3 DESNUTRIÇÃO INFANTIL
3.4 Baixo Peso/Idade
A desnutrição por baixo p/a refere-se a todas crianças com peso baixo para a altura, independente da idade, e corresponde a
Tabela 3.9
DESNUTRIÇÃO – MENORES DE 5 ANOS – BRASIL – 1996 (MIL CRIANÇAS)
Grupo Déficit Baixo
p/a a/i
Pôndero/estatural 1 63 63 63
Estatural 2 + 3 1578 – 1578
Ponderal 4 + 7 297 297 –
Total 1938 359 1641
Fonte: Tabela 3.8 e UNICEF/98.
Nota: Abaixo de 2 desvios-padrão (NCHS).
19 Utilizamos as estimativas para a população brasileira menor de cinco anos – 1975: 15.425 mil (UN, 1997b) e 1996: 15.626 mil (UNICEF, 1998).
nossos grupos 1, 4 e 7. O índice baixa a/i, por outro lado, refere-se a todas crianças com altura baixa para a idade, independente do peso, e corresponde a nossos grupos 1, 2 e 3. Apenas o grupo 1 (déficit pôndero/estatural) é referido nos dois índices e é pouco significativo para o Brasil em 1989, conforme o Quadro III. Neste caso, a soma dos dois índices (2,0% + 15,4% = 17,4%) não é muito diferente do total dos déficits (1,6% + 15,0% + 0,4% = 17,0%), o que quer dizer que, para o Brasil em 1989, os índices não são simplesmente formas diferentes de se referir à desnutrição, mas antes conceitos totalmente distintos que podem até ser somados20.
Alternativamente aos índices baixo p/a e a/i, a maior parte das instituições e pesquisadores tem dado preferência ao índice baixo p/i. Quando usado isoladamente, o índice peso/idade é um indicador simples e direto (considere-se também que o índice baixo p/i é o mais antigo índice antropométrico utilizado na mensuração da desnutrição infantil). O índice baixo p/i, entretanto, revela-se conceitualmente híbrido, isto é, mistura conceitos específicos de desnutrição. Se o índice baixo p/a considera desnutridos os grupos 1, 4 e 7 (desnutrição aguda) e o índice baixa a/i considera desnutridos os grupos 1, 2 e 3 (desnutri- ção crônica), o índice de baixo p/i acaba por considerar desnutridos, além do grupo 1, parte do grupo 4 e parte do grupo 221. O Quadro IV ilustra a posição “a meio caminho” do índice baixo p/i.
As limitações do índice baixo p/i podem ser vistas a partir de dois ângulos. Por um lado, o índice baixo p/i impossibilita a diferenciação de desnutrição aguda e atraso no crescimento (ver IBGE, 1982, p. 89). Por outro, o índice b/i acaba por considerar bem nutridas crianças altas com desnutrição aguda e crianças obesas de baixa estatura22.
20 A metodologia de Waterlow utilizada por Lustosa é logicamente precisa ao evitar a dupla contagem das crianças que apresentam ao mesmo tempo desnutrição aguda e crônica.
21 A rigor, os grupos 2 e 4 deveriam ser subdivididos porque os índices para p/a e p/i agrupam crianças por diferentes denominadores (altura e idade) e, portanto, suas medianas e desvios-padrão não coincidem necessariamente (os Quadros I a IV foram construídos apenas como uma aproximação).
22 “... poderiam estar classificadas no mesmo intervalo crianças da mesma idade, altas e excessivamente delgadas e crianças gordas de estatura muito baixa...” (IBGE, 1982, p. 89).
Os índices baixo p/i para os países da América Latina são apresentados na Tabela 3.10, com dados publicados pela WHO (1997). O índice baixo p/i aponta desnutrição significativa em todos os países analisados com exceção do Chile e Argentina. Mas o intervalo de 16,1% a 18,4% para o Brasil, Colômbia e Peru na década dos setenta cai significativamente para 5,7% a 8,4% nos anos noventa (como reflexo da queda nos outros dois índices analisados, baixo p/a e p/i).
Para o Brasil e suas macro-regiões as estimativas para a desnutrição infantil para menores de cinco anos, de acordo com o índice baixo p/i, são apresentadas na Tabela 3.11. A incidência de desnutrição por baixo peso recua em todas as macro-regiões e deixa de ser significativa na Região Sul do País.
Os índices baixo p/i, como salientamos, geralmente apre- sentam percentuais intermediários entre os índices p/a e a/i, como pode ser visualizado na Tabela 3.12 que resume as estimativas dos três levantamentos abrangentes realizados no Brasil.
Quadro IV
DESNUTRIÇÃO (COM BAIXO P/I) – MENORES DE CINCO ANOS BRASIL – 1989
Grupo Estatura Peso Déficit Peso/altura Altura/idade Peso/idade
Grupo (%) Grupo (%) Grupo (%)
1 baixa baixo pônd/est 1 0.4 1 a0.4 1 0.4
2 baixa normal estatural – 2 2
3 baixa alto estatural – 3 15.0 –
4 normal baixo ponderal 4 – – 4 6.6
5 normal normal – – – –
6 normal alto – – – – –
7 alta baixo ponderal 7 1.6 – – –
8 alta normal – – – – –
9 alta alto – – – – –
Total 2.0 15.4 7.0
Fonte: Tabela 3.2, 3.4 e IBGE/95 (estimativas para menores de quatro anos para o grupo e WHO, 1997.
