráfico”. No comercio baiano foi “um dos ramos mais lucrativos o que explorava o tráfico de escravos”. Concentrando-se na Bahia uma grande parte, talvez a maior, do tráfico afro-brasileiro, para ela convergiram os proventos fartos tirados desse comércio e que deu aos que o exploravam a dignidade da riqueza e uma perfeita consciência de classe. Os traficantes constituíam uma classe tão honrada como qualquer outra e composta de destacadas figuras do mundo econômico e financeiro da Colônia. 23 firmariam a Representação de 1756. Seriam 27, em 1759, segundo o registro de José Caldas. Em 1799, 37 subscreveriam o pedido para não mais “tocarem” nas ilhas de S. Tomé e Príncipe. A primeira assinatura era de Pedro Rodrigues Bandeira, considerado o homem mais rico do seu tempo, e tio de dois futuros Presidentes da Província: Frutuoso e Francisco Vicente Vianna. A ninguém repugnava comerciar em escravos. No tempo não era cousa que se fizesse furtivamente, coberto de vergonha, fugindo às críticas da população. Pelo contrário, era um título. Na Inglaterra chegou a fazer barões. Aqui também foi serviço prestado a Sua Majestade e ao país. (id., p.
28-29)
A importância do comércio, agora não apenas aquele voltado ao tráfico, foi crescente na economia baiana do século XVII, gerando fortunas e disputas de poder que marcaram as relações entre senhores de engenho e comerciantes durante toda a história da indústria açucareira baiana, conforme registrou Schwartz (1988). Verger, considerando-os “classes opostas entre si” (1999, p. 43), ainda destacou o pragmatismo e o jogo de interesses que os uniam em situações específicas, possibilitando a criação de acordos e alianças que ajudaram a consolidar as relações classistas da cidade.
Como o açúcar era fabricado em diferentes padrões de qualidade60 e transportado
60 Todo o processo de produção do açúcar foi bem detalhado por Schwartz (1988), ainda assim, cabe reproduzi-lo parcialmente: “Os engenhos da Bahia produziam várias qualidade e tipos de açúcar. O açúcar brasileiro era famoso e muito apreciado na Europa por ser, em sua maior parte, ‘barreado’, produzindo-se com isso o característico açúcar branco, às vezes denominado simplesmente ‘açúcar do Brasil’. Conforme o grau de brancura, classificava-se o açúcar em fino redondo ou baixo. Também o mascavado era exportado em grandes quantidades para a Europa. Ambos os tipos eram considerados
‘machos’ quando feitos a partir do primeiro beneficiamento do caldo da cana. [...] Os açucares branco e mascavado preparados com a escuma do primeiro mel escorrido das formas eram chamados batidos e considerados de qualidade inferior devido à granulação mais graúda. Os açúcares de escumas posteriores eram considerados de qualidade ainda mais inferior, sendo raramente exportados. O açúcar do qual o melado não escoara nas formas era chamado ‘panela’ ou, às vezes, ‘panela preta’; era exportado em pequenas quantidades, especialmente nos séculos XVI e XVII. Finalmente, havia o subproduto do açúcar, o melado. [...] Com o passar do tempo, o crescimento da população tornou a destilação do melado para a fabricação de aguardente uma indústria de certa importância no Brasil. Algumas regiões açucareiras, como Campos e Parati, no Rio de Janeiro especializaram-se na produção de aguardente (id., p. 112).
em caixas de madeira, internamente forradas com papéis, a falta de padronização da qualidade, pesagem e acondicionamento do produto para exportação eram motivos de constantes disputas e conflitos entre produtores, comerciantes e transportadores. Como frequentemente a Coroa e o governador-geral do Brasil eram solicitados para equacionar os interesses conflitantes, foi por meio de regulamentos e da imposição de sanções que tais problemas foram solucionados, resultando num ambiente comercial relativamente pacificado em finais do século XVIII. E assim as caixas foram padronizadas em 40 arrobas e os produtores obrigados a numerá-las e a marcá-las, a fim de facilitar a identificação e punição daqueles que burlassem as regras de exportação. Apesar de essas medidas não cessarem todos os conflitos, tornaram-se referência internacional (SCHWARTZ, 1988).
