Mikhail Bakhtin, em Problemas da Poética de Dostoievski (1981), como já referido, define o texto literário como um “mosaico”, uma construção caleidoscópia e polifônica. Esse conceito estimulou a reflexão sobre a produção do texto e sobre a forma como ele absorve as vozes da história que escuta.
Em seu livro Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem (2006), no capítulo “O discurso de outrem”, Bakhtin declara que um discurso citado é o discurso no discurso, a enunciação na
enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma enunciação sobre a
enunciação”. Para o autor, aquilo de que nós falamos é apenas o conteúdo do discurso, o tema de nossas palavras. A “natureza”, o “homem”, por exemplo, seriam apenas temas. Mas o discurso de outrem constitui mais do que o tema do discurso; ele pode entrar no discurso e na sua construção sintática, por assim dizer, “em pessoa”, como uma unidade integral da construção94. Conforme Bakhtin,
A língua existe não por si mesma, mas somente em conjunção com a estrutura individual de uma enunciação concreta. É apenas através da enunciação que a língua toma contato com a comunicação, imbui-se do seu poder vital e torna-se uma realidade. As condições da comunicação verbal, suas formas e seus métodos de diferenciação são determinados pelas condições sociais e econômicas da época. As condições mutáveis da comunicação socioverbal precisamente são determinantes para as mudanças de formas que observamos no que concerne à transmissão do discurso de outrem. Além disso, aventuramo-nos mesmo a dizer que, nas formas pelas quais a língua registra as impressões do discurso de outrem e da personalidade do locutor, os tipos de comunicação socioideológica em transformação no curso da história manifestam-se com um relevo especial. (BAKHTIN, 2006, p. 160.)
Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau, no Dicionário de Análise do
Discurso (2004), afirmam que o conceito de dialogismo de Bakhtin refere-se às relações que todo enunciado mantém com os enunciados produzidos anteriormente, bem como com os enunciados futuros que os destinatários poderão produzir. Mas, conforme afirma Todorov95, o termo é “carregado de uma pluralidade de sentidos muitas vezes embaraçantes”, não somente nos escritos do Círculo de Bakhtin, mas, igualmente, devido às diferentes maneiras como ele foi compreendido e retrabalhado por outros pesquisadores. Conforme Bakhtin e Volochinov, o diálogo – a troca de palavras – é a forma mais natural da linguagem. Mais ainda: os
94 BAKHTIN, 2006, p. 150. 95 TODOROV, 1981. p. 95
enunciados longamente desenvolvidos, ainda que eles emanem de um interlocutor único – por exemplo, o discurso de um orador, o curso de um professor, o monólogo de um ator, as reflexões em voz alta de um homem só – são monológicos somente em sua forma exterior, mas, em sua estrutura interna, semântica e estilística, eles são essencialmente dialógicos96. Dessa forma, “a orientação dialógica é, bem entendido, um fenômeno característico de todo o discurso [...]”97. Em todos os caminhos que levam a seu objeto, o discurso encontra o discurso de outrem e estabelece com ele interação viva e intensa. Segundo o autor, somente o Adão mítico, abordando com o primeiro discurso um mundo virgem e ainda não dito, poderia verdadeiramente evitar inteiramente essa reorientação mútua em relação ao discurso de outrem, que se produz no percurso do objeto98.
Por isso, “pode-se compreender a palavra ‘diálogo’ num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação humana, de qualquer tipo que seja” e “toda enunciação, por mais significante e completa que ela seja por si mesma, constitui apenas uma fração de uma corrente de comunicação verbal ininterrupta (que toca a vida cotidiana, a literatura, o conhecimento, a política, etc.). No entanto, essa comunicação verbal ininterrupta constitui, por sua vez, apenas um elemento da evolução ininterrupta de um grupo social dado”99. (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 161.) A propósito do discurso dialógico, deve-se destacar que tanto Franz Kafka como Modesto Carone possuem produções essencialmente marcadas pelo dialogismo. Os dois autores – como já se começou a demonstrar e como se exemplificará melhor ao longo desta tese – produzem uma ficção atravessada por vozes as mais diversas, que demonstram a apreensão e a representação ficcional da existência de realidades, às vezes, controversas e paradoxais, além da abundãncia de referências históricas, culturais e literárias presentes nesses textos. Como exemplo, podem-se citar os títulos dos contos “A verdade sobre Sancho Pança”, “Prometeu” e “Posêidon”, de Kafka, e “O som e a fúria”, “Eros e civilização” e “Crime e castigo”, de Carone.
De acordo com Charaudeau e Maingueneau, se todo enunciado é constitutivamente dialógico, aí compreendido o discurso interior atravessado pelas avaliações de um destinatário virtual, frequentemente tem-se tentado definir o termo por oposição ao que seria um enunciado monológico, ou, antes, um enunciado que se apresenta como
96 VOLOCHINOV, 1981, p. 292.
97 BAKHTIN apud TODOROV, 1981, p. 98.
98 CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 160-161. 99 BAKHTIN apud VOLOCHINOV, 1977. p. 136.
“aparentemente” monológico100. Além disso, as necessidades da análise têm levado os pesquisadores a tentarem definir diferentes formas de dialogismo, de acordo com os gêneros
do discurso ou de acordo com o grau de presença do outro e, ainda, de acordo com as diferentes maneiras de o representar que a língua permite.101
Charaudeau e Maingueneau, referindo-se à polifonia, afirmam ter sido o termo emprestado da música, que alude ao fato de que os textos veiculam, na maior parte dos casos, muitos pontos de vista diferentes: o autor pode fazer falar várias vozes ao longo de seu texto. Conforme esses autores, o termo polifonia era bastante corrente nos anos 20 e:
Bakhtin lhe atribui, em seu célebre livro sobre Dostoievski (1929), um valor e um sentido totalmente novos. Nesse livro, Bakhtin estuda as relações recíprocas entre o autor e o herói na obra de Dostoievski, e resume sua descrição na noção de polifonia. Com o crescente interesse que se manifestou em linguística, desde os anos 80, pelos aspectos pragmáticos e textuais, o trabalho de Bakhtin foi redescoberto por alguns linguistas. Desse modo, na França, Ducrot desenvolveu uma noção propriamente linguista da polifonia, da qual ele se serve para suas análises de toda uma série de fenômenos linguísticos. Ao mesmo tempo, e independentemente uns dos outros, os estudiosos da literatura desenvolveram a polifonia bakhtiniana e, nesses últimos anos, tentou-se reconciliar as duas abordagens polifônicas para forjar, a partir delas, uma ferramenta eficaz para as análises de discurso. (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 384-385.)
Dominique Maingueneau, em Termos-chave da análise do discurso, assegura que, na retórica, a palavra dialogismo designava o procedimento que consiste em introduzir um diálogo fictício num enunciado. Em Análise do Discurso, ele é utilizado, após Bakhtin, para referir-se à dimensão profundamente interativa da linguagem, oral ou escrita. O locutor não é um Adão e, por isso, o objeto de seu discurso se torna, inevitavelmente, o ponto onde se encontram as opiniões de interlocutores imediatos, ou ainda, as visões do mundo, as tendências, as teorias etc., na esfera da troca cultural102. Mas Bakhtin teria empregado
dialogismo também no sentido de intertextualidade. Assim, toda enunciação, mesmo sob sua forma escrita cristalizada, seria uma resposta a alguma coisa e seria construída como tal. Ela é apenas um elo na cadeia dos atos de fala. Toda inscrição seria um prolongamento daquelas
100 VOLOCHINOV, 1981p. 292-293.
101 O romance seria a forma mais manifestamente atravessada de dialogismo, ao contrário da poesia, por
exemplo; da mesma maneira, as ciências humanas frente às ciências exatas e aos discursos dogmáticos que tendem a se apresentar como discurso da Verdade.
que a precederam e, dessa forma, estabeleceria uma polêmica com elas, guardaria reações ativas de compreensão, antecipar-se-ia sobre estas103.
