2. DAS (IM) POSSIBILIDADES DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE
2.2 Responsabilidades Do Artigo 135 Do Ctn
2.2.3 Baixa irregular
Por fim, o artigo 135 do CTN, traz implicitamente a dissolução irregular de sociedade, como forma de cabimento da responsabilização dos agentes ali mencionados.
Preliminarmente é importante conceituar dissolução irregular, e posteriormente analisar a possibilidade de uma sociedade inativa ser considerada como uma sociedade dissolvida.
O Código Civil traz novas regras para dissolução das sociedades comerciais disposto no artigo 1.033 que descreve as seguintes hipóteses:
Art. 1.033. Dissolve a sociedade quando ocorrer:
I - o vencimento do prazo de duração, salvo se, vencido este e sem oposição de sócio, não entrar a sociedade em liquidação, caso em que se prorrogará por tempo indeterminado;
II - o consenso unânime dos sócios;
III - a deliberação dos sócios, por maioria absoluta, na sociedade de prazo indeterminado;
IV - a falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de cento e oitenta dias;
V - a extinção, na forma da lei, de autorização para funcionar.
Existe ainda a possibilidade de dissolução pela via judicial como institui o artigo 1.035 do Código Civil. Ainda no artigo 1.036 do Código Civil, a dissolução prevista em lei ou no contrato social “incumbe ao administrador providenciar de imediato um liquidante e restringir a gestão própria aos negócios inadiáveis ficando vetada novas obrigações, inclusive de natureza tributaria”. Caso o administrador crie novas obrigações tributarias responderá solidaria e ilimitadamente.
sociedade por vencimento de seu prazo de duração; por deliberação dos sócios; por liquidação judicial ou extrajudicial, ou, ainda, por anulação judicial requerida por qualquer dos sócios, a par de outras causas previstas no contrato social. Logo, não se pode considerar dissolvida uma sociedade meramente inativa, pois a sociedade inativa é sociedade dormente e, assim, capaz de ser reativada a qualquer momento por deliberação de seus sócios.
Ressalta-se, no entanto, que a inatividade de uma sociedade não a exime do cumprimento das obrigações tributárias acessórias de posteriores multas resultantes do inadimplemento, sendo assim considerada irregular com a consequência de recair sobre seus sócios, por substituição, a responsabilidade tributária.
Sobre este tema vejamos o entendimento do Superior Tribunal de Justiça:
EXECUÇÃO FISCAL. REDIRECIONAMENTO. DISSOLUÇÃO IRREGULAR. SOCIEDADE. O fechamento da empresa sem baixa na junta comercial constitui indício de que o estabelecimento comercial encerrou suas atividades de forma irregular. O comerciante tem obrigação de atualizar o seu registro cadastral nos órgãos competentes. Assim, tal circunstância autoriza a Fazenda a redirecionar a execução contra os sócios e administradores. Precedentes citados: EREsp 716.412-PR, REsp 839.684- SE, DJ 30/8/2006, e REsp 750.335-PR, DJ 10/4/2006.79
EXECUÇÃO FISCAL. REDIRECIONAMENTO. SÓCIOS. DISSOLUÇÃO IRREGULAR. A Turma, ao continuar o julgamento, entendeu, por maioria, que, na hipótese, é possível presumir a dissolução irregular da sociedade e, em consequência, redirecionar a execução fiscal para seus sócios, visto que certificado por oficial de justiça que ela não mais existe no endereço indicado (art. 127 do CTN). No Direito Comercial, há que se valorizar a aparência externa da sociedade, e a mera suposição de que estaria a funcionar em outro endereço, sem que o tivesse comunicado à Junta Comercial, não pode obstar o crédito da Fazenda. (REsp 800.039-PR, Rel. originário Min. Peçanha Martins, Rel. para acórdão Min. Eliana Calmon, julgado em 25/4/2006)
Assim, percebemos que nos casos de ausência ou insuficiência de patrimônio social em face de débitos de responsabilidade da pessoa jurídica, as recentes decisões do Superior Tribunal de Justiça sobre o tema têm reconhecido a legitimidade do redirecionamento da execução à pessoa dos sócios e administradores, quando houver indícios de dissolução irregular da sociedade.
Nesse sentido, impende ressaltar que se a sociedade é simplesmente desativada sem cumprir suas obrigações tributarias, os bens particulares dos
administradores ou sócios podem ser objetos de constrição, em uma possível execução fiscal.
