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CAPÍTULO I – DADOS GENÉTICOS HUMANOS: A NATUREZA E SUAS

2. BANCOS E BASES DE DADOS GENÉTICOS: RESERVA DE

Dada a diversidade de modelos de bancos e bases de dados genéticos, adotamos uma definição ampla, conforme o relatório Creation and governance of Human Genetic Research Databases da Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE): “qualquer coleção de amostras das quais podem derivar amostras genéticas e dados relacionadas (tais como genealógicos, clínicos etc.) organizados de modo sistemático e usados para fins de pesquisa”112. Isso exclui, portanto, os bancos de dados genéticos destinados à investigação criminal.

A literatura estrangeira sobre o tema costuma apontar como elemento distintivo dos bancos e das bases de dados em comparação a outros tipos de coleções de amostras de DNA, o fato de eles não estarem vinculados a um projeto de pesquisa específico.

Os bancos de DNA ou biobancos, de um modo geral, realizam a coleta, o processamento do material ou da amostra biológica, o transporte, o armazenamento e a distribuição dos recursos genéticos.113 Como ressalta Sandrine Cazé de

112 Tradução livre: “any collection of samples from which genetic samples can be derived and related data (e.i. genealogical, clinical, etc.) organised in a systematic way and used for purpose of research” (OCDE, Creation and governance of Human Genetic Research Databases. p.34. Disponível em: http://www.oecd.org/document/50/0,2340,en_2649_34537_37646258_1_1_1_1,00.html Acesso em:

17/09/2008).

113 Como explica o relatório sobre as Coleções de Recursos Biológicos Humanos da INSERM: “Alguns laboratórios se especializaram na constituição de coleções colocadas à disposição de outras equipes de pesquisa. Além da conservação, eles asseguram a transformação, a distribuição e a cessão de amostras para usos diversificados de pesquisa. Assim, à atividade de coleta soma-se aqui uma atividade de serviço” (Tradução livre: “Certains laboratoires se sont spécialisés dans la constitution de collections mises à disposition d’autres équipes de recherche. Outre la conservation, ils assurent la transformation, la distribution et la cession d’échantillons pour des usages diversifiés de recherche. Ainsi, à l’activité de collecte s’ajoute ici une activité de service” (INSERM. Les collections de ressources biologiques humaines. Repères. fev./2005. p. 5. Disponível em www.inserm.fr. Acesso em: 30 nov./2006).

Montgolfier: “... a noção de serviço e de trocas é um critério maior de toda estrutura denominada banco.”114

Os bancos de DNA contêm, normalmente, amostras biológicas (extratos de DNA, células, tecidos, órgãos) que são associados a outros dados essenciais à pesquisa genética. Em geral, as amostras biológicas correspondem, também, a dados genéticos digitalizados.115 Há, ainda, bases de dados que não contam com amostras biológicas e são constituídos apenas com dados digitalizados.

Independente da existência das amostras biológicas, neste estudo, pretendemos enfocar a informação genética em seu aspecto imaterial. É justamente a informação contida nas amostras biológicas que lhes agregam valor tanto para a pesquisa como para o mercado.116 Como salienta Paula Sibilia: “Uma vez seqüenciado o código, até mesmo essas moléculas tornam-se prescindíveis, pois o

‘segredo da vida’ já passou para as mãos da tecnociência”.117

Esses bancos reúnem um grande número de dados indispensáveis ao desenvolvimento da farmacogenética, da genética de populações e da medicina personalizada. Em muitos países, sobretudo nos países centrais, tem sido considerado essencial para a definição de políticas públicas o conhecimento da genética, em especial para estudos epidemiológicos e para prevenção de

114 Tradução livre: “… la notion de service et d’échanges est un critère majeur de toute structure nommée banque.” (MONTGOLFIER, S. C. de. Collecte, stockage et utilisation des produits du corps humain dans le cadre des recherches en génétique: état des lieux historique, éthique et juridique; analyse des pratiques au sein des biothèques. Tese de doutorado. Université René Descartes. Paris, 2002, p. 30).

115 Por outro lado, deve-se considerar como dados genéticos tanto o material como a informação, visto que esta pode ser retirada daquele (RMGA, DESCHÊNES M.; CARDINAL G., KNOPPERS B. M.; LABERGE C. et al., Énoncé de principes sur la conduite éthique de la recherche en génétique humaine concernant des populations. Recherche en Santé, v. 30, 2003, 1-4 (supplément). Disponível em: www.rmga.ca, Acesso em:16/04/2009).

