De acordo com relatos de Todorov (2011), contidos no livro Estética da Criação verbal, de Bakhtin (2011), Mikhail Bakhtin foi um grande pensador russo do século XX. Ele e alguns amigos, como Matvei Kagan, Valentin Volochinov e Pável Medvedev formaram o Círculo de Bakhtin, cujos encontros e discussões resultaram em muitas obras, dentre as
quais se destaca Marxismo e filosofia da Linguagem, publicado pela primeira vez em 1929.
Ainda segundo o pesquisador, Bakhtin ficou mais de trinta anos sem divulgar nenhum trabalho e só em 1963 publicou Problemas da poética de Dostoiévski. De um modo particular, percebe-se uma grande influência de Dostoiévski, tanto nas obras de Mikhail Bakhtin quanto nas ideias dos integrantes do Círculo bakhtiniano (BAKHTIN, 2011). No capítulo dez do livro Marxismo e filosofia da linguagem, por exemplo, Volochinov (2014) menciona a obra O Idiota, de Dostoiévski, e afirma que há magníficos exemplos de discurso indireto livre na mesma.
A partir de 1960, as obras bakhtinianas começaram a ser traduzidas para outras línguas e, mesmo após a morte de Mikhail Bakhtin, em 1975, outras produções foram lançadas, como é o caso de Estética da Criação Verbal (1979). Algumas pessoas até tentaram rotular Bakhtin, chamando-o de marxista radical, pós-modernista ou materialista brilhante, mas nenhuma obteve sucesso. O fato é que esse estudioso contribui significativamente para diversas áreas do saber, como a literatura e a linguística, como afirma Todorov (2011).
Nesse último livro publicado, Estética da Criação Verbal, Bakhtin (2003) aborda alguns termos como gênero do discurso, exotopia/excedente de visão, dialogismo e atitude responsivo-ativa, que serão utilizados como subsídios teóricos para este trabalho e na interpretação das músicas selecionadas. Em relação ao primeiro conceito, Bakhtin (2011) afirma que
O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua, mas, acima de tudo, por sua construção composicional.
Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de
enunciados, os quais denominamos de gêneros do discurso. (BAKHTIN, 2011, p. 261-262)
Desse modo, os gêneros discursivos, formas típicas de enunciados, estão vinculados às atividades sociais cotidianas e são ilimitados. E de acordo com Bakhtin (2011), a vontade discursiva dos interlocutores manifesta-se na escolha do gênero adequado à interação verbal. Assim,
o gênero discursivo é um guia para o interlocutor no processo discursivo, facilitando o entendimento por parte desse interlocutor, pois a diversidade de alguns gêneros, como os do cotidiano, é determinada pelo fato de que eles são diferentes em face da situação, da posição social e das relações pessoais de reciprocidade entre os participantes da interação (eu e o outro). (MOREIRA, 2009, p. 55)
O teórico ainda explica que todo enunciado possui autor e este enxerga o outro a partir do seu excedente de visão/exotopia, do seu conhecimento e lugar de mundo. Esse
“excedente de visão em relação ao outro indivíduo condiciona um conjunto daquelas ações internas ou externas que só o ‘eu’, do discurso, pode praticar em relação ao outro” (BAKHTIN, 2011, p. 22-23). Além disso, segundo Moreira (2009, p. 56), “uma das principais características do discurso é o fato dele ser direcionado a alguém”. Assim,
Esse destinatário pode ser um participante-interlocutor direto do diálogo cotidiano, pode ser uma coletividade diferenciada de especialistas de algum campo especial de comunicação cultural, pode ser um público mais ou menos diferenciado, um povo, os contemporâneos, os correligionários, os adversários e inimigos, o subordinado, o chefe, um inferior, um superior, uma pessoa íntima, um estranho, etc.; [...] Todas essas modalidades e concepções do destinatário são determinadas pelo campo da atividade humana e da vida a que tal enunciado se refere. A quem se destina o enunciado, como o falante (ou o que escreve) percebe e representa para si os seus destinatários, qual é a força e a influência deles no enunciado – disto dependem tanto a composição quanto, particularmente, o estilo do enunciado. (BAKHTIN, 2011, p. 301)
Vale ressaltar que é no plano do discurso que ocorrem as relações dialógicas, e o termo dialogismo é fundamental para se compreender a obra bakhtiniana, porque permeia a sua concepção de linguagem e sua concepção de mundo. Além disso, esse conceito, nas obras bakhtinianas, não está ligado à ideia de um diálogo face a face entre interlocutores, mas sim entre discursos. No livro Estética da Criação Verbal, Bakhtin (2011) utiliza o termo dialogismo como “uma descrição da linguagem que torna
todos os enunciados, por definição, dialógicos; como termo para um tipo específico de enunciado, oposto a outros enunciados, monológicos; e como uma visão do mundo”
(BAKHTIN, 2011, p. 300).