Abaixo o Superior Tribunal de Justiça sobre o tema:
EMBARGOS DE TERCEIRO. EXECUÇÃO. PENHORA INCIDENTE SOBRE BENS PARTICULARES DO SÓCIO. DISSOLUÇÃO IRREGULAR DAS EMPRESAS EXECUTADAS. CONSTRIÇÃO ADMISSÍVEL. O sócio de sociedade por cotas de responsabilidade limitada responde com seus bens particulares por dívidas da sociedade quando dissolvida esta de modo irregular. Incidência no caso dos arts. 592, II, 596 e 10 do Decreto n. 3.708, de 10.01.1919. Recurso especial não conhecido. (REsp. 140.564-SP (1997/0049641-4), Rel. Min. Barros Monteiro, 4.ª Turma do STJ, j. 21.10.2004, DJU 17.12.2004).
PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DE QUAISQUER DOS VÍCIOS PREVISTOS NO ART. 535 DO
CPC. REJEIÇÃO. EFEITOS INFRINGENTES. IMPOSSIBILIDADE.
(RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. SOCIEDADE POR QUOTAS DE RESPONSABILIDADE LIMITADA. EXISTÊNCIA DE INDÍCIOS DE DISSOLUÇÃO IRREGULAR. REDIRECIONAMENTO DA EXECUÇÃO PARA O SÓCIO GERENTE. POSSIBILIDADE) 1. A existência de indícios do encerramento irregular das atividades da empresa executada autoriza o redirecionamento do feito executório à pessoa do sócio (...) 2. In casu, consta expressamente do voto condutor do aresto impugnado a existência de inúmeros indícios que indicam a ocorrência de dissolução irregular da empresa executada. (EDcl no REsp 750.335-PR (2005/0078672-2), Rel. Min. Luiz Fux, 1.ª Turma do STJ, j. 28.03.2006, DJU 10.04.2006).
Consolidando tal entendimento, o Superior Tribunal de Justiça elaborou a Súmula 435, in verbis:
Súmula nº 435 Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento da execução fiscal para o sócio-gerente.
Pela leitura da súmula 435 do STJ, percebe-se que a dissolução irregular presume-se quando a empresa deixar de funcionar no seu domicílio fiscal sem informar o órgão competente.
Embora a súmula 435 do STJ afirmar que apenas deixando a empresa de funcionar no seu domicílio fiscal caracteriza-se a baixa irregular, há julgado do Supremo Tribunal Federal que contradizem tal situação, como é o caso da AgRg no Recurso Especial Nº 762.555, o qual afirma que para aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica devem ser preenchidos os requisitos
essenciais, como desvio de finalidade, abuso de direito ou confusão patrimonial, conforme abaixo:
EMENTA AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO.
EMBARGOS DE TERCEIRO. DESCONSIDERAÇÃO DA
PERSONALIDADE JURÍDICA. ENCERRAMENTO DE ATIVIDADES SEM BAIXA NA JUNTA COMERCIAL. REQUISITOS AUSÊNCIA. VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC NÃO CONFIGURADA. SÚMULA 83/STJ. 1. Não configura violação ao art. 535 do CPC a decisão que examina, de forma fundamentada, todas as questões submetidas à apreciação judicial. 2. A mera circunstância de a empresa devedora ter encerrado suas atividades sem baixa na Junta Comercial, se não evidenciado dano decorrente de violação ao contrato social da empresa, fraude, ilegalidade, confusão patrimonial ou desvio de finalidade da sociedade empresarial, não autoriza a desconsideração de sua personalidade para atingir bens pessoais de herdeiro de sócio falecido. Inaplicabilidade da Súmula 435/STJ, que trata de redirecionamento de execução fiscal ao sócio-gerente de empresa irregularmente dissolvida, à luz de preceitos do Código Tributário Nacional. 3. Hipótese em que ao tempo do encerramento informal das atividades da empresa executada sequer havia sido ajuizada a ação ordinária, no curso da qual foi proferida, à revelia, a sentença exequenda, anos após o óbito do sócio-gerente e a homologação da sentença de partilha no inventário. 4. Encontrando-se o acórdão impugnado no recurso especial em consonância com o entendimento deste Tribunal, incide o enunciado da Súmula 83/STJ. (AgRg no Recurso Especial Nº 762.555 - Sc (2005/0105912-0) Relatora : Ministra Maria Isabel Gallotti Julgado: 16/10/2012)
Portanto, deve-se levar em conta que a mera circunstância de a empresa devedora encerrar suas atividades sem baixa na Junta Comercial, não demonstrando dano decorrente de violação ao contrato social da empresa, fraude, ilegalidade, confusão patrimonial ou desvio de finalidade, não autoriza a aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica.