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O bar estava decorado com um tema náutico piroso. Cordas grossas envolviam vigas secas que queriam parecer estacas de um pontão. Redes de pesca adornavam as paredes e estavam cheias de estrelas-do-mar, caranguejos, boias e bandeiras náuticas. Um pirata de peluche só com um braço, um gancho e um bigode descaído recebia os clientes à porta. Stan Hurley passou os olhos pela decoração. Desde que tivessem bourbon e algo salgado para comer, não lhe fazia diferença. Gostava de beber. Fizera-o em seis dos sete continentes e bebera o melhor bourbon que o dinheiro podia comprar nos melhores estabelecimentos do mundo, além de ter entrado em bares improvisados em buracos do inferno do Terceiro Mundo e emborcado bourbon americano contrafeito que sabia a diluente de tinta. O Crab Shack do Aeroporto Internacional de Baltimore tinha falta de gosto, sim, mas o álcool era a sério e, naquele momento, isso era tudo o que importava ao velho agente clandestino ao serviço da CIA.

Aquela coisa de Rapp tinha-o deixado de mau humor — não que fosse conhecido pela sua personalidade esfuziante, mas, naquele dia, estava particularmente azedo. Era um sacana carrancudo e seria o primeiro a reconhecê-lo. Aquela embrulhada em Paris, porém, deixara-o mesmo irritado. O líquido castanho que fazia rodopiar no copo ajudava-o a concentrar-se, dessa maneira meditabunda que tantas vezes o levava a encontrar o caminho para sair da porra de uma alhada. Até certo ponto, culpava-se a si mesmo, mas apenas por não ter gritado mais alto e mais vezes e por não ter esmurrado umas quantas cabeças. Nunca lhe passaria pela cabeça tocar em Irene Kennedy. Era como família para si e, claro, essa era parte do problema. Ele sobrevivera à explosão que matara o pai dela e desde então que vivia com essa culpa. Sabia que Stansfield estava afetado de forma semelhante, se não pior, e isso apenas aumentava o problema. Não que Irene não tivesse os seus talentos; o que se passava era que tinham um grande ponto cego no coração no que lhe dizia respeito. Isso tornava tudo

mais difícil para Hurley. Aquele era o sarilho dela, e ele tinha-a deixado ficar mal. Deveria ter-se intrometido e posto fim àquela coisa meses antes.

Bebericou o seu bourbon e recordou a primeira vez que pousara a vista em Rapp. O instinto dissera-lhe tudo o que precisava de saber. Não gostava dele e não confiava nele. Tinha dado o seu melhor para o obrigar a sair do programa, mas Rapp revelara-se mais duro de quebrar do que ele imaginara.

O cabrão tinha-os enganado e Irene era demasiado ingénua para o perceber.

Rapp só queria saber de si mesmo. Era uma bola demolidora humana, decidido a matar todos os terroristas filhos da puta a que pudesse deitar a mão.

Um sorriso rasgou o rosto curtido de Hurley. Ao menos os objetivos de Rapp eram dignos. Tinha de reconhecer isso, mas esse não era o problema.

Ele tinha tanta vontade de matar os cabrões quanto Rapp, mas as coisas eram um pouco mais complicadas. Aquele era um trabalho delicado, em que a paciência era a maior virtude. Sim, era preciso ter cabeça e estômago para matar e estar disposto a sujar as mãos, mas também era preciso ter a paciência de um caçador. Havia um motivo para lhe chamarem

«clandestino». Era importante ser discreto e manter o máximo de pessoas na ignorância. Rapp deixara um maldito rasto de cadáveres à volta do Mediterrâneo e chamara demasiada atenção para o trabalho deles. Tinham discutido sobre isso em Londres, uns meses antes. Hurley esforçara-se ao máximo para o embebedar o suficiente para que ele se abrisse. Tudo o que conseguira sacar-lhe era que não se importava que soubessem que ele andava atrás deles. Queria que assim fosse. Queria que os seus alvos dormissem com um olho aberto. Queria que soubessem que ele andava atrás deles.

Hurley tinha-se passado. Dera-lhe um sermão de todo o tamanho, mas Rapp parecia imune a tudo o que ele lhe dissesse. Quando lhe exigiu uma resposta, Rapp explicou calmamente o preço psicológico que planeava fazer aqueles homens pagarem. Que não bastava simplesmente matá-los. Queria que ficassem acordados à noite, a pensar quem andaria atrás deles. Queria que passassem o dia inteiro a olhar para trás e a espreitar debaixo de todos os carros em que andavam e de todas as camas em que dormiam. Queria enlouquecê-los. Hurley sabia que tinha problemas, mas começou a recear que Rapp tivesse mesmo um parafuso a menos. E depois ele explicou-lhe o que o motivava. Milhares de pessoas em todo o mundo passavam a noite

sem dormir, a lamentar a perda de entes queridos às mãos daqueles cobardes. Rapp queria que eles sentissem medo genuíno. Queria que ficassem sozinhos com os seus pensamentos e que confrontassem o que tinham feito, apercebendo-se de que isso levaria a que morressem.

Hurley lembrou-se do calafrio involuntário que lhe percorrera a coluna naquela noite. Lembrou-se de olhar para Rapp e de pensar que era alguém a temer, quando Stan Hurley não temia ninguém. A bebericar o seu bourbon ao balcão, revisitou aquela noite em Londres e perguntou-se porque não teria posto um fim a tudo aquilo então. Se tivesse ido falar com o psicólogo ou com Stansfield, eles teriam chamado Rapp, mas uma parte de si gostava da ideia de o atiçar àqueles cabrões. A América tornara-se demasiado cautelosa —oferecera a outra face uma dúzia de vezes a mais, na sua opinião. Havia algo de básico e satisfatório em deixar que Rapp continuasse a sua matança. Agora, sabia que isso tinha sido um erro... um erro terrível.

Aquela pequena operação discreta tornara-se pública de uma forma muito má, e cabia-lhe garantir que a confusão se resolvia antes que se transformasse em algo pior.

Fitou a bebida ambarina como se fosse uma fogueira e permitiu que a sua mente seguisse por um corredor e considerasse uma opção que não lhe agradava muito usar. Não seria a primeira vez que teria de matar um dos seus irmãos, mas, nas outras ocasiões, tratava-se de traidores. Três, no total, ao longo de todos aqueles anos, e a ordem não o fizera sequer pestanejar.

Lembrava-se de cada uma dessas mortes como se tivesse sido no dia anterior. Alvejara os primeiros dois na cabeça e quase decapitara o terceiro com uma navalha comprida. Perguntou-se se teria de matar Rapp. A questão não fora discutida e, na opinião de Hurley, não precisava de o ser.

Ou Rapp se metia na linha e fazia o que lhe dissessem, ou não havia outra opção.

Ele sabia que o problema era a tendência para a rebeldia que Rapp tinha.

O cabrão era incontrolável e esperto como tudo. Tinha dado a volta a Irene na perfeição. Isso era um desastre dela, mas Hurley devia ter sido mais insistente. Era como se fossem dois pais desavindos e Rapp o filho. Tinham discutido à frente dele, ele vira a sua oportunidade e aprendera a pô-los um contra o outro. Usara-o para obter o que queria e agora Hurley tinha sido chamado para resolver as coisas. Rapp era um elemento imprevisível,

arrogante e incontrolável, mas ainda faltava perceber uma coisa — seria um traidor?

Hurley não se decidia. Parte de si esperava que fosse, enquanto outra parte queria desesperadamente que todos pudessem afastar-se daquela loucura e deixar que as coisas acalmassem. Tudo o que previra acabara a concretizar-se em Paris, e agora cabia-lhe resolvê-lo. Havia meses que avisava tanto Stansfield como Irene quanto a estarem a dar demasiada latitude a Rapp. Dissera-lhes que, mais tarde ou mais cedo, ele haveria de tropeçar e causar um incidente grave. Eles continuaram a apontar para os resultados que Rapp obtinha, como se os fins justificassem os meios.

Hurley sabia que não. A disciplina era essencial naquele tipo de trabalho e Rapp era tudo menos disciplinado. Era um cowboy que tinha o hábito de se desviar do plano estabelecido.

Tomou um trago e inspirou pela boca. Estava com uma vontade louca de fumar um cigarro. Infelizmente, enquanto passara os últimos trinta e tal anos a dar voltas ao mundo para matar gente má, os Estados Unidos tinham cedido à mariquice. Agora, se quisesse um cigarro, teria de atravessar meio átrio até uma sala de paredes de vidro onde todos os fumadores eram postos em exibição como animais de jardim zoológico. Ele só visitara esse espaço uma vez e ficara tão ofendido com todos os atinadinhos que passavam em frente ao espaço com os seus olhares reprovadores que jurara nunca mais tornar a fazê-lo.

— Cambada de ovelhas — resmungou de si para si. — Não sabem porra nenhuma.

— Como? — perguntou o homem sentado à sua direita.

Hurley não estava com vontade, mas estampou um sorriso no rosto.

— Desculpe, estava a falar sozinho. — Fitou de novo o seu copo e esperou que o tipo deixasse o assunto por ali. Precisava de reunir a equipa e ir para o seu voo. Dar uma tareia num empresário qualquer era capaz de complicar as coisas. Felizmente, o tipo deixou-o em paz e ele pôde voltar a pensar em cigarros e em como estava desejoso de chegar a França. Diga-se o que se disser acerca dos Franceses, pelo menos ainda nos deixam fumar.

Uma figura imponente aproximou-se vinda do átrio e sentou-se no banco vazio à direita de Hurley, que observou Victor pelo espelho do bar. Não era esse o seu verdadeiro nome, mas todos o tratavam assim. Na realidade, chamava-se Chet Bramble e, embora não fosse lá muito sofisticado, era

alguém em que podia confiar. Nem cagava sem pedir autorização, e era assim que Hurley gostava que fosse. Se tivessem sido eles os dois a estar em França, nada daquilo teria acontecido. Victor sabia seguir ordens e Hurley era demasiado astuto para não dar por quatro guarda-costas. Pela centésima vez desde que soubera do fiasco, perguntou-se como poderia Rapp ter feito tamanha asneira.

— O Steve e o Todd estão aqui — disse o homenzarrão.

Hurley olhou para Victor. Tinha uma aparência ameaçadora, o que era tanto uma vantagem como um problema. Era bom ter homens grandes por perto quando se precisava de fazer trabalhos pesados ou pregar um bom susto a alguém, mas não serviam para trabalho clandestino. Atraíam demasiadas atenções. Além da estatura avantajada, Victor era mesmo assustador. Anunciava uma violência latente como se tivesse uma tabuleta de néon. Não tinha, de forma alguma, um tamanho aberrante. Media um metro e noventa e três de altura e pesava um pouco mais de cento e dez quilos. O que o fazia sobressair era a cabeça quadrada, o pescoço grosso e os ombros largos. O peito largo estreitava-se até à cintura, sobre um par de pernas poderosas. E o tamanho não era o único problema. A sua característica mais proeminente era uma testa velada que se impunha como um desfiladeiro por cima dos olhos negros e frios. Havia muita gente que não gostava dele. Tinham-no expulsado do exército por dar um soco a um oficial. Hurley também estivera no exército e compreendia qualquer pessoa que achasse que aquela grande máquina verde era um pouco monolítica.

Tinha visto a sua quota de oficiais a precisarem de um bom murro na fuça, pelo que lhe era fácil não ligar às transgressões de Victor.

Além disso, gostava de ter um grande rottweiler por perto, para manter as pessoas atentas. Pegou no copo e chamou o empregado. O homem esguio de camisa largueirona de pirata aproximou-se. Hurley pediu outra bebida e uma cerveja para Victor. Isso era outra coisa que lhe agradava nele. Sabia beber. Não era um desses militares académicos mariconços e tensos que tinham de fazer tudo de acordo com as regras, nem um agente federal inflexível. Aquele não era um trabalho com regras pré-definidas. O que faziam era infringir leis a torto e a direito, sem serem apanhados.

— Detesto viajar sem a porra da arma.

Hurley virou-se para fitar Victor. O homem estava claramente agitado.

— Calma — resmoneou-lhe. Falando pelo canto da boca, disse: — Por que raio é que achas que perco tanto tempo a ensinar idiotas como tu a usar as mãos? Um tipo tão forte como tu não precisa de arma.

— A menos que esteja num tiroteio.

Victor franziu o sobrolho e amarrotou o guardanapo em miniatura.

— Quando andamos de avião, seguimos todos as mesmas regras. Não há armas.

— Porque é que não vamos num dos jatos da Companhia?

Hurley não gostava de se explicar a subordinados, mas decidiu que daria a Victor aquela resposta.

— Estamos a tentar ser discretos. Não te preocupes... tratei das coisas.

Vamos ser recebidos por agentes, que terão as armas que queres.

Victor tomou um gole de cerveja, sugou o lábio inferior por um segundo e perguntou:

— É desta que finalmente me vai deixar matar o cabrão?

Hurley contemplou a bebida acabada de servir e a pergunta. Victor gostava de ir direito ao assunto, em vez de estar com rodeios.

— Não foi pela tua cara bonita que decidi levar-te comigo.

Satisfeito com a resposta, Victor sorriu e bebeu um grande trago.

Hurley viu a satisfação do seu sabujo e isso fê-lo parar para pensar. Os traidores que executara... fizera-o seguindo ordens. Nunca sentira qualquer alegria nisso. Victor parecia mesmo empolgado com a perspetiva de matar outro membro da equipa. Hurley sabia que os dois não se adoravam, mas aquilo parecia-lhe um pouco excessivo.

— Esperemos apenas que não chegue a tanto.

— Porquê? — resmungou Victor. — Detesta o sacana tanto quanto eu.

— O que eu sinto ou deixo de sentir por ele não é da tua conta — ripostou Hurley. — Vamos dar-lhe uma oportunidade de vir pelo seu próprio pé.

— E se ele não o fizer?

Hurley fitou a sua bebida durante muito tempo e depois despachou-a em dois grandes tragos. Pousou o copo no balcão e deixou umas notas ao lado.

Quando se levantou, respondeu:

— Se não o fizer, vale tudo.

Começou a afastar-se, enquanto, atrás dele, Victor bebia dois grandes goles e passava o antebraço pela boca, revelando um sorriso largo. Estava

mesmo contente com a perspetiva de acabar com a vida de Rapp.

CAPÍTULO 12

Paris, França

Monsenhor De Fleury arrastava os pés o mais depressa que podia.

Soubera o que faria ainda antes de Fournier ter chegado. Os três visitantes de pele morena tinham uma presença ominosa, pelo menos dois deles. O alto e bem vestido até era cordial, mas os outros dois eram malvados.

Tresandavam a ameaça. Tinha proporcionado muitos encontros daquele género e estava habituado a lidar com guarda-costas. Aqueles dois não faziam parte de uma equipa de segurança. Não tinham essa atitude cuidadosa e atenta. Só se preocupavam consigo mesmos.

De Fleury era um homem fiel, mas essa fé dedicava-se a Deus e não a homens. Ele vira o que homens malignos eram capazes de fazer e, sendo pastor, competia-lhe ajudar a proteger o rebanho dos lobos. Aqueles homens não eram ovelhas e decerto não prezavam o interesse de França.

Eram assassinos. Já lidara com homens assim e reconhecia-o no olhar deles e na forma como se moviam.

O velho padre não sabia o que Fournier, esse falinhas-mansas, andaria a tramar, mas ia descobrir. A igreja estava fechada e, para além de dois vigilantes que patrulhavam o perímetro, De Fleury encontrava-se sozinho.

Avançou pela penumbra, atravessou o transepto e, imediatamente antes do púlpito, virou à direita e seguiu pelo corredor exterior da nave, passando pelos altares menores e chegando por fim aos confessionários de madeira.

Abriu cuidadosamente a terceira porta e entrou. Deixou a luz apagada, servindo-se apenas do tato. Depois de se sentar no banco almofadado, encostou a cabeça à parede forrada a madeira, mesmo por cima de uma grade de ventilação da capela lá em baixo. Descobrira aquela peculiaridade acústica muitos anos antes, enquanto escutava atentamente paroquianos em confissão. Uma missa privada estava a ser celebrada na capela da cripta e as vozes subiam com tanta clareza que se lhe tornara difícil concentrar-se no penitente sentado do outro lado da tela.

De Fleury mantivera os seus contactos com os Serviços Secretos de França ao longo dos anos, e uma igreja famosa como a do Sagrado Coração, com multidões de turistas sempre a passar por lá, era o lugar perfeito para encontros com fontes e operacionais. Sem que se soubesse porquê, aquele Fournier gostava da ideia de ter os seus encontros na cripta e o monsenhor não fizera qualquer esforço para o dissuadir ou para lhe dizer que as conversas podiam ser ouvidas no confessionário ali em cima. Os segredos eram algo que estava habituado a ouvir e a não repetir, mas não se punha à escuta por mera curiosidade pessoal. Havia qualquer coisa no tal Fournier que não lhe cheirava bem. Não era nada drástico, mas De Fleury passara toda uma vida a observar os outros. Além de ser bastante emproado, transparecia em Fournier uma dissimulação que o padre notara desde o início. O homem era um ator e um manipulador, e De Fleury calculou que aquilo que o incitava era a necessidade de alimentar a sua personalidade narcisista.

Chocava-o que a Direção-Geral não tivesse detetado tais traços de caráter numa altura mais precoce da sua carreira. Colocar alguém com uma personalidade assim à cabeça da Divisão de Ação Especial parecia ser muito perigoso. Os encontros anteriores na cripta tinham sido sobretudo com agentes duplos que trabalhavam para outros governos, e embora De Fleury tivesse ouvido algumas coisas muito interessantes nos últimos anos, nada se lhe apresentara como uma ofensa grave à República. Naquela noite, porém, tinha um pressentimento ominoso de que os melhores interesses da República não estavam a ser zelados.

À medida que as palavras começaram a subir da cripta, a sua preocupação apenas aumentou. Os convidados eram muçulmanos e a sua falta de respeito era obscena. Antes de conseguir superar o choque inicial perante as injúrias à sua bela basílica, Fournier disse algo que o deixou sem fôlego.

Decerto não estariam a falar dos assassinatos sanguinários do hotel que tinham paralisado Paris? Segundos depois, tal pergunta obteve resposta sem margem para dúvidas. A cada momento que passava, o padre ia ficando cada vez mais alarmado com o que ouvia. O que raio estaria Fournier a fazer, associando-se àquelas bestas? Porque haveria de os ajudar, fosse como fosse?

Por dinheiro, claro, e algum acordo que a DGSE fizera com eles. Um pacto faustiano, sem dúvida estabelecido por homens negligentes sem a

menor perceção da História. De Fleury assistira em primeira mão aos terríveis resultados do apaziguamento. Era um caminho escolhido por mentes fracas, moralmente incapazes de confrontar o mal. Ele via muitos paralelos entre os nazis, os comunistas e aqueles jihadistas. No fundo, todos eram sociopatas — obcecados com os seus próprios desejos tribais e absolutamente incapazes de conferir justiça ou compaixão a quem não fizesse parte da tribo. Se não se fosse um deles, era-se menos humano e, por conseguinte, merecedor de qualquer tratamento que eles considerassem adequado. E se isso significasse fazer explodir aviões e autocarros cheios de civis inocentes, pois que assim fosse.

De Fleury não se moveu quando o encontro chegou ao fim. O protocolo normal era que Fournier e os seus convidados saíssem a intervalos previamente combinados, a partir de locais diferentes. As portas fechar-se-iam por si mesmas. O padre ficou imóvel no confessionário escuro durante muito tempo, a analisar o que ouvira e a considerar o que faria com aquela informação. Os seus contactos no governo já não eram o que tinham sido. A maioria morrera ou reformara-se. E ele não tinha a certeza de confiar em qualquer um dos que restavam para transmitir informação com aquela magnitude. Havia sempre a comunicação social, mas não lhe dedicava qualquer simpatia, além de não ter estômago para alardear os segredos sujos da República nas primeiras páginas dos diários. Teria de arranjar outra forma.

A cautela era da maior importância. Um homem como Fournier faria tudo para proteger a imagem. O padre sabia como aquilo acabaria. Com a sua idade, não custaria nada sufocá-lo enquanto dormia, ou atirá-lo por um lanço de escadas abaixo. Qualquer uma dessas coisas o mataria e ambas seriam tão plausíveis que a polícia nem se daria ao trabalho de realizar uma

A cautela era da maior importância. Um homem como Fournier faria tudo para proteger a imagem. O padre sabia como aquilo acabaria. Com a sua idade, não custaria nada sufocá-lo enquanto dormia, ou atirá-lo por um lanço de escadas abaixo. Qualquer uma dessas coisas o mataria e ambas seriam tão plausíveis que a polícia nem se daria ao trabalho de realizar uma

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