O que se abstrai desse cenário econômico é que não haveria como a produção açucareira ter se desenvolvido sem um setor comercial/transportador que lhe desse o devido suporte. A importância de se compreender as facetas desse dinamismo econômico parece ter sido uma preocupação de Fernandes (1976), que não se deixou levar pela ótica da centralidade econômica dos senhores de engenho e alertou para a formação burguesa brasileira, cujos primeiros agentes já marcavam presença no período colonial, comerciando internamente ou articulando essas economias com o mercado europeu, abocanhando, ambos, uma parcela significativa do fluxo de capital que ficava na colônia.
Resumindo, produção grande, comércio grande.
Além disso, outras questões não devem ser ignoradas nas relações entre produtores e comerciantes. A primeira delas diz respeito à diversidade intrínseca ao comércio, de forma que é impensável restringir tais relações às atividades diretamente ligadas aos engenhos, perspectiva limitada que ignora o “espírito empreendedor do comerciante”, além das óbvias necessidades cotidianas dessas e das demais famílias da cidade, envolvidas de diversas formas na cadeia produtiva do açúcar, inclusive aquelas que produziam alimentos em diversas escalas. É o comércio visto no seu sentido lato.
Um bom exemplo para reafirmar esse caráter integrativo e dinâmico do comércio também pode ser extraído de outras formas de adaptação da colônia, já citadas, mas ainda não comentadas, como a busca pelas alternativas agrícolas para o melhor aproveitamento dos solos menos indicados ao cultivo da cana-de-açúcar e o impulsionamento das “roças”
de mandioca e de outros gêneros alimentícios destinados à subsistência da colônia.
A história e a cultura demonstraram que a Bahia de Todos os Santos não representou o grande “mar interior” apenas para os tupinambás, mas também para todos os que foram ocupando as terras que a rodeavam. Mais uma vez, e certamente por ser interior, esse mar não afastou, mas integrou os distantes; aproximou os insulares, influenciou vidas e ensinou modos a todo olho que olha, “mas não pode alcançar”
(VELOSO, 1979).
Tendo o mar da baía como ligação, Recôncavo e Salvador amalgamaram-se de diversas formas. Contudo, apenas uma dizia respeito ao pragmatismo da metrópole:
aquela que respondesse aos desafios constantes impostos pela dinâmica mercantilista, o que implicava adaptações produtivas às características edafoclimáticas regionais. Nessa perspectiva, vejamos como Schwartz resume a ocupação agrária do recôncavo baiano:
O açúcar concentrou-se na orla norte, estendendo-se até o rio Sergipe e as terras adjacentes à baía. Os solos mais arenosos e situados em terrenos mais elevados de Cachoeira, no rio Paraguaçu, tornaram-se o centro da agricultura do fumo [e da pecuária, dada a exigência de adubação para a produção fumageira].
Finalmente, no sul do Recôncavo, predominou a agricultura de subsistência.
(1988, p. 83)
Kirymuré-Paraguaçu já não eram mais os mesmos, assim como não eram os seus ocupantes e acontecimentos. Territórios e o grande mar interior renasciam em outras racionalidades e dinamismos. Relações e disputas não se dão mais entre tupinambás, mas entre “perós” (portugueses) e todos que ameaçassem a terra tomada. Aquelas águas mansas de baía tornaram-se meio e fim para um fluxo crescente de cargas e pessoas, muitas delas consideradas carga, que passaram a compor e sustentar tudo o que se transformava. Pensando assim, o Forte de São Marcelo, antigo Forte do Mar, construído entre 1605 e 1625 para guardar a “Cidade da Bahia”, pode representar uma alegoria conveniente para a melhor compreensão dessas transformações. Em meio a tantos renascimentos, e lembrando que a fortaleza se encontra na mesma Paraguaçu renascida como Bahia de Todos os Santos, tomar o Forte de São Marcelo como o “Umbigo da Bahia”, como o rebatizou Jorge Amado, parece bem caber ao que se discute aqui, pois, além da referência à sua forma circular, simboliza a natureza das transformações da originária Kirymuré em Salvador e suas novas interações com as demais terras e gentes do recôncavo baiano.