4 ANÁLISE DOS RESULTADOS
4.3 OS REPOSITÓRIOS DIGITAIS E O ENSINO DA GEOGRAFIA
4.3.1 Banco Internacional de Objetos Educacionais – BIOE
O repositório Banco Internacional de Objetos Educacionais (BIOE)12 foi desenvolvido
pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, a Rede Latino-americana de Portais Educacionais – RELPE, a Organização dos Estados Ibero-americanos e outras instituições. Sua implementação ocorreu no ano de 2008 e sua missão é manter e compartilhar recursos educacionais digitais de livre acesso, chamados por nós de objetos de aprendizagem, considerados relevantes e adequados à realidade da comunidade educacional local, respeitando-se as diferenças de línguas e culturas regionais (BRASIL, 2008).
O BIOE conta com recursos de acessibilidade, permitindo seu uso por pessoas com necessidades especiais de visão, ao utilizarem os recursos de contraste e ampliação no tamanho da letra, facilitando a navegação pelo site. O repositório tem um espaço para troca de experiências entre seus usuários, para isso é necessário que seja feito
um cadastro13, através do qual é possível publicar os planos de aulas das práticas
desenvolvidas e assim contribuir para um trabalho colaborativo.
A organização do BIOE em seções, permite a busca por recursos educacionais digitais de forma orientada. A busca pode ser realizada por níveis de ensino: educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, educação profissional, educação superior e modalidades de ensino; os quais são subdivididos em componentes curriculares e/ou área de conhecimento (FIGURA 4).
Figura 4 – Visão inicial do portal do BIOE
Fonte: adaptado pelo autor de http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/.
A busca é bastante morosa e dispendiosa, tendo em vista que se deve olhar um a um cada recurso educacional digital14 (RED). Para minimizar esse tempo é possível
buscar pelos títulos do RED em ordem alfabética ou, até mesmo, digitando palavras- chaves e algumas letras. Há ainda outra opção, em que se utiliza de um mecanismo de busca avançado, a qual permite a inserção de palavras-chaves em relação aos
13 Para acessar e baixar os recursos educacionais digitais do site não é necessário a realização de cadastro.
14 Optamos por usar a nomenclatura utilizada pelo repositório digital para designar o objeto de aprendizagem, sendo assim, do ponto de vista conceitual, entendemos o RED com uma OA.
vários quesitos disponíveis15, permitindo assim, uma busca menos dispendiosa,
entretanto mais restritiva.
Com essas características percebe-se os preceitos que um repositório digital deva ter, conforme abordado por Litto (2010), que é ir além do armazenamento dos recursos digitais, a disponibilidade de meio para sejam feitas, buscas desses recursos. Assim, o BIOE cumpre bem o papel que se espera de um repositório.
Além dessas características, o BIOE disponibiliza acesso a sites desenvolvidos pelo Ministério da Educação (MEC), como o Portal do Professor, a TV Escola e o Domínio Público, que também disponibilizam objetos de aprendizagens e outros softwares educativos. Entretanto, não serão aqui analisados, uma vez que esses não têm como objetivo principal o armazenamento de OA, abrangendo também outros recursos que não são objetivos neste estudo.
No repositório do BIOE há 19.842 recursos digitais educacionais disponíveis, distribuídos nos mais variados tipos de mídia (recursos), sendo esses: animação/simulação, áudio, experimentos práticos, hipertexto, vídeo, software educacional, imagem e mapa. Entre os recursos que mais estão disponíveis são animação/simulação, com 29,88% e o vídeo, com 22,05%, no outro extremo, temos o hipertexto e o mapa, com 1,22% e 0,11%, respectivamente (GRÁFICO 11).
Ao observar os tipos de mídias presentes no BIOE, podemos sugerir que há uma tendência de RED que potencializam um uso mais instrucional, uma vez que há o predomínio de tipos de mídias como vídeo, áudio e imagem. Já os tipos de mídias que potencializam uma utilização construtivista ou construcionista tem grande quantidade em apenas um tipo de mídia – Animação/simulação, é importante ressaltar que, em uma análise mais minuciosa, observou-se que muitos dos RED categorizados nesse tipo, são mais animações de vídeos do que simuladores, ou seja, reforçando ainda mais a tendência instrucionista. Em relação a abordagem sociointeracionista, percebe-se que essa é pouco abordada, no tipo de mídia softwares e experiências práticas.