116 Desse modo, não nos ocuparemos de questões que dizem respeito exclusivamente ao aspecto material das amostras, tais como regras de segurança sanitária.

117 SIBILIA, P. In: O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. 2.

ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 83.

doenças. É conferida igual importância ao desenvolvimento de novos tratamentos e medicamentos pela farmacogenômica.118

Em julho de 2008, foi aprovada uma lei nos Estados Unidos para promover a pesquisa genética destinada a garantir o acesso de todos à medicina personalizada.

Um dos instrumentos principais para o cumprimento desse propósito é a construção de grandes bancos de material e informação genética. Na seção 2 dessa Lei, que contém as justificativas para sua edição, consta expressamente que:

Dando-se conta de que a promessa da medicina personalizada requererá contínua liderança Federal e colaboração de agências, expansão e acelaração das pesquisas genômicas, uma força de trabalho de genômica competente, incentivos para encorajar o desenvolvimento e a coleta de dados sobre a validade analítica, clínica e utilidade dos testes e terapias genômicas, bem como a melhora da regulação sobre a qualidade dos testes genéticos, sobre as propagandas de testes genéticos diretos ao consumidor e sobre o uso de informações genômicas pessoais. 119

Após o sequenciamento do genoma humano, houve uma mudança de enfoque nas pesquisas em genética e genômica: além da continuidade das pesquisas sobre as doenças chamadas monogenéticas (vinculadas a um gene específico, como a

118 São pontos incluídos nos objetivos de praticamente todos os bancos de dados antes referidos. Ver também: MONTGOLFIER, S. C. Collecte, stockage... 2002, p. 23 e LABERGE, C. La génomique des populations exige-t-elle une “nouvelle” éthique? In: GRIMAUD, M. A.; HERVÉ, C.;

KNOPPERS, B.; MOLINARI, P.; MOUTEL, G. (dir.). Éthique de la recherche et santé publique: où en est-no? Paris: Dalloz, 2006, p. 19.

119 Tradução livre: “Realizing the promise of personalized medicine will require continued Federal leadership and agency collaboration, expansion, and acceleration of genomics research, a capable genomics workforce, incentives to encourage development and collection of data on the analytic and clinical validity, and utility of genomic tests and therapies, and improved regulation over the quality of genetic tests, direct-to consumer advertising of genetic tests, and use of personal genomic information” (Genomics and Personalized Medicine Act de 15 de julhol de 2008). É o que destacam, também, Joly e Knoppers: “Para assegurar a rápida validação de descobertas recentes da farmacogenômica, cientistas necessitarão de acesso a bases de dados populacionais de larga escala, com informações clínicas e moleculares vinculadas (por exemplo, o UK Biobank) para ajudar a tornar as hipóteses em dados válidos que possam confirmar a correlação entre variação genética, meio ambiente e efeitos de drogas”. Tradução livre: “To ensure the rapid validation of fundamental phamarcogenomic, research finding, scientists will need access to large population-based databases of linked molecular and clinical information (for example, UK Biobank) to help turn hypotheses into valid data that can confirm the correlation between genetic variation, the environment and drug related effects.” (KNOPPERS, B. M. JOLY, Y. Pharmacogenomic data sample, collection and storage:

ethical issues and policy approache. Pharmacogenomic, 2006, v. 7, n. 2, p. 219. Disponível em:

www.futuremedicine.com Acesso em: 25/08/2007).

fibrose cística e a doença de Huntington), há um grande investimento naquelas relativas às doenças multifatoriais ou complexas. Como explica Claude Laberge:

As novas cartas, o aumento do número de novos marcadores, a identificação em cadência geométrica de novos genes, as novas tecnologias de seqüenciamento em alta velocidade assim como os biochips permitem, atualmente, que se debrucem sobre a descoberta das

“variantes genômicas” de suscetibilidade às doenças comuns, complexas e multifatoriais.