Esse caráter dialógico é inerente à linguagem como um todo. Não é algo exclusivo da linguagem verbalizada, pois, como afirma o próprio Volochinov (2013c [1930], p.164), mesmo na linguagem interior as formas de intervenções verbais realizadas são totalmente dialógicas, pois estão repletas de valorações de um ouvinte específico, dirigidas a um público também específico e são modeladas a partir desse público, mesmo que o pensamento não tenha sido exteriorizado pelo indivíduo em nenhum momento. Ainda segundo Volochinov (2013c), essa dialogização da linguagem interior se evidencia quando temos que tomar uma decisão e começamos a discutir com nós mesmos, buscando convencer-nos da decisão mais adequada. “Nesse caso, para o estudioso, a consciência parece quase dividir-se em duas vozes distintas que se contrapõem” (VOLOCHINOV, 2013c [1930], p.165).
E por defender uma perspectiva marxista da linguagem, Volochinov (2013) ainda afirma que “sempre uma dessas vozes, independente de nossa vontade e de nossa consciência, coincide com a visão, com as opiniões e com as valorações da classe a que pertence. A segunda é sempre o representante ideal de nossa classe”
(VOLOCHINOV, 2013, p. 165).
Além desse caráter dialógico, o gênero discursivo letra de música pode apresentar um interlocutor variado, como na música Racistas Otários, e este desempenha uma função importante no processo de interação verbal, já que não é apenas um simples expectador do enunciado, visto que ocupa, em relação a este, uma ativa posição responsiva. Ou seja:
Concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início [...]
toda compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante. (BAKHTIN, 2011, p. 271)
Assim, pode-se dizer que essa atitude responsiva é uma constante, pois “a palavra quer ser ouvida, entendida, respondida e mais uma vez responder à resposta, e assim ad infinitum” (BAKHTIN, 2011, p. 334). E, para que isso ocorra, a palavra necessita dos interlocutores em uma situação concreta de interação verbal. Como se percebe nas letras de músicas do corpus desta análise, a alternância dos sujeitos no discurso dá o suporte necessário para que o discurso realmente se efetive e aconteça a atividade responsivo-ativa entre os interlocutores, sendo que “o falante termina o seu enunciado para passar a palavra ao outro ou dar lugar à sua compreensão ativamente responsiva”
(MOREIRA, 2009, p. 57).
Desse modo, o sujeito bakhtiniano é ativo. Ele faz escolhas e atua no processo discursivo, visto que o sujeito está inserido em uma situação social concreta de interação verbal em que a interlocução com o outro acontece a todo o momento, uma vez que ambos são agentes no processo comunicativo e acabam suscitando a atividade responsivo-ativa entre eles. (MOREIRA, 2009, p. 57).
E é por esse motivo que se escolheu trabalhar com o gênero letra de música, pois neste são os interlocutores que respondem pelos atos uns dos outros, uma vez que tanto estes quanto o enunciador exercem essa atitude responsiva, porque as canções selecionadas, em geral, possibilitam um posicionamento crítico e responsivo não só de quem as compôs, mas também daqueles que as escutam.
De acordo com Bakhtin (2011), o que possibilita essa responsividade é a conclusibilidade do enunciado, isto é, “[...] uma espécie de aspecto interno da alternância dos sujeitos do discurso; essa alternância pode ocorrer precisamente porque o falante disse (ou escreve) tudo o que quis dizer em dado momento ou sob dadas condições”. (MOREIRA, 2009, p. 57)
Dessa forma, observa-se que, por meio dessas citações, a inconclusibilidade do ser humano se depara com o limite dos outros, porque, segundo Bakhtin (2011, p.341), “ser significa ser para o outro e, através dele, para si. O homem [...] está todo e sempre na
fronteira, olhando para dentro de si ele olha o outro nos olhos ou com os olhos do outro”.
Por isso, o homem só se completa no outro e na atitude responsivo-ativa que mantém com ele, em uma relação dinâmica e dialógica. Portanto, “as relações dialógicas são de índole específica [...] Elas só são possíveis entre enunciados integrais de diferentes sujeitos do discurso [...]” (MOREIRA, 2009, p. 58).
E, no caso das músicas analisadas neste trabalho, o dialogismo se manifesta principalmente quando o locutor interpela os opressores do sistema, como na letra de Racistas otários e de A Carne, criticando-os, mostrando-os a realidade de quem sofre, todos os dias, com discriminação racial e com as desigualdades sociais.
Diante dessa situação, faz-se mister apresentar alguns autores contemporâneos que abordam a questão racial em suas obras e trazem medidas de combate ao racismo, como veremos no próximo tópico.