15 Nível de ensino, autor, título, componente curricular, fonte do recurso, palavra-chave e tipo do recurso.
Gráfico 11 – Quantitativo de recursos digitais educacionais por tipo de mídia disponível no repositório do BIOE.
Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de MEC e MCT (2008).
Entre os níveis de ensino, o ensino médio com 39,17% é o que tem mais RED, seguido pela educação superior 35,05%. A modalidades de ensino, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e a Educação Escolar Indígena são contempladas com apenas 1,24% dos RED (GRÁFICO 12).
Gráfico 12 – Quantitativo de recursos digitais educacionais por nível de ensino disponível no repositório do BIOE.
Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de MEC e MCT (2008).
Nota: * ocorreu uma reorganização nas categorias de nível de ensino, assim, a educação superior passou a ter duas estruturas. ** Estão incluídos nessa modalidade, a educação de jovens e adultos e a educação escolar indígena.
5929 4376 3631 3081 1768 794 242 21 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 Animação/simulação Vídeo Imagem Áudio Experimento prático Software Educacional Hipertexto Mapa Quantidade de RED T ipo de m ídi a 10289 9206 5068 851 523 327 1 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 Ensino Médio
Educação Superior (Nova estrutura) Ensino Fundamental Educação Infantil Educação Profissional Modalidades de Ensino ** Educação Superior* Quantidade de RED Nív ei s de E ns ino
A concentração de recursos educacionais digitais no ensino médio e superior, pode estar relacionada ao fato de que nesses seguimentos o uso de tecnologias tende a ser mais facilmente executado pelos discentes, tendo em vista o grau de desenvolvimento intelectual e autonomia, o que em muito dos casos é necessário para o manuseio do RED.
Já em relação a área de conhecimento, a disciplina de Geografia, envolvendo todos os níveis de ensino, é contemplada com apenas 2,16% dos recursos digitais educacionais. Entre as disciplinas da educação básica é o componente curricular com o menor número de RED. As disciplinas que tem maior número são matemática e física com 20,38% e 14,55%, respectivamente, dos RED (GRÁFICO 13).
Gráfico 13 – Quantitativo de recursos digitais de aprendizagem por área de conhecimento disponível no repositório do BIOE.
Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de MEC e MCT (2008).
O maior número de recursos educacionais digitais nas disciplinas ligadas as ciências exatas e naturais pode estar relacionado ao fato de que em seus componentes curriculares há mais possibilidades de conteúdos que possam ser discutidos de
4574 3266 2093 1590 1438 1420 1118 853 784 743 628 608 554 490 486 438 399 332 316 304 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000 Q ua nti da de de RE D Área de conhecimento
forma prática, o que favorece a elaboração de animações e simuladores16, por
exemplo. Além disso, essas áreas vêm a mais tempo se dedicando a elaboração de tais materiais, quando comparadas aos outros componentes das ciências humanas.
É possível que alguns dos RED que não foram catalogados, para serem utilizados na disciplina de Geografia, possam ser utilizados, dependendo do planejamento que o professor irá fazer. Isso porque a Geografia dialoga com várias as áreas do conhecimento, por ser uma ciência que estuda o espaço geográfico, acaba tendo contato com conteúdos de outras ciências e, desta maneira, o quantitativo de RED pode ser ampliado.
Vale ressaltar que tais recursos podem ser catalogados em mais de um nível de ensino e área de conhecimento. Assim, esses são agrupados em coleções temáticas, o que permite desenvolver trabalhos interdisciplinares, o que torna a assimilação dos conteúdos mais efetiva, possibilitando uma aprendizagem mais integrada e emancipatória, rompendo com a fragmentação do saber, que vivenciamos desde o surgimento da ciência moderna, e com a educação bancária, tão criticadas por Paulo Freire, utilizando uma pedagogia de base sociointeracionista, construtivista e/ou construcionista.
Em relação a disciplina de Geografia, na educação básica, há um total de 442 recursos digitais educacionais, o que representa apenas 2,88% dos disponíveis no repositório para tal nível de ensino. Esses dados evidenciam que precisamos produzir mais RED para o uso da Geografia, tendo em vista o baixo número quando comparado aos outros componentes curriculares.
Conforme a tabela 11 demonstra, o quantitativo de RED distribuídos nos níveis de ensino, na disciplina de Geografia, na educação básica, acompanham a tendência que o BIOE apresenta de uma maneira geral (GRÁFICO 12). Observa-se ainda, na referida tabela, que há no ensino fundamental, séries iniciais, uma concentração no tipo de mídia software educacional e imagem, representando 45% e 21%, respectivamente, já nas séries finais, os tipos de mídias que mais se destacam são
as animações/simuladores e o vídeo, compreendendo cerca de 26% cada. No ensino médio, observa-se um predomínio dos tipos de mídia vídeo e imagem, com 38% e 24%, respectivamente, dos recursos educacionais digitais disponíveis.
Tabela 11 – Quantidade de recursos educacionais digitais disponíveis para a disciplina de Geografia, na educação básica, segundo o tipo de mídia e o nível de ensino indicado, presentes no repositório do BIOE.
Tipo de mídia x nível de ensino
Fundamental – Séries Iniciais
Fundamental –
Séries Finais Médio
Animação/simulador 15 33 43 Áudio 7 16 30 Experimentos práticos 0 0 1 Hipertexto 7 6 2 Imagem 22 15 52 Mapas 1 5 3 Software educacional 46 19 2 Vídeo 3 32 83 Total do componente curricular 101 126 215* Total disponível no repositório 3440 1628 10289
Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de MEC e MCT (2008).
Nota: * No site o número total de RED no ensino médio é 215, porém ao somar os diferentes tipos de recursos chegasse ao total de 216, isso se deve ao fato de um dos RED estar compreendido em mais de um tipo mídia.
Esses dados demonstram que nas séries iniciais, há uma tendência de se utilizar RED que permitam aos alunos uma interação com o objeto de estudo, além de permitir reconhecer certas realidades, sugerindo uma tendência de uso numa abordagem pedagógica construtivista, construcionista e/ou sociointeracionista. Já nas séries finais, esse cenário começa a perder força, tendo em vista o predomínio dos tipos de mídias ligados à abordagem pedagógica instrucionista, salvo algumas animações/simuladores que exigem que o aluno acione algum comando para sua progressão, no entanto muito distante da abordagem construtivista. A mesma situação se observa no ensino médio, onde a abordagem instrucional é também a mais indicada pelos tipos de mídias mais comuns presentes.
Essa situação acaba levando os alunos a um papel de passividade, o que não contribui para o desenvolvimento de um sujeito ativo e autônomo, tipo de cidadão e profissional que a sociedade tanto necessita nos dias de hoje.
Um outro fato que merece ser destacado, a nosso ver, e que em muito preocupa, está relacionado a atualização do site do BIOE e da publicação de novos RED
(TABELA 12). Ao navegar pelas seções do repositório, relacionadas a Geografia, percebemos que este não recebe atualizações, tendo em vista que os RED foram postados até o ano de 2013. Além disso, alguns links dos RED estão quebrados e quando entramos em contato com o suporte técnico do repositório não há retorno. O que nos leva a questionar se o site ainda é visto pelo governo como uma ferramenta de apoio aprendizagem.
Tabela 12 – Quantidade de recursos educacionais digitais publicados por ano no repositório do BIOE.
Tipo de mídia x nível de ensino Fundamental – Séries Iniciais Fundamental – Séries Finais Médio 2008 16 59 83 2009 29 20 15 2010 7 18 19 2011 38 23 29 2012 9 5 63 2013 0 1 6 Total 101 126 215
Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de MEC e MCT (2008).
Esses fatos podem contribuir para que os professores reduzam suas visitas ao BIOE e, até mesmo, desmotivar a busca e utilização de REDs.