Sírio Possenti, em ensaio intitulado “Observações sobre o interdiscurso”104, afirma, entretanto, que, “sob diversos nomes – polifonia, dialogismo, heterogeneidade, intertextualidade – cada um implicando algum viés específico, como se sabe”, é o interdiscurso que reina soberano há algum tempo. Para o pesquisador, a interdiscursividade tem a ver com a posição segundo a qual “os sujeitos falam a partir do já dito – e isso é exatamente o que o interdiscurso lhes põe à disposição e/ou lhes impõe.”105 E a afirmativa de Possenti recorre ao conceito de interdiscurso de Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau:
Interdiscurso – Todo discurso é atravessado pela interdiscursividade, tem
a propriedade de estar em relação multiforme com outros discursos, de entrar no interdiscurso. Esse último está para o discurso como o intertexto está para o texto. Em um sentido restrito, o “interdiscurso” é também um espaço discursivo, um conjunto de discurso (de um mesmo campo discursivo ou de campos distintos) que mantêm relações de delimitação recíproca uns com os outros. Assim, para Courtine (1981:54), o interdiscurso é “uma articulação contraditória de formações discursivas que se referem a formações ideológicas antagônicas”. Mais amplamente, chama-se também de “interdiscurso” o conjunto das unidades discursivas (que pertencem a discursos anteriores do mesmo gênero, de discursos contemporâneos de outros gêneros etc.) com os quais um discurso
particular entra em relação implícita ou explícita. Esse interdiscurso pode dizer respeito a unidades discursivas de dimensões muito variáveis: uma definição de dicionário, uma estrofe de um poema, um romance... Charaudeau fala, assim, de “sentido interdiscursivo” tanto para as locuções ou os enunciados cristalizados ligados regularmente às palavras, contribuindo para lhes dar “um valor simbólico” – por exemplo, para
passarinho, unidades como “comer como um passarinho” (1993b:316) – quanto para unidades muito vastas. (Grifos do autor.) (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 286.)
Charaudeau e Maingueneau afirmam, inclusive, que é possível explorar a distinção entre intertexto e interdiscurso. Os autores citam Adam106, que descreve o “intertexto” como “os ecos livres de um (ou de vários) texto(s) em outro texto”, independentemente de gênero, e de “interdiscurso” como o conjunto dos gêneros que interagem em uma conjuntura dada. Consideram que, por sua vez, Charaudeau (1993d) vê no “interdiscurso” um jogo de reenvios entre discurso que teriam tido um suporte textual, mas de
103 MAINGUENEAU, 2000, p. 41-42. 104 POSSENTI, 2003, p. 253.
105 POSSENTI, 2003, p. 255. 106 ADAM, 1999, p. 85.
cuja configuração não se teria memória; por exemplo, no slogan “Danoninho vale por um bifinho”, é o interdiscurso que permitiria as inferências do tipo “os bifes de carne têm um alto valor proteico, portanto devem ser consumidos”. Por sua vez, o “intertexto” seria um jogo de retomadas de textos configurados e ligeiramente transformados, como na paródia.
As formações discursivas não poderiam ser consideradas independentemente umas das outras. A identidade de um discurso apresenta-se indissociável de sua emergência e de sua manutenção através do interdiscurso. “A enunciação não se desenvolve sobre a linha de uma intenção fechada; ela é de parte a parte atravessada pelas múltiplas formas de retomada de falas, já ocorridas ou virtuais, pela ameaça de escorregar naquilo que não se deve jamais dizer”107.
Finalmente, é possível afirmar que os argumentos aqui apresentados remetem-nos ao texto “Dialogismo” e Romance ou Bakhtin através de Dostoievski, de François, em que são analisados os vínculos entre “dialogismo” e centralidade do romance no pensamento de Bakhtin e, mais especificamente, dos romances de Dostoievski. O estudioso afirma que é difícil precisar o significado dessa palavra (dialogismo), contudo, pode-se sugerir uma definição: falar “com uma certa pragmática ou falar de, desenvolvendo as qualidades semânticas do objeto, interrogar-se sobre os dialógicos, falar a propósito de, com os movimentos que isso representa, falar de outro modo que (responde-polemiza), falar sob o olhar de [...]”108
Essa definição, conjugada às exposições apresentadas anteriormente, fundamenta os processos de entrecruzamentos textuais e são conceitos especialmente importantes para a investigação na ciência literária sobre os procedimentos de criação dos textos.
Neste sentido, os conceitos de polifonia e dialogismo aqui apresentados são imprescindíveis à análise dos textos de Modesto Carone em sua relação com os textos de Franz Kafka, de acordo com o que se propôs inicialmente nesta tese.