Contrariamente às doenças hereditárias que decorrem de mutações “maiores” que por elas próprias supõem uma forte probabilidade, senão uma certeza, de contrair uma doença, os componentes genéticos das doenças complexas (como asma, hipertensão, diabete, certos tipos de câncer e psicoses) agem, freqüentemente, de maneira limitada, mas em conjunto com outras para aumentar o risco relativo da doença em conjunção com os ambientes de expressão. Trata-se aqui de uma rede de influências metabólicas, complexas e não lineares.120

Para ilustrar, indicamos, brevemente, algumas das linhas prioritárias da pesquisa enunciada em artigo da Revista Nature, por cientistas do US National Research Human Genome Institute:

• contribuição da genética no desenvolvimento de doenças e na resposta a medicamentos;

• descoberta de variações genéticas que contribuem para resistência a doenças e boa saúde;

• suscetibilidade a doenças e resposta a drogas e predição antecipada de doenças;

• desenvolvimento de terapias baseadas em genes – medicamentos sobretudo, o design genético foi postergado, mas continua sendo um alvo;

120Tradução Livre: “Les nouvelles cartes, l’augmentation du nombre de nouveaux marqueurs, l’identification à cadence géométrique de nouveaux gènes, les nouvelles technologies de séquençage à haut débit ainsi que les bio-puces permettent maintenant de s’attaquer à la découverte des ‘variantes génomiques’ de susceptibilité aux maladies courantes, complexes et multifactorielles.

Contrairement aux maladies héréditaires qui découlent de mutations ‘majeures’ qui par elles-mêmes supposent une forte probabilité, sinon la certitude, de contracter une maladie, les composantes génétiques des maladies complexes (comme l’asthme, l’hypertension, le diabète, certains cancers et psychoses) agissent de façon souvent limitée, mais de concert avec d’autres, pour augmenter le risque relatif de maladie en conjonction avec les environnements d’expression. Il s’agit ici de réseaux d’influences métaboliques, complexes et non linéaires.” (LABERGE, C. Introduction. In: KNOPPERS, B. M.; SCRIVES, C.. Génomique, santé et société: questions émergentes pour les politiques publiques. Canadá: Projet de recherche sur les politiques publiques, 2004, p. 16).

• investigar como as informações genéticas de risco devem influenciar os comportamentos em relação à saúde e suas consequências.

No artigo, os autores destacam que na base de todas essas pesquisas estão os dados gerados pelo HGP (Human Genome Project) e outros bancos de dados. A informação e as tecnologias que permitiram esse processamento são as ferramentas essenciais da pesquisa genética.

O conhecimento das características genéticas de uma população, de suas variações genéticas, dos mecanismos de evolução e de adaptação, e das mutações constitui, desse modo, ferramenta básica para estudos epidemiológicos, para a farmacogenética e a farmacogênomica, a compreensão das doenças multifatoriais e para entender como se dá a interação entre genoma e ambiente.121

O relatório Creation and governance of Human Genetic Research Databases da OCDE sobre a criação e a governança das bases de dados genéticos humanos para pesquisa ressalta a diversidade de modelos adotados por essas bases de dados.

Esse documento descreve a diferença entre várias bases de dados quanto:

• ao número de amostras estocadas e à quantidade de indivíduos doadores; ao critério de seleção desses indivíduos (qual a população ou grupo de indivíduos será o objeto de estudo);

• ao tipo de dados incluídos nas bases (se apenas relativos ao DNA ou RNA, ou também a outros tipos de dados, como histórico médico, fenótipo, etnia, genealogia, dentre outros);

• à amplitude das finalidades a que serão destinados os dados coletados;

• ao tipo de financiamento (se público, privado ou em parceria entre setor público e privado);

• ao modo de garantir a privacidade dos indivíduos participantes e a confidencialidade dos dados;

121 CAMBON-THOSEN, A.; KNOPPERS, B. M.; SALLÉE, C. RIAL-SEBBAG, E. Les bases de données génétiqu\es populationelles: un encadrement éthique et juridique spécifique nécessaire? GenEdit. vol. 3, n. 1, 2005, p. 2.

• à forma de obtenção do consentimento dos participantes; à definição da propriedade dessas bases de dados.

De modo geral, esses bancos de dados genéticos destinam-se, sobretudo, a servir como repositório de material para pesquisas futuras. Trata-se de recursos estratégicos e, em alguns casos, raros.122 São reservatórios de material e dados genéticos com a finalidade de fornecer essa “matéria-prima” da pesquisa genética e genômica a diversas instituições de pesquisa e a companhias do setor biotecnológico.

Nessa perspectiva, várias bases de dados genéticos foram disponibilizadas na Internet para o acesso público. Os dados resultantes do Projeto Genoma Humano estão, assim, disponíveis no site do projeto para qualquer pesquisador. Esses dados estão situados no GenBank, uma base de dados de seqüências genéticas, coordenada pelo National Center of Biotechnology do US – National Institute of Health. Essa base armazena e distribui os dados enviados pelos cientistas ou por outras bases de dados públicas, garantindo o acesso livre e gratuito.

Seguindo esse mesmo modelo, o Projeto Hapmap reúne instituições de diversos países123 para catalogar semelhanças e diferenças genéticas entre os seres humanos. O estudo vem sendo realizado com aproximadamente 270 amostras de DNA, coletadas em quatro populações: uma africana, duas asiáticas e uma população norte-americana com ancestrais europeus. O projeto é financiado por instituições públicas e companhias privadas; tem como finalidade construir uma base de dados com o mapeamento da variação genômica da espécie humana, para pesquisas futuras em saúde humana.124 Os dados serão colocados em domínio público.

O EMBL-Bank – Nucleotide Sequence Database está hospedada no European Bioinformatics Institute (EBI) e é financiada por recursos públicos da Comunidade Européia. É constituída por sequências de DNA e RNA fornecidas por

122 MONTGOLFIER, S. C. de. Collecte, stockage et... Paris, 2002, p. 41.

123 Participam do projeto: Japão, Reino Unido, Estados Unidos da América, Canadá, China e Nigéria.

124 In: http://www.hapmap.org

pesquisadores e depósitos de patentes. O acesso é livre e irrestrido. O objetivo dessa base de dados é organizar e distribuir as seqüências de nucleotídeos de todas as fontes públicas disponíveis.125

Assim como o EMBL-Bank, o biobanco do Japão é formado por seqüências de DNA e RNA fornecidas por pesquisadores japoneses ou estrangeiros. Ele é administrado pelo Instituto Nacional de Genética e permite acesso livre às bases de dados via internet. O projeto é financiado pelo governo japonês.

O Japão está desenvolvendo também um banco de dados de SNPs126 da população japonesa, mediante a análise de algumas centenas de DNA. A finalidade da base de dados é a pesquisa da variação genética da população japonesa para desenvolvimento da medicina personalizada e da farmacogenômica. Os dados também são acessíveis livremente pela internet.127

A cooperação internacional é vista, igualmente, como algo essencial. Por isso, o EMBL-Bank, O DNA Database of Japan e o Genbank formam um consórcio internacional – Internacional Nucleotide Sequence Database (INSDC), que provê o intercâmbio e a atualização dos dados.

A partir do final da década de 1990, outro tipo de bancos de dados, as bases de dados populacionais, começaram a ser desenvolvidos. O surgimento de grandes projetos de bases de dados de genética populacional segue a tendência das pesquisas em genômica e genética (em especial, os estudos epidemiológicos e da farmacogenômica) e transforma a maneira de pensar os biobancos e as coleções biológicas, como assinala Knoppers:

... houve uma mudança crucial na filosofia subjacente à ciência. Muitos biobancos contemporâneos, particularmente os biobancos baseados em população, estão sendo

125 Disponível em: www.ebi.ac.uk/embl. Acesso em: 20 ago 2008.

126 SNP – Single Nucleotide Polimorphism, ou seja, uma variação em um único nucleotídeo de um gene.

127 Disponível em: http://snp.imsv-toyo.ac.jp. Acesso em:20 ago. 2008.

organizados com o propósito geral de [servirem como] infraestruturas de pesquisa, com menor ênfase sendo colocada em testar hipóteses de pesquisa específicas.

Preferencialmente, eles estão sendo desenhados, tanto quanto seja factível, para otimizar oportunidades científicas futuras e para permitir o compartilhamento de recursos entre toda a comunidade de pesquisa biomédica. Ao mesmo tempo, ao harmonizar ativamente o desenho e a conduçao dos estudos, é esperado que se facilite o compartilhamento de dados e amostras entre biobancos para promover análises conjuntas poderosas e rigorosas replicações de estudos.128

O primeiro grande projeto de bases de genética populacional foi da deCODE Genetics na Islândia: ele data de 1998 e pretende criar uma base de dados genéticos de toda população islandesa – aproximadamente 240.000 pessoas.

O Estado islandês concedeu à Cia. deCODE Genetics o direito de exploração dessa base de dados.129 Em verdade, o projeto tem por objetivo criar três bases de dados interligadas: uma, com informações médicas; outra, com informações genealógicas; e, por fim, uma com dados genéticos, vinculados a uma coleção de amostras de DNA.

128Tradução livre: “there has been a crucial change in the philosophy of the underlying science. Many contemporary biobanks, particularly population-based biobanks, are being set up as general purpose research infrastructures with little emphasis being placed on testing specific scientific hypotheses. Rather, they are being designed, as far as is practicable, to optimise future scientific opportunity and to enable sharing of the resource across the biomedical research community as a whole. At the same time, by actively harmonizing study design and conduct, it is hoped to facilitate the sharing of data and samples between biobanks so as to promote powerful pooled analyses and rigorous replication studies.” (BURTON PR, F. I, KNOPPERS, B. M. The Global Emergence of Epidemiological Biobanks: Opportunities and Challenges. In Khoury M et al, Human Genome Epidemiology: Building the evidence for using genetic information to improve health and prevent disease. Second Edition. (Submitted January, 2008 – now accepted but under revision).

129 Esse projeto ganhou destaque na mídia e na comunidade científica em razão das controvérsias que levantou. O ponto central das controvérsias em torno do banco de DNA da Islândia era o consentimento presumido, por lei, de toda população para o fornecimento dos dados controlados pelo Estado. A legislação sobre a criação da base de dados (Icelandic Act Health Sector Database – HSD Act) previu um prazo para a opção de retirada daqueles que não desejarem participar da base de dados. Segundo Bregman-Eschet, a autora ajuizou a ação para impedir a transferência dos dados de seu pai falecido para a base de dados. A Suprema Corte aceitou o argumento da autora no sentido de que seu direito à privacidade garantia seu interesse de recusar a inclusão das informações médicas de seu pai na base de dados (BREGMAN-ESCHET, Y. Genetic Databases and Biobanks: Who controls our genetic privacy? In: Santa Clara Computer and High technology Law Journal. no. 23, nov./2006, p.16-17). Para análise mais detalhada sobre o julgamento da Suprema Corte Islandesa conferir: GERTZ, R. An analysis of the Icelandic Supreme Court judgement on Health Sector Database Act. In: Script-ed. v. 1., issue 2, jun./2004.

http://www.law.ed.ac.uk/ahrc/script-ed/issue2/iceland.asp. Acesso em:12.03.2008. Em razão dessas reações negativas, a deCODE decidiu mudar o modelo de negócio para esse projeto. Atualmente, a deCODE está construindo seu próprio banco de DNA, mediante a coleta de amostras e dados genéticos e médicos junto a participantes, após obter seu consentimento informado. Os dados genealógicos são, segundo a própria companhia, obtidos em bases de dados públicas Disponível em:

http://www.decode.com/Population-Approach.php. Acesso em: 15 jul. 2008).

Os dados médicos e genealógicos seriam fornecidos pelo Estado para que a DeCODE construísse as bases de dados, e as explorasse, com exclusividade, por 12 anos. Os dados genéticos seriam coletados diretamente pela própria companhia.

O governo islandês pretendia, com isso, incrementar a economia e a indústria biotecnológica do país. A empresa deCODE Genetics celebrou contratos com a Hoffman Laroche com a Merck, para a exploração dessa base de dados.130

No Reino Unido, o projeto de constituição de um banco de dados genéticos em escala populacional orientou-se, também, no sentido de explorar suas potencialidades para o desenvolvimento tecnocientífico. Ao mesmo tempo, buscou-se superar os fatores que geraram polêmica internacional em torno do banco islandês: a concessão de licença exclusiva a uma companhia privada e a cessão de dados de saúde da população sem consentimento individual prévio.

O UK Biobank tem por objetivo prover uma fonte única de recursos para pesquisa sobre a interação entre fatores genéticos e ambientais de doenças, que possam basear o futuro desenvolvimento de terapias e medicamentos e orientar políticas públicas de saúde, tudo isso com vistas em “melhorar a saúde das gerações futuras”. No folheto de informações aos futuros participantes consta que:

O UK Biobank tem por objeto estudar como a saúde de 500.000 pessoais, atualmente com idades entre 40-69 anos, de todo o Reino Unido, é afetada por seu estilo de vida, meio ambiente e genes. O propósito desse enorme projeto é melhorar a prevenção, o diagnóstico, e o tratamento de um amplo leque de doenças (como câncer, doenças cardíacas, diabetes, demência, e problemas vinculados) e promover a saúde em toda a sociedade.131

E no documento UK Biobank: Protocol for a large-scale prospective epidemiological resource, esses objetivos são detalhados e a metodologia do biobanco

E no documento UK Biobank: Protocol for a large-scale prospective epidemiological resource, esses objetivos são detalhados e a metodologia do biobanco

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