Tabela 3.10 BAIXO PESO/IDADE MENORES DE 5 ANOS Décadas 70-80 Década de 90 Ano (%) Ano (%) Argentina – – 1994 1.9 Brasil 1974-75 18.4 1996 5.7 Chile 1986 2.5 1995 0.9 Colômbia 1977-80 16.8 1995 8.4 México 1988 14.2 – – Peru 1975 16.1 1996 7.8 Venezuela 1981-82 10.2 1994 4.5
América Latina e Caribe – – 1995 9.5
Estados Unidos 1963-74 2.3 1988-94 1.4
Fonte: WHO, 1997 (< 6anos para Peru/75 e Chile). Nota: Abaixo de 2 desvios-padrão (NCHS).
Tabela 3.11 BAIXO PESO/IDADE MENORES DE 5 ANOS – BRASIL
1974-75 (%) 1989 (%) 1996 (%) Brasil 18.4 7.0 5.7 Norte Urbano 24.5 10.7 7.7 Nordeste 27.0 12.4 8.3 Sudeste 13.4 4.2 – São Paulo – – 4.7 Rio – – 3.8
Minas e Espírito Santo – – 5.5
Sul 11.7 2.3 2.0
Centro-Oeste 13.3 4.0 3.0
Fonte: WHO, 1997.
4 CONCLUSÕES
As estimativas da FAO para a disponibilidade diária de alimentos e nutrientes por habitante fornece uma primeira aproxima- ção do padrão de alimentação em vigor nos diversos países, tanto do ponto de vista do consumo energético como da composição dos alimen- tos e nutrientes na dieta alimentar. Entre 1993 e 1995, Argentina e México superaram 3000kcal disponíveis por habitante/dia, Brasil, Colômbia e Chile apresentaram valores entre 2700 e 2800kcal, Vene- zuela 2432kcal e Peru 2199kcal.
Em relação à composição dos nutrimentos, a dieta alimen- tar latino-americana atende as recomendações da Organização Mun- dial da Saúde, exceção feita à elevada ingestão de açúcar, princi- palmente na Colômbia e no Brasil. É importante destacar também que nos países da América Latina, à exceção da Argentina, a participação de proteínas de origem animal é menos significativa que a participação de proteínas de origem vegetal.
A disponibilidade diária de nutrientes refere-se a uma média por país e não leva em consideração a distribuição dos alimentos por regiões e faixas de renda. Para calcular a população com insufi- ciência alimentar, a FAO desenvolveu uma metodologia que utiliza estimativas da distribuição interna de alimentos nos diversos países em desenvolvimento. As estimativas da distribuição de alimentos da FAO, contudo, realizadas a partir de uma série de extrapolações, devem ser vistas com reservas.
Tabela 3.12
ÍNDICES ANTROPOMÉTRICOS – MENORES DE 5 ANOS BRASIL Desnutrição 1974-75 (%) 1989 (%) 1996 (%) Baixo p/a 5.0 2.0 2.3 Baixa a/i 32.0 15.4 10.5 Baixo p/i 18.4 7.0 5.7 Fonte: Tabelas 3.2, 3.4 e 3.7.
Para a desnutrição infantil, dois índices antropométricos básicos devem ser acompanhados, o baixo peso/altura e a baixa altu- ra/idade. O índice baixo peso/altura refere-se à desnutrição aguda e o índice baixa altura/idade, considerado de desnutrição crônica, aponta a distância de uma determinada população a um padrão internacional arbitrário (NCHS). Os dois índices são bastante específicos mas têm um ponto de intersecção nas crianças que apresentam simultanea- mente desnutrição aguda e baixa altura para a idade (que corresponde ao conceito de déficit pôndero/estrutural de Waterlow utilizado por Lustosa – IBGE/95).
Embora o baixo peso/idade seja o índice de desnutrição mais antigo e de maior divulgação, suas características acabam por transformá-lo num índice híbrido que mescla conceitos distintos. Este conceito híbrido soma parte da desnutrição aguda com parte da desnutrição crônica (em geral é mesmo um índice que apresenta valores intermediários entre os índices baixo peso/altura e baixa altura/idade). No conceito baixo peso/idade acabam sendo considera- das bem nutridas tanto crianças altas que apresentam desnutrição aguda (crianças cuja alta estatura compensa o baixo peso para a altura) como crianças obesas por peso/altura e desnutridas por altura/idade (crianças cuja obesidade compensa a baixa estatura).
O índice baixo peso/idade, porque reflete a soma de crian- ças com baixo peso/altura e com baixa altura/idade, é também conhe- cido como índice de desnutrição geral, global ou total (DHS, BEMFAM, 1997). Mas esta denominação é indevida porque o índice baixo peso/idade soma somente parte do baixo peso/altura com parte da baixa altura/idade. O único índice que poderia ser chamado crite- riosamente de total é a soma dos déficits ponderal, estatural e pônde- ro/estatural que refere-se ao total de crianças que apresentam algum tipo de desnutrição (grupos 1, 2, 3, 4 e 7 do quadro conceitual apresentado no texto), isto é, desnutrição aguda mais crônica (dedu- zida a dupla contagem do grupo 1).
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