5 O “GAUCHO” OU A BAIANA? A IDENTIDADE NACIONAL ENTRE
5.2 A BAIANA E O “GAUCHO”
Apesar de terem nascido na França e em Portugal, Carmen Miranda e Carlos Gardel passaram o período de sua infância até a idade adulta vivendo nas cidades do Rio de Janeiro e de Buenos Aires. As canções interpretadas por Carmen e Gardel abundam em representações destas duas cidades. Também em suas imagens e em suas falas percebe-se esta ligação.
Um elemento importante desta ligação, tanto de Carmen quanto de Gardel, às identidades do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, era o uso da gíria. Enquanto o segundo utilizava o lunfardo, a gíria portenha, a primeira esbanjava em gírias que havia aprendido em sua infância e primeira juventude no bairro da Lapa, o bairro boêmio do Rio de Janeiro no qual ela residiu. Tanto em suas manifestações públicas, especialmente no rádio, como mesmo em suas gravações, Carmen inseria estas gírias que acabavam por compreender o seu próprio estilo. Ao analisar a fala de Carmen, Castro afirma:
Numa época em que se exigia das moças um recato de porcelana, inclusive lingüístico, ela trouxera da Lapa um fato repertório de gíria, talvez em reação aos excessivos bons modos impostos pelas freiras. Para ela, uma pessoa era “velhinho”, “filhote”, ou “meu nego”; íntima até de estranhos, “querido” e
“meu bem” era tratamentos que ela dispensava à primeira vista; uma coisa boa e diferente era “de matar”; um sucesso era “um chuá”; dinheiro era “arame”; fugir
ou desaparecer era “azular”; flertar ou exibir-se era “fazer farol”. Dominava também o patoá portenho que, através do tango tinha se implantado na fala do Rio: “bacana”, “otário”, “engrupir”, “afanar”. A gíria era a moeda corrente que igualava finos e grossos e fazia de todos, não importava a origem, cariocas. E com todo o peso de sua família portuguesa, a jovem Carmen era carioquíssima, íntima das manemolências e à vontade em qualquer situação.
Não era só a gíria. Muito cedo Carmen incorporou os palavrões ao seu dia-a-dia, embora, nesse caso, a Lapa não fosse a única responsável – parte do crédito deveria caber a seu pai. Como tantos portugueses de sua origem, seu Pinto era exuberantemente desbocado, e as palavras cabeludas (algumas, como
“cu” ou “puto”, sem conotação negativa em Portugal) lhe escapavam como simplicidade, quase com candura (2005, p. 21).
Contudo, apesar desta identificação com ambas as cidades, Carmen e Gardel buscaram representações de outras identidades regionais na construção de suas imagens.
Mais especificamente, Carmen ficou consagrada como baiana, enquanto que Gardel, em grande medida, utillizou a imagem do “gaucho”, imagem ligada ao interior argentino. Eles utilizaram-se de vestimentas consideradas típicas destas regiões (Gardel em seu início de carreira e em algumas apresentações, principalmente na Europa e, Carmen, a partir de 1938, quase que não aparecia mais sem adereços que lembravam a Bahia). Esta escolha de ambos os artistas também está associada ao processo de negociação sobre a identidade nacional existente na época e, além de haver identidades regionais envolvidas nela, também havia questões de definição da nação entre elites e segmentos populares, tanto que tanto o “gaucho” quanto a baiana, vendendo suas comidas típicas, representam identidades populares de suas respectivas regiões.
Aqui, já fazemos uma distinção entre os casos de ambos os artistas. A imagem que ficou consagrada de Carmen Miranda foi, especificamente, a de baiana (Figura 8).
Gardel, porém, apesar de ser lembrado também como “gaúcho”, tem, ainda mais lembrada, sua imagem utilizando smooking ou outras roupas que representam as identidades de elite Argentina, especialmente de Buenos Aires (Figuras 9 e 10). Nisso, poderíamos deduzir acerca da afirmação já feita de que, diferentemente do caso de Carmen, Gardel, na Argentina, é um consenso quase que absoluto em termos de adoração e legitimidade como representante nacional. Isso, provavelmente, em grande medida, deve-se ao fato dele apresentar, em sua vestimenta, representações ora populares, ora de elite, ora do interior argentino (mais associado à região pampeana), ora da grande cidade.
A vitória simbólica da Bahia, através de Carmen Miranda, deu-se no final da década de 1930. Em 1938, num momento fortemente influenciado pela aversão estatal à
figura do malandro, representante do Rio de Janeiro, foi gravada, por Carmen, “O que é que a baiana tem”. É um samba típico baiano de Dorival Caymmi, que, além de compositor, também a ajudou a montar o figurino de baiana e participou da gravação da música para o filme “Banana da Terra”:
CM: O que é que a baiana tem?
Coro: O que é que a baiana tem?
CM: Tem torso de seda, tem (tem) Tem brinco de ouro, tem (tem) Corrente de ouro tem (tem) Tem pano da Costa, tem (tem) Tem bata rendada, tem (tem) Pulseira de ouro tem (tem) Tem saia engomada, tem (tem) Tem sandália enfeitada, tem (tem) E tem graça como ninguém Coro: O que é que a baiana tem?
CM: Como ela requebra bem [...]
Coro: O que é que a baiana tem?
CM: Um rosário de ouro Uma bolota assim
Ai, quem não tem balangandãs Não vai no Bonfim
Oi, quem não tem balangandãs Não vai no Bonfim
A baiana era apresentada como portadora de uma sensualidade que causa certa empatia. Mas a sensualidade também poderia ser facilmente representada na virilidade da figura do gaúcho, representante do Rio Grande do Sul, por exemplo. Assim, ela não é um fator essencial, mas um adicional à legitimação da baiana como símbolo da nação. É certo que o poder simbólico de Carmen influiu na legitimação da baiana como símbolo nacional.
Contudo, existem outros elementos que também deram legitimidade à baiana. Em primeiro lugar, temos de levar em conta que foi em terras do atual estado da Bahia que chegaram os primeiros portugueses ao Brasil. Neste sentido, a Bahia já fazia parte do imaginário de amplos segmentos da população brasileira dos anos 30 como sendo o local da origem do Brasil, o mito fundador da nacionalidade. A data da chegada de Pedro Álvares Cabral a terras que, nos anos 30, pertenciam ao estado da Bahia, era feriado nacional e, conseqüentemente, representação muito difundida como marco inicial da nacionalidade brasileira.
Um segundo elemento histórico que legitima os símbolos da Bahia como representantes da nação é o fato da cidade de Salvador ter sido, durante a maior parte do
período colonial, capital do Brasil. Nesse sentido, ao mesmo tempo que o Rio de Janeiro representaria o Brasil moderno, a Bahia estaria associada ao passado histórico brasileiro.
Além desses elementos presentes no discurso histórico e difundidos largamente entre amplos segmentos da população, havia, dentro da composição urbana do próprio Rio de Janeiro, um importante elemento legitimador dos símbolos da Bahia como representantes do nacional. Como analisa Velloso (1990), houve, especialmente durante a República Velha, uma grande migração de baianos para essa cidade. Baianos que chegaram ao Rio de Janeiro puderam manter vários elementos de sua cultura, por exemplo, nas casas das famosas “tias baianas”, que estabeleciam uma rede de proteção aos baianos que chegavam à capital. Era na casa de uma delas, a Tia Ciata, onde se reuniam vários artistas e intelectuais, como Donga, Pixinguinha, Sinhô, Manuel Bandeira e Mário de Andrade, possibilitando a circulação da cultura, o que permitiu, por sua vez, a aceitação, inclusive para setores da intelectualidade, de símbolos da Bahia como legitimadores da nação.
Trazidos da Bahia, vários elementos culturais já faziam parte do cotidiano do Rio de Janeiro:
Desde o início do século, as tias baianas com os seus famosos tabuleiros, estavam presentes nos mais diversos pontos da cidade. Nas esquinas, praças, largos, becos, estação de trem, porta das gafieiras, elas eram presença obrigatória, já fazendo parte do cotidiano carioca. Nas festas tradicionais das igrejas, como as da Penha e Glória, também compareciam com as suas barracas de comida típica (VELLOSO, 1990, p. 217).
Dessa forma, já havia uma certa receptividade, entre setores da capital do país, para a legitimação de símbolos baianos como nacionais. Assim, poderia se afirmar que a legitimação desses símbolos esteve intimamente associada ao aval recebido no Rio de Janeiro. A Bahia teria, desta forma, suficiência simbólica para representar a nação brasileira.
Além disso, esta “vitória” simbólica da baiana também teve influência da indústria cultural norte-americana, quando da ida de Carmen para os Estados Unidos, ao escolher a imagem da baiana de Carmen como símbolo do Brasil, como analisa Garcia (2004).
A figura da baiana combinava com o perfil de Carmen. Dentre os modelos femininos presentes no Rio de Janeiro, as baianas se destacavam por sua desinibição, linguajar mais solto e maior liberdade de locomoção e iniciativa. Estes elementos combinavam com a personalidade de mulher liberada de Carmen (que chocava muitas pessoas ao fazer coisas como dirigir sozinha e tirar fotos de maiô na praia). A imagem da baiana poderia, dessa maneira, servir para ela como uma forma pessoal de manifestar seu temperamento liberado, enquadrando-se o arquétipo de uma “heroína não virgem”, como analisado no segundo capítulo.
Pelo lado da política, especialmente quanto à valorização do trabalho, poderíamos fazer mais uma inferência sobre a figura da baiana como representante do nacional. Ao contrário do malandro, a baiana não representa um mundo à margem do trabalho regular.
Nela não se pode identificar, em princípio, qualquer vestígio de resistência à exploração do trabalho. Mas havia um significativo senão nessa representação: o Estado Novo visava à construção do Brasil moderno e industrial, e a baiana representava o passado arcaico brasileiro. Com certeza, porém, o imaginário da época não aceitaria, como representação da nação, um operário de fábrica ou algo parecido, símbolo da modernidade. O elemento de fio-terra com a realidade desaconselhava essa representação, tendo em vista o recente surgimento e a pequena parcela do contingente de trabalhadores fabris no cenário nacional daquele momento.
A baiana, apesar de não ser um símbolo moderno, como se propunha ser o Estado Novo, também não era um símbolo que se opunha a esse, como o era o malandro. A baiana, tal como aparecia nas canções interpretadas por Carmen Miranda, se apresentava freqüentemente em atividades como a de vender comidas em seu tabuleiro. Assim, ela era uma trabalhadora. Ela não conseguia seu dinheiro por formas não aceitas pelo Estado Novo, como fazia o malandro.
A imagem de baiana construída por Carmen (Figura 8) não foi uma cópia fiel das baianas que vendiam comidas em Salvador. Ela selecionou alguns elementos dos trajes destas baianas e acrescentou outros, como analisaremos mais tarde. Foi algo muito chocante para a época: uma cantora que sempre havia se vestido dentro das tendências da moda urbana do Rio de Janeiro (Figuras 12 e 13), neste momento, construiu um figurino totalmente distinto. Mais impressionante ainda, foi o resultado disso. Segundo Gil